29 de outubro de 2018

Capítulo 89

A fera de Iskra o agarrou pelo pescoço, mas Abraxos os manteve no ar.
Ao ver aquelas poderosas mandíbulas ao redor da garganta de Abraxos, o medo e a dor em seus olhos...
Manon não conseguia respirar. Não podia pensar em torno do terror que a atravessava, tão ofuscante e repugnante que por alguns segundos ela ficou paralisada. Totalmente congelada.
Abraxos, Abraxos.
Dela. Ele era dela, e ela era dele, e a Escuridão os escolheram para ficar juntos.
Ela não tinha noção do tempo, nenhum senso de quanto tempo havia passado entre aquela mordida e quando ela se moveu novamente. Poderia ter sido um segundo, poderia ter sido um minuto.
Mas então ela estava tirando uma flecha de sua aljava quase vazia.
O vento ameaçava arrancá-la de seus dedos, mas ela a encaixou no seu arco, o mundo girando e girando, o vento rugindo, e mirou.
A fera de Iskra resistiu quando a flecha o acertou – apenas um fio de cabelo e teria sido no olho.
Mas ele não soltou.
Ele não tinha aperto profundo o suficiente para rasgar a garganta de Abraxos, mas se mastigasse o suficiente, se cortasse o suprimento de ar de sua montaria...
Manon pegou outra flecha. O vento mudou o suficiente para que ela atingisse a mandíbula da fera, mal se encaixando no couro espesso.
Iskra ria. Ria quando Abraxos lutou e não pôde se libertar.
Manon procurou qualquer uma das Treze, para que alguém os salvasse. O salvasse.
Aquele que importava mais do que qualquer outro, com quem ela trocaria de lugar se a Deusa de Três Faces permitisse, sua própria garganta presa naquelas mandíbulas terríveis.
Mas as Treze haviam sido dispersadas, o grupo de Iskra atrapalhando suas fileiras. Asterin e a tenente de Iskra estavam unha a unha enquanto suas serpentes aladas travavam com suas garras e mergulhavam em direção ao campo de batalha.
Manon avaliou a distância até a fera de Iskra, até as mandíbulas ao redor do pescoço. Pesou a força das correias nas rédeas. Se ela pudesse balançar para baixo, se tivesse sorte, poderia cortar a garganta da fera, apenas o suficiente para afastá-lo...
Mas as asas de Abraxos vacilaram. Sua cauda, tentando valentemente atacar o touro, começou a desacelerar.
Não.
Não.
Não assim. Tudo menos isso.
Manon pendurou o arco nas costas, dedos meio congelados mexendo nas correias e fivelas da sela.
Ela não podia suportar. Não suportaria isso, essa morte, sua dor e medo antes disso.
Ela poderia estar soluçando. Poderia ter gritado quando as batidas de suas asas falharam novamente.
Ela saltaria através do maldito vento dos deuses, arrancaria aquela cadela da sela e cortaria a garganta de sua montaria...
Abraxos começou a cair.
Não cair. Mas mergulhar, tentando descer. Para alcançar o chão, arrastando aquela fera com ele.
Assim Manon poderia sobreviver.
— POR FAVOR. — Seu grito para a Iskra atravessou o campo de batalha, atravessou do mundo. — POR FAVOR.
Ela imploraria, ela rastejaria, se dessem a ele a chance de viver.
Sua montaria de coração de guerreiro. Que a salvara muito mais do que ela jamais o salvara.
Que a salvou da maneira que mais contava.
— POR FAVOR. — Ela gritou, gritou com cada parte de sua alma rasgada.
Iskra apenas riu. E a fera não soltou, mesmo quando Abraxos tentou e tentou aproximá-los do chão.
Suas lágrimas correram ao vento, e Manon soltou a última das fivelas em sua sela. A distância entre as serpentes aladas era impossível, mas ela já tivera sorte antes.
Ela não se importava com nada disso. Os Desertos, as Crochans e Dentes de Ferro, sua coroa. Ela não se importava com nada disso, se Abraxos não estivesse lá com ela.
As asas de Abraxos se esforçaram, lutando com aquele coração poderoso e amoroso para alcançar o ar mais baixo.
Manon avaliou a distância até o flanco do touro, arrancando as luvas para libertar as unhas de ferro. Tão fortes quanto qualquer gancho.
Manon se levantou na sela, deslizando uma perna por baixo dela, o corpo tenso para dar o salto adiante. E ela disse a Abraxos, tocando sua espinha:
— Eu te amo.
Era a única coisa que importava no final. A única coisa que importava agora.
Abraxos se debateu. Como se tentasse impedi-la.
