29 de outubro de 2018

Capítulo 8

A escuridão cumprimentou Aelin quando ela voltou à consciência. Escuridão estreita, limitante.
Um movimento de seus cotovelos os fez acertar as laterais da caixa, correntes reverberando pelo pequeno espaço. Seus pés descalços poderiam roçar o final se ela se esticasse um pouco.
Ela levantou as mãos amarradas para a parede sólida de ferro poucos centímetros acima do rosto. Seguiu as espirais e os sóis gravados em sua superfície. Mesmo no interior, Maeve ordenara que fossem esculpidos. Assim, Aelin nunca poderia esquecer que aquela caixa fora feita para ela, muito antes de ela nascer.
Mas... aqueles eram os próprios dedos nus dela roçando o metal frio e áspero.
Ele tirara as manoplas de ferro. Ou se esquecera de colocá-las de volta depois do que fizera. A maneira como as segurara sobre o braseiro aberto, até que o metal estava em brasa em torno de suas mãos e ela gritava, e gritava...
Aelin pressionou as palmas das mãos contra a tampa de metal e fez força. O braço despedaçado, as lascas de ossos que se projetavam de sua pele: se foram.
Ou nunca estiveram ali. Mas parecia real. Mais do que as outras memórias que insistiam, exigindo que ela as reconhecesse. Aceitasse.
Aelin empurrou as palmas das mãos contra o ferro, os músculos se esforçando.
Não se moveu. Ela tentou novamente. Que ela tivesse força para fazer isso era graças aos outros serviços que os curandeiros de Maeve providenciavam: impedir que seus músculos se atrofiassem enquanto ela estava ali.
Um gemido suave ecoou na caixa. Um aviso.
Aelin baixou as mãos quando a fechadura rangeu e a porta se abriu.
Os passos de Cairn eram mais rápidos desta vez. Urgentes.
— Alivie-se no corredor e espere nesta porta — ele ordenou a Fenrys.
Aelin se preparou quando os passos pararam. Um grunhido e um arranhar de metal, e a luz do fogo entrou. Ela piscou contra a claridade, mas ficou imóvel.
Eles ancoraram suas correntes na caixa em si. Ela aprendeu isso da maneira mais difícil.
Cairn não disse nada quando desatou as correntes de sua âncora. O momento mais perigoso para ele, logo antes de movê-la para as âncoras no altar. Mesmo com os pés e as mãos atados, ele não se arriscava.
Ele também não o fez hoje, apesar de não ter se incomodado com as manoplas.
Talvez elas tivessem derretido sobre aquele braseiro, junto com sua pele.
Cairn puxou-a para cima quando meia dúzia de guardas apareceu silenciosamente na porta. Seus rostos não mostravam horror pelo que havia sido feito com ela. Ela já tinha visto esses machos antes. Em um trecho ensanguentado da praia.
— Varik —, disse Cairn, e um dos guardas se adiantou, Fenrys agora ao seu lado junto à porta, o lobo tão alto quanto um pônei.
A espada de Varik descansou na garganta de Fenrys.
Cairn agarrou suas correntes, puxando-a contra seu peito enquanto caminhavam em direção aos guardas, ao lobo.
— Você faz um movimento, e ele morre.
Aelin não disse a ele que ela não estava inteiramente certa de que possuía forças para tentar qualquer coisa, muito menos correr.
Um peso se estabeleceu nela. Ela não lutou contra o saco preto enfiado em sua cabeça enquanto passavam pela porta em arco. Não lutou enquanto caminhavam pelo corredor, embora contasse os passos e voltas.
Ela não se importava se Cairn era inteligente o suficiente para adicionar algumas voltas extras para desorientá-la. Ela contou-as de qualquer maneira. Ouviu o ímpeto do rio, cada vez mais alto, a névoa crescente que resfriava a sua pele exposta, alisando as pedras sob seus pés.
Então ar aberto. Ela não podia ver, mas sentiu os dedos úmidos roçarem sua pele, os sussurros do mundo se abrindo.
