13 de outubro de 2018

O carregamento roubado

A NEVE ESTAVA COMEÇANDO A COBRIR AS RUAS DE DUNPORT.
O porto na costa nordeste de Albis era uma coleção soturna de casas com telhado cinza e armazéns com paredes sujas, tudo amontoado em torno das docas que se alastravam por ali. Um último refúgio antes de a costa virar uma área de penhascos sem lugar seguro para ancorar. Mas com o céu escurecendo e os flocos brancos cobrindo a cidade, um pouco da imundície do mundo parecia desaparecer. Se você estreitasse os olhos, por um momento ela pareceria a Albis de antigamente, com chalés antigos apinhados na escuridão à beira-mar.
— Nosso tempo está acabando — Ahmed comentou, com a boca na caneca de cerveja que fingia beber.
Jin desviou a atenção da vidraça grossa da janela e da neve virando gelo em torno da moldura. Atrás do seu irmão, o capitão Estevo do Rainha de Marfim, o alvo designado a eles, permanecia em uma das enormes mesas de carvalho da taverna, com uma fileira de garotos albish à sua frente. Um homem careca mais baixo estava sentado ao lado do capitão, com um enorme livro de registros aberto à sua frente, fazendo anotações enquanto cada garoto argumentava por que deveria ser contratado para a tripulação e então entregava seu dinheiro. Eles tinham sido informados de que o dinheiro pagaria os suprimentos necessários para ter mais gente a bordo. Para muitos ali, era todo o dinheiro que tinham. Mas não importava; afinal, eles tinham ouvido histórias sobre homens que voltaram do mar com riquezas incontáveis. E tinham esquecido dos muitos que não voltavam.
Os garotos eram ou estúpidos ou esperançosos, o que para Jin era a mesma coisa. Não que ele pudesse falar muito. Ele e Ahmed tinham sido assim cinco anos antes.
— Ainda temos um tempo. — Jin se encostou na parede, observando calmamente as atividades. — Enquanto ele estiver aqui, temos tempo. — Mas ele sabia que Ahmed estava certo. A alfândega logo fecharia por causa da neve. Muitos provavelmente já estavam voltando para casa. Isso significava metade do tempo e metade dos fiscais aduaneiros para subornar em busca de informações sobre o maldito lugar onde o Rainha de Marfim estava atracado. E isso significava que o capitão Estevo provavelmente desejaria partir antes que a nevasca piorasse.
Mas navios não desapareciam assim de repente, mesmo que essa fosse a única explicação encontrada pelo Jovem Johannes depois de passar um dia inteiro verificando de novo e de novo todas as docas na cidade, examinando cada casco ancorado no porto gelado em busca de sinais de que um deles pudesse ser o Rainha de Marfim velejando sob um nome falso. O Velho Johannes tinha dado um safanão na cabeça do neto quando o garoto começou a tagarelar sobre histórias de cidades inteiras que ficaram invisíveis graças a poderes imortais, ou palácios que se transformavam em vento a cada alvorada, surgindo em um novo lugar a cada crepúsculo.
“Se o Rainha de Marfim pudesse virar vento, ele já teria levado todos nós à falência”, o capitão Whit tinha comentado com a tripulação reunida no convés do seu próprio navio, o Gaivota Negra. Ele passou a mão pelo cabelo alvo. Estava com uma expressão mais preocupada do que Jin costumava ver. Precisavam encontrar o outro navio antes que içasse vela, ou o perderiam de vista para sempre. Essa era a missão. O Rainha de Marfim não poderia deixar Albis com seu carregamento.
No fim das contas, o único rastro que acharam foi um aviso afixado na alfândega, misturado aos outros, informando onde e quando os candidatos em busca de emprego que estivessem aptos física e mentalmente poderiam encontrar o capitão Estevo. O capitão Whit ignorou as muitas sugestões de sua tripulação de que deviam ir lá e exigir as informações com os próprios punhos. Isso só faria com que todos fossem presos. Então Jin e Ahmed tinham sido encarregados de ficar de olho no capitão Estevo enquanto o resto da tripulação do Gaivota Negra vasculhava Dunport em busca de qualquer sinal do Rainha de Marfim.
— Precisamos de um plano — disse Ahmed, se remexendo no banco diante de Jin. — Caso ele vá embora.
Jin percebeu que o irmão estava ficando nervoso. Ahmed não era bom em fingir. Ele tinha um daqueles rostos sinceros. Por isso Jin tinha feito questão de deixá-lo de costas para Estevo.
— Seu plano é abrir um buraco na mesa? — Jin perguntou, apontando para os dedos de Ahmed, que tamborilavam a mesa ansiosos já fazia algum tempo. Seu irmão parou, descansando a mão contra a madeira manchada de cerveja.
Alguém que não conhecesse Ahmed muito bem podia pensar que ele só estava preocupado com a possibilidade de Estevo partir. Mas Jin conhecia seu irmão como a palma da própria mão.
— Não é roubo se o carregamento já é roubado, viu? — Jin disse, recomeçando a discussão que já haviam tido uma centena de vezes. Toda vez que Ahmed tinha algum surto de moralidade.
O irmão deu um sorriso pesaroso para Jin.
— É sim. Até porque duvido que o carregamento fosse mesmo de Bawden pra começo de conversa.
Provavelmente era verdade. Jack Bawden estava longe de ser um homem honesto. Eles já tinham feito negócios com ele algumas vezes em Braechester, mais ou menos dentro da legalidade. Todos sabiam que se você aportasse em Braechester por mais de uma noite, era melhor molhar a mão de Jack Bawden. A menos que quisesse que seu cordame fosse cortado, e seu casco começasse a vazar no meio da próxima viagem. Uma vez, Jin e Ahmed tinham visto um navio ser incendiado nas docas. Pólvora mal armazenada, segundo as autoridades.
Por outro lado, se você estivesse levando um carregamento ilícito para Albis, todos sabiam que Braechester era um bom lugar para aportar. E Jack Bawden era um homem que sabia desviar a atenção dos fiscais aduaneiros enquanto você levava o carregamento para terra firme.
