26 de novembro de 2018

Capítulo 39

NÃO ERA O EXÉRCITO ALBISH INTEIRO – apenas uma dúzia deles, em vez de centenas. Mas uma dúzia de homens com poderes era melhor do que nada.
— Capitão Westcroft. — Nós o encontramos na fronteira do acampamento. Ele liderava o que restava dos homens que tínhamos visto em Iliaz. Os jovens soldados atrás dele pareciam abatidos. — Pensamos que tinham sido aniquilados.
— Muitos de nós foram. — O capitão assentiu, soturno. — Mas achei prudente manter alguns dos nossos soldados separados dos gallans. — Os demdji. Eles tinham forjado uma aliança com os gallans, mas centenas de anos de preconceito não desapareceriam só porque dois regentes tinham assinado um papel. Os gallans consideravam que toda magia era trabalho da Destruidora de Mundos. Os albish tinham uma fé diferente. — Tivemos mais sorte do que a maioria dos meus homens. — O capitão parecia triste, puxando as pontas do bigode. — E me parece que você está precisando da cavalaria, por assim dizer.
Ahmed estudou o capitão. Eu sabia em que estava pensando. Uma aliança com estrangeiros tinha aberto a porta para seu pai. Fora o início do processo de entrega do país aos gallans e sua força superior. Não podíamos cometer aquele erro de novo.
— Aceitaremos de bom grado — Ahmed disse, finalmente —, desde que sigam ordens da minha general. — Ele indicou Shazad com a cabeça. Ahmed não repetiria os erros de seu pai. Se conseguisse fazê-los jurar lealdade a nossa líder, então talvez pudesse funcionar.
Eu já podia vê-la ficando tensa, pronta para as sobrancelhas levantadas pelo fato de ser mulher. Mas o capitão Westcroft só assentiu.
— Se podemos seguir as ordens de nossa rainha, então tenho certeza de que não haverá problemas. Afinal, ela de fato é uma oficial superior a mim, se é sua general.
O cérebro de Shazad trabalhou rápido, desenrolando tudo para tecer um plano.
— Muito bem, eis o que vamos fazer.
Sam e eu nos preparamos bem rápido. Não precisávamos de muita coisa. Algumas armas. Izz na forma de um enorme roc. Os albish criando alguma cobertura para mim. Chegar até a máquina.
De repente, estávamos de pé em círculo, todos conscientes de que aquela talvez fosse a última vez que nos víamos.
— Chegou a hora. — Verifiquei minha arma pela centésima vez.
— Parece que alguém deveria fazer um discurso ou algo assim — Izz disse, vestindo apenas um lençol, pronto para mudar de forma.
— Algo apropriado e heroico — Maz concordou.
Ao nosso redor, reinava o ruído do acampamento se preparando para a batalha, homens e mulheres se armando, correndo para suas posições para enfrentar os homens e máquinas do sultão. Ordens foram gritadas pelas fileiras, ao ritmo de armas sendo encaixadas nos uniformes. Preces eram feitas.
Nosso grupo lutaria na defensiva até que Sam e eu pudéssemos derrubar a muralha. E os albish forneceriam uma tempestade de areia. Talvez não fossem capazes de controlar o deserto, mas seriam capazes de controlar os ventos o bastante para parecer que eu ainda estava com o exército de Ahmed enquanto se aproximava da cidade.
— É melhor guardar os discursos para os mortos — Shazad disse. Ela estava estranhamente quieta. — Era o que meu pai costumava dizer, pelo menos.
Abracei Ahmed e então Rahim. Ambos sussurraram uma prece de boa sorte no meu ouvido
Virei para Jin. Não havia nada que um de nós poderia dizer que já não tivéssemos dito na noite anterior. Ele só passou um polegar pelo meu rosto.
— Vejo você mais tarde, Bandida — ele disse, antes de me beijar.
Shazad me abraçou por último.