Corra. Agora. As palavras eram um murmúrio distante. Ela não tinha dúvidas de que a lâmina do guarda permanecia na garganta de Fenrys. Que isso derramaria sangue. A ordem de restrição de Maeve prendeu Fenrys muito bem – junto com aquele estranho dom dele para saltar entre curtas distâncias, como se estivesse se movendo de um cômodo para outro.
Ela há muito tempo perdera a esperança de que ele encontraria alguma maneira de usá-lo para tirá-los daqui. Duvidava que ele milagrosamente recuperasse a habilidade, caso a espada do guarda atacasse.
No entanto, se ela atendesse àquela voz, se corresse, o custo da vida dele valeria a dela?
— Você está debatendo, não está? — Cairn sibilou em seu ouvido. Ela podia sentir o sorriso dele mesmo através do saco que tapava sua visão. — Se a vida do lobo é um preço justo para sua fuga. — A risada de um amante. — Tente. Veja até onde chega. Temos alguns minutos de caminhada restando.
Ela o ignorou. Ignorou aquela voz sussurrando para correr, correr, correr. Passo após passo, eles andaram. Suas pernas tremeram com o esforço. Isso disse a ela o suficiente sobre quanto tempo estava aqui. Por quanto tempo ela não fora capaz de se mover adequadamente, mesmo com os cuidados dos curandeiros para evitar que seus músculos se gastassem.
Cairn conduziu-a por uma escadaria sinuosa que a fez respirar fundo, a névoa desaparecendo para o ar fresco da noite. Cheiros doces. Flores.
Flores ainda existiam. Neste mundo, neste inferno, flores se abriam em algum lugar.
O correr da água desvaneceu-se atrás deles para um murmúrio maçante, logo substituído pelo som alegre de água caindo à frente. Fontes. Azulejos frios e lisos tocavam seus pés e, através do capuz, chamas bruxuleantes lançavam ondas douradas. Lanternas.
O ar diminuiu, ficou parado. Um pátio, talvez.
Relâmpagos pulsavam em suas coxas, suas panturrilhas, avisando-a para diminuir a velocidade, para descansar.
Então o ar aberto se abriu novamente ao redor dela, a água rugindo mais uma vez.
Cairn parou, puxando-a contra seu corpo imponente, suas várias armas cravando em suas correntes, sua pele. As roupas dos outros guardas farfalharam quando pararam também. As garras de Fenrys clicaram na pedra, o som, sem dúvida, para sinalizar a ela que ele continuava por perto.
Ela percebeu por que ele sentiu a necessidade de fazê-lo quando uma voz feminina que era jovem e velha, divertida e desalmada, ronronou:
— Remova o capuz, Cairn.
Ele desapareceu, e Aelin precisou de apenas algumas piscadas para observar tudo...
Ela estivera aqui antes. Estivera naquela ampla varanda com vista para um rio e cachoeiras poderosos, percorrera a antiga cidade de pedra que se assomava às suas costas.
Estivera neste mesmo lugar, de frente para a rainha de cabelo escuro descansando em um trono de pedra em cima do estrado, a névoa envolvendo o ar ao seu redor, uma coruja branca empoleirada no encosto de seu assento.
Apenas um lobo estava esparramado aos pés dela desta vez. Negro como a noite, negro como os olhos da rainha, que se assentaram em Aelin, estreitando-se de prazer.
Maeve parecia contente em deixar Aelin olhar. Deixá-la perceber.
O vestido roxo escuro de Maeve brilhava como a bruma atrás dela, a longa cauda pendendo sobre os poucos degraus do estrado. Descendo até...
Aelin viu o que brilhava na base daqueles degraus e ficou imóvel. Os lábios vermelhos de Maeve se curvaram em um sorriso enquanto ela acenava com a mão de marfim.
— Se tiver a bondade, Cairn.
O homem não hesitou quando puxou Aelin para o que estava no chão.
Vidro quebrado, empilhado e arrumado em um círculo perfeito. Ele parou do lado de fora, o primeiro dos cacos grossos a três centímetros dos pés descalços de Aelin.
