29 de outubro de 2018

Capítulo 93

Os quatro caminharam em silêncio pelas árvores. Seguindo pela antiga estrada para as minas de sal.
Era o único lugar onde os batedores não estavam vigiando. Cada passo mais perto a deixava enjoada, com um suor lento percorrendo sua espinha. Rowan manteve a mão ao redor da dela, o polegar esfregando sua pele.
Aqui, neste lugar horrível e de morte, de tanto sofrimento – aqui seria onde ela enfrentaria seu destino. Como se nunca tivesse escapado, não de verdade.
Sob a cobertura da escuridão, as montanhas nas quais as minas eram esculpidas eram pouco mais que sombras. A grande muralha que cercava o campo da morte não passava de uma mancha de escuridão.
Os portões haviam sido deixados abertos, um quebrado em suas dobradiças.
Talvez os escravos libertados tivessem tentado arrancá-lo quando saíram.
Os dedos de Aelin apertaram os de Rowan quando passaram por baixo do arco e entraram no terreno aberto das minas. Lá no centro, havia os postes de madeira onde ela fora chicoteada. Em seu primeiro dia, em tantos dias.
E ali, na montanha à sua esquerda, era onde ficavam os poços. Os poços sem luz para onde eles a empurraram.
Os edifícios dos superintendentes das minas estavam escuros. Só a casca.
Levou todo o seu autocontrole não olhar para os pulsos, onde as cicatrizes dos grilhões estiveram. Não sentir o suor frio escorrendo pelas suas costas, e também não saber que havia cicatrizes ali. Apenas a tatuagem de Rowan, pintada sobre a pele lisa.
Como se esse lugar fosse um sonho – um pesadelo invocado por Maeve. A ironia não foi perdida por ela. Ela escapou dos grilhões duas vezes agora – só para voltar aqui. Uma liberdade temporária. Tempo emprestado.
Ela deixara Goldryn em sua barraca. A espada seria de pouca utilidade onde estavam indo.
— Nunca pensei que veríamos este lugar novamente — murmurou Dorian. — Certamente não desse jeito.
Nenhum dos passos do rei vacilou, seu rosto sombrio enquanto apertava o punho de Damaris. Pronto para encontrar o que os esperava.
A dor que ela sabia estava chegando. Não, ela nunca escapara realmente, escapara?
Eles pararam perto do centro do pátio de terra. Elena a acompanharia forjando o cadeado, colocando as chaves de volta nos portões. Embora não fosse haver uma grande exibição de magia, nenhuma ameaça qualquer ao redor deles, ela queria estar longe. Longe de qualquer outra pessoa.
Ao luar, o rosto de Chaol estava pálido.
— O que vocês precisam que nós façamos?
— Estejam aqui — disse Aelin simplesmente. — É o suficiente.
Era a única razão pela qual ela ainda era capaz de suportar ficar aqui, neste lugar odioso.
Ela encontrou o olhar indagador de Dorian e assentiu. Não adiantava desperdiçar tempo. Dorian abraçou Chaol, os dois falando baixo demais para que Aelin ouvisse.
Aelin começou a esboçar uma marca de Wyrd na terra, grande o suficiente para ela e Dorian permanecerem em cima. Haveria duas, sobrepostas uma na outra: Abrir. Fechar.
Trancar. Destrancar.
Ela as aprendera desde o começo. Chegou a usá-las.
— Sem doces despedidas, princesa? — Rowan perguntou enquanto ela traçava a marca com o pé.
— Elas parecem dramáticos — disse Aelin. — Extremamente dramáticas, mesmo para mim.
Mas Rowan a parou, o segundo símbolo pela metade. Virou o queixo dela na sua direção.
— Mesmo quando você estiver... lá — ele falou, seus olhos verde-pinho tão brilhantes sob a lua — eu estarei com você. — Ele colocou a mão sobre o coração dela. — Aqui, estou com você aqui.
Ela colocou a própria mão no peito dele e respirou seu perfume profundamente em seus pulmões, seu coração.
— Como eu estarei com você. Sempre.
Rowan a beijou.
— Eu te amo — ele sussurrou em sua boca. — Volte para mim.
Então Rowan recuou, um pouco além das marcas inacabadas.
A ausência de seu cheiro, seu calor, encheu-a de frio. Mas ela manteve os ombros para trás. Manteve a respiração estável. Memorizou as linhas do rosto de Rowan.
Dorian, com os olhos brilhando, pisou nas marcas.
— Faça a última quando terminarmos. — Aelin disse para Rowan.
Seu príncipe, seu parceiro, assentiu.
Dorian puxou um pedaço dobrado de tecido de sua jaqueta. Abriu-o para revelar duas lascas de pedra negra. E o Amuleto de Orynth.
Seu estômago se agitou, a náusea daquela sensação de outro mundo ameaçando levá-la de joelhos. Mas ela pegou o Amuleto de Orynth das mãos dele.
— Pensei que você gostaria de ser aquela a abri-lo — Dorian disse calmamente.
Aqui, no lugar onde ela sofreu e sofreu, aqui no lugar onde tantas coisas começaram.
Aelin pesou o antigo amuleto nas palmas das mãos, passou os polegares pela costura dourada das bordas. Por um segundo, ela estava novamente naquele quarto aconchegante em uma propriedade à beira do rio, sua mãe ao lado dela, deixando o amuleto sob seus cuidados.
Aelin passou os dedos pelas marcas de Wyrd do verso. As runas que explicavam seu destino odioso: Inominável é o meu preço.
Escrito aqui, todo esse tempo, por tantos séculos. Um aviso de Brannon e uma confirmação. Do seu sacrifício. O sacrifício dela.
Brannon havia se enfurecido com aqueles deuses, havia marcado o amuleto e colocado todas aquelas pistas para que um dia ela encontrasse. Assim ela entenderia. Como se pudesse de alguma forma desafiar esse destino. A esperança de um tolo.
Aelin virou o amuleto de novo, passando os dedos pelo cervo imortal na frente.
Tempo emprestado. Tudo tinha sido tempo emprestado.
O ouro selando o amuleto se dissolveu em suas mãos, sibilando quando caiu sobre a terra gelada.
Com uma torção, ela separou os dois lados do amuleto.
O cheiro desagradável da terceira chave a atingiu, acenando. Sussurrou em idiomas que não existiam em Erilea e nunca existiriam.
Aelin apenas jogou a lasca da chave de Wyrd na mão de Dorian que esperava. Ele a juntou com as outras duas, e o som poderia ter ecoado na eternidade, em todos os mundos.
Dorian estremeceu, Chaol e Rowan recuaram. Aelin embolsou as duas metades do amuleto. Um pedaço de Terrasen para levar com ela. Onde quer que eles fossem.
Aelin encontrou o olhar de Rowan uma última vez. Viu as palavras lá. Volte para mim.
Ela guardaria essas palavras, aquele rosto, consigo também. Mesmo quando o cadeado exigisse tudo, isso permaneceria. Sempre permaneceria.
Ela engoliu o aperto na garganta. Quebrou o olhar penetrante de Rowan. E então cortou a palma da mão. E depois a de Dorian.
As estrelas pareceram se aproximar, as montanhas espiando por cima dos ombros de Aelin e Dorian, enquanto ela descia a faca pela terceira vez, pelo antebraço. Profundo e largo, pele se dividindo.
Para abrir o portão, ela deveria se tornar o portão. Erawan havia começado o processo de transformar Kaltain Rompier naquele portão – colocara a pedra em seu braço não por segurança, mas para preparar seu corpo para as outras pedras.
Para transformá-la em um portão de Wyrd vivo que ele poderia controlar.
Apenas uma lasca em seu corpo destruiu Kaltain. Colocar todas as três em seu próprio...
Meu nome é Aelin Ashryver Galathynius, e eu não terei medo.
Eu não terei medo.
Eu não terei medo.
— Pronto? — Aelin perguntou.
Dorian assentiu.
Com um último olhar para as estrelas, um último olhar para o Senhor do Norte que guardava Terrasen, a poucos quilômetros de distância, Aelin pegou as lascas da palma estendida de Dorian.
E quando ela e Dorian juntaram as mãos ensanguentadas, enquanto a magia deles rugia através deles e se entrelaçava, ofuscada e eterna, Aelin inseriu as três chaves de Wyrd na ferida aberta de seu braço.