Mas a esfera de influência de Jack Bawden era limitada. Seu império era Braechester; fora dali ele estava sujeito à lei como qualquer um. E parecia que o capitão Estevo tinha feito o impossível: roubara de Jack Bawden e escapara ileso daquele reino de pequenos crimes para um porto mais seguro.
Jack não tinha como entregar o capitão Estevo para as autoridades, não importava o quanto as subornasse. Ficaria a ver navios, pelo menos enquanto o capitão Estevo velejasse sob a bandeira do rei de Espa. Nenhum soldado albish arriscaria atacar um navio espasiano e provocar uma guerra.
Então Jack Bawden fez o que Jack Bawden costumava fazer: contratou outros homens para cuidar do trabalho sujo e arriscar o pescoço em seu lugar. Ele precisava de um navio para seguir o Rainha de Marfim. O Gaivota Negra aportou um dia depois da partida do Rainha. Então foram contratados.
— E daí que o carregamento foi roubado do homem que o roubou? — Jin deu de ombros, ignorando as preocupações do irmão. Quaisquer que fossem as inquietações morais de Ahmed, Jin não as compartilhava. — Nós roubamos de volta e a roda continua a girar. E somos pagos — ele acrescentou, caso o irmão tivesse esquecido o motivo de estarem fazendo aquilo.
Ahmed assentiu, embora parecesse perdido em pensamentos. Ele sabia tão bem quanto Jin por que estavam fazendo aquilo. Pela mãe e pela irmã deles. Precisavam do dinheiro por elas.
Houve algum movimento atrás de Ahmed. Jin mudou de posição para observar melhor. O homem calvo e baixo perto do capitão estava fechando o livro de registros, tomando cuidado para deslizar o marcador de página de pano esgarçado entre as páginas para marcar o lugar. E o capitão Estevo se levantava, dispensando os jovens que ainda estavam na fila. Já devia ter preenchido sua cota.
Ahmed notou a expressão de Jin e lançou um olhar por cima do ombro para Estevo, analisando rapidamente a cena antes de virar de volta.
— Ele está indo embora.
— Eu percebi. — Jin olhou de relance para a porta. Ninguém do Gaivota Negra tinha vindo falar com eles. O que significava que ainda não haviam encontrado o Rainha de Marfim.
— Então vamos segui-lo. — A voz de Ahmed assumiu um tom prático, suas preocupações subitamente esquecidas. Seu irmão podia carregar o fardo de ter um senso moral, mas isso não o impedia de agir rápido em momentos de crise. Jin podia confiar no apoio dele, não importava o que acontecesse.
— Você viu o estado das ruas? — A neve tornava impossível seguir o capitão com rapidez. Cada passo era traiçoeiro, não dava para sair do campo de visão se escondendo atrás de uma construção. Se Estevo olhasse para trás, talvez não visse Jin e Ahmed, mas certamente veria suas pegadas na neve.
Do outro lado da taverna, capitão Estevo e os membros da tripulação que o haviam acompanhado vestiam chapéus de aba larga para se protegerem do clima. Logo seguiriam até a porta. Jin e Ahmed precisavam tomar uma decisão. Capitão Estevo se moveu em direção à porta da taverna, com seu escriba e os dois guarda-costas que trouxera consigo logo atrás, como a espuma do mar atrás de um navio poderoso. Em três batidas de coração eles alcançariam a mesa de Jin e Ahmed. Em quatro, teriam passado. Em cinco, seria seguro segui-los.
Só que segui-los não era nem um pouco seguro. Jin contou as batidas enquanto os homens se aproximavam de sua mesa. Uma. Duas. Três. Antes de saber o que estava fazendo, Jin estava de pé entre o capitão Estevo e a porta, bloqueando sua saída. De canto de olho, viu os ombros de Ahmed murcharem, resignados ao fato de que eles estavam prestes a cometer alguma estupidez.
Capitão Estevo piscou surpreso, como se tentasse registrar o obstáculo em seu caminho. Ergueu a mão para seus capangas, e um deles avançou na direção de Jin para tirá-lo da frente. Mas Jin falou primeiro:
— Você ainda não chegou ao fim daquela fila — Jin disse em tom de acusação, em espasiano, indicando com a cabeça o grupo de garotos pelo qual o capitão tinha passado no caminho para a porta. Eles não sabiam se deveriam ir embora ou ficar, incertos se tinham perdido sua oportunidade.
Capitão Estevo demonstrou surpresa diante do uso de seu idioma nativo. Ele levantou a mão para interromper seu guarda-costas, rendendo um pouco de tempo para Jin. Ele recomeçou a falar antes que seu interesse se dissipasse.
— Você nem está na fila — Estevo replicou calmamente no mesmo idioma. — Simplesmente não se deu ao trabalho de ficar esperando tanto tempo de pé? Posso te dizer agora mesmo que preguiça não é uma qualidade que busco em um marujo.
Capitão Estevo tinha um olhar que Jin aprendera a reconhecer como de alguém que passara a vida velejando. O capitão não devia ter mais que três décadas de idade, mas seu rosto estava marcado com linhas de expressão por causa do sol, do sal e do vento marinho. Olhos escuros inteligentes pairavam sobre um nariz aquilino que mais parecia um bico, e seu cabelo escuro encaracolado estava ajeitado para trás sob a aba do chapéu grande e surrado.
Aqueles olhos inteligentes analisaram Jin, claramente tentando entender quem era aquele garoto em seu caminho. Jin endireitou os ombros, fazendo o melhor possível para parecer mais novo do que seus dezesseis anos e mais arrogante do que tinha direito de ser. Suficiente para que o capitão Estevo talvez o subestimasse.
— Queria que você visse o que a escória de Dunport tem a oferecer, para que pudesse apreciar que bela contratação eu seria.
De canto de olho ele podia jurar ter visto seu irmão revirar os olhos diante daquele blefe. Mas ele sabia que Ahmed estava a postos, pronto para sacar a arma se Jin precisasse dele. Se aquilo não seguisse os rumos que imaginava.
Capitão Estevo examinou Jin, pensativo, lábios contraídos.
— Como você veio parar tão longe de casa, garoto xichan?