Maeve apontou para o lobo preto a seus pés e ele se levantou, pegando algo do braço largo do trono antes de trotar até Cairn.
— Pensei que sua posição deveria pelo menos ser reconhecida — disse Maeve, aquele sorriso de aranha sem vacilar quando Aelin viu o que o lobo ofereceu ao guarda ao lado de Cairn. — Coloque-a nela — a rainha ordenou.
Uma coroa, antiga e cintilante, brilhava nas mãos do guarda. Feita de prata e pérola, moldada em asas abertas que se encontravam no centro, cercada por pontas de diamante puro, ele tremeluzia como se os raios da lua tivessem sido capturados enquanto o guarda a pousava na cabeça de Aelin.
Um peso terrível e surpreendente, o metal frio espetando seu couro cabeludo. Era muito mais pesada do que parecia, como se tivesse um núcleo de ferro sólido. Um tipo diferente de grilhão. Sempre era.
Aelin controlou a vontade de recuar, derrubar a coisa da cabeça dela.
— A coroa de Mab — falou Maeve. — Sua coroa, por sangue e primogenitura. Sua verdadeira herdeira.
Aelin ignorou as palavras. Olhou para o círculo de cacos de vidro.
— Ah, isto — disse Maeve, notando sua atenção. — Acho que você sabe como isso deve funcionar, Aelin do Fogo Selvagem.
Aelin não disse nada. Maeve deu um aceno de cabeça. Cairn empurrou-a para a frente, diretamente sobre o vidro. Seus pés descalços rasgaram, a nova pele gritou quando partiu-se. Ela puxou o ar com força através dos dentes, engolindo seu choro no momento em que Cairn a empurrava de joelhos.
O ar lhe fugiu com o impacto. Com cada fragmento que cortou e cravou fundo.
Respirar – respirar era a chave, era vital. Ela puxou sua mente para longe, inspirando e expirando. Uma onda se afastando da costa e voltando.
O calor se acumulou sob seus joelhos, suas panturrilhas e tornozelos, o cheiro acobreado de seu sangue subindo para se misturar à névoa.
Sua respiração ficou irregular quando ela começou a tremer, quando um grito surgiu dentro dela.
Ela mordeu o lábio, caninos perfurando a carne. Ela não gritaria. Ainda não.
Respire – respire. O cheiro do sangue dela cobria sua boca enquanto ela mordia mais forte.
— É uma pena que não haja público para testemunhar isso — disse Maeve, sua voz distante e ainda muito perto. — Aelin Portadora do Fogo, finalmente usando a coroa da Rainha dos Feéricos. Ajoelhada aos meus pés.
Um tremor estremeceu Aelin, balançando seu corpo o suficiente para que o vidro encontrasse novos ângulos, novas entradas.
Ela se afastou ainda mais para longe. Cada respiração arrastou-a para o mar, para um lugar onde palavras, sentimentos e dor se tornaram uma costa distante.
Maeve estalou os dedos.
— Fenrys.
O lobo passou e se sentou ao lado do trono dela. Mas não antes de dar uma olhada no lobo negro. Apenas um giro da cabeça.
O lobo negro retornou o olhar, sem graça e frio. E isso foi o suficiente para Maeve dizer:
— Connall, você pode finalmente falar para o seu irmão gêmeo o que deseja dizer.
Um flash de luz.
Aelin inalou pelo nariz, exalou pela boca, repetidamente.
Apenas registrou o belo homem de cabelos escuros que agora estava no lugar do lobo. De pele bronzeada como seu gêmeo, mas sem a selvageria, sem a travessura brilhando no rosto. Ele usava roupas em camadas de um guerreiro, pretas para o cinza que Fenrys geralmente usava, lâminas gêmeas penduradas em sua cintura.
O lobo branco olhou para seu gêmeo, preso no local por aquela corrente invisível.
