26 de novembro de 2018

Capítulo 1

ACORDEI DE UM SONO TOMADO POR PESADELOS ao ouvir o som do meu nome.
Já estava sacando a arma quando reconheci o rosto de Sara, entrando e saindo de foco na minha visão turva pela exaustão.
Meu dedo relaxou no gatilho. Não era um inimigo, apenas a guardiã da Casa Oculta. Ela segurava uma pequena lamparina que iluminava somente seu rosto. Por um momento, sua cabeça parecia flutuar no escuro, como aquelas do sonho que aos poucos desvanecia.
Imin usando o rosto de Ahmed, indo por vontade própria para a plataforma do carrasco.
Minha prima Shira gritando em rebeldia enquanto era forçada a se ajoelhar diante do bloco do carrasco.
Ayet com olhos enlouquecidos, esperando a morte, sua alma drenada.
Ranaa, a criança demdji que carregava o sol nas mãos e morreu atingida por uma bala perdida em uma batalha onde não deveria estar.
Bahi, queimado na minha frente pelo meu irmão.
Minha mãe, enforcada na Vila da Poeira por atirar no marido, um homem que nem era meu pai.
Pessoas que eu tinha visto morrer. Pessoas que eu tinha deixado morrer. A acusação estampada no rosto delas.
Mas Sara era real. Ela ainda estava viva. E tinha outros também.
Quando o sultão armou uma emboscada no acampamento rebelde na cidade, muitos foram capturados. Mas houve apenas uma execução.
Imin. Nossa demdji metamorfa.
Imin morreu usando o rosto de Ahmed para enganar o sultão e toda a Izman, fazendo-os acreditar que o príncipe rebelde estava morto, enquanto Delila criava uma ilusão para esconder o irmão, que havia sido preso com o resto do grupo.
Então Ahmed estava vivo. Assim como Shazad, nossa general, ainda que não gostasse de ser chamada assim. Precisávamos de Shazad de volta, para que continuasse a liderar nossa luta contra o sultão. E precisávamos de Rahim, outro filho do sultão, que guardava rancor do nosso aclamado governante desde que ele causara a morte de sua mãe. Rahim era nossa chave para conseguir um exército inteiro nas montanhas, que jurava lealdade a ele.
E agora cabia a mim resgatá-los. Bem, a mim e aos outros que escaparam naquela noite: Jin, nosso príncipe relutante; Hala, a demdji de pele dourada e osso duro de roer; Izz e Maz, os gêmeos metamorfos; e Sam, nosso ladrão forasteiro mais ou menos confiável. Não exatamente um exército, mas o que havia sobrado.
Eu tinha caído no sono em uma cadeira num canto da Casa Oculta, nosso último refúgio em Izman, para onde os rebeldes remanescentes haviam fugido. Um brilho fraco vindo da janela perpassou o rosto de Sara, por tempo suficiente para que eu notasse sua preocupação. Seu cabelo estava despenteado em virtude da noite sem descanso, e um manto vermelho-escuro pendia frouxo sobre sua roupa de dormir, como se ela o tivesse amarrado com pressa.
Devia estar amanhecendo. Meu corpo ainda sentia o peso da exaustão, como se eu tivesse dormido apenas algumas horas. Eu poderia dormir um ano e ainda assim não me livraria desse cansaço. Sentia a exaustão da dor e do luto.
A lateral do meu corpo ainda latejava do esforço de usar meus poderes poucas horas atrás; por um segundo, fiquei tonta, e me esforcei para não me desequilibrar.
— O que está acontecendo? — Minha voz saiu rouca enquanto eu alongava o corpo, ainda dolorido por ter sido todo cortado pela minha tia no dia anterior. Um mal necessário, para tirar o ferro que o sultão tinha colocado sob a minha pele para impedir que eu usasse meu poder de demdji. — Já é de manhã?
— Não, mas levantei porque o bebê estava inquieto. — Meus olhos se ajustaram devagar, e percebi que ela estava segurando uma criança adormecida nos braços. O pequeno Fadi, demdji recém-nascido de Shira. Se houvesse alguma justiça no mundo, ele estaria com a mãe agora. Mas Shira tinha sido executada também. Lembrei do olhar acusatório dela em meu pesadelo. Seu filho cresceria sem uma família por minha causa. — Então notei que havia... — Sara hesitou. — Acho melhor você ver por si mesma.
Não podia ser boa coisa. Esfreguei os olhos cansados. O que mais poderia ter dado errado nas últimas horas? Na minha mente, vi a cabeça de Imin caindo na plataforma de novo e de novo. Tirei as mãos do rosto. Era melhor encarar a realidade do que pesadelos.
— Muito bem — eu disse, levantando devagar. — Mostre o caminho.