Xicha não é a minha casa. Mas Jin mordeu a língua em vez de dizer isso. Era raro alguém conseguir perceber que ele não era totalmente xichan. Não conseguiam enxergar além das feições orientais que ele tinha herdado da mãe e adivinhar que talvez pudesse ser de outro lugar. Ainda mais quando estava ao lado de Ahmed, com sua pele escura e cabelo escuro encaracolado, típicos do deserto.
— Eu estava trabalhando no Prêmio da Fortuna — Jin mentiu, improvisando. — Pulei fora quando o primeiro marujo começou a ficar doente. Ouvi falar que foi uma boa escolha.
Prêmio da Fortuna era um navio mercante que tinha sido encontrado algumas semanas antes, flutuando perto da costa, entre Albis e Gallandie. Estava tripulado apenas por cadáveres. Disseram que, pelo visto, alguma doença tinha devastado a tripulação. Dunport tinha sido seu último porto. A mentira poderia funcionar se Estevo não a investigasse muito de perto.
Jin estava prestes a listar suas qualificações, seus anos no mar, cada nó e manobra de navegação que sabia fazer, quando o olhar do capitão Estevo pousou em Ahmed, ainda sentado, encarando sua bebida.
— E quem é esse?
— Alguém com quem bebia enquanto esperava. — Jin deu de ombros, tentando olhar com desinteresse para o irmão. — Conheci esta noite.
Capitão Estevo analisou Ahmed. E quando falou novamente, não foi em albish. Embora mal conseguisse usar o idioma que pretendia.
— Você então conheces o língua deserto? — ele perguntou em mirajin com um sotaque terrível que quase fez Jin se contorcer, atraindo a atenção de Ahmed. Ele arqueou uma sobrancelha. Mas Estevo o ignorou e voltou a falar com Jin em espasiano: — Se estava conversando com esse garoto do deserto, deve conhecer pelo menos um pouco.
— Eu falo mirajin, se é isso que está me perguntando — Jin respondeu em seu idioma nativo, mais rápido do que precisava.
— Um linguista e tanto — capitão Estevo disse, pensativo. — Não preciso de outro garoto que saiba dar nós ou subir num cordame. Posso dar a qualquer idiota uma corda para se enforcar ou observá-lo cair e quebrar o pescoço por não ouvir direito. — Jin tinha quase certeza de que não estava recebendo o mesmo tipo de proposta que os outros garotos na fila tinham recebido. — Preciso de um intérprete. Nosso último nos deixou em Banbrigan. Uma garota de lá o convenceu a ficar em terra firme. — Sua voz saiu cheia de desdém. — Diga, meu amigo xichan, você é do tipo que pode ser convencido por uma garota a abandonar seu navio e seus deveres?
— Não é o que diz meu histórico — Jin retrucou, seco.
Capitão Estevo assentiu novamente.
— Nesse caso, está contratado. Junte suas coisas e esteja na doca 213 em uma hora.
Uma pequena esperança surgiu no peito de Jin, mas morreu rapidamente. A doca 213 não podia ser o ancoradouro do Rainha de Marfim —aquele lado das docas era para barcos menores, botes e barcos de pesca. Não adiantava sair correndo até o capitão Whit e mandar sua tripulação para lá. Mas Jin só exibiu para o capitão inimigo um sorriso excessivamente confiante, como se tivesse conseguido exatamente o que queria, e deu um passo para o lado, liberando a passagem. Ele esperou enquanto a pequena tripulação reunida passava rápido por ele, até que estivessem todos fora da taverna, antes de desabar novamente no banco diante do seu irmão.
Ahmed o observava com uma resignação questionadora.
— Bem — seu irmão comentou, enquanto tomava mais um gole da caneca. — Esse é um jeito de lidar com a situação.


Já caía uma tempestade de neve quando Jin chegou às docas. Ele se manteve um pouco à parte do grupo de garotos mais novos e nervosos, um avaliando o outro enquanto batiam o pé para afastar o frio. Jin trazia uma sacola com alguns de seus pertences pendurada no ombro para desempenhar seu papel. Jin só precisava manter o blefe por mais um tempo. Só o suficiente para chegar até o navio e o resto da tripulação do Gaivota Negra encontrá-lo. Ele deslizou a mão para o bolso, verificando se a bússola estava lá. Aquela sincronizada com a de Ahmed. A que seu irmão e o capitão Whit poderiam usar para rastreá-lo. O capitão não tinha parecido nem um pouco surpreso quando Ahmed e Jin relataram que haviam ignorado suas ordens e confrontado Estevo.
— E você acha que consegue continuar vivo até a gente te encontrar? — o capitão do Gaivota Negra perguntara a Jin, girando a bússola de Ahmed na mão enquanto explicavam seu plano.
— Mesmo que eu não consiga, você ainda vai poder rastrear o navio — Jin retrucara, recusando-se a se acovardar diante daquela alusão casual à morte.
— Desde que não joguem seu cadáver no mar — o capitão rebatera.
— Ele não precisa permanecer a bordo — Ahmed argumentara, levando a morte mais a sério que o irmão. — Se tudo que Jack Bawden quer é vingança contra Estevo, então podemos ter o mesmo resultado começando um incêndio no porão de carga. A fumaça vai danificar quase tudo, então a carga não vai servir para nenhum dos dois.
Capitão Whit arqueara uma sobrancelha para Ahmed.
— De vocês dois, não era de você que eu esperava uma sugestão de botar fogo em tudo. Mas nesse caso não é uma boa ideia. Posso garantir a vocês que Bawden definitivamente quer recuperar o carregamento. E em boas condições. — Seus olhos alternaram entre os dois irmãos. — Sinto que mesmo se eu disser com todas as letras para não atearem fogo em nada, amanhã cedo haverá fumaça no horizonte. Então não vou dizer isso. Mas... façam o possível. Essa carga é valiosa e só seremos pagos se conseguirmos devolvê-la intacta. Entenderam?
Jin entendia. O dinheiro falava mais alto. E era por isso que Jin estava de pé nas docas, com as mãos nos bolsos para esquentar, enquanto a neve rodopiava ao redor. Ele não ligava tanto para o frio quanto Ahmed.