— Fale livremente, Connall — disse Maeve, o leve sorriso permanecendo. A coruja empoleirada no encosto de seu trono observava com ar solene, sem piscar os olhos. — Deixe seu irmão saber que estas palavras são suas e não ordem minha.
Um pé calçado com bota cutucou a espinha de Aelin, um golpe sutil para a frente. Mais forte contra o vidro.
Nenhuma quantidade de respirações poderia afastá-la o suficiente para conter o gemido abafado.
Ela odiava isso – odiava esse som, tanto quanto odiava a rainha diante dela e o sádico às suas costas. Mas ainda assim ele saiu, quase inaudível pelas cachoeiras trovejantes.
Os olhos escuros de Fenrys dispararam em sua direção. Ele piscou quatro vezes. Ela não conseguia se controlar para piscar de volta. Seus dedos se fecharam e abriram em seu colo.
— Você trouxe isso sobre si mesmo — disse Connall para Fenrys, chamando a atenção de seu irmão mais uma vez. Sua voz era tão gelada quanto a de Maeve. — Sua arrogância, sua imprudência descontrolada – era isso o que você queria? — Fenrys não respondeu. — Você não podia me deixar ter isso – ter alguma parte para mim. Fez o juramento de sangue não para servir à nossa rainha, mas porque assim não seria superado por mim pela primeira vez em sua vida.
Fenrys mostrou os dentes, mesmo quando algo como tristeza surgiu em seu olhar.
Outra onda ardente tomou seus joelhos, suas coxas.
Aelin fechou os olhos contra ela.
Ela suportaria isso, suportaria a dor. Seu povo sofreu por dez anos. Provavelmente estava sofrendo agora. Pelo bem deles, ela faria isso. Abraçaria isso. Mais tarde.
A voz retumbante de Connall passou por ela.
— Você é uma desgraça para nossa família, para este reino. Você se prostituiu a uma rainha estrangeira e por quê? Eu implorei para você se controlar quando fosse enviado para caçar Lorcan. Implorei para ser inteligente. Você pode muito bem ter cuspido na minha cara.
Fenrys rosnou, e o som deve ter sido alguma linguagem secreta entre eles, porque Connall bufou.
— Sair? Por que eu iria querer sair? E para quê? Para isso?
Mesmo com os olhos fechados, Aelin sabia que ele apontava para ela.
— Não, Fenrys. Eu não vou sair. E nem você.
Um gemido baixo cortou o ar úmido.
— Isso será tudo, Connall — disse Maeve, e a luz brilhou, penetrando até a escuridão atrás das pálpebras de Aelin. Ela respirou e respirou e respirou. — Você sabe com que rapidez isso pode acabar, Aelin — Maeve continuou. Aelin manteve os olhos fechados. — Diga-me onde escondeu as chaves de Wyrd, faça o juramento de sangue... A ordem não importa, suponho.
Aelin abriu os olhos. Levantou suas mãos amarradas diante dela. E fez para Maeve um gesto obsceno, tão sujo quanto ela jamais fizera.
O sorriso de Maeve se apertou – apenas um pouco.
— Cairn.
Antes que Aelin pudesse respirar, as mãos acertaram seus ombros. Empurrando-a para baixo.
Ela não pôde se impedir de gritar então. Não quando ele a empurrou em um poço ardente de agonia que correu por suas pernas, sua espinha.
Oh deuses – oh deuses...
Ao longe, o grunhido de Fenrys cortou seus gritos, seguido pela voz de Maeve.
— Muito bem, Cairn.
A pressão nos ombros dela ficou mais leve. Aelin inclinou-se sobre os joelhos.
Uma respiração completa – ela precisava respirar fundo.
Ela não podia. Os pulmões dela, o peito dela, só arfavam em respirações rasas e rascantes. Sua visão estava turva, flutuando, ondulando com o sangue que se espalhava além de seus joelhos.
Suportar; aguentar mais...
— Meus espiões me trouxeram uma informação interessante esta manhã — Maeve comentou. — Um deles contou que você estava no momento em Terrasen, preparando o exércitozinho que você reuniu para a guerra. Você, o príncipe Rowan e meus dois guerreiros desgraçados. Juntamente com o seu grupo habitual.
