5 de outubro de 2018

Capítulo 9


OS DOIS CAMBALEARAM PARA FORA DA TENDA. Mas era tarde demais para fugir. Eu já estava de pé.
— Fique aqui — ordenei a Safiyah, sacando uma faca enquanto saía.
— Pare! — A ordem veio enquanto eu corria para fora da tenda atrás deles. Antes que pudesse ver claramente. Antes mesmo de reconhecer a pessoa mantendo Delila refém. O cabelo escuro dele caía sobre a sobrancelha altiva, os olhos em pânico como eu nunca tinha visto. A surpresa fez minha voz vacilar. — Mahdi?
Ele a segurava pelo pulso. Uma faca estava pressionada contra a garganta dela com tanta força que um filete de sangue fresco escorria por sua pele e seu khalat, manchando-o.
— Nem mais um passo! — Mahdi tremia muito.
— Mahdi. — Mantive a voz baixa, embora minha mente gritasse loucamente por uma explicação. — O que pensa que está fazendo?!
— Estou salvando Sayyida. — A voz dele saiu estridente. Tentei medir mentalmente a que distância estávamos do casamento. Longe demais para alguém escutá-lo, por mais que gritasse. — Erga as mãos onde eu possa ver!
Mantive contato visual com Delila enquanto fazia o que ele pedia, tentando desesperadamente dizer a ela que ia ficar tudo bem. Eu não a deixaria morrer ali.
— O que é isso na sua mão? — Mahdi gritou desesperado.
A faca.
— Vou largar — eu disse, mantendo a voz calma. Abri a mão e a deixei cair. A lâmina ficou cravada na areia. — Estou desarmada agora.
— Não está, não. — Mahdi puxou Delila, que choramingou. Ele agia como um maníaco, frenético, mantendo a faca preocupantemente perto da garganta dela. — Você tem o deserto inteiro a seu redor.
Ele tinha razão. Eu poderia derrubá-lo em poucos segundos se quisesse. Mas não podia garantir que não ia ferir Delila no processo.
— Mahdi… — falei de um jeito sereno, com a mesma voz que usava para acalmar um cavalo arisco. — Como exatamente cortar a garganta de Delila vai ajudar Sayyida?
— Ela é uma demdji! — ele gritou, como se a conclusão fosse óbvia. — Algumas pessoas acham que partes deles curam doenças, mas isso é mentira. Superstição de camponeses. Alguns chumaços de cabelo roxo não vão trazer Sayyida de volta. — Ele estava instável e desesperado. Nunca desejei tanto que pudesse mover o deserto sem precisar mover meu corpo. Tentei fazer isso, levantar a areia apenas com a mente. A areia se arrastou relutante antes de se acomodar de volta. Eu precisava de ajuda. — Conheço os livros. Quem tira a vida de um demdji ganha uma vida em troca. — Ele recitou como se fosse um texto sagrado, embora eu nunca tivesse ouvido nada daquilo num sermão.
— E o que isso quer dizer? — Eu precisava ganhar tempo, criar uma distração.
— Significa que Sayyida pode sobreviver se matar Delila. E eu trocaria a vida de qualquer demdji pela dela. Sem pensar duas vezes.
Lá. Atrás dele. Um relance de movimento à luz da lua. Disparando silenciosamente de uma sombra para a outra entre as árvores. Consegui vê-lo com clareza por um momento.
Jin.
Me recompus rápido o bastante e voltei a prestar atenção em Mahdi antes que ele notasse para onde eu olhava. Jin havia me seguido, no fim das contas. E tinha uma boa chance de salvar todo mundo sem derramamento de sangue se eu pudesse prender a atenção de Mahdi por mais tempo. Eu não precisava de uma distração. Eu era a distração.
— E depois? Vai fazer o quê? — Tinha que dar a Jin tempo para se aproximar. — Qual é seu plano? Ahmed jamais te perdoaria por matar a irmã dele, deve saber disso.
— Não estou nem aí para Ahmed. — Quanto mais frenético Mahdi ficava, mais irritante seu sotaque se tornava. — Esta rebelião está indo para o buraco, de qualquer forma.
— Tenho certeza de que não seremos nós indo para o buraco — eu disse. Jin estava a apenas dez passos agora. Tão perto que vi o canto de sua boca formar um sorriso diante do meu sarcasmo, embora mantivesse os olhos na irmã.
— Até você é capaz de ver isso. — Mahdi não parecia me ouvir. Estava se inclinando para a frente, desesperado, como se pudesse me convencer também. Como se eu fosse deixá-lo passar. — Ahmed deu um passo maior que as pernas. Saramotai foi só o começo. Haverá outras revoltas, e a guerra com os estrangeiros vai terminar, então o sultão destruirá vocês. Ahmed é fraco demais para controlar esse país inteiro. Não podemos salvar todo mundo. Então vou salvar quem está ao meu alcance.
Jin estava muito perto agora. A luz da lua o iluminou quando saiu da cobertura das árvores, projetando uma sombra no caminho de Mahdi. Seus olhos se arregalaram quando ele virou para encarar a nova ameaça. Sua faca feriu a pele macia da garganta de Delila com o movimento repentino, derramando sangue.
Ela gritou.
A hora da distração havia acabado. Arremessei o braço em um arco, dando um golpe de areia direto no rosto de Mahdi, cegando-o enquanto Jin disparava para cima dele. A mão de Jin agarrou a de Mahdi, afastando a faca do pescoço de Delila e aproximando-a de seu peito. Sacudi a mão aberta e a areia se moveu sob os pés de Mahdi, desequilibrando-o. A faca passou perto do ombro de Jin sem atingi-lo. Mahdi caiu, os dedos estalando como gravetos secos sob a força de Jin, a faca caindo de sua mão. Ele atingiu a areia com um grito de agonia. Jin segurou Delila.
E então estava tudo terminado. Delila desabou sobre o irmão, soluçando, a mancha de sangue em seu pescoço escurecendo a camisa branca de Jin. Os olhos dele encontraram os meus sobre a cabeça da irmã.
Eu não tinha mais como evitá-lo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!