Jin observou a escuridão em torno das docas, que servia de esconderijo para seu irmão e o resto da tripulação, a postos para ajudá-lo se precisasse. Esperando que ganhasse distância antes de irem atrás. Era tarde, e a neve cobria a cidade com um manto branco. Ela trazia à tona uma memória de Jin enterrada fazia muito tempo. Não de neve, mas de areia, dunas intermináveis alternando de dourado para branco enquanto ele se afastava da costa num navio. Ou talvez fosse apenas uma história que sua mãe tinha contado.
— Bom, pelo menos sabemos que vocês todos conseguem ser pontuais. — A voz arrancou Jin de sua memória. Ele se virou rápido e viu o capitão Estevo de pé na proa de um pequeno barco pesqueiro na doca. Ele não o havia reconhecido, de início, falando albish para o grupo reunido. O capitão fez um movimento com a cabeça. — A bordo, todos vocês.
Os garotos recém-contratados avançaram, e Jin os seguiu um pouco mais devagar, deixando os outros se aglomerarem na frente. Ele podia sentir o olhar de Estevo enquanto se aproximava, mas o capitão não disse nada quando Jin subiu a bordo e sentou entre os demais.
Eles seguiram pelas ondas agitadas, com dois membros da tripulação remando para cada vez mais longe de Dunport, enquanto a água batia de todos os lados. Jin encolheu os ombros para se proteger da tempestade de neve e fingiu observar as botas enquanto procurava furtivamente o Rainha de Marfim. Mas eles se afastavam cada vez mais, chegando perto dos rochedos, sem nenhum sinal do navio. Ele não podia acreditar, mas pareciam prestes a avançar em direção a rochas perigosas que deixariam o barco em pedacinhos. De repente, com uma onda poderosa, o barco contornou os rochedos e lá estava o navio.
Jin não conseguia mais fingir que não estava olhando. Ele soube, assim que viu o Rainha de Marfim, que nunca tivera chances de encontrá-lo. O navio estava ancorado à sombra dos rochedos, perto o suficiente para que o mar o agarrasse e destruísse seu casco nas rochas. Só que a embarcação não parecia lutar contra as ondas. A água ao redor parecia estranhamente calma, como se segurasse o navio no lugar.
Ao se aproximarem, uma longa escada de corda rolou para baixo, pendendo próxima à água. O capitão a agarrou primeiro, subindo e deixando que os outros fossem atrás. Jin agarrou a corda em seguida, subindo rápido. Ele passou por cima da balaustrada de madeira e pisou no convés. A resposta para como o navio conseguia se manter inteiro estava ali em cima.
Jin entendia de navios, e com uma rápida olhada podia identificar a função de todos ali, o motivo para estarem no convés em um clima como aquele. Todos exceto um homem de pé no tombadilho superior, imóvel, sem uma função óbvia. Ele estava protegido contra a neve sob várias camadas de roupa, com apenas o rosto visível.
No escuro, era possível confundi-lo com alguém doente ou à beira de congelar. Mas Jin sabia que não era nada disso. A pele do homem tinha um tom cinza azulado. Ele não era totalmente humano. Era metade ser primordial. Um demdji, se fosse do deserto como a própria irmã de Jin; uma criança trocada, se fosse de Albis; ou um semideus, se viesse da península ioniana.
Independente de como o chamassem, ele tinha poder sobre as águas. Era ele que mantinha o Rainha de Marfim escondido e seguro em águas tão perigosas. E ele também tornaria impossível alcançá-los. Não importava que Ahmed pudesse seguir seu rastro. O Gaivota Negra não teria como alcançar o Rainha de Marfim enquanto este último controlasse as águas. Não a menos que a outra embarcação ganhasse asas como as do pássaro que a nomeava.


Depois de viver no Gaivota Negra por meia década, se ajustar a um novo navio era como acordar e de repente descobrir que suas botas não serviam mais. Jin dormiu mal no beliche que lhe indicaram naquela noite, e na manhã seguinte estava de pé em um convés estranho, verificando a bússola e lembrando a si mesmo que era tudo um plano. Ele não tinha cometido de verdade a traição de abandonar seus companheiros de tripulação por outro navio, como um homem que deixava a família por outra mulher.
A agulha da sua bússola apontava diretamente para a popa do navio, o que significava que Ahmed e o Gaivota Negra estavam atrás deles. Mas não tinham chance de alcançá-los enquanto o mar fosse controlado pelo Rainha de Marfim. Na próxima noite, chegariam às águas mais quentes dos estreitos ionianos, e a chance de encontrar outros navios seria maior na passagem apertada. Não seria uma luta tão fácil quanto ali, nas águas abertas, frias e amplas, longe da terra. Ele precisava atrasá-los.
Jin teve sua chance naquela noite, quando finalmente avançaram o bastante no mar para dispensar a criança trocada de suas obrigações no convés. Ele cambaleou até a cozinha onde todos estavam comendo, pouco depois do pôr do sol. O homem parecia exausto, ombros caídos, círculos cinza-escuro sob os olhos. Mantinha a cabeça baixa, evitando encarar o resto da tripulação. A tripulação mais velha o ignorava, enquanto alguns dos garotos mais novos de Albish o observavam com curiosidade. Mas eles eram de uma ilha onde a magia governava; metade deles provavelmente tinha uma criança trocada na família. Não ficariam chocados com alguém que não fosse totalmente humano.
O homem sentou no canto, bebendo cerveja lentamente. A mão de Jin se fechou em torno da bala de revólver em seu bolso. Quando teve certeza de que ninguém o observava, surrupiou uma das facas da mesa e abriu a bala, revelando a pólvora ali dentro. Essa era uma das balas baratas compradas de um revendedor gallan, que com certeza as conseguira de segunda mão no deserto. Um pouco de ferro sempre acabava indo parar no meio da pólvora durante esse processo. Não seria muito, mas teria que servir.