Aelin não se deu conta de que estava se segurando. Aquela lasca de esperança, tola e patética. Aquele pedaço de esperança de que ele viria atrás dela.
Ela lhe dissera para não vir, afinal. Pedira que protegesse Terrasen. Arranjara tudo para ele tomar uma posição desesperada contra Morath.
— Útil ter uma metamorfa para fazer o seu papel como rainha — ponderou Maeve. — Embora eu me pergunte quanto tempo o ardil pode durar sem seus dons especiais para incinerar as legiões de Morath. Quanto tempo até que os aliados que reuniu começarem a se perguntar por que a Portadora do Fogo não arde?
Não era mentira. Os detalhes, o plano dela com Lysandra... Não havia como Maeve conhecê-los, a menos que fossem verdade. Poderia Maeve ter feito um palpite de sorte ao mentir sobre isso? Sim, sim, e ainda assim...
Rowan tinha ido com eles. Todos eles foram para o norte. E chegaram a Terrasen.
Uma pequena misericórdia. Uma pequena misericórdia, e ainda assim... O vidro ao redor dela brilhava na névoa e na luz da lua, seu sangue uma mancha espessa passando por ele.
— Eu não desejo arrasar este mundo, como Erawan — Maeve falou, como se elas não fossem mais do que duas amigas conversando em uma das melhores casas de chá de Forte da Fenda. Se alguma ainda existia depois que as Dentes de Ferro saquearam a cidade. — Eu gosto de Erilea exatamente do jeito que é. Eu sempre gostei.
O vidro, o sangue, a varanda e o luar refletiam sua visão.
— Eu vi muitas guerras. Mandei meus guerreiros lutarem nelas, acabar com elas. Vi como são destrutivas. O próprio vidro onde está vem de uma dessas guerras, sabe. Das montanhas de vidro no sul. Elas já foram dunas de areia, mas os dragões as queimaram em vidro durante um conflito antigo e sangrento. — Um traço de diversão. — Alguns afirmam que é o vidro mais duro do mundo. O mais inflexível. Imaginei, dada a sua própria herança de exalar fogo, que você apreciaria suas origens.
Um estalar de língua, e então Cairn estava lá novamente, mãos em seus ombros.
Empurrando.
Cada vez mais forte.
Deuses, deuses, deuses...
Não havia deuses para salvá-la. Não de verdade.
Os gritos de Aelin ecoaram sobre rocha e água.
Sozinha. Ela estava sozinha nisso. Não adiantaria pedir ao lobo branco para ajudá-la.
As mãos nos ombros dela se afastaram.
Arquejando, bile queimando em sua garganta, Aelin mais uma vez se apoiou sobre os joelhos.
Suportar; aguentar mais...
— Os dragões não sobreviveram àquela guerra — Maeve simplesmente continuou. — E eles nunca mais se ergueram.
Os lábios dela se curvaram, e Aelin sabia que Maeve havia se assegurado fisso.
Outros manipuladores de fogo – caçados e mortos. Ela não sabia por que sentiu aquilo então. Aquela pontada de tristeza por criaturas que não existiam há incontáveis séculos. Que nunca mais seriam vistas nesta terra. Por que isso a deixou tão indescritivelmente triste. Por que importava, quando o sangue dela estava gritando em agonia.
Maeve se virou para Connall, que permanecia na forma feérica ao lado do trono, os olhos furiosos ainda fixos em seu irmão.
— Refrescos.
Aelin continuou ajoelhada naquele vidro enquanto comida e bebida eram servidas. Continuou ajoelhada enquanto Maeve comia queijo e uvas, sorrindo para ela o tempo todo.
Aelin não conseguiu parar o tremor que a dominou, a dormência brutal.
Profundamente, para longe, ela derivou. Não importava se Rowan não estivesse vindo. Se os outros tivessem obedecido a seus desejos de lutar por Terrasen.
