29 de outubro de 2018

Capítulo 92

Aelin não falou que pedir a eles para votar não era apenas deixá-los decidir, como povos livres do mundo, como selar seu destino. Ela não falou que também tinha sido uma coisa covarde de se fazer. Deixar alguém decidir por ela. Escolher a estrada adiante.
Acamparam naquela noite em Endovier, as minas de sal a apenas cinco quilômetros da estrada.
Rowan fez com que montassem sua tenda real. Sua cama real. Ela não comeu com os outros. Mal podia tocar a comida que Rowan colocava na mesa. Ela ainda estava sentada na frente dele, o coelho assado agora frio, examinando aqueles livros inúteis de marcas de Wyrd quando Rowan disse do outro lado da mesa:
— Eu não aceito isso.
— Eu sim. — As palavras eram planas, mortas. Como ela estaria, antes de o sol nascer completamente.
Aelin fechou o antigo tomo diante dela.
Apenas alguns dias os separavam da fronteira de Terrasen. Talvez ela devesse ter concordado em fazer isso agora, mas com a condição de que estivessem em solo de Terrasen. Terrasen, ao invés de Endovier.
Mas cada dia que passava era um risco. Um risco terrível.
— Você nunca aceitou nada em sua vida — rosnou Rowan, colocando-se de pé e apoiando as mãos na mesa. — E agora de repente está disposta a fazê-lo?
Ela engoliu contra a dor em sua garganta. Observou os livros que ela vasculhara três vezes agora sem sucesso.
— O que se supõe que eu deva fazer, Rowan?
— Você manda tudo para o inferno! — Ele bateu com o punho na mesa, sacudindo os pratos. — Você manda para o inferno os planos deles, suas profecias e destinos, e faz o seu próprio! Você faz qualquer coisa além de aceitar isso!
— O povo de Erilea falou.
— Para o inferno com isso também — ele rosnou. — Você pode começar seu mundo livre depois desta guerra. Deixe-os votar em seus próprios reis e rainhas se quiserem.
Ela soltou um grunhido.
— Eu não quero esse fardo por mais um segundo. Eu não quero escolher e descobrir que fiz a escolha errada em atrasar.
— Então você teria votado contra. Você teria ido para Terrasen.
— Isso importa? — Ela se levantou. — Os votos não estavam a meu favor de qualquer maneira. Ouvir que eu queria ir a Orynth, lutar uma última vez, apenas os teria influenciado.
— Você é quem está prestes a morrer. Eu diria que você consegue ter uma voz nisso.
Ela mostrou os dentes.
— Este é meu destino. Elena tentou me tirar disso. E veja onde isso a levou – com uma cabala de deuses vingativos jurando acabar com sua alma eterna. Quando o cadeado for forjado, quando eu fechar o portão, estarei destruindo outra vida além da minha.
— Elena teve mil anos de existência, seja vivendo ou como um espírito. Perdoe-me se não dou valor que o tempo dela agora tenha chegado ao fim, quando você só teve vinte anos.
— Eu cheguei aos vinte anos por causa dela. — Nem mesmo vinte. Seu aniversário ainda estava a alguns meses de distância. Era uma primavera que ela não veria.
Rowan começou a andar de um lado para o outro, seus passos nervosos devorando o tapete.
— Essa bagunça é por causa dela também. Por que você deveria suportar seu peso sozinha?
— Porque sempre foi meu para começar.
 Besteira. Poderia ter sido tão facilmente Dorian. Ele está disposto a fazer isso.
Aelin piscou.
— Elena e Nehemia disseram que Dorian não estava pronto.
— Dorian entrou e saiu de Morath, ficou cara a cara com Maeve, e derrubou todo o maldito lugar. Eu diria que ele está tão pronto quanto você.
— Eu não vou permitir que ele se sacrifique em meu lugar.
— Por quê?
— Porque ele é meu amigo. Porque não poderei viver comigo mesma se o deixar ir.
— Ele disse que faria isso, Aelin.
— Ele não sabe o que quer. Ele mal está emergindo dos horrores que sofreu.
— E você está? — Rowan desafiou, totalmente imperturbável. — Ele é um homem adulto. Pode fazer suas próprias escolhas – nós podemos fazer escolhas sem você dominá-las.
Ela mostrou os dentes.
— Está decidido.
Ele cruzou os braços.
— Então você e eu faremos isso. Juntos.
O coração dela parou em seu peito.
— Você não vai forjar o cadeado sozinha.
— Não. — Suas mãos começaram a tremer.
— Essa não é uma opção.
— De acordo com quem?
— De acordo comigo.
Ela não conseguia respirar em torno do pensamento dele sendo apagado da existência.
— Se fosse possível, Elena teria me dito. Alguém com a minha linhagem precisa pagar.
Ele abriu a boca, mas viu a verdade em seu rosto, suas palavras. Ele balançou a sua cabeça.
— Prometi que encontraríamos um meio de pagar essa dívida juntos.