Num movimento rápido, Jin jogou a pólvora no próprio copo antes de levantar. Ele caminhou pelo refeitório, sentou no assento vazio na frente do homem e desceu o copo na mesa com tanta força que o homem abriu os olhos, surpreso. Ele encarou Jin inquisitivamente.
— Qual seu nome? — Jin perguntou, primeiro em albish.
O homem o encarou de volta, como se tentasse entender o que estava acontecendo. Jin estava prestes a tentar outro idioma quando o homem finalmente respondeu:
— Oisin — ele disse em albish, com um forte sotaque. Estava segurando seu copo próximo ao peito, os olhos ainda pesados. Jin precisava que ele largasse aquele copo.
— Faz muito tempo que você está no Rainha de Marfim, Oisin?
Oisin ainda observava Jin desconfiado.
— Você quer alguma coisa? — ele perguntou.
Droga, lá se ia o plano de ganhar mais tempo para ficar sentado ali. Jin precisava de uma desculpa para continuar a conversa até Oisin largar o copo.
— Eu quero saber — Jin improvisou — o que realmente aconteceu com o último intérprete.
Oisin riu pesaroso, se inclinou para a frente e deixou o copo na mesa próximo do de Jin, sem soltá-lo.
— O que você ouviu, novo intérprete?
— Que ele abandonou o navio para ficar com uma garota em Banbrigan. — Oisin deu uma risada curta de escárnio, inclinando a cabeça para trás. Jin ficou de olho em sua mão. — O que aconteceu de verdade?
— Por que está perguntando para mim? — Oisin quis saber.
— Porque acho que você não vai mentir.
Os olhos exaustos de Oisin estudaram o rosto de Jin.
— Não posso mentir, você quer dizer. — O reconhecimento silencioso do que Oisin era pairava entre eles. Metade ser primordial, incapaz de dizer uma palavra que não fosse verdade. — Bem, então posso dizer que mentiram para você. — A mão dele estava relaxando ao redor do copo. — Garanto que ele não nos deixou por causa de uma garota. — Finalmente, Oisin soltou o copo enquanto se reclinava contra a parede, cruzando os braços como se desafiasse Jin a perguntar mais. E, na verdade, Jin estava louco para perguntar mais. Insistir. Ele precisava saber. Mas o que precisava ainda mais era incapacitar os poderes dele.
— Então, pelo visto... — Jin disse, estendendo a mão para o copo de Oisin em vez do seu. — É melhor eu tomar cuidado. — Ele levantou, deixando o próprio copo na mesa. Não arriscou olhar para trás para ter certeza de que Oisin ia bebê-lo.


Jin acordou na manhã seguinte com um chute em seu beliche. Levantou no mesmo instante, procurando uma faca que não estava lá, até lembrar que aquele não era o Gaivota Negra.
— Intérprete. — Jin estreitou os olhos na direção da lanterna a óleo que pairava acima dele e da silhueta escura atrás dela, que pertencia ao Capitão Estevo. — Levante. Precisamos de você.
Jin esfregou as mãos no rosto cansado, tentando ganhar um pouco de tempo.
— No último navio onde estive, levantávamos junto com o nascer do sol — ele reclamou. — Não tão cedo.
— Circunstâncias especiais — disse Estevo, esperando enquanto Jin calçava suas botas.
O garoto lançou um olhar rápido para sua sacola de pertences enquanto se vestia. Sua arma estava lá, bem ao alcance. Mas não havia como pegá-la sem ser notado, não com Estevo na sua cola com a luz forte da lanterna. E ele não conseguia pensar em outro motivo para enfiar a mão na sacola.
Finalmente ele levantou, caminhando ao lado de Estevo enquanto deixava a cabine.
Jin amaldiçoou sua sorte enquanto caminhavam. Tinha torcido para evitar o capitão e seus olhos atentos até seus companheiros chegarem. Mas não teve como escapar. De qualquer forma, o Gaivota Negra provavelmente estava chegando perto. Quanto tempo levaria até alcançá-los? Não devia faltar muito para o nascer do sol. Quanto tempo Jin tinha? Horas? Esperava que não demorassem o dia todo. Ao crepúsculo, quando chegassem a águas mais quentes, o ferro já teria deixado o corpo de Oisin. Deixando-o livre para impulsionar o navio adiante.
— Presumo que você fale xichan — o capitão Estevo disse, enquanto conduzia Jin pelas entranhas do navio. Estavam falando em espasiano. — Um idioma impossível, na minha opinião. A menos que se aprenda desde pequeno, como você. Agradeça aos céus por isso. — Jin não respondeu que xichan não era sua língua nativa. Ele aprendera o idioma com a mãe aos trancos e barrancos, quando fugiram do harém. Sua língua nativa era mirajin. Era nessa língua que ele e Ahmed falavam entre si.
Jin e o capitão chegaram a uma porta com um pesado ferrolho de ferro. O capitão Estevo empurrou para abrir com um movimento brusco.
— Preciso do seu xichan para conversar com parte do carregamento.
Então, um instante antes de o capitão empurrar a porta, Jin entendeu. A porta abriu com força, revelando um compartimento escuro e úmido. Não era um bom lugar para guardar açúcar, que facilmente derreteria, ou sedas, que ficariam molhadas e apodreceriam.
Capitão Estevo deu um passo para a frente, e a luz de sua lanterna passou por uma série de rostos ao longo das paredes. Garotas jovens e amedrontadas, tremendo no escuro.
A raiva que tomou conta de Jin foi tão súbita e profunda que ele precisou de toda sua força de vontade para não usar a violência. Ele cerrou o punho tão forte que era doloroso mantê-lo abaixado e não atacar o capitão. Ele nunca tinha desejado tanto matar alguém. Havia treze garotas, todas da sua idade ou mais novas. Todas com os punhos acorrentados e com outra corrente passando pela viga acima delas antes de dar a volta em suas algemas, mantendo-as no mesmo lugar. Para algumas, a corrente era longa o suficiente para sentar ou deitar no chão. Para outras, eram tão curtas que elas ficavam penduradas como animais na vitrine de um açougue, os pés mal roçando o chão. Elas desviavam seus olhares desolados da luz enquanto o capitão andava entre elas. Uma delas tremia muito encolhida no chão.