Manon desejou força para as pernas, para os braços, e respirou fundo, talvez sua última respiração...
Vinda do céu, mais rápida do que uma estrela cadente, uma forma rugindo atacou a fera de Iskra.
Aquelas mandíbulas se soltaram do pescoço de Abraxos e então caíram, virando-se
Manon teve bom senso para agarrar-se a sela, segurando com tudo o que tinha quando o vento ameaçava arrancá-la dele.
O sangue dele correu para cima quando eles caíram, mas então suas asas se abriram, e ele estava planando, agitando-se. Ele se estabilizou o suficiente para que Manon voltasse para a sela, afivelando-se enquanto girava para ver o que havia acontecido atrás dela. Quem os salvara.
Não foi Asterin.
Não foi nenhuma das Treze.
Mas Petrah Sangue Azul.
E atrás da Herdeira do clã Sangue Azul, agora atingindo a legião aérea de Morath de onde eles se arrastavam para o campo de batalha do alto das nuvens, estavam as Dentes de Ferro.
Centenas delas.
Centenas de bruxas Dentes de Ferro e suas serpentes aladas se chocaram contra o seu próprio povo.
Petrah e Iskra se separaram, a herdeira Sangue Azul agitando-se em direção a Manon enquanto Abraxos lutava para continuar no ar.
Mesmo com o vento, com a batalha, Manon ainda ouviu Petrah quando a herdeira Sangue Azul, disse a ela:
— Um mundo melhor.
Manon não tinha palavras. Nenhuma, além de olhar para a muralha da cidade, para a força que tentava entrar pelas grades do rio.
— As muralhas...
— Vá.
Então Petrah seguiu para onde Iskra tinha parado no meio do ar para olhar para o que se desenrolava. No ato de desafio e rebeldia tão impensável que muitas das Dentes de Ferro de Morath ficaram igualmente aturdidas. Petrah mostrou os dentes, revelando ferro brilhando sob a luz do sol.
— Ela é minha.
Manon olhou entre as muralhas da cidade e Iskra, voltando-se para elas mais uma vez. Duas contra uma, e elas certamente a rasgariam em pedaços...
—  — rosnou Petrah. E quando Manon novamente hesitou, Petrah apenas disse: — Por Keelie.
Pela serpente alada que Petrah tinha amado – como Manon amava Abraxos. Que lutou por Petrah até seu último suspiro, enquanto a fera de Iskra a matava.
Então Manon assentiu.
— Que a Escuridão a envolva.
Abraxos começou a voar para as muralhas, suas batidas de asa instáveis, sua respiração rasa.
Ele precisava descansar, precisava ver um curandeiro...
Manon olhou para trás assim que Petrah alcançou Iskra.
As duas herdeiras caíam em direção à terra, entrando em confronto novamente, serpentes aladas golpeando.
Manon não podia afastar o olhar nem se desejasse.
Não quando as serpentes aladas se separaram e depois se viraram, executando curvas perfeitas e afiadas que as fizeram se encontrar mais uma vez, erguendo-se para o céu, as caudas batendo enquanto travavam uma luta de garras.
Para cima e mais para cima, Iskra e Petrah voaram. Serpentes aladas cortando e mordendo, garras atacando, mandíbulas estalando. Através dos níveis de luta nos céus, através das Crochans e Dentes de Ferro, através das nuvens.
Uma corrida, uma zombaria da dança de acasalamento das serpentes aladas, para subir ao ponto mais alto do céu e depois despencarem para a terra como um só.
Dentes de Ferro pararam sua luta. Crochans pararam no ar. Mesmo no campo de batalha, os soldados de Morath ergueram os olhos.
As duas herdeiras dispararam cada vez mais alto e mais alto. E quando chegaram a um lugar onde até mesmo as serpentes aladas não podiam extrair ar suficiente em seus pulmões, elas comprimiram suas asas, prenderam as garras e mergulharam de cabeça em direção à terra.
Manon viu a armadilha antes de Iskra.
Viu o momento em que Petrah se libertou, cabelos dourados voando quando ela sacou a espada e sua serpente alada começou a circular.
Círculos apertados e precisos ao redor de Iskra e sua fera enquanto despencavam.
Tão apertados que a fera da Iskra não tinha espaço para abrir suas asas. E quando tentava, a serpente alada de Petrah estava lá, cauda ou mandíbula estalando. Quando tentava, a espada de Petrah estava lá, cortando as rédeas da besta.
Então Iskra percebeu.
Percebeu enquanto caíam e caíam e caíam, e Petrah os circulou, tão rápida que Manon se perguntou se a herdeira Sangue Azul praticava há meses, treinando para este momento.
Pela vingança devida a ela e a Keelie.