Aelin examinou os livros espalhados. Nada nos livros. Aquele pedaço de esperança que eles ofereceram não correspondiam a nada.
— Não há alternativa. — Ela passou as mãos pelos cabelos. — Eu não tenho uma alternativa — ela emendou. Nenhuma carta na manga, nenhuma grande revelação. Não para isso.
— Nós não faremos isso amanhã, então — ele empurrou. — Nós esperamos. Diga aos outros que queremos alcançar Orynth primeiro. Talvez a Biblioteca Real haja alguns textos...
— Qual é o sentido de uma votação se ignorarmos o resultado? Eles decidiram, Rowan. Amanhã, tudo acabará.
As palavras soaram vazias e doentias dentro dela.
— Deixe-me encontrar outro caminho. — Sua voz quebrou, mas seu ritmo não vacilou. — Eu vou encontrar outro caminho, Aelin.
— Não há outro caminho. Você não entende? Tudo isso — ela sussurrou, braços abertos. — Tudo isso foi para mantê-los vivos. Todos vocês.
— Com você como o preço pedido. Para expiar alguma culpa que perdura.
Ela bateu a mão sobre a pilha de livros antigos.
— Você acha que eu quero morrer? Acha que algo disso é fácil, olhar para o céu e se perguntar se é o último que verei? Olhar para você e me perguntar sobre aqueles anos que não teremos?
— Não sei o que você quer, Aelin — rosnou Rowan. — Você não tem sido totalmente acessível.
Seu coração trovejou.
— Eu quero que isso acabe, de uma forma ou de outra. — Seus dedos se fecharam em punhos. — Eu quero que isso seja feito.
Ele balançou a cabeça.
— Eu sei. E sei o que você passou, que aqueles meses em Doranelle foram um inferno, Aelin. Mas você não pode parar de lutar. Não agora.
Os olhos dela queimaram.
— Eu aguentei por isso. Por este propósito. Assim posso colocar as chaves de volta no portão. Quando Cairn me destruiu, quando Maeve arrancou tudo que eu sabia, apenas lembrar que essa tarefa dependia da minha sobrevivência me impediu de quebrar. Saber que, se eu falhasse, todos vocês morreriam. — Sua respiração ficou irregular, afiada. — E desde então, eu fui tão idiota em pensar que talvez eu não tivesse que pagar a dívida, que eu pudesse ver Orynth de novo. Que Dorian poderia fazer isso no lugar. — Ela cuspiu no chão. — Que tipo de pessoa isso me torna? Que se encheu de pavor quando ele chegou hoje?
Rowan voltou a abrir a boca para responder, mas ela o interrompeu, a voz se quebrando.
— Pensei que eu poderia escapar disso – só por um momento. E assim que pensei, os deuses trouxeram Dorian de volta ao meu caminho. Diga-me que não é intencional. Diga-me que aqueles deuses, ou quaisquer forças que também governem este mundo, não estão rugindo que eu ainda deveria ser aquela a forjar o cadeado.
Rowan apenas olhou para ela por um longo momento, seu peito arfando.
— E se essas forças não tiverem trazido Dorian ao nosso caminho para que você fosse a única a pagar a dívida? — ele perguntou então.
— Eu não entendo.
— E se eles os querem juntos? Não para escolher um ou outro, mas compartilhar o fardo. Um com o outro.
Até o fogo nos braseiros pareceu parar. Os olhos de Rowan brilharam quando ele seguiu em frente.
— Naquele dia que vocês destruíram o castelo de vidro – quando vocês uniram as mãos, seu poder... eu nunca tinha visto nada parecido. Você foi capaz de fundir seus poderes, para se tornarem um. Se o cadeado exigir tudo de você, então por que não dar metade? Metade de cada um de vocês... quando ambos carregam o sangue de Mala?
Aelin deslizou lentamente para a cadeira.
— Eu... Nós não sabemos se irá funcionar.
— É melhor do que ir em sua própria execução com a cabeça baixa.
— Como eu poderia pedir a ele para fazer isso? — ela rosnou.
— Porque não é apenas seu fardo, por isso. Dorian sabe disso. Aceita. Porque a alternativa é perder você. — A raiva em seus olhos se fraturou, junto com sua voz. — Eu iria em seu lugar, se pudesse.
Seu próprio coração se partiu.
— Eu sei.
Rowan caiu de joelhos diante dela, colocando a cabeça em seu colo enquanto os braços dele envolviam sua cintura.
— Não posso suportar, Aelin. Eu não posso.
Ela enfiou os dedos pelos cabelos dele.
— Eu queria ter mil anos com você — disse ela suavemente. — Eu queria ter filhos com você. Eu queria que fôssemos para o além-mundo juntos.
Suas lágrimas caíram no cabelo dele.
Rowan levantou a cabeça.
— Então lute por isso. Mais uma vez. Lute por esse futuro.
Ela olhou para ele, para a vida que viu em seu rosto. Tudo o que ele ofereceu.
Tudo o que ela poderia ter, também.