— Essa aqui. — Capitão Estevo tinha se aproximado da parede do fundo, e cutucou uma das garotas com o pé. Ela estava curvada contra a parede, braços à frente, pés no chão. Uma cortina escura de cabelo cobria seu rosto. — Ela não comeu nada desde que atracamos em Dunport. — O capitão segurou o rosto dela com a mão livre, virando-o para a luz, e Jin pôde vê-la melhor. Ela era uma jovem xichan. Tinha a sua idade, provavelmente. Seus lábios estavam machucados com cortes recentes, e seu olhar encarava o capitão com tanta fúria que Jin sentiu sua farsa começar a ruir novamente diante do peso da própria raiva. O capitão soltou o rosto da garota. — Descubra o que há de errado com a garota. Ninguém mais no navio fala o idioma dela. É a única xichan que temos, seria um desperdício ela morrer de fome antes de chegarmos a Izman.
Jin precisou de um instante para se recompor o suficiente para se mover sem tremer. Para conseguir falar sem se entregar. Finalmente ele deu um passo em direção à garota, que encarava os próprios pés. Fazendo questão de ignorá-lo.
— Você está bem? — Jin perguntou cauteloso em xichan. Ele se arrependeu da pergunta imediatamente, mesmo antes de ela soltar um resmungo cheio de desdém e repulsa.
— Nunca estive melhor. Não deu para perceber? — Ela agitou a corrente na direção dele.
Jin segurou-a com a mão, no que ele esperava que o capitão Estevo interpretasse como um gesto para impedi-la de acertá-lo. Na verdade, ele estava analisando os fechos. O das algemas era complicado, mas o da corrente que a prendia na viga era ridiculamente fácil de abrir. Se conseguisse abrir aquele, a garota poderia pelo menos sentar. Ele não sabia mais o que dizer.
Tudo nele lutava contra conversar com aquela garota como se trabalhasse para o capitão. Mesmo que fosse apenas uma encenação.
— Você está doente? — ele perguntou, enquanto inclinava a manga de sua camisa para a frente, fazendo a gazua que mantinha ali escorregar para a mão. Ela encaixou perfeitamente entre seus dedos. — Ferida?
Finalmente a garota levantou a cabeça para encará-lo. Enquanto isso, Jin trabalhava no fecho o mais silenciosamente possível, grato pela distração da conversa e pelas sombras da luz limitada da lâmpada do capitão.
— Por favor — ela disse com sarcasmo. — Seria burrice deles danificar a mercadoria. — Ela passou a língua pelo lábio rachado. — O homem que fez isso comigo não voltou mais. Ele também falava minha língua. — O antigo intérprete. Então essa era a resposta para o enigma do que tinha acontecido com ele. — Ou isso foi uma ameaça? — ela perguntou. — Você está aqui para me machucar se eu não começar a seguir as regras?
— O que ela está dizendo? — capitão Estevo perguntou com rispidez em espasiano, claramente impaciente.
— Ela não está colaborando muito — Jin respondeu no idioma do capitão. Seu punho apertou-se em torno do fecho enquanto voltava a falar em xichan. — Não estou aqui para te machucar. E você deveria começar a comer se quiser sobreviver até escapar daqui.
O olhar dela era impiedoso.
— Não seja idiota. Nunca vou escapar daqui. Mesmo se conseguir sair desse navio, não vou chegar nem peito da liberdade. Vou ser vendida e escravizada para o resto da vida. Então estou fazendo minha escolha. Não vou deixar que me vendam como se eu pertencesse a eles. Pode contar isso para o seu capitão, se quiser. Ele não pode me forçar a comer. E se eu não morrer aqui, vou morrer onde quer que me vendam.
A raiva era demais, mesmo quando o fecho da corrente que a mantinha ancorada ao teto se abriu com um clique. Jin se inclinou para a frente.
— Você não vai morrer aqui — ele disse rápido em xichan. — E isso não é uma ameaça, é uma promessa. Ele não é meu capitão. Tem pessoas vindo atrás desse navio, atrás de vocês, todas vocês. Vamos salvá-las. Então você pode começar a comer porque vou precisar que você corra em breve.
A garota não reagiu de imediato, só o encarou, como se estivesse procurando um truque, algo que pudesse extinguir a faísca de esperança que nascia dentro dela contra sua vontade.
— E por que eu deveria acreditar em você? — ela perguntou, amargamente.
Antes que Jin pudesse responder, a voz do capitão Estevo ecoou atrás dele. Mais uma vez, não falava em espasiano.
— Você quebrou a promessa que me fez, intérprete — ele falou em xichan perfeito, e Jin sentiu seu estômago revirar. — Já levou tudo a perder por causa de uma garota.
Jin viu os olhos da garota xichan encararem um ponto acima do ombro dele, com pânico em seu rosto.
— Deixa eu adivinhar — ele disse, suspirando. — Tem uma arma apontada para as minhas costas?
— Bom chute — ela disse, a voz falhando.
— Que falta de originalidade — ele sussurrou em voz baixa em xichan enquanto levantava as mãos e endireitava o corpo. Ele sabia como as coisas funcionavam. Não era nem de longe a primeira vez que alguém apontava uma arma para ele. E dava para imaginar que não seria a última.
Embora Jin suspeitasse que fosse a primeira vez que alguém apontasse uma arma para ele com desdém.
— Você não é tão inteligente quanto pensa, sabia? — O capitão tinha voltado a falar seu próprio idioma.
— Já me disseram isso — Jin retrucou, entrelaçando as mãos acima da cabeça. — Embora eu não me ache tão esperto assim. Só sortudo, normalmente.
— Quem mandou você? — o capitão perguntou. — Perry? Balo? — Outros comerciantes de escravos, Jin imaginou, competindo entre si como os que negociavam açúcar e seda.
— Capitão Whit. — Jin decidiu que não havia muito a perder ao dizer a verdade.
Para sua surpresa, capitão Estevo riu.
— Sempre achei que ele fosse moralista demais para entrar nesse negócio.
— Ele é.
Capitão Estevo fechou a cara.