Ela também salvaria sua terra do seu próprio jeito. Por quanto tempo ela conseguisse.
Ela devia muito a Terrasen. Nunca pagaria totalmente essa dívida.
Ao longe, as palavras ecoaram e a memória brilhou. Ela permitiu que a puxassem para trás, puxassem para fora de seu corpo.
Ela estava sentada ao lado de seu pai nos poucos degraus que desciam para o ringue de luta ao ar livre do castelo.
Era mais um templo do que um poço de brigas, ladeado por colunas pálidas e desgastadas que durante séculos testemunharam a ascensão dos guerreiros mais poderosos de Terrasen. Neste fim de tarde de verão, o ringue estava vazio, a luz pintando o ambiente de dourado.
Rhoe Galathynius passou a mão pelo escudo redondo, o metal escuro marcado de cicatrizes e se partindo por horrores há muito vencidos.
— Algum dia — ele falou enquanto traçava um dos longos arranhões sobre a superfície antiga — este escudo passará para você. Como foi passado a mim, e ao seu tio-avô antes de mim.
Sua respiração ainda estava irregular do treinamento que haviam feito. Apenas os dois, como ele prometera. A hora semanal que ele reservava para ela.
Seu pai colocou o escudo no degrau de pedra abaixo deles, seu tunk reverberando pelos pés calçados com sandálias dela. O escudo pesava quase tanto quanto ela, mas ele o carregava como se fosse apenas uma extensão de seu braço.
— E você — prosseguiu o pai — como muitas outras grandes mulheres e homens desta Casa, o usarão para defender nosso reino.
Os olhos dela se elevaram para seu rosto, belo e sem rugas. Solene e real.
— Essa é a sua responsabilidade, seu único dever. — Ele apoiou a mão na borda do escudo, batendo com os nós dos dedos na madeira para dar ênfase. — Defender, Aelin. Proteger.
Ela assentiu, sem entender. E o pai dela então beijara sua testa, como se quase esperasse que ela nunca precisasse fazer isso.
Cairn a enterrou no vidro novamente. Nenhum som permaneceu nela ao gritar.
— Estou ficando entediada com isso — disse Maeve, esquecendo sua bandeja de prata de comida. Ela se inclinou para frente em seu trono, a coruja atrás dela farfalhando suas asas. — Você acredita, Aelin Galathynius, que não farei os sacrifícios necessários para obter o que eu procuro?
Ela tinha esquecido de como falar. Não havia pronunciado uma palavra aqui, de qualquer maneira.
— Permita-me demonstrar — disse Maeve, endireitando-se.
Os olhos de Fenrys flamejaram com aviso.
Maeve acenou com a mão de marfim para Connall, congelada ao lado do trono. Onde ele permaneceu desde que trouxe a comida da rainha.
— Faça.
Connall puxou uma das facas de cinto. Deu um passo em direção a Fenrys.
Não.
A palavra foi um som frio através dela. Seus lábios até formaram-na quando ela se sacudiu contra as correntes, linhas de fogo líquido disparando ao longo de suas pernas.
Connall avançou outro passo.
Vidro rangia e rachava embaixo dela. Não, não...
Connall parou acima de Fenrys, a mão tremendo. Fenrys apenas rosnou para ele.
Connall levantou a faca no ar entre eles.
Ela não conseguia se levantar. Não podia se erguer contra as correntes e o vidro. Não podia fazer nada, nada...
Cairn agarrou-a pelo pescoço, os dedos cravando com força suficiente para machucá-la, e a empurrou novamente contra os cacos encharcados de sangue. Um grito áspero e quebrado escapou de seus lábios.
Fenrys. Sua única ligação à vida, a essa realidade...
A lâmina de Connall brilhou. Ele viera para ajudar Defesa Nebulosa. Desafiara Maeve então; talvez fizesse isso agora, talvez suas palavras odiosas tivessem sido um engodo...
A lâmina desceu.
Não em Fenrys.
Mas no próprio coração de Connall.