Rowan selou as marcas de Wyrd com um golpe de seu pé através da terra gelada.
No mesmo momento em que Aelin bateu a palma da mão no braço, selando as três chaves de Wyrd em seu corpo enquanto a outra mão segurava a de Dorian.
Isso tinha que funcionar. Tinha que ter sido por isso que seus caminhos se cruzaram, porque Aelin e Dorian haviam se encontrado duas vezes agora, neste exato lugar. Ele não podia aceitar outra alternativa. Ele não poderia tê-la deixado ir de outra forma.
Rowan não respirou. Ao lado dele, não tinha certeza se Chaol também respirava. Mas enquanto Aelin e Dorian ainda estavam lá, as cabeças erguidas, apesar do medo que sentia por eles, seus rostos estavam vazios. Ocos.
Sem flash de luz.
Nenhum sinal de poder.
Aelin e Dorian simplesmente permaneceram de pé, mãos unidas e fitando o espaço à frente.
Em branco. Sem ver. Congelados.
Se foram.
Estavam aqui, mas se foram. Como se seus corpos fossem conchas.
— O que aconteceu? — Chaol murmurou.
A mão de Aelin caiu de onde estivera segurando o braço, e pendia frouxamente ao seu lado. Revelando aquela ferida aberta. As lascas negras de rocha enfiadas dentro dela.
Alguma coisa no peito de Rowan, intricada e essencial, começou a se esticar. Começou a ficar tensa.
O elo de parceria.
Rowan deu um passo para frente, uma mão no peito.
Não. O elo de parceria contorcia-se, como se em agonia, como se estivesse aterrorizado. Ele parou, o nome de Aelin em seus lábios.
Rowan caiu de joelhos quando as três chaves de Wyrd dentro do braço de Aelin se dissolveram em seu sangue.
Como orvalho ao sol.

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