22 de outubro de 2018

Epílogo

Rosie leu a carta pelo que parecia ser a milionésima vez, dobrou-a duas vezes e guardou-a novamente no envelope. Seus olhos passaram por sobre a coleção de cartas, cartões de felicitações, e-mails impressos, folhas com as transcrições impressas dos bate-papos da internet, faxes e bilhetes escritos à mão no tempo da escola. Havia centenas de papéis espalhados pelo chão, cada um servindo como relato de um triunfo ou tristeza, cada carta representando uma fase na sua vida.
Ela havia guardado tudo.
Estava sentada sobre o tapete de lã de carneiro diante da lareira no seu quarto em Connemara e continuou a absorver a panóplia de palavras que se estendia à sua frente. Sua vida descrita em tinta. Passou a noite inteira relendo tudo aquilo. Suas costas doíam por ter passado tanto tempo encurvada e seus olhos ardiam. Ardiam por causa do cansaço e das lágrimas.
Pessoas que ela amou com tanto ardor ganharam vida em sua cabeça enquanto ela lia seus medos, emoções e pensamentos, que antigamente foram muito reais, mas que agora já haviam desaparecido da sua vida. Amigos que chegaram e partiram, colegas de trabalho, amigos do tempo da escola, amantes e parentes. Ela reviveu toda a sua vida naquela noite, em uma questão de horas.
Sem que ela percebesse, o sol se ergueu outra vez, as gaivotas estavam dançando pelo céu, grasnando animadas enquanto sua comida era jogada de um lado para outro pelo mar revolto. As ondas batiam contra as rochas, ameaçando ultrapassá-las. Nuvens cinzentas se erguiam como anéis de fumaça do lado de fora da janela, resquícios da chuva que caiu no início da manhã.
As cores delicadas de um arco-íris recém-formado se ergueram sobre o vilarejo sonolento, estenderam-se por sobre o céu do alvorecer e caíram no campo oposto à Pousada Docinho.
Uma visão vibrante de vermelho-maçã, manteiga, damasco, abacate, jasmim, rosa do campo e azul noturno contra o céu cinzento. Tão perto que Rosie quis estender a mão para tocá-lo.
A sineta da recepção no térreo tocou bem alto. Rosie bufou e olhou para o relógio. 6h15. Um hóspede acabava de chegar.
Ela se levantou devagar, gemendo com a dor depois de passar tantas horas agachada na mesma posição. Segurou-se na cabeceira da cama e ergueu-se até ficar em pé. Endireitou aos poucos as costas.
A sineta tocou outra vez.
Os joelhos de Rosie estalaram.
— Ai! Já vou! — gritou ela, tentando esconder a irritação na voz.
Foi idiotice passar a noite inteira relendo aquelas cartas. Hoje seria um dia movimentado e ela não podia se dar ao luxo de estar cansada. Cinco hóspedes iriam sair e outros quatro estavam para chegar pouco depois deles. Os quartos precisavam ser limpos, os lençóis lavados e trocados para os recém-chegados, e ela nem havia começado a preparar o café da manhã.
Ela andou na ponta dos pés por entre a massa de cartas espalhadas pelo tapete, tentando não pisar nos papéis importantes que havia guardado por toda a vida.
A sineta tocou mais uma vez.
Ela revirou os olhos e resmungou um palavrão. Não estava a fim de lidar com hóspedes impacientes hoje. Não depois de passar a noite inteira sem dormir um segundo.
— Só um minuto — disse ela com um toque de animação na voz, segurando no corrimão e descendo rapidamente pelas escadas. Ela sentiu o dedão do pé bater na mala que fora deixada estupidamente diante do último degrau. Sentiu seu corpo cair para a frente, e em seguida uma mão a agarrou com firmeza pelo braço para ampará-la.
— Desculpe-me, por favor — declarou ele, e Rosie ergueu a cabeça no mesmo instante.
Deu uma boa olhada no homem que estava diante dela, com quase um metro e oitenta de altura, cabelos escuros que haviam ficado grisalhos nas laterais da cabeça. Sua pele estava cansada e enrugada ao redor dos olhos e da boca. Os olhos pareciam estar cansados, como aconteceria com qualquer pessoa que houvesse acabado de passar quatro horas num carro para chegar até Connemara após desembarcar de um voo de cinco horas. Mas aqueles olhos brilhavam e reluziam conforme a umidade neles começava a aumentar.
Os olhos de Rosie se encheram de lágrimas também. E ela segurou no braço dele com mais força.
Era ele. Até que enfim, era ele. O homem que escreveu a última carta que ela leu naquela manhã, implorando por uma resposta.
Claro, depois que ela a recebeu, não demorou muito para responder. E, conforme o silêncio mágico os envolvia de novo, depois de cinquenta anos, tudo o que eles conseguiram fazer foi olhar um nos olhos do outro. E sorrir.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!