Embalando o pequeno demdji de cabelo azul em seus braços, Sara me levou pela escada escura em espiral até o telhado que dava o nome à Casa Oculta.
O jardim de cima era cercado de todos os lados por treliças grossas com flores que escondiam a casa dos olhos curiosos e mantinham Sara e todas as mulheres sob sua responsabilidade seguras.
Eu soube que havia algo errado antes mesmo de sairmos. Era tarde da noite, mas havia uma luz tênue vindo de fora, como o vermelho de um amanhecer furioso, que não fazia sentido naquele horário, nem mesmo no verão.
Sara chegou ao telhado na minha frente e saiu rapidamente do caminho, desobstruindo minha visão. Então compreendi do que falava.
Izman estava sob um domo de fogo.
Havia chamas ondulantes por todos os lados, como uma imensa abóbada sobre a cidade. Eu conseguia ver as estrelas do outro lado, mas estavam borradas e fora de foco, como se as olhasse através de um vidro opaco. A oeste, o fogo se curvava para baixo na direção dos muros da cidade; ao norte, mergulhava em direção ao mar. Uma memória me veio do nada: minha mãe na cozinha quando eu era pequena, colocando um copo sobre um besouro que corria pela mesa, para prendê-lo. Eu observava curiosa enquanto o inseto subia na lateral do copo, frenético e confuso. Sem saída. Olhando para o domo de fogo sobre nós, entendi muito bem como aquele pequeno inseto da Vila da Poeira se sentia.
— É magia — disse Sara, olhando severamente para as estrelas através do brilho das chamas.
— Não. — Algum tempo antes, eu teria acreditado naquilo também. Mas reconheci o fogo bruxuleante, brilhante demais, sobrenatural. Era o mesmo que eu tinha visto brotar nas catacumbas sob o palácio quando Fereshteh morrera na máquina do sultão. O mesmo fogo roubado que eu vira ser usado para acender os abdals, os soldados mecânicos do sultão, que ainda patrulhavam as nas lá embaixo, tentando manter o toque de recolher. — É um truque. — Alguma nova criação de Leyla, a filha inventora do sultão, projetada para nos manter presos ali. Só que, ainda que fosse uma novidade, havia algo estranhamente familiar naquilo.
E eis que um grande muro de chamas envolveu a montanha, aprisionando-a por toda a eternidade.
As palavras dos Livros Sagrados logo surgiram na minha mente. A Vila da Poeira havia me enfiado escrituras goela abaixo pelos primeiros dezesseis anos da minha vida. Eu conhecia a história da Muralha de Ashra, a grande barreira de fogo que havia aprisionado a Destruidora de Mundos no fim da Primeira Guerra, tão bem quanto qualquer um.
Assassinato de seres imortais. Inspiração em histórias dos Livros Sagrados. O sultão realmente estava brincando de deus.
Só que a função daquela barreira não era nos proteger de um grande mal. E estava longe de ser um trabalho sagrado. Dessa vez, o grande mal nos aprisionava.


Acordei apenas Jin. Demorei mais do que gostaria para encontrá-lo em um dos muitos aposentos da casa. Ele havia adormecido na cama desarrumada totalmente vestido, com o braço cobrindo o rosto, para se proteger da luz. Nem precisei sacudi-lo. No instante em que toquei seu ombro, seus olhos se abriram e sua mão apertou dolorosamente meu punho antes de me reconhecer.
Jin xingou em xichan e soltou a mão rapidamente, já sentando. Ele lutou para ficar alerta em meio à exaustão.
— Você me assustou, Bandida.
— Não finja que essa é a primeira vez que uma garota te acorda de madrugada.
A leveza das minhas palavras logo evaporou enquanto eu tirava uma longa mecha de cabelo escuro do seu rosto para vê-lo melhor. Ele precisava cortar. Mas fazia muito tempo que não podíamos nos dar ao luxo de perder tempo com banalidades. Desde que tivemos que evacuar o acampamento no deserto.
Jin segurou minha mão novamente, dessa vez com mais gentileza, e por um momento vi um fantasma daquele velho sorriso, tivéssemos problemas mais simples que de fato enfrentávamos. Mas antes que pudesse dar voz ao pensamento que acompanhava esse sorriso, minhas palavras fizeram sentido em sua mente cansada.
— Como assim? Ainda é madrugada? — ele perguntou, olhando para a luz que entrava pela janela.
Nossa breve fuga da realidade acabou.
Mostrei a ele o que Sara havia me mostrado, e esperamos ansiosamente pelo verdadeiro amanhecer. A casa acordou pouco a pouco, e assisti a mesma angústia recair sobre os ombros de todos ao ver o domo. Cada um deles olhava para mim querendo respostas que eu não tinha. Como foi feito? Podemos passar por ele? O objetivo é nos manter presos?
