13 de outubro de 2018

O djinni e a fugitiva

HAVIA MANEIRAS MAIS ESPERTAS DE APROVEITAR UMA CHANCE DE FUGIR. Zahia Al-Fadi sabia disso. Mas também achava que existiam jeitos mais estúpidos. Ela conseguira suprimentos e água, e se mantinha escondida na base das montanhas. Se tentasse fugir correndo direto para Juniper, teria que atravessar o deserto a céu aberto. Seria um alvo fácil. As rochas ao menos ofereciam alguma cobertura.
Zahia dobrou as mangas da camisa, agarrou a pedra acima dela e subiu com um grunhido. Ela estava toda machucada de tanto escalar e deslizar pelo terreno pedregoso. Ao se içar sobre a rocha empoeirada, a garota notou que sua mão esquerda deixara um borrão de sangue para trás.
Depois de puxar o resto do corpo para cima, ela olhou a mão. Como imaginava, havia esfolado as juntas dos dedos. Ela sentou um pouco, arfando e decidindo o que faria com a mão ensanguentada. Estava sem curativo, não achava que iria se machucar. Tudo o que restava a Zahia era seguir em frente.
Ela balançou as pernas na beira da pedra, pronta para deslizar pela área rochosa.
Foi quando notou um jovem olhando para ela, abaixo dos seus pés pendurados.
— Oi — ele disse, calmo. — Que dia abafado, né?
Zahia puxou o pé de volta e quase caiu da pedra que demandara tanto esforço para subir, se reequilibrando bem a tempo.
Ela esticou o pescoço para dar uma boa olhada naquele estranho, preparada para correr a qualquer momento. Ele soava jovem, talvez um ou dois anos mais velho do que Zahia, que tinha dezenove. Estava deitado com as mãos atrás da cabeça, como se quisesse relaxar sob o sol impiedoso do deserto. Vestia roupas simples de viagem, e não dava para ver muito do seu rosto, coberto por um sheema.
Dava para perceber logo de cara que ele não era das redondezas. E definitivamente não era da Vila da Poeira. Isso o tornava mais ou menos perigoso, dependendo de como ela encarasse a situação. Zahia mudou o peso de um pé para o outro. Podia sentir o calor do solo mesmo através das botas.
— Está sempre abafado — Zahia respondeu com um toque de sarcasmo. Estava um calor escaldante. Mas ele não parecia suar como ela, apesar de estar debaixo do sol, sentado no que parecia uma pedra prestes a entrar em combustão. — Se quer descansar, é melhor procurar uma sombra. Acho que já ajudaria.
— Pois é — o jovem se moveu um pouco. Até aquele momento, sua perna direita estivera dobrada, mas ele a esticou para que Zahia pudesse vê-la com clareza. — Mas estou com um probleminha.
Zahia fez uma careta de aflição. Havia uma armadilha de metal presa na perna dele. O ferro penetrava o tornozelo, acorrentado a um gancho fincado na montanha. Era uma das velhas armadilhas para capturar buraqis que ainda estavam espalhadas pelos arredores da Vila da Poeira.
— Como foi que isso aconteceu? — Zahia perguntou.
— Eu estava com a cabeça cheia. Não prestei atenção enquanto andava. — Havia um tom pesaroso em sua voz agora. — Sou o único culpado. Eu e seja lá quem armou isso aqui. Mas não ando com estômago para vingança nos últimos tempos.
— Claro — disse Zahia. Ele tinha um sotaque estranho. Ainda era pertencente ao deserto, mas não do sul, e não soava exatamente do norte. Nem do leste, na verdade. E havia uma pitada estranha em suas palavras. — Por que você não estava andando pela estrada? Lá é mais difícil cair em uma armadilha.
— Poderia perguntar o mesmo a você — ele sentou em um movimento suave e apoiou os braços casualmente sobre os joelhos. — Mas acho que devíamos deixar as perguntas para depois que você me tirar daqui.
Zahia soltou um assobio baixo de zombaria, que Safiyah, sua irmã mais velha, lhe ensinara.
— Olha, é bem ousado da sua parte achar que vou te soltar.
Sob o sheema, ela viu o jovem erguer a sobrancelha de forma inquisitiva.
— Você deixaria um homem nas montanhas para morrer?
A insinuação deixou Zahia irritada.
— Em primeiro lugar, não acho que você vai morrer aqui.
— E em segundo? — o estranho perguntou quando Zahia lhe lançou um olhar penetrante.
