11 de novembro de 2018

Divulgação: Carmem


Sinopse:
Amélia é uma jovem governanta começando seus trabalhos na Mansão Stern após ser contratada pelo excêntrico milionário Cássio. Aos poucos ela descobre que a mansão abriga mistérios e que giram em torno da pequena Carmen, a irmã mais nova.
Será que Carmen é apenas uma menina deslocada ou haveria um motivo sobrenatural para sua estranheza?
Mergulhe nesse mistério e descubra com Amélia o que pode acontecer nas sombras da mansão.

Categorias: suspense, romance, história original

Autoras: Dany Fernandez e Josy Santos
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Parte um - Prelúdio


A charrete me deixou na entrada de uma estradinha de terra batida, ladeada por mato alto e árvores. O condutor me disse que, seguindo por ali chegaria ao meu destino. Agradeci a carona e segui. Aqui e acolá, as pedras me faziam pisar em falso, meus sapatos não estavam acostumados. Me parabenizei mentalmente por ter escolhido um vestido cuja barra ficava pouco acima dos tornozelos. Do contrário, teria uma boa quantidade de terra nas roupas. Sentindo o peso de minha maleta, rezei para que a estrada chegasse logo ao fim. A viagem tinha sido cansativa e na ultima noite havia dormido numa hospedaria na estrada, para garantir que chegaria pela manhã.
Eu tinha sorte de chegar no alto da primavera, quando a neve e o sol mais frio tinham ficado para trás. O caminho revelou uma leve subida e já estava ofegante ao finalmente enxergar as grades grossas de um portão de ferro preto.
Além do portão havia um imenso jardim com estátuas brancas, retratando mulheres, homens e crianças. Rosas brancas despontavam entre arbustos bem cuidados e outras plantas ornamentais.
No centro do jardim havia um caminho de pedras lisas que se bifurcava ao chegar num chafariz ornamentado de flores e tornava a se unir depois deste, apontando para o casarão.
Embevecida, puxei a corda do sino que localizei assim que me aproximei da grade. Passados alguns minutos toquei novamente e ainda assim ninguém foi ao meu encontro. Resolvi experimentar o portão e para minha surpresa estava aberto. Tive apenas que livrar o encaixe do ferrolho e entrei no jardim.
Olhei ao redor e inspirei o perfume das flores. Depois de avançar além do chafariz, pude ver melhor o casarão Stern. Uma construção sólida, quadrada e lisa. Havia pelo menos, oito janelas de cada lado. A fachada inteiramente pintada de cinza. Era como se aquela casa não pertencesse ao mesmo dono do jardim.
Meu estômago estremeceu. Jamais havia trabalhado numa propriedade tão imensa. Eu tinha apenas 29 anos e nenhum resquício da segurança que deveria ter. Então respirei fundo, apenas endireitei os ombros e segurei minha maleta com mais firmeza. No bolso do casaco minha carta de recomendação.
Bati com a aldrava na porta de madeira maciça. Ninguém. Bati novamente, controlando a ansiedade. Nada. Lembrei-me do portão, e então segui o exemplo. A maçaneta estava destrancada.
Entrei, cautelosa. A entrada da casa era marcada por um amplo salão sem mobília. O piso era branco e tive certeza de que estava pisando em mármore. Logo a minha frente uma escadaria larga que se bifurcava no andar de cima.
Haviam portas de madeira e vidro nas laterais do salão. Mantive silêncio procurando por alguém que pudesse me receber, até ouvir um murmúrio vindo de uma das portas à esquerda. Parecia que uma conversa se desenrolava e por mais que eu não quisesse parecer intrometida, senti-me empurrada. Uma força magnética me puxava cada vez mais para perto.
— Olhos tristes são o que vejo em você. — Ouvi uma voz masculina dizer.— Seus olhos são enormes e me assustam, quando às vezes, e muito por acaso os encontro. Você não poderia ser menos feia e desarrumada, Carmem? Anda sempre muda, esgueirando-se pelos cantos das paredes, escondendo-se nas sombras atrás das portas desta casa imensa. Sua presença me enoja, parece um bicho, não fala. Come sem maneiras.
Retraí-me. Quem falaria com outra pessoa assim?