— Tragam um ao outro de volta em segurança — ela disse, finalmente, antes de me soltar e olhar para Sam.
Ele ergueu o canto da boca, e reconheci o prelúdio de uma piada – provavelmente uma demonstração de humor negro antes de partirmos todos para fazer o possível para sobreviver até a próxima alvorada. Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, Shazad agarrou sua camisa e o puxou com força para junto de si, beijando-o.
De repente estavam todos olhando para os próprios pés. Ou para o céu. Ou para praticamente qualquer coisa que não fossem aqueles dois.
Era um bom jeito de calar a boca dele.
Finalmente, os dois se separaram.
— Bem — Sam disse, parecendo ruborizado e insuportavelmente satisfeito consigo mesmo enquanto passava as mãos no cabelo. — Agora tenho uma motivação e tanto para voltar vivo.
Subimos nas costas de Izz e, com alguns movimentos rápidos, estávamos lá no alto, sobrevoando o exército que se aproximava, em direção à cidade. Izz voou por cima do domo de fogo, abrindo suas grandes asas azuis enquanto sobrevoava os telhados, deixando a batalha para trás.
Aterrissamos perto do portão de Oman, a entrada mais ao leste da cidade. Quando saíramos da cidade pelos túneis, havia um exército gallan no nosso caminho. Agora, só areia queimada.
Fiquei de pé na frente dos portões, um pouco para trás, tomando cuidado para não encostar no fogo. Ainda teria algum poder em mim? Se não tivesse, teríamos que cavar para entrar. Reuni meu poder, juntando-o entre as mãos antes de abri-las em um gesto violento, que me deixou de joelhos em agonia. A areia se abriu, esparramando-se para longe do enorme portão. E ali estava, logo embaixo, um dos túneis fechados com tijolos.
Sam foi até ele, e areia caiu em cascata quando soltei meu poder, respirando com dificuldade. Cuidadosamente, ele empurrou o pé contra a rocha dura. Como alguém enfiando um dedão na água antes de mergulhar. Virou para onde eu estava, ainda pisando no deserto, e me ofereceu a mão.
— Vamos? — ele perguntou, como se estivéssemos indo para uma festa, e não uma armadilha mortal. Aceitei sua mão, dando um passo até pisar no túnel também.
Sam me puxou para perto, como se fôssemos dançar. De repente, a rocha sólida embaixo dos nossos pés começou a ceder. Senti as solas das botas deslizarem para dentro, a princípio devagar. Então começamos a afundar. Rápido. Eu só tive tempo de prender a respiração e fechar os olhos antes de mergulharmos pelo teto do túnel, como um par de pedras caindo na água.
Atingimos o chão com força, em um amontoado. Ele grunhiu embaixo de mim quando meu cotovelo acertou sua barriga. Eu me desenrosquei, rolando para longe dele. Estava escuro e frio ali embaixo. A única luz estava acima de nós, um fio de metal longo e fino incandescente com fogo djinni, alimentando a muralha a partir do palácio. Mas não era muito para enxergar.
Não sei por quanto tempo caminhamos. Nos movemos o mais rápido possível pelo túnel, cientes de que todo segundo que gastássemos ali era mais um segundo com nossos aliados na defensiva no campo de batalha.
Sam era mais rápido do que eu. Ele corria à frente, seu cabelo loiro reluzindo ligeiramente na luz, quando cambaleou e desabou na escuridão. Eu o alcancei alguns passos depois, quando já se levantava de novo.
— Você está bem?
— Tropecei — Sam disse. Ele tateou por um instante no escuro até sua mão segurar algo e levar até a luz. Era um rosto de bronze reluzente. Recuei instintivamente. Um abdal. Ou parte dele. Os olhos estavam vazios e apagados. Era só um pedaço de máquina, lembrei. Não era nada sem a faísca de fogo o iluminando, sem a palavra no idioma primordial marcada nele, dando-lhe vida.