— Eu ia chegar lá se você não me interrompesse. Em segundo lugar, se eu te libertar, o que me garante que você não vai me roubar e me deixar para morrer? Você é um estranho vagando fora da trilha que não quer contar o que veio fazer aqui. — Ela cruzou os braços, se divertindo com sua pequena dose de poder. — Não é digno de muita confiança. Na verdade, é digno de muita desconfiança.
O homem a olhou com uma expressão levemente divertida, como se estivesse gostando daquela conversa, mesmo com uma armadilha perfurando seu tornozelo.
— Acabou a lista? Sinto dizer, mas ela é meio curta.
— Em terceiro lugar — Zahia disse, tendo uma ideia — tenho uma oferta pra você.
— Uma oferta além de me libertar?
— Um acordo. Eu te dou comida e água suficientes pra você sobreviver até alguém aparecer e te soltar. Então, se você for um bandido perigoso, pode roubar outra pessoa.
O estranho pareceu considerar a proposta.
— Por “outra pessoa” você se refere àqueles que vão passar por esse caminho atrás de você? — ele perguntou por fim. Aquilo pegou Zahia desprevenida.
— Como sabe que tem gente atrás de mim?
— Você é uma estranha vagando fora da trilha que não quer contar o que veio fazer aqui. — Ele repetiu as palavras de Zahia secamente. — Nada muito complicado de deduzir. Na verdade, bem descomplicado. — Ela o encarou, afastando seu cabelo escuro da testa molhada. Ele continuou: — Mas o ponto é que eu acho que não vou precisar de comida ou de água para sobreviver até os homens que estão te perseguindo me encontrarem. Já que eles vão chegar aqui em poucos minutos.
Zahia abriu a boca para perguntar como ele sabia daquilo, mas o jovem pressionou o dedo sobre os lábios, pedindo silêncio. Ela ficou calada. E logo escutou os sons. Vozes e passos ecoando pelas rochas em sua direção. Eles deviam estar a alguns minutos de distância.
— Você não vai conseguir escapar — ele disse com franqueza, enquanto Zahia olhava em volta, em pânico. — Ainda mais se deixar para trás alguém que pode contar para onde você foi.
Ela soltou um monte de xingamentos em voz baixa. Ele estava certo: Zahia podia fugir, mas não conseguiria se esconder. E, naquele terreno pedregoso, não conseguiria nem fugir muito rápido.
— É o seguinte, garota fugitiva — disse o jovem. — Vamos fazer um acordo. Se você me livrar disso... — Ele apontou para a armadilha ainda fincada no pé. — Te mostro um lugar aqui perto onde você pode se esconder até eles seguirem em frente. Se não topar, talvez eu precise gritar para pedir ajuda. Só pra ter certeza de que vão me encontrar, sabe como é.
Zahia havia crescido na Vila da Poeira, então sabia reconhecer uma ameaça. E não gostava de ser ameaçada. Em parte era por isso que tinha fugido, aliás. Mas apesar de sentir vontade de largar o estranho no deserto ao ouvir aquilo, ela também não queria ser pega.
As vozes estavam cada vez mais próximas. Zahia podia distinguir a de seu pai entre elas. Se fosse pega, não havia dúvida de que seria espancada e arrastada de volta à Vila da Poeira. E o que esperava por ela lá seria ainda pior.
Ela se voltou para o estranho e, antes de pensar melhor sobre o quão idiota era aquilo, saltou para perto da perna dele, quase perdendo o equilíbrio. Ele segurou seu braço para ajudá-la a se estabilizar. Ele era forte. Ela o encarou, assustada. E encontrou seus olhos pela primeira vez.
Ele tinha o olhar mais incrível que Zahia já tinha visto. Não era escuro como esperava. Era azul brilhante. Azul como um céu claro do deserto. Como a essência de uma fogueira. Azul e perturbadoramente sobrenatural.
Zahia desviou o olhar rapidamente, voltando a atenção à armadilha. Era um mecanismo pequeno e complexo, projetado para manter um buraqi preso por tempo suficiente para ser domado e receber ferraduras de ferro. Mas Zahia era filha do deserto e sabia o que precisava fazer. Ela mexeu em algumas peças, e a armadilha se abriu tão rápido quanto havia se fechado.