— Os seus olhos tristes e enormes parecem cada vez maiores. — Ele continuou — Toda vez em que me vejo obrigado a suportar sua imagem, são o que mais chamam atenção. Eles me fazem perdoar toda a imundície que sua presença exala. Quero ver o quanto mais do seu rosto estes olhos devorarão.
De onde eu estava, de frente para a porta semiaberta, pude ver o homem empertigar-se, levantar da poltrona e aproximar-se de uma pessoa encolhida ao pé da escrivaninha. Dava para ver um vulto vestido com panos encardidos. O rapaz suspirou e deu continuidade ao monólogo:
— Uma noite, sonhei que era toda olhos. Um grande par de olhos a vagar nesta casa, se arrastando, como é de seu costume fazer. Foi uma visão medonha, tenho que admitir, mas... muito intrigante. E penso se não é possível que se torne realmente aqueles olhos. Como sempre não fala nada. É muda mesmo ou não sabe falar, criatura asquerosa?— Só então me dei conta de que se tratava de uma garota, embora não pudesse ver seu rosto. A moça encolheu-se.
—Devia arrancar sua língua! É desnecessário mantê-la, se não a usa para nada!
O rapaz agachou-se e esbofeteou a menina com força. Limpou o sangue do anel num lenço e ordenou que o deixasse em paz. Ela, por sua vez, arrastou-se para fora da sala, empurrando com força a porta e deixando-a aberta de vez. Quase caí de costas com o movimento. Ainda me sentia aturdida com o que acabara de assistir.
Enfiando o lenço no bolso do colete cinza, Cássio virou-se para mim lentamente, parecendo finalmente atentar para minha presença. Tentei controlar a tremedeira de meus braços. De repente senti frio, mas busquei me manter firme nos segundos infinitos em que ele me encarou. Na época me perguntei se ele sabia que eu estava ali, atrás da porta, acompanhando a cena violenta. Hoje tenho certeza de que sabia, e mesmo assim não demonstrou constrangimento. Tampouco parecia consternado ou envergonhado.
Ele apresentou-se como Cássio, dono do lugar e único herdeiro da família. Depois de uma breve entrevista, passou-me a lista de obrigações e foi-se tão logo apresentou meus aposentos. Meu quarto ficava no casarão, enquanto os outros empregados dormiam num pequeno prédio nos fundos da propriedade. E assim fui admitida na Residência Stern.
Carmem era uma moça, cuja aparência me abstenho de descrever, por não encontrar palavras que as valham. Tinha dezesseis anos, acho. Disseram-me que os jovens Stern eram irmãos por parte de um dos pais. Nem sempre o que nos dizem é verdade. Quase nunca é.
Demorei a habituar-me ao tratamento dispensado por Cássio à própria irmã. Para ser sincera, jamais me acostumei. Não sei como hoje ainda tenho coragem de relembrar esses fatos.
Quem sabe eu venha a ter culpa, mas a verdade, é que agi pensando fazer o certo. Talvez o demônio tenha me enfeitiçado. No entanto, agora que a vida já se finda e não tenho muito a fazer, quero lhe contar minhas lembranças. Malditas talvez, mas sempre lembranças.
...
Costumavam chamar-me Amélia. Entrei na residência Stern com recomendação de minha antiga patroa, a quem servi desde os treze anos. Fui — durante toda minha vida — uma governanta, assim como minha mãe antes de mim.
Lembro-me de, ao saber que eu não tinha filhos ou família, o jovem Cássio ter me
admitido sem demora, já que eu poderia residir no emprego. Fiquei espantada com a rapidez de sua decisão. Foi uma entrevista rápida, sem muitas perguntas e praticamente nenhuma apresentação. Parecia que os empregados não duravam muito ali. Sempre se demitiam. Algo a ver com a menina.
Aquele moço pálido e alto, de cabelos negros perfeitamente alinhados com brilhantina, levava no olhar um quê de loucura. Um leve misto de pesar e sarcasmo. O rosto quadrado e determinado contrastava com o porte ébrio. Vestia-se à moda dos boêmios e parecia não se melindrar com opiniões alheias. Quase nunca trazia alguém em casa, preferindo sair a ficar. Era como se algo o enchesse de repulsa, talvez a atmosfera triste do lugar soturno ou apenas a presença da irmã...
A primeira vez que pude realmente ver Carmem, ela estava embaixo das escadas do salão de entrada, me fitando da escuridão do vão.