— Mas não moralista demais para mandar um espião. Afaste-se da garota — ele ordenou, gesticulando para Jin com a arma. O garoto se afastou da prisioneira, obrigando o capitão a virar para segui-lo com o cano da pistola.
Ao mesmo tempo, o navio deu uma leve sacudida, não o suficiente para desequilibrar Estevo, nem o suficiente para dar alguma vantagem para Jin, mas o bastante para a jovem garota xichan perceber que ele a tinha soltado da parede. Jin viu sua expressão de surpresa quando cambaleou para a frente e não foi contida imediatamente pelas correntes de metal. Quando as correntes deslizaram das algemas em seus punhos.
E Jin viu o momento em que a decisão passou pelo rosto dela. Rápido demais para ele tentar impedi-la. Ela simplesmente agiu. A garota avançou como uma serpente dando o bote, passando as mãos por cima da cabeça de Estevo, de modo que a corrente das algemas se enrolasse no pescoço dele. Ela puxou as mãos para trás com força, apertando a corrente contra seu pescoço, fazendo com que perdesse o ar. A lâmpada se espatifou no chão; as tábuas começaram a pegar fogo, fazendo as garotas gritarem. A garota puxou Estevo para trás, e o movimento violento fez a arma na mão dele disparar, provocando mais gritos. Jin agiu rápido, apagando o fogo com o pé antes que engolisse o compartimento inteiro. Quando o fogo se extinguiu, veio o breu, e Jin só podia escutar. Escutar o som da luta na escuridão, e das garotas ainda acorrentadas, chorando de medo. De repente havia apenas o choro.
— Você está bem? — ele perguntou pela segunda vez, estendendo a mão no escuro na direção onde achava que o capitão e a garota estavam.
Houve um longo silêncio, e então veio a voz dela, rouca.
— Ainda é uma pergunta idiota.
Uma mão encontrou a sua. Ele sentiu a algema de ferro no punho dela. Ainda presa, como todas as outras garotas naquele lugar.
— Precisamos de chaves. Precisamos tirar todas vocês daqui. — Ele passou a mão no cabelo. Podia ver um feixe de luz saindo de baixo da porta. Suficiente para guiá-los para fora.
— E ir aonde? — a garota perguntou, enquanto Jin começava a conduzi-la em direção à porta.
O som de sinos no convés surgiu como se a garota tivesse conjurado a resposta com suas palavras. Sinos significavam a aproximação de um navio inimigo. Ou um navio da salvamento, dependendo de que lado você estivesse.
Jin abriu a porta. O suficiente para enxergar dentro do compartimento. O suficiente para ver o corpo do capitão Estevo. Jin ajoelhou rapidamente ao lado dele. A pistola ainda estava em sua mão. E havia uma faca no cinto dele.
— Você tem alguma preferência? — Jin reapareceu na luz da porta, oferecendo a pistola e a faca para a garota.
Ela arqueou uma sobrancelha escura para ele, cética.
— Quem você acha que sou para ser capaz de atirar?
Jin deu de ombros.
— Não faço ideia de quem você é.
A garota estendeu as mãos atadas para ele.
— Fen — ela disse.
— Jin — ele respondeu, embainhando a faca para que pudesse apertar a mão dela. — Vamos.
Ele seguiu por dentro do navio, para longe do compartimento de carga, confiando que Fen o seguiria. Ele não tinha tempo de dizer nada às garotas que clamavam atrás dele, de prometer que voltariam.
Enquanto emergiam do compartimento de carga, perceberam que, com a aproximação do outro navio, a embarcação estava um caos sem um líder. Ao se aproximarem do convés, alguém passou correndo por eles em direção às armas, e Jin segurou Fen, puxando-a para as sombras.
Percorreram a embarcação o mais rápido que podiam.
Embora Jin não conhecesse aquele navio muito bem, dava para imaginar onde ficava a cabine do capitão. Não foi difícil encontrá-la, e a porta não estava trancada. Os dois entraram rápido.
— As chaves. — Fen apontou para um gancho acima da porta, alto demais para ela. Jin as alcançou. Ele jogou as chaves para Fen, que as pegou com tanta habilidade quanto se esperaria de alguém com mãos atadas.
— Você lembra como voltar?
— Você não vem comigo? — Fen perguntou.
— Preciso subir para o convés e ajudar, ou nunca sairemos daqui. — Fen parecia ansiosa. Jin ofereceu a faca a ela novamente. — Tem certeza de que não quer levar isso?
Fen arrancou a faca da mão dele com um olhar acusatório.
— Não sou esse tipo de garota.


Quando Jin chegou ao convés, o Gaivota Negra já tinha abordado o Rainha de Marfim. Cordas prendiam os dois navios juntos enquanto homens passavam por elas, armas em punho, e os marujos do navio atacado se juntavam para enfrentá-los. O ar já cheirava a pólvora, e as tábuas estavam manchadas de sangue.
Jin piscou diante da luz da manhã, a arma já erguida. A primeira coisa que viu quando seus olhos se ajustaram à claridade foi seu irmão de pé na balaustrada, arma em punho, cuidando da retaguarda do Jovem Johannes enquanto ele lutava.
De pé, diretamente na linha de fogo.
Jin apontou sua arma, atirando em um marujo que estava próximo demais de Ahmed, aceitando o braço do homem. Enquanto Jin caminhava em direção ao irmão, Ahmed virou e o viu. Jin percebeu que ele segurava a bússola na mão.
Uma expressão de alívio tomou o rosto de Ahmed quando ele notou a presença de Jin. Ele pulou para o convés enquanto o irmão o alcançava.
— É bom te ver vivo — Ahmed comentou.
— Você esperava algo diferente? — Jin provocou. Por um momento, parecia que Ahmed estava prestes a responder. Mas então seus olhos se fixaram em alguma coisa atrás de Jin. Ele ergueu a arma e atirou. Jin ouviu um grito.
Algo pairava entre eles. A consciência de que, um dia, havia uma boa chance de que um deles não voltasse vivo. Mas, por enquanto, seu irmão estava ali para ajudá-lo.