O estranho soltou um suspiro de alívio. Pela primeira vez, Zahia se deu conta de quanta dor ele devia estar sentindo, com o pé preso naquilo. Uma vez, Rabi AI-0mm tinha ficado com a mão presa em uma armadilha igual, e gritara tão alto que desmaiou de dor. Foi preciso amputar a mão dele. Mas esse rapaz havia ficado sentado ali, paciente, conversando com ela sem levantar a voz. Nem parecia sentir dor.
Seus pensamentos foram interrompidos por um grito próximo dali. Os homens deviam ter encontrado o lugar onde ela havia se cortado e deixado marcas de sangue.
— Você estava falando a verdade? — ela perguntou, encarando o estranho, se esforçando para esconder o desespero em sua voz. — Quando disse que havia um esconderijo?
— Sim — disse o homem. — Não mentiria pra você.
Ela apoiou o ombro embaixo do braço dele para ajudá-lo a levantar. Ele era mais leve do que Zahia havia suposto, e ela podia sentir a firmeza de seus músculos contra seu corpo.
— Por ali. — Ele apontou para um ponto um pouco mais acima. Eles começaram a andar o mais depressa que podiam. Mesmo com o estranho mancando, quem chegou ao topo ofegante foi Zahia.
— Falta muito? — ela perguntou, sem ar.
— É por aqui — ele disse calmo, enquanto eles contornavam o penhasco. — Ali.
Zahia não viu nada. Seu coração disparou, sentindo um pânico repentino. De ter sido convencida a seguir esse homem para um lugar onde não poderia ser encontrada. Ela tinha certeza de que ele conseguiria dominá-la, independente de quão machucado estivesse. Mas de repente ele se afastou de Zahia e, antes que ela entendesse o que acontecia, tinha desaparecido.
Ela correu atrás dele. Após alguns passos, percebeu que o estranho não havia realmente desaparecido. Era uma caverna, cuja entrada era coberta por um afloramento rochoso parecido com uma parede sólida, a menos que fosse vista do ângulo certo. Quebrava um galho como esconderijo.
Zahia seguiu o estranho caverna adentro. Ela sentiu o alívio assim que saiu do alcance do sol. A caverna era agradável, seca e fresca, intocada pelo calor insuportável do lado de fora. Mas, mesmo assim, ela hesitou na entrada. Zahia não confiava no escuro. Pesadelos, andarilhos e outros carniçais podiam ser raros agora, mas não estavam extintos — e gostavam do escuro. Podia haver qualquer coisa escondida ali.
— Acho melhor acender alguma luz — o estranho disse, como se lesse seus pensamentos. Ele ajoelhou perto de uma pilha de gravetos que Zahia não havia notado. Uma faísca disparou de suas mãos e, em um instante, luz bruxuleava pelas paredes da caverna.
Ela procurou a pederneira ou fósforo que ele devia ter usado para acender o fogo, mas não viu nada, nem quando o estranho se recostou na parede.
Agora que estavam escondidos, ele desenrolou o sheema, e iluminado pelo fogo, Zahia o viu de verdade pela primeira vez. Ele era incrivelmente lindo. Como havia suposto, não parecia muito mais velho do que ela, e seu rosto trazia traços esculpidos como os de um herói. Seu cabelo escuro estava um pouco bagunçado, de modo que parecia estar no meio do caminho entre garoto e homem. Suas feições, porém, eram sérias, sem qualquer resquício infantil.
Zahia sentou, deslizando devagar as costas pela parede até o chão, mantendo uma distância segura dele. O estranho agachou do outro lado da fogueira, sem chegar perto dela.
Agora, com a luz do fogo, ela podia ver que a caverna não era muito profunda. Era como se aquele pequeno esconderijo tivesse sido feito só para eles. Eles ficaram quietos, ouvindo só os estalos da fogueira.
Zahia ficava cada vez mais incomodada à medida que observava o fogo. Ele não ficava maior nem menor. As chamas não se movimentavam como numa fogueira normal. E mesmo prestando atenção, os gravetos não pareciam escurecer enquanto o fogo os consumia.
Então Zahia voltou a ouvir as vozes. Os homens estavam subindo a montanha. Ela sentiu seu coração acelerar. Tinha sido imprudente escalar até ali. Será que haviam deixado pegadas ou marcas de sangue? Ou ela havia deixado algo cair?
— Você está com medo — o estranho cochichou, para que apenas ela ouvisse.
— De que eles me encontrem? Sim — disse ela.
— Do que está correndo, garota fugitiva?
— Zahia — ela disse sem pensar. — Não, não é dela que estou fugindo. Esse é meu nome. Zahia.