Seus olhos grandes de cor âmbar se destacavam nas sombras de forma assustadora. Quando me viu olhando de volta, fugiu correndo. Foi então que percebi que era só uma garota franzina e pequena, magra para a idade. Meu coração de mãe, que nunca teve um filho, enterneceu.
Quando às vezes minha mente se distraía, vinha à tona a lembrança de Cássio batendo em Carmem. Por que maltratar a pobre menina? Se eram meios-irmãos não havia motivo para isto. Foi então que ao chegar na cozinha, reclamando da situação, soube pela camareira que Carmem sequer tinha um quarto, morava no porão.
— Sabe o que eu acho senhorita Amélia? — Disse Joana. — Essa menina não tem quarto porque não quer. Ela é muito estranha. Uma vez eu trouxe meu pequeno Tobias e o deixei brincando no jardim. Eu vi essa moça tocar no meu filho. Ele passou mais de um mês doente depois disso.
— Que absurdo, Joana! Chega a ser pecado culpar alguém dessa maneira. — ralhei.
— Essa moça carrega uma maldição, Senhorita. Pode escrever o que estou falando! — Garantiu Joana e se afastou.
Uma mudez profunda me atingiu e me contive para não chorar. Que tipo de sina essa
garota teria para seguir em uma vida tão miserável? Odiada pelo irmão, uma estranha em seu próprio lar, mal vista pelos próprios empregados. Tinha que fazer algo. E fiz.
Talvez pudesse me aproximar da garota solitária. Poderia ser uma amiga para Carmem, que parecia não ter ninguém. O irmão reclamava de seus modos, mas não se preocupava em educá-la.
Naquela noite, depois de todos se recolherem, peguei uma caneca de chocolate e alguns biscoitos e levei em uma bandeja até o porão. A menina se encolheu, espiando por trás de uma coluna quando entrei. Deixei a bandeja sobre a cama e comecei a falar-lhe, tentando tirá-la de seu refúgio. Deu certo.
Aos poucos, Carmem se aproximou. Comecei a contar-lhe uma história de contos de fadas. Quando terminei, ela estava acabando de devorar os biscoitos e me olhando com seus olhos brilhantes, como se nunca tivesse sido tão feliz como naquele momento. Fiquei emocionada. Como alguém podia maltratá-la? Carmem era apenas uma criança que precisava de atenção.
Nas semanas seguintes encomendei tecidos e durante as noites, depois de me certificar que Carmem estava alimentada e bem, costurei para ela novas mudas de roupa.
Não demorou muito para que eu a vestisse corretamente, as roupas eram simples, mas ainda assim, muito melhores que os farrapos usados antes. Ensinei-lhe a trançar os longos cabelos negros.
Uma noite, quando terminei de ler Rapunzel, percebi o olhar interessado de Carmem para o livro.
— Você sabe ler? — Perguntei. Ao que ela apenas negou movimentando a cabeça para os lados.
— Gostaria de aprender? — Continuei. Dessa vez ela apenas me fitou, a expressão séria.
— Consegue falar, querida? — Eu sabia que ela podia me ouvir perfeitamente, mas jamais escutei sua voz. Talvez ela realmente fosse muda, ou algo a impedisse de falar.
Carmem deixou os braços caírem ao longo do corpo, voltou para a cama e encolheu-se no canto mais escuro. Eu estava decidida a ensinar-lhe a ler.
Recolhi-me em meus aposentos, revolvendo na memória os métodos que havia usado
para alfabetizar os filhos dos empregados quando ainda era assistente de minha mãe.
Retornei ao porão, noite após noite. Avançávamos lentamente. A cada visita uma nova conquista por menor que fosse. Ainda era chocante que uma moça de origem abastada parecesse tão selvagem e abandonada. Como ninguém poderia ter tomado a responsabilidade de educá-la? Como a família pôde ser tão negligente? Essas questões ocupavam minha cabeça com mais frequência do que gostaria.
Quando Carmem escreveu seu próprio nome pela primeira vez, decidi dar-lhe um presente que vinha guardando já havia um tempo. Tirei-os da bolsa e a ajudei a calçá-los. Os olhos dela brilhavam ao ver os pés dentro dos novos sapatos pretos. Parecia que o natal havia chegado mais cedo!
Surpreendi-me quando ela virou em minha direção e me abraçou. Lágrimas caíram de meus olhos sobre seus cabelos enquanto retribuía o gesto. Quando Carmem viu que eu chorava, seu rosto ficou sem expressão. Não sabia o que lhe falar, então a afastei e subi as escadas secando o rosto, e retomei minhas tarefas.