— Estamos sob o palácio — eu disse em voz alta. — Estamos chegando perto. — Estendi a mão, procurando pela parede de pedra. Encontrei metal duro em vez disso.
— As paredes estão cobertas de ferro. — Quando disse aquilo em voz alta, minha voz ecoou contra o metal de forma perturbadora. — Parece que o sultão trabalhou bastante desde nossa última visita.
Na luz fraca, vi Sam estender a mão e encostá-la no teto de pedra. Ele conseguia alcançá-lo, mas por pouco.
— Então estamos presos — disse, um pouco alegre demais. — Excelente.
— Eu não diria presos. — Assenti em direção ao caminho que o fio marcava. — Só temos um caminho possível.
Nos movemos com cuidado depois disso, sempre avançando na luz fraca. Quanto mais andávamos, mais peças descartadas de abdals encontrávamos. Mãos e torsos de bronze e barro. Testes iniciais. Experimentos que não tinham funcionado muito bem até Leyla acertar o método. Vi uma perna articulada que me lembrou a feita para Tamid. E havia aqueles que pareciam quase inteiros, homens de metal desabados no chão como bonecos descartados ou soldados cansados. A luz refletia estranhamente em um deles.
— Sam. — Peguei no seu braço, fazendo-o pular. — Acho que aquele acabou de se mexer.
Ele olhou para onde eu estava apontando.
— Um truque da luz — Sam disse. Mas segurou minha mão mesmo assim, me conduzindo adiante um pouco mais rápido. Ouvi um zunido leve quando passamos por outro.
— Isso não foi um truque da luz — eu disse. Então o abdal sentou.
Cambaleamos enquanto aquela coisa começava a levantar, como uma marionete quebrada conduzida por fios. Corremos, acelerando túnel adentro. Conforme passamos por outro corpo de metal, ele se moveu também, parecendo despertar. Parei para sacar minha faca quando passamos por mais um. Em um movimento violento, arranquei a cobertura de bronze de seu calcanhar e enterrei a faca na palavra que dava vida a ele. Tentei puxar a faca de volta, mas ela ficou presa na confusão de engrenagens e fios que preenchia as entranhas do abdal.
— Amani — Sam chamou. Enquanto levantava a cabeça, percebi que tinha outro abdal vindo diretamente em nossa direção, bloqueando o caminho à frente. Sam tinha sacado sua arma. Deu três tiros, mas a coisa nem hesitou. Só levantou as mãos, em uma imitação mecânica de Noorsham abençoando seus seguidores em Sazi. Eu podia sentir o calor surgindo em seu entorno enquanto se preparava para nos queimar.
Viramos para correr na outra direção. Para bater em retirada. A luz do fio refletia no bronze atrás de nós. Dois outros abdals se aproximavam, erguendo lentamente as mãos. O calor à nossa volta estava piorando. Estávamos em apuros.
Dessa vez, Sam não tinha nada inteligente a dizer. Só senti sua mão buscando algum conforto, seus dedos apertando os meus. Alguma coisa dura pressionou minhas articulações. O anel que Zaahir tinha me dado.
O anel que supostamente deveria me salvar quando eu soltasse Fereshteh e desligasse a máquina.
Pensei em Zaahir em Eremot, e no modo como tinha simplesmente extinguido a chama dos abdals com um toque. Seu último presente não tinha sido feito para ser usado ali. Mas os abdals estavam chegando mais perto. Aproximando-se lentamente, o calor se acumulando até beirar o insuportável.
Soltei a mão da pegada forte de Sam, arremessando-a contra a parede.
O vidro estilhaçou.
Senti uma onda de choque, um vazio, um vácuo. Como um vento que varreu o fogo dos abdals e então os apagou, sugando todo o ar. Sufocando-os.
De uma só vez, todos caíram como bonecos de pano, desabando no chão.
Sam me encarou.
— O que acabou de acontecer?