Ele a analisou por um momento.
— O meu é Bahadur — ele disse antes de repetir a pergunta: — Do que está fugindo, Zahia?
— Do meu marido — respondeu Zahia. — Bom, quase marido. Meus pais querem que eu case com ele. E eu não quero. Ele é grosseiro, violento e me assusta. — Ela não entendia por que estava admitindo isso para ele. Para um estranho. Zahia não gostava de revelar seus medos. De onde ela vinha, era sinal de fraqueza. Safiyah era a única pessoa que sabia daquilo. — Ele já teve uma esposa antes de mim — ela emendou, tentando não parecer só uma garota tola assustada com o casamento. — Ela morreu. Todo mundo fingiu que ela caiu da escada de casa no meio da noite, mas ninguém fica tão machucada só de tropeçar de três degraus. — Seus olhos a fitavam sérios. — Não quero morrer tropeçando numa escada.
— Você não vai — disse Bahadur, tão baixo que Zahia quase não o escutou. Aqueles olhos azuis pareciam estranhamente concentrados nela, e Zahia virou o rosto para escapar daquele olhar.
— Não — ela concordou. — Não vou. Vou fugir. Vou encontrar minha irmã. Não Farrah, que mora na Vila da Poeira e já tem dois filhos. — Ela não sabia por que estava desabafando. — Ela não vai sair de lá tão cedo, nem me ajudou quando pedi. Mas minha irmã Safiyah, que queria ir embora daqui, e conseguiu. — Foi um choque para a cidade inteira quando Safiyah partiu. Ninguém abandonava a Vila da Poeira. Especialmente garotas sozinhas. Mas Safiyah não era uma ninguém. E Zahia também desejava ser alguém. — Eu devia esperar até ela ter dinheiro suficiente pra conseguir alimentar nós duas, mas não aguentava mais.
— E onde ela está agora? — ele perguntou.
— Em Izman. — Zahia se afastou da parede, mais animada agora. Não conseguia evitar. A capital de Miraji, as histórias que havia escutado sobre ela... Iam muito além do que era capaz de imaginar. E por isso mesmo deviam ser verdade. — Você já esteve lá?
Bahadur parecia prestes a responder, até que, de repente, mudou seu foco. Ele pressionou o dedo na boca outra vez. E Zahia ouviu. As vozes estavam muito próximas, perto demais para arriscar sequer um sussurro. Seu coração disparou. Eles iam encontrá-la. E quando encontrassem... ela seria arrastada de volta até Hamad e obrigada a casar com ele. Iam segurar sua mão sobre o fogo matrimonial e tirar sangue de seu dedo se necessário. Ela não seria a primeira noiva a chorar na cerimônia. Seria tão ignorada quanto as outras.
Seu pânico estava chegando ao ápice quando as vozes do lado de fora se transformaram em gritos. Ela esticou a cabeça na direção da entrada, tentando ver o que acontecia. Os gritos ficaram mais altos à medida que ela erguia o pescoço para enxergar pela fresta na pedra. Ela ouviu antes de ver: o vento chicoteando, a batida do deserto contra a rocha.
Uma tempestade de areia.
Ela havia surgido do nada, e ficava cada vez mais furiosa. Isso acontecia às vezes, um céu azul de repente se transformava em uma tempestade impetuosa. Ainda que as tempestades não costumassem chegar tão alto nas montanhas. Os homens que a perseguiam não seriam capazes de enxergar a um palmo da testa no meio daquela tempestade, muito menos persegui-la. Em meio aos gritos, ela ouviu vozes amedrontadas recuando até restar apenas o som da tempestade furiosa do lado de fora.
— Já estive em Izman — Bahadur respondeu após um momento de silêncio, como se nada tivesse acontecido. — Muito tempo atrás. — Sua voz diminuiu, como se ele lembrasse de um sonho. — Imagino que tenha mudado desde então. O lugar onde a grande cidade de pedra de vocês está erguida hoje costumava ser uma cidade de tendas, sabia? De todas as cores que o mundo já viu, pontilhando a areia. Isso foi durante a primeira guerra contra a Destruidora de Mundos. Por um longo tempo, a humanidade se espalhava por todo o deserto, homens e mulheres reunidos em pequenas tribos, lutando para permanecerem vivos a cada noite. Lutando para sobreviver até o sol nascer, reféns dos carriçais e de grandes monstros que os atacavam. Nunca ficavam muito tempo no mesmo lugar, ainda mais depois de serem encontrados pelos monstros. Tudo o que podiam desejar era sobreviver para poderem fugir e lutar mais um dia. Até que eles se uniram. Líderes das doze tribos concordaram que seriam mais fortes juntos, e se reuniram perto do mar. Ninguém nunca tinha visto algo assim. Nunca uma quantidade tão grande de humanos. Eles armaram acampamento no lugar que hoje se chama Izman. Mas quando não conseguiram concordar sobre quem seria o líder, chamaram os djinnis para julgar quem é que mais merecia governar. Então os djinnis apareceram e organizaram uma disputa.
