29 de outubro de 2018

Capítulo 94

Como fora uma vez antes, assim era novamente.
O começo e o fim e a eternidade, uma torrente de luz, da vida que fluía entre eles, duas metades de uma linhagem clivada.
A névoa rodopiou, velando o chão sólido abaixo. Uma ilusão, talvez – para suas mentes suportarem onde estavam agora. Um lugar que não era um lugar, em uma câmara de muitas portas. Mais portas do que eles poderiam esperar contar.
Algumas feitas de ar, algumas de vidro, algumas de chama e ouro e luz.
Um novo mundo além de cada um; um novo mundo acenando. Mas eles permaneceram lá, na encruzilhada de todas as coisas. Nos corpos que não eram seus corpos, eles ficaram em meio a todas aquelas portas, seu poder jorrando, reunindo-se diante deles. Misturando e fundindo, uma bola de luz, de criação, pairando no ar.
Cada brasa fluía deles para a esfera crescente diante deles, para o cadeado tomando forma, não retornaria. Não seria reabastecido.
Um poço secando. Para sempre.
Mais e mais e mais, sugando-os a cada respiração. Criação e destruição.
A esfera girou, suas bordas entortando, encolhendo. Tomando a forma que escolheram, uma coisa de ouro e prata. O cadeado que selaria todas essas portas infinitas para sempre.
Ainda que entregassem o seu poder, o forjamento do cadeado exigiu ainda mais.
E começou a doer.


Ela era Aelin e ainda assim não era.
Ela era Aelin e ainda assim era infinita; ela era todos os mundos, ela era...
Ela era Aelin.
Ela era Aelin.
E ao inserir as chaves nela, eles entraram nos verdadeiros portões de Wyrd. Um passo, um pensamento ou um desejo permitiria que eles acessassem qualquer mundo que desejassem. Qualquer possibilidade.
Um arco permanecia atrás deles. Um arco que cheirava a pinheiros e neve.
Lentamente, o cadeado se formou, a luz se transformou em metal – em ouro e prata. Dorian estava ofegante, a mandíbula esticada, enquanto davam... davam... e davam seu poder para isso. Para nunca mais ser visto.
Foi agonizante. Agonia como nada que ela conhecesse.
Ela era Aelin. Ela era Aelin e não as coisas que colocou em seu braço, não este lugar que existia além da razão. Ela era Aelin; ela era Aelin; e ela viera aqui para fazer alguma coisa, tinha vindo aqui prometendo fazer alguma coisa...
Ela lutou contra o grito crescente enquanto seu poder se movia para longe, como se descascasse a pele de seus ossos. Precisamente como Cairn tinha fizera, se deleitara. Ela havia sobrevivido a ele, no entanto. Tinha escapado das garras de Maeve. Ela sobreviveu a ambos. Para fazer isso. Para vir aqui.
Mas ela estava errada. Ela não podia suportar. Não podia tolerar essa perda e dor e loucura crescente quando uma nova verdade se tornou clara:
Eles não deixariam este lugar. Não sobraria nada de qualquer maneira. Eles se dissolveriam, névoa para flutuar na neblina ao redor deles.


Era uma agonia como Dorian nunca conheciera. Seu próprio eu, desvendado fio por fio.
A forma do cadeado, Elena dissera a Aelin, não importava. Poderia ser um pássaro, uma espada ou uma flor para o que esse lugar, esses portões, ligavam.
Mas as mentes deles, o que sobrou delas enquanto se desgastavam, escolheram a forma que conheciam, a que fazia mais sentido. O olho de Elena, nascido de novo – o cadeado mais uma vez.
Aelin começou a gritar. Gritar e gritar.
Sua magia foi arrancada daquele lugar sagrado e perfeito dentro dele.
Mataria os dois para forjar. Mataria os dois. Eles tinham vindo aqui com a desesperada esperança de que ambos saíssem.
E se eles não parassem, se não parassem com isso, nenhum sairia.
Ele tentou mover a cabeça. Tentou dizer a ela. Pare.
Sua magia escorreu dele, o cadeado bebendo tudo, uma força para não ser controlada. Uma fome insaciável que os devorava.
Pare. Ele tentou falar. Tentou puxar de volta.
Aelin soluçava agora – soluçava por entre os dentes.
Logo. Em breve agora, o cadeado levaria tudo. E essa destruição final seria a mais brutal e dolorosa de todas.
Os deuses os fariam assistir enquanto eles reivindicassem a alma de Elena? Ele teria a chance, a habilidade, de tentar ajudá-la, como havia prometido a Gavin? Ele sabia a resposta.
Pare.
Pare.
— Pare.
Dorian ouviu as palavras e por um batimento cardíaco não reconheceu quem falou. Até que um homem apareceu de uma dessas portas impossíveis, mas possíveis. Um homem que parecia de carne e osso, como eles eram, e ainda brilhava em suas bordas.
O pai dele.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!