Houve uma manhã em que meu coração parou dentro do peito. Deixei Carmem na biblioteca com um grande livro sobre alfabeto, de onde deveria copiar as letras. Aquele era o canto mais arejado da casa, os janelões iam do chão ao teto e davam para o jardim da parte de trás do terreno.
Retornei horas mais tarde, depois de organizar as tarefas dos empregados e orientar o carpinteiro sobre os reparos que uma parte do gradeado do portão estava precisando. Durante o meu almoço, tive uma ideia e montei uma bandeja com uma refeição de verdade. Pretendia ensinar Carmem a usar talheres corretamente e corrigir sua predileção por doces. Eu já havia falhado outras vezes na tentativa de alimentá-la normalmente.
Quando me aproximei da porta aberta da biblioteca, congelei ao ver Cássio sentado em frente a Carmem, analisando-a, calado. Retraí-me para trás da soleira imediatamente. “o que ele faria?” “o que estava pensando?” Me perguntava sem parar. Quando ele levantou da poltrona, andei o mais rápido que pude e entrei na despensa ao lado.
Deixei a bandeja sobre um saco de arroz e colei o ouvido na porta, alerta. Somente quando
ouvi passos no corredor, tive coragem de sair novamente. Repreendi-me muitas vezes por essa atitude covarde. Agi totalmente por instinto ou pânico. Fui ao encontro de Carmem, que continuava no mesmo lugar em que a havia deixado. Estava tranquila e já tinha avançado bastante na lição. Desisti da aula com talheres. A comida fria não seria um bom convite para o apetite da garota.
Obviamente, Cássio percebeu a diferença da menina. Não falou nada a principio, mas nos dias seguintes começou a olhar os empregados como se nos sondasse, tentando descobrir quem estava por trás da melhora de Carmem. Sentia seus olhos a me seguir pelos aposentos quando passava com um frio gélido na espinha. Passei a evita-lo sempre que possível. Não queria ficar perto do patrão se pudesse evitar.
Não sei se era pelo silêncio pesado do Casarão, ou pelas paredes acinzentadas que o erguiam, mas trabalhar naquele lugar era desolador. Uma tristeza começou a sondar minha alma e a denegrir meu corpo. Imaginei que a falta de sol me deprimisse.
O Casarão Stern ficava no alto de uma das muitas colinas da cidade, seguindo o padrão que valia por aquelas bandas: Quanto mais dinheiro uma família tivesse, mais distante do centro da cidade a casa estaria. Era comum, portanto, enormes casarões como aquele serem construídos entre brumas, próximo ao bosque local, recebendo pouca iluminação. Ainda que a razão explicasse os motivos de minha tristeza, meus instintos revolviam.
À noite era penoso dormir. Minha mente não descansava. Era como se, de algum lugar que eu não soubesse precisar, soasse um alarme — um aviso de perigo — que me deixava alerta mais do que deveria. Isso me exauria.
Os únicos momentos que conseguia me desvencilhar eram quando estava com Carmem. Cuidá-la me fazia esquecer toda a opressão invisível que me perseguia. Por ela eu encontrava forças para suportar um novo dia e sobreviver noite após noite. Se eu fosse embora, como minha alma me pedia, quem cuidaria da menina?
Numa dessas madrugadas de sono entrecortado, tive a impressão de ver um vulto pendurado de cabeça para baixo encolhido no canto do teto. Apesar do susto e do medo, tentei focar a visão. Na penumbra do quarto poderia ser qualquer coisa, inclusive minha imaginação pregando peças.
Apurando a vista, discerni que o vulto era grande demais para ser um morcego e pequeno demais para ser um homem. Estou tendo um pesadelo? Pensei comigo mesma.
Meu corpo estava rígido, afundado na cama como se toneladas me comprimissem. Ainda que eu piscasse várias vezes, o vulto permanecia lá, me espreitando, montando guarda. O grito nascia e morria na minha garganta sem que eu liberasse nem mesmo um ruído.
Ouvi o barulho de algo pesado caindo no andar de cima e então o vulto pareceu correr pelo teto, como uma aranha gigante com patas desengonçadas para seu tamanho.