Quanto mais ele falava, mais levava Zahia para longe, como se a tempestade de areia tivesse consumido o mundo inteiro e só restassem os dois. Ela podia ver tudo acontecer conforme ele contava sobre a disputa para escolher o primeiro sultão de Miraji. Que se tornou uma lenda, por fundar Izman. E o pai de uma lenda, porque sua filha era a princesa Hawa, a garota cujo canto fazia o sol nascer no céu.
Zahia conseguia visualizar tudo isso. O sangue de cada competidor na areia; os aplausos quando um homem superava outro em sagacidade, força e sabedoria; a luz brilhante das tendas de Izman, pontos coloridos e cheios de vida espalhados pelo deserto, enquanto a humanidade se unia contra a escuridão. No fundo ela sabia que ainda era o mesmo dia, não milhares de anos antes. E que eles ainda estavam no mesmo mundo de onde ela fugira naquela manhã. O mundo sujo e manchado de fuligem, cheio de violência e medo, com homens que a caçavam para arrastá-la de volta. Mas ela já não o sentia — estava dentro de um sonho, onde homens eram heróis e mulheres teciam magia do ar. Onde os indignos, cruéis e injustos eram derrotados por forças maiores. Onde os príncipes montavam em nuvens e iam para terras desconhecidas, e as crianças dançavam com fantasmas quando ninguém estava olhando.
Quando Zahia finalmente voltou a falar, a noite já tinha caído lá fora fazia tempo.
— Essa foi a última vez que você esteve lá? — Sua própria voz não parecia real.
— Que pergunta estranha, garota fugitiva. — Suas palavras espiralaram em volta dela, como se a convidassem de volta para aquele mundo à parte. E ela sabia que era verdade. Soube quando viu que ele não sangrava na armadilha. Quando ele não ficou sem ar depois de subir a montanha. Quando acendeu o fogo sem fósforos. E quando a tempestade de areia impediu que fossem descobertos.
Ele não era humano.
— Você não voltou desde então? — ela perguntou novamente. — Para Izman? Desde os dias em que era uma cidade de tendas?
Os dois haviam se aproximado enquanto ele tecia aquele mundo de histórias ao redor deles.
— Dei o melhor de mim para ficar o mais longe possível desde então — ele disse, calmo. — É um lugar de lembranças dolorosas.
Havia mais ali. Segredos não compartilhados. Pedaços da história que ele não havia contado a ela mas apenas insinuado, quando falava de Hawa sem chamá-la de princesa, ou ao mencionar como a guerra fez o primeiro sultão de Miraji negligenciar sua bela e jovem esposa. Mas Zahia sabia que era melhor não fazer perguntas. Ela sentia como se não fosse completamente real naquele momento. Como se pudesse desaparecer se ele parasse de falar, ou se ele a abandonasse.
E quando ela se inclinou para perto, e encostou seus lábios nos dele, se sentiu como a heroína destemida de uma história muito antiga, de quando o mundo era diferente. Quando seu destino poderia ter sido outro.
Tudo parecia um sonho muito distante quando ele a beijou. Quando passou seus braços em volta dela. Quando as mãos dela apertaram seu corpo, na tentativa de encontrar o fogo embaixo da pele que podia sentir com seu toque. Ao perceber que não havia uma batida de coração em seu peito. Mas que ele ainda era calor sólido, e que estava lá com ela no escuro.


Zahia acordou do sonho sentindo frio. De volta à realidade. Na vida real, ela não estava envolta pelo fogo. Só havia uma coberta em volta dela. O fogo tinha se transformado em brasas. E, mais do que isso, ela estava sozinha. Lá fora a tempestade de areia havia parado e as vozes estavam de volta. Elas que a acordaram. Ela se vestiu depressa. Tentou não fazer barulho.