A luta não durou muito. No fim das contas, era fácil tomar uma embarcação sem liderança. Ainda mais quando o navio em questão sempre contou com Oisin controlando o mar em sua primeira linha de defesa. Oisin, que estava incapacitado por ter tomado uma dose de ferro.
Havia alguns corpos no convés quando o capitão Whit falou, sua voz sobressaindo à luta:
— Tripulação do Rainha de Marfim, vocês estão cercados. Se estiverem dispostos a dar suas vidas pelo seu navio, façam isso. Mas se abaixarem as armas, deixaremos que vivam.
Não levou muito tempo para eles abaixarem as armas.


A filha de Jack Bawden tinha apenas treze anos, cabelo loiro cacheado como uma boneca e enormes olhos cinza. Isso a fazia parecer inofensiva, mas eles sabiam que ela não era. Quando Fen a soltou do compartimento de carga, a garota pegou a faca de Fen, pronta para machucar alguns membros da tripulação do Rainha de Marfim, até perceber que já tinha sido salva. Então ela desabou em lágrimas.
Rainha de Marfim foi deixado à deriva, à mercê do mar. O Gaivota Negra recebeu todos que queriam voltar à costa, os novos garotos de Albis, Oisin e, é claro, as prisioneiras.
Capitão Whit explicou a situação na viagem de volta, com todas as garotas a bordo do Gaivota Negra. Estevo tivera um desentendimento de negócios com Jack Bawden. Então se vingara roubando a única coisa que realmente importava para Jack, acrescentando-a ao carregamento que já estava levando.
Seu nome era Anne.
— Eu não contei antes para vocês, rapazes, porque não importava a carga transportada — o capitão Whit disse para Jin, se reclinando em sua cabine enquanto retomavam a Albis para devolver Anne ao seu pai. — Trabalho é trabalho. — Ele estava terminando de fumar um charuto. Sempre fumava um no final de uma missão bem-sucedida. — Além disso, eu estava preocupado que, se vocês soubessem, acabariam fazendo alguma besteira.
Ele não precisava explicar aquela parte. Jin e Ahmed não falavam muito sobre seu passado. Sobre quem eles eram de verdade. Mas o capitão sabia. Você não velejava com alguém por anos sem perceber algumas coisas. Jin sabia que Mael tinha uma filha em Torrelade sobre quem ele não falava, exceto quando estava bêbado e sentimental. E Yevhen tinha se juntado ao Gaivota Negra depois de ter seu coração partido por um homem em Salan cujo nome nunca mencionava. E Laurent tinha sujado as mãos com o sangue do próprio pai, portanto jamais poderia voltar para casa. E o capitão Whit sabia que a mãe de Jin tinha sido igual a uma daquelas garotas, acorrentada como um carregamento qualquer.
— Aparentemente — o capitão disse, apagando o charuto — você não precisa de informação nenhuma para fazer besteira.
Jin sabia que isso era o mais próximo que o capitão chegaria de um elogio pelo bom trabalho.
— O que acontece com todo mundo agora?
— Podemos descarregar os garotos idiotas em Dunport. Podemos dar dinheiro suficiente para as garotas comprarem passagens de volta para casa. Algumas estão na nossa rota de volta para Xicha, podem vir conosco. E assim... — ele acrescentou, pensativo — concluímos o trabalho para o qual fomos contratados.


— Tenho a sensação de que não vamos pagar por proteção da próxima vez que passarmos por Braechester. — Jin comentou, enquanto ele e Ahmed observavam Jack Bawden, um braço envolvendo a filha enquanto trocava palavras com o capitão Whit e o pagava. Os irmãos conversavam em mirajin enquanto se apoiavam na balaustrada do navio. Ahmed estava estranhamente calado. Jin lançou um olhar para ele. Mas ele sabia que não devia perguntar. Deixou o silêncio reinar até seu irmão decidir falar.
— Devíamos fazer mais — Ahmed disse finalmente, esfregando a mão no rosto.— Alguém devia impedir isso tudo.
— Treze garotas salvas não é nada mau, Ahmed — Jin comentou.
— Mas tem mais uma centena delas que não tem pais ricos para nos contratar. — Ahmed suspirou. — Você sabe para onde estavam levando elas, não sabe? — Agora era a vez dele de encarar Jin. E a vez de Jin de evitar o olhar do irmão.
— Eu sei — Jin admitiu, relutante. Elas estavam sendo levadas para o deserto. Para Miraji, onde seriam vendidas.
— Podíamos mudar isso — Ahmed disse, pensativo. — Talvez a gente não possa mudar o mundo, mas sempre podemos mudar um país.
— Não, não podemos. — As mãos de Jin apertaram a balaustrada. — Nós deixamos aquele país por um motivo, Ahmed.
— Isso não significa...
— Sim, significa — Jin respondeu. — Significa muitas coisas. — Significava que não deveriam voltar. Que deveriam tentar esquecer que eram príncipes por sangue. Aquele país não era mais problema deles.
Ahmed se calou, deixando o assunto para lá. Mas Jin notou que aquilo ainda ocupava a cabeça dele. Enquanto assistiam Anne abraçar o pai, Jin sentiu uma presença se aproximando. Fen parou ao seu lado. Havia três garotas que poderiam deixar em casa ao longo do caminho. Duas da península ioniana, e Fen, de Xicha.
— O que acontece agora? — ela indagou, curiosa, observando sua companheira de cela devolvida à liberdade.
— Levamos você para casa — Ahmed respondeu em xichan, oferecendo à garota um sorriso gentil.
— E vocês? — ela perguntou, observando os dois, mas havia um peso em sua pergunta que parecia particularmente endereçado a Jin. — Vão voltar para casa... comigo?
Não, eles não iriam. Eles iriam parar lá. Visitariam a mãe. Visitariam Delila. E entregariam o dinheiro para comprarem comida até eles voltarem.
— Minha casa é aqui — Jin disse, dando as costas para o porto, olhando para além do convés do navio.
Fen inclinou a cabeça para observá-lo. Ela refletiu por um momento, antes de abrir um sorriso triste.
— Você não é tão bom em mentir quanto pensa.

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