Finalmente, a primeira centelha do sol da manhã atravessou o véu de fogo, sinalizando o fim do toque de recolher. Jin e eu podíamos entrar em ação.
As ruas já estavam cheias de gente de olho no céu de fogo acima de nós. As perguntas que os rebeldes me fizeram eram repetidas por todos. Jin e eu desviamos das pessoas o mais rápido possível sem atrair suspeitas. Estávamos atentos à bússola na mão dele. Aquela emparelhada com a de Ahmed.
— Ele ainda está com ela — eu disse em voz alta para ter certeza, enquanto corríamos pelas ruas apertadas da cidade. Eu ficava cada vez mais ofegante conforme nos aproximávamos do palácio, onde os prisioneiros haviam sido detidos na noite anterior, antes da execução de Imin. Podiam ainda estar lá, ou em algum outro lugar da cidade. Mas, conforme nos aproximávamos das ruas mais amplas e refinadas que cercavam o palácio, a agulha da bússola não apontava naquela direção. Continuava apontando para o sul.
Passamos pelo palácio, meu peito mais apertado a cada passo que dávamos nos afastando dali. Achávamos que os rebeldes capturados ainda estariam detidos entre os muros do palácio. A gente contava com isso. Agora só restava me apegar a uma última esperança de que ao menos eles ainda estivessem na cidade. De que a bússola de Jin localizaria seu par antes de chegarmos à muralha.
Mas isso não aconteceu. O céu além da parede de fogo tinha passado de rosa a dourado quando chegamos ao portão sul da cidade, chamado de Zaman, em homenagem ao primeiro sultão de Miraji. Logo depois do portão, a muralha de fogo subia. Parecia muito mais imponente de perto, crepitando e estalando furiosamente. Soltando faíscas aqui e ali, como se tivesse fome de destruição. Como se fosse consumir tudo que ousasse tentar atravessá-la.
E a bússola na mão de Jin apontava diretamente para ela.
Eles estavam fora da cidade. O sultão tinha deslocado os prisioneiros e murado seu entorno. Estávamos presos ali, separados de nossos companheiros. Eles haviam sido levados para algum lugar onde ficariam presos pelo resto da vida, sem direito a julgamento. Era o que nosso sultão considerava misericórdia.
Dali, podíamos sentir o calor emanando do muro. Jin pegou uma pedra da rua e a jogou para cima algumas vezes. Aquilo o fez parecer jovem, um garoto prestes a fazer uma travessura. Então ele lançou a pedra na muralha de fogo. Ela não ricocheteou como faria se fosse uma parede comum, nem atravessou como faria se fosse fogo normal. Foi incinerada, transformada em cinzas no intervalo de uma batida de coração.
Queimaríamos ainda mais rápido se tentássemos cruzá-la.
Meu primeiro pensamento foi de que o sultão estava tentando nos impedir de chegar até os prisioneiros. Tentando me impedir de sair, para que pudesse me arrastar de volta para o palácio. Mas essa hipótese vinha acompanhada de dúvidas, que Jin compartilhava.
— Não faz sentido. — Ele passou a mão pelo cabelo, tirando o sheema do lugar. Olhei em volta rápido, para verificar se havia alguém que pudesse nos identificar. — Não se ele pensa que Ahmed está morto. Tudo isso... não pode ser por nossa causa.
Era verdade. Na cabeça do sultão, a rebelião tinha sido derrotada. Um ato de guerra tão grandioso contra nós seria um desperdício.
— Para quem é, então?
A resposta veio antes de o sol se pôr.
Aguardávamos ansiosamente notícias do palácio. Queríamos saber o que o sultão diria ao povo sobre o fogo ao nosso redor. Izz e Maz circulavam sobre o palácio na forma de cotovias, revezando-se para retornar à casa. Mas não havia nada para relatar. Pelo menos até um pouco antes de o sol se pôr.
Izz e Maz voltaram juntos, dois pássaros cor de areia se entrecruzando freneticamente no céu antes de pousarem no telhado e voltarem à aparência humana.
— Invasores — Izz falou primeiro, tentando recuperar o fôlego. — Vindos do oeste.
— Bandeiras azuis e douradas — Maz acrescentou com a respiração pesada, o peito subindo e descendo.
Meu coração vacilou. Gallans. Eles estavam marchando para a cidade. Os invasores que todos do deserto conheciam muito bem. Vindo tomar nosso país de uma vez por todas. Aquele era o motivo do muro. Não queriam nos manter do lado de dentro. Queriam mantê-los do lado de fora. A cidade estava protegida. Mas nós estávamos presos.

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