Mas não foi silenciosa o bastante. Acabou sendo encontrada. Porque na vida real, ela era uma garota da Vila da Poeira. E foi para lá que eles a arrastaram de volta, ensanguentada e agredida pela desobediência, lutando para não chorar. Não de dor, mas de raiva. A raiva que sentia por aquela ser a sua realidade. Por não existirem heróis. Por não haver ninguém para salvá-la.
Ela estava na Vila da Poeira quando foi obrigada a casar com Hamad. E quando fechou os olhos na cama durante a noite de núpcias e esperou que aquilo acabasse.
Ela estava na Vila da Poeira quando segurou sua filha nos braços pela primeira vez. Quando a menina abriu os olhos, Zahia viu que eles eram tão azuis quanto o céu do deserto e, por apenas um instante, olhando para ela, Zahia voltou a sonhar.
Ela a chamou de Amani. E quando sonhou naquela noite, viu Bahadur mais uma vez. Ele lhe perguntou qual era o seu maior desejo para a filha deles. Não importava o que fosse, ele concederia. E ela respondeu. E quando acordou, jurou para a filha que elas fugiriam novamente. Juntas, dessa vez.
Mas quinze anos depois, Zahia ainda estava na Vila da Poeira. De pé na janela da cozinha, observava a filha, que achava que ninguém a via quando ia atirar tão longe no deserto. Ela estava tão absorta que não o ouviu até a porta ser aberta com um empurrão. Zahia deu um salto, lento demais para esconder o que estava fazendo. Hamad disparou para cima dela. E antes que pudesse escapar, seu braço estava em volta dela, prendendo-a contra seu peito. Uma paródia de um gesto de amor.
— Observando nossa filha? — Esmagada contra ele, os dois viam Amani. — Só que ela não é nossa filha, não é mesmo? — Ela sentiu o bafo quente em seu ouvido. Zahia não respondeu mesmo quando recuperou sua frieza. Ela tinha consciência de que ele sabia. Ele sabia havia muito tempo. Mas esse era um jogo dos dois. — Ela é sua filha. O que aconteceu, Zahia? Algum soldado gallan a agarrou sozinha atrás da Casa de Oração? Foi por isso que tentou fugir?
Não, Zahia pensou. Eu estava fugindo de você.
— Me pergunto se ela me daria os filhos que você não deu. — Hamad sussurrou em seu ouvido.
Zahia ficou tensa. Ela havia notado, no ano anterior, o modo como ele havia começado a olhar para sua filha. Tinha esperanças de conseguir dinheiro suficiente para tirá-las de lá antes que Hamad realmente percebesse que Amani não era mais uma garotinha.
Lá fora, a menina ergueu a arma. Apontou para uma lata e disparou um tiro mirado com perfeição, que a mandou girando para a areia. Zahia soube na mesma hora como aquilo terminaria. Sua filha imprudente e ousada segurando uma arma. Ela se defenderia. Então seria enforcada por isso.
Ela de repente lembrou de estar em uma caverna quando era pouco mais velha do que a filha era agora. Dizendo a Bahadur que não iria morrer nas mãos de Hamad. Ele prometeu a Zahia que não iria. Ele não mentiria para ela.
Ela se moveu rápido. Tirou a arma do cinto de Hamad, escapando de seus braços. E apontou direto para o coração dele.
Só foi preciso uma bala para matá-lo. Mas ela esvaziou a arma mesmo assim. Então riscou o fósforo. E a casa se incendiou como lenha.
Tudo que aconteceu depois parecia um sonho. Zahia tinha a leve consciência de que havia uma corda em volta de seu pescoço. Ela olhou para as pessoas da Vila da Poeira, e algumas de Tiroteio que vieram para o espetáculo. Pareciam muito distantes.
Mas sua filha de olhos azuis era real. E ela rezou para que Amani conseguisse o que Zahia nunca havia conseguido.
Um jeito de fugir.
Alguém chutou o banco debaixo dos pés de Zahia.
Ela só teve um único pensamento enquanto caía.
Um jeito de fugir diferente desse.

3 comentários:

  1. Gostei mto de saber como se conheceram.... Mas ainda não entendo porque Bahadur não salvou Zahia.

    E qual era o desejo dela para Amani? Era conseguir fugir ? Eu acho que perdi essa parte rsrs

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    Respostas
    1. Esses djinnis só fazem o que querem e depois vão embora. Nem ligam para os filhos...
      Sim, ela desejou uma fuga. Só esperou que a fuga não seja a mesma que a dela... A morte

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Boa leitura, E SEM SPOILER!