Fenrys se moveu – ou tentou. Mandíbula aberta no que poderia ter sido um grito, ele tentou e tentou irromper para seu irmão quando Connall caiu na varanda de azulejos. Quando o sangue começou a se acumular.
A coruja no trono de Maeve bateu as asas uma vez, como se estivesse horrorizada. Mas Cairn soltou uma risada baixa, o som passando pela cabeça de Aelin.
Real. Isso era real. Tinha que ser.
Algo frio e oleoso passou por ela. Suas mãos afrouxaram em seus lados. A luz deixou os olhos escuros de Connall, seu cabelo preto esparramado no chão ao redor dele em um reflexo sombrio do sangue que escorria.
Fenrys estava tremendo. Aelin também poderia estar.
 Você estragou algo que me pertencia, Aelin Galathynius — Maeve falou. — E que agora deve ser purgado.
Fenrys choramingava, ainda tentava rastejar para o irmão morto no chão. Feéricos podiam se curar; talvez o coração de Connall pudesse regenerar...
O peito de Connall subiu em uma respiração rasa e ruidosa.
Ele não se moveu novamente.
O uivo de Fenrys cortou a noite.
Cairn a soltou, e Aelin caiu no vidro, mãos e pulsos ardendo.
Ela se deixou ali, meio esparramada. Deixou a coroa cair de sua cabeça e deslizar pelo chão, espalhando o vidro de dragão onde o atingia. Ela quicou, depois rolou, rolando pela varanda. Todo o caminho até a balaustrada de pedra.
E até o rio barulhento e odioso lá embaixo.
— Não há ninguém aqui para ajudá-la. — A voz de Maeve era tão vazia quanto o espaço entre as estrelas. — E não há ninguém vindo por você.
Os dedos de Aelin se fecharam no vidro antigo.
— Pense nisso. Pense nesta noite, Aelin.  Maeve estalou os dedos. — Nós terminamos aqui.
As mãos de Cairn envolveram as correntes. Suas pernas giraram, os cortes nos pés se abrindo novamente. Ela mal sentiu, mal sentiu através da raiva e do mar de fogo profundo, profundo abaixo.
Mas quando Cairn a puxou para cima, suas mãos selvagens se movendo, ela atacou.
Dois golpes.
Um pedaço de vidro atingiu a lateral de seu pescoço.
Ele cambaleou para trás, amaldiçoando quando o sangue espirrou.
Aelin girou, o vidro rasgando a sola de seu pé, e atirou o estilhaço em sua outra mão. Direito em Maeve.
Errou por um fio de cabelo. Ele raspou a bochecha pálida de Maeve antes de cair no trono atrás dela. A coruja empoleirada logo acima dela gritou.
Mãos ásperas a agarraram, Cairn gritava, gritos furiosos de Sua putinha, mas ela não os ouviu. Não enquanto um fio de sangue serpenteava pela bochecha de Maeve.
Sangue negro. Tão escuro quanto a noite.
Tão escuro quanto os olhos que a rainha fixou nela, uma mão subindo para sua bochecha.
As pernas de Aelin afrouxaram, e ela não lutou contra os guardas que a empurravam para longe.
Um piscar de olhos, e o sangue ficou vermelho.
Seu aroma tão acobreado quanto o dela. Um truque da luz. Uma alucinação, outro sonho...
Maeve olhou para a mancha rubra que cobria seus dedos pálidos.
Um vento de ônix partiu para Aelin, envolvendo em torno de seu pescoço.
Ele apertou, e ela não sabia de mais nada.

6 comentários:

  1. Respostas
    1. Fenrys ainda tá vivo jovem, qm morreu foi o irmão gêmeo dele, Cornwall

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    2. Acho que por isso ela chamou o Fenrys de coitado, pq ele perdeu um irmão :(

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  2. Quando Aelin se libertar, meu irmão... Acho bom essa bruxa velha correr!

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  3. Fenrys só servia a Maeve pq o irmão fez juramento de sangue a ela. Fora o juramento
    dele, o irmão era a forma que ela tinha pra prendê-lo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!