O mundo pareceu parar.
Petrah e sua serpente alada circulavam e circulavam, o sangue da serpente alada de Iskra transbordando para cima, a fera mais frenética cada metro mais perto da terra.
Mas Petrah também não abriu as asas da serpente alada. Não havia puxado as rédeas para erguer sua montaria.
— Saia daí — Manon murmurou. — Impulsione-se agora.
Petrah não fez isso. Duas serpentes aladas caíam em direção à terra, estrelas negras caindo do céu.
— Pare — gritou Iskra.
Petrah não se dignou a responder.
Elas não podiam se impulsionar a essa velocidade. E logo Petrah não conseguiria içar nada. Queria se quebrar no chão, bem ao lado de Iskra.
— Pare! — O medo transformou a ordem do Iskra em um grito agudo.
Nenhuma pena por ela se acendeu em Manon. Nenhuma mesmo.
O chão se aproximava, brutal e inflexível.
— Sua cadela louca, eu disse pra parar!
Sessenta metros do chão. Então trinta. Manon não conseguia respirar.
Quinze metros.
E quando o chão parecia se erguer para encontrá-las, Manon ouviu as únicas palavras de Petrah para Iskra como se tivessem sido levadas pelo vento.
— Por Keelie.
A serpente alada de Petrah abriu as asas, impulsionando-se com mais força do que qualquer outra que Manon já tivesse visto. Erguendo-se, a ponta da asa roçou o chão de gelo antes que ele voltasse para os céus.
Deixando Iskra e sua fera para atingirem a terra.
O estrondo passou por Manon, trovejando pelo mundo.
Iskra e sua fera não se levantaram novamente.
Abraxos soltou um gemido de dor e Manon se torceu na sela com o coração em fúria.
Iskra estava morta. A herdeira Pernas Amarelas estava morta.
Não a encheu da alegria como deveria ser. Não com aquela grade vulnerável na muralha da cidade sob ataque.
Então ela estalou as rédeas, e Abraxos subiu para as muralhas da cidade, e então Sorrel e Vesta estavam ao seu lado, Asterin vindo rápido por trás. Elas voaram baixo, abaixo das Dentes de Ferro agora lutando contra outras Dentes de Ferro, e também as Dentes de Ferro ainda lutando contra Crochans. Seguindo para os pontos onde o rio fluía ao lado delas.
Um barco já havia chegado lá. Flechas já voavam da pequena grade – guardas frenéticos para manter o inimigo à distância.
Os soldados de Morath estavam tão preocupados com o alvo que não olharam para trás até Abraxos estar sobre eles.
O sangue dele escorreu contra ela quando ele aterrissou, estalando com garras, dentes e cauda. Sorrel e Vesta cuidaram dos outros, o barco logo estava em lascas.
Mas não era suficiente. Nem mesmo perto.
— As rochas — Manon respirou, dirigindo Abraxos para o outro lado do rio.
Ele entendeu. Seu coração se encolheu ao ponto da agonia por forçá-lo, mas ele subiu para o outro lado do rio e puxou um dos pedregulhos menores para o outro lado. As Treze viram o plano dela e seguiram, velozes e inflexíveis.
Cada uma das batidas de asas era mais lenta que a anterior. Ele perdeu altura a cada vez que cruzavam o rio.
Mas então ele conseguiu, no mesmo momento em que outro grupo de soldados de Morath tentavao entrar na pequena e vulnerável passagem. Manon atirou a pedra na água antes disso. As Treze também largaram as pedras, os respingos indo tão alto quanto as próprias muralhas da cidade.
Cada vez mais, cada viagem pelo rio era mais lenta que a anterior.
Mas então havia pedras empilhadas quebrando a superfície. Então subindo acima, bloqueando todo o acesso ao túnel do rio. Apenas alto o suficiente para selá-lo – mas não suficiente para impedir que os soldados de Morath que se amontoavam se impulsionassem para passar.
A respiração de Abraxos era forçada, a cabeça abaixando.
Manon se virou na sela para ordenar à sua tenente que parasse de empilhar as pedras, mas Asterin já havia feito isso. Sua segunda em comando apontou para as muralhas da cidade acima delas.
— Entre!
Manon não perdeu tempo discutindo. Pegando as rédeas de Abraxos, Manon o conduziu sobre as muralhas da cidade, seu sangue respingando sobre os soldados que lutavam lá.
Ele alcançou as muralhas do castelo antes que sua força cedesse.
Antes que ele batesse nas pedras e deslizasse, o estrondo do impacto ecoando por Orynth.
Ele bateu na lateral do castelo, as asas tortas, e Manon pulou instantaneamente da sela enquanto ela chamava por um curandeiro.