O ser atravessou a parede do quarto e sumiu. Imediatamente senti meu corpo se libertar das amarras invisíveis. Sentei. Os pulmões ardiam pedindo oxigênio e meu coração batia frenético.
Com urgência, acendi a vela do criado mudo. Trêmula, peguei um copo de água da jarra ao lado. Minha garganta sedenta dos gritos que nunca aconteceram, estava grata pelo alívio proporcionado.
Precisava ver como estava Carmem. Se a coisa a tivesse encontrado, poderia feri-la! Apanhei o crucifixo da cabeceira da cama e saí decidida em busca da menina.
Entrei em pânico quando não a encontrei no porão. Eu mesma a havia deixado na cama, dormindo antes de me recolher. Continuei procurando pela casa com o coração disparado, o medo me engolia.
Subi as escadas para o segundo andar do casarão e então ouvi um barulho estranho. Parecia um gemido... Era um som abafado, angustiado. Perseguindo o barulho parei diante da porta de Cássio.
Por um momento ponderei se deveria bater na porta ou não. Senti o chão molhado sob meus pés descalços, e meus olhos arderam, quando, sob a luz da vela, percebi estar sobre uma poça de sangue. O líquido escorria por baixo da porta parecia vir de uma trilha até ali. Mais uma vez a sensação de grito estrangulado na garganta!
Abri a porta. Meu corpo inteiro tremia. A janela estava escancarada, a luz da lua cheia iluminava o cômodo.
Na cama, o corpo de Cássio jazia com um grande buraco no ombro enquanto o mesmo respirava com dificuldade. Ao lado dele, Carmem furava o próprio ombro com uma faca, o sangue descia em cascatas, ensopando tudo. À medida que a garota perfurava seu próprio ombro o ferimento do rapaz parecia diminuir o sangramento e aliviar seu sofrimento. Como se estivesse cicatrizando...
As palavras não saiam de minha boca. A vela caiu de minha mão e apagou. Carmem ergueu os olhos para mim. O rosto não demonstrava dor, nem qualquer outra expressão. Simplesmente me ignorou e continuou a escavar o próprio ombro.
Era assombroso! Meus joelhos cederam e me arrastei para perto dos dois. Ergui a mão para agarrar a barra de seu vestido, pedir que ela parasse com aquilo. As lágrimas rolavam por minha face, enquanto o crucifixo caia no chão, esquecido em meio a minha dor.
— Não querida, por favor, pare, pare com isso...
Um som de tilintar invadiu o quarto, como se a noite resolvesse ter voz própria. Um barulho estridente, ignorando o lento transcorrer da escuridão em aurora. Incapaz de manter os olhos abertos protegi o rosto com o braço enquanto uma luminosidade inexplicável atravessava minhas pálpebras com força. Ouvi pássaros cantando e o barulho misterioso se revelou ser apenas o despertar do relógio de cabeceira.
Finalmente abri os olhos e vi que mais um dia havia amanhecido. Meu corpo estava empapado de suor. Um pesadelo. Foi um maldito pesadelo. Ao lado de minha mão direita o crucifixo jazia sobre um lenço branco, semicoberto.
Ainda que me sentisse aliviada por tudo não passar de um sonho, meu corpo tremia e eu sentia muito frio. Fui lentamente à janela. Parecia que finalmente teríamos sol na mansão Stern.

Havia terminado de coordenar as empregadas para colocar a mesa do café da manhã, quando Cássio desceu. Espantosamente, estava assobiando e parecia de ótimo humor.
— Bom ver que o desjejum já está pronto, tenho muitos afazeres hoje. Podem se retirar. —Sentou-se e começou a se servir, ignorando-nos.
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Saiba mais: http://www.baratoliterario.com.br/2018/03/carmem.html

4 comentários:

  1. Quero maaaais... continuação :D

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  2. Oi Karina sou leitora do site amo muito. Gostaria de saber como faço para divulgação aqui. Obrigada. Tenho duas obras no Wattpad e toda ajuda para divulgação aceito.

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    1. Oi! É só enviar o primeiro capítulo/prólogo, sinopse, capa e link para livroson-line@hotmail.com
      Porém demora dois ou três meses até a divulgação

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Boa leitura, E SEM SPOILER!