— Eu preciso te pedir para fazer alguma coisa.
A voz de Aelin despertou Dorian de um sono intermitente. Ele se sentou em sua cama. Pelo silêncio do acampamento, tinha que ser a calada da noite.
— O quê?
Rowan estava de guarda atrás dela, observando o acampamento do exército sob as árvores. Dorian capturou seu olhar de esmeralda – viu a resposta que ele já precisava.
O príncipe cumprira sua promessa silenciosa antes.
A garganta de Aelin tremeu.
— Juntos — disse ela, com a voz embargada. — E se forjássemos o cadeado juntos?
Dorian soube o plano dela, sua esperança desesperada, antes que ela o expusesse. E quando ela terminou, Aelin apenas disse:
— Lamento até mesmo pedir a você.
— Sinto muito por não ter pensado nisso — ele respondeu, e ficou de pé, puxando as botas.
Rowan se virou para eles agora. Esperando por uma resposta que ele sabia que Dorian daria.
Então Dorian disse para os dois:
— Sim.
Aelin fechou os olhos, e ele não podia dizer se era de alívio ou arrependimento. Ele colocou a mão no ombro dela. Não queria saber qual foi a discussão entre ela e Rowan para conseguir que ela concordasse em aceitar. Para Aelin ter dito sim...
Seus olhos se abriram, e apenas uma resolução sombria brilhava lá dentro.
— Nós faremos isso agora — disse ela com voz rouca. — Antes dos outros. Antes de despedidas.
Dorian assentiu.
— Você quer que Chaol esteja lá? — ela perguntou apenas.
Ele pensou em dizer não. Pensou em poupar seu amigo de outro adeus, quando havia tanta alegria no rosto de Chaol, tanta paz.
Mas Dorian ainda respondeu:
— Sim.

4 comentários:

  1. ❤️❤️ eu já tinha pensando nisso! Ainda bem que vão fazer juntos

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  2. Eu quero morrer
    Mandem a mim, deixem meus neném em paz

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  3. Sarah, sua linda!
    Não esquecerei essa historia jamais!

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  4. O DORIAN SE MOSTRANDO, CLARAMENTE, O PERSONAGEM MAIS INCRÍVEL DA PORRA TODA
    EU AMO O DORIAN

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Boa leitura, E SEM SPOILER!