Não importa, tentei dizer. Só que não era verdade. Importava, sim. Olhei para baixo de relance, para o anel quebrado na minha mão. Qualquer que fosse a magia contida nele, tinha se esvaído agora, e eu não tinha nada para enfrentar o poder de Fereshteh. Não tinha nada para libertá-lo além das palavras que usara com Zaahir.
Mas antes que pudesse responder, ouvi o som de passos distantes. De passos metálicos arranhando a pedra. Havia mais deles. E estavam chegando. Ainda restava trabalho a fazer.
— Temos que ir — eu disse.
E então corremos novamente, acelerando pelo corredor de metal e pedra. Não fomos longe antes de deparar com outra parede. O fim do túnel. O fio reluzente passava por um buraco pequeno, desaparecendo do outro lado. Na máquina. Nossas mãos bateram em metal frio.
Tive certeza de ouvir um barulho atrás de nós. O zunido de engrenagens, algo que parecia terrivelmente com o bater de pés metálicos. Esmurrei o metal com raiva.
— O que podemos fazer? — virei, olhando desesperada para Sam. Ele não estava olhando para mim. Sua mão estava encostada no teto. E então a atravessava, a ponta dos seus dedos desaparecendo pela pedra acima de nós. — Não consigo alcançar — ele disse —, mas acho que posso empurrar você.
Pisquei, sem entender por um momento. Ele podia me levantar para que atravessasse a pedra. Mas não conseguiria me seguir.
— Não… — comecei a argumentar, mas Sam já estava um passo à minha frente.
— Você precisa ir — ele disse, com urgência. Então segurou meus braços em um gesto que parecia tirado de um livro de histórias. — Não há tempo para discussão. Um de nós precisa escapar daqui vivo — ele declarou, dramático. Sam soava ridículo, mesmo quando estava prestes a sacrificar a vida.
— Shazad — eu me ouvi dizer. Ela tinha pedido para que voltássemos juntos. Não para que ele me salvasse. Para salvarmos um ao outro.
O canto da boca de Sam se curvou um pouco.
— Eu não disse a você? — Ele forçou um sorriso largo. — As melhores histórias de amor terminam assim.
Eu podia sentir os últimos momentos escorrendo pelos meus dedos antes da morte nos alcançar. Não conseguia simplesmente deixá-lo para trás. Tampouco encontrava as palavras certas.
— Sam. — Joguei meus braços em torno dele. Como tínhamos ficado quando ele me puxou pela parede até o Criador de Pecados. Como se fôssemos atravessar juntos novamente. Só que dessa vez ele não iria comigo. — Lamento tanto.
Foi a única coisa que consegui pensar em dizer quando o abracei.
Lamento por ter envolvido você nisso. Lamento por tê-lo trazido aqui. Lamento que esteja aqui comigo. Lamento que acabe aqui.
Ele me apertou e senti sua solidez, que viraria pó em alguns instantes.
— Eu não — ele disse quando se afastou.
E então estava de joelhos na minha frente, com as mãos entrelaçadas, as costas apoiadas na parede para se equilibrar. Eu podia ouvir o som dos abdals se aproximando. Se o deixasse…
Mas se não deixasse, todos morreriam. Todos naquele campo de batalha. Jin, Ahmed, Rahim e Delila. Sam estava se sacrificando por nós.
Eu me apoiei nos seus ombros, colocando minha bota nas suas mãos entrelaçadas. Sam me levantou. Só tive tempo de prender a respiração antes que minha cabeça encontrasse a pedra. Ela cedeu quando Sam me empurrou, e de repente eu estava no meio do caminho, ombros e braços acima do teto de pedra. Apoiei os braços, puxando, arrancando o resto do meu corpo enquanto ele ainda me segurava. E então eu estava do outro lado, as pernas saindo das pedras no chão do palácio. Só tive tempo de ver as pontas dos dedos de Sam desaparecerem.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!