A ferida no pescoço dele era muito pior do que ela pensara.
E ele ainda lutou por ela. Ficou nos céus.
Manon apertou as mãos contra a ferida profunda da mordida, o sangue passando por seus dedos como água através de uma represa rachada.
— A ajuda está chegando — ela disse a ele, e encontrou sua voz soando como um grito quebrado. — Eles estão vindo.
As Treze aterrissaram, Sorrel correndo para o castelo sem dúvida para trazer um curandeiro arrastado se fosse necessário, e então havia onze pares de mãos no pescoço de Abraxos.
Estancando o fluxo de seu sangue. Pressionando-o como um, para manter esse precioso sangue dentro dele enquanto um curandeiro era encontrado.
Manon não pôde olhar para elas, não pôde fazer nada além de fechar os olhos e rezar para a Escuridão, para a Mãe de Três Faces enquanto ela mantinha as mãos sobre os cortes que sangravam.
Passos apressados soaram sobre as pedras da muralha, e então Sorrel estava ao lado de Manon, suas mãos se erguendo para cobrir as feridas também.
Uma mulher mais velha desempacotou um kit, alertando-as para continuarem aplicando pressão.
Manon não se incomodou em dizer a ela que elas não iam a lugar nenhum. Nenhuma delas foi.
Mesmo enquanto a batalha se desenrolava nos céus e na terra abaixo.


Lysandra mal podia respirar, cada batida de suas asas mais pesada que a anterior, enquanto ela se encaminhava para o lugar onde vira Manon Bico Negro e seu clã irem para as muralhas do castelo.
Ela havia se transformado em uma serpente alada, usando o caos da chegada das Dentes de Ferro rebeldes como uma distração, mas a drenagem de sua magia tinha cobrado seu preço. E os combates, as feridas que nem ela podia estancar...
Lysandra viu duas figuras puxando um familiar guerreiro de cabelos dourados pelas escadas do castelo assim que alcançou as muralhas, as bruxas se virando para ela.
Mas Lysandra se forçou a transformar-se, forçando seu corpo a fazer isso uma última vez, para retornar à forma humana. Ela mal tinha acabado de enfiar as calças e a camisa que escondera em uma mochila perto da muralha do castelo quando Ren Allsbrook e um soldado da Devastação alcançaram o topo das muralhas, com um Aedion semiconsciente entre eles.
Havia muito sangue nele.
Lysandra correu para eles, ignorando seu mancar profundo, a dor ondulando em sua perna esquerda, em seu ombro direito. Nas muralhas, uma curandeira trabalhava no ferido Abraxos, e as Treze, cobertas de sangue, agora em vigília.
— O que aconteceu? — Lysandra derrapou até parar na frente de Aedion, que conseguiu levantar a cabeça para lhe dar um sorriso sombrio.
— Príncipe valg — disse Ren, seu próprio corpo revestido de sangue, o rosto pálido de exaustão.
Oh deuses.
— Ele não saiu vivo — disse Aedion.
Ren retrucou:
— E você não descansou o suficiente, seu bastardo estúpido. Você abriu seus pontos.
Lysandra passou as mãos pelo rosto de Aedion, sua testa.
— Vamos levá-lo para um curande...
— Eu já vi um — grunhiu Aedion, colocando os pés no chão e tentando se endireitar. — Eles me trouxeram aqui para descansar.
Como se esta fosse uma ideia ridícula.
Ren realmente soltou o braço de Aedion de seu ombro.
— Sente-se, antes de cair e quebrar a cabeça nas pedras.
Lysandra estava inclinada a concordar, mas depois Ren disse:
— Estou voltando para as muralhas.
— Espere.
Ren se virou para ela, mas Lysandra não falou até que o soldado da Devastação ajudou Aedion a se sentar contra a lateral do castelo.
— Espere — ela disse novamente para Ren quando ele abriu a boca, seu coração trovejando, náuseas se formando em seu intestino.
Ela assobiou e Manon Bico Negro e as Treze olharam em sua direção. Ela acenou para elas, seu braço latindo de dor.
— Você está ferida — Aedion rosnou.
Lysandra o ignorou quando as bruxas se aproximaram, tanto sangue fresco e seco em todas elas.
— Abraxos viverá? — ela perguntou a Manon.
Um aceno superficial, os olhos dourados da Rainha Bruxa baços.
Lysandra não os reteve por alívio. Não com a notícia pela qual ela voltara tão desesperadamente para entregar. Ela engoliu a bílis em sua garganta e apontou para o campo de batalha. Para o seu coração escuro e enevoado.
— Eles ergueram a torre de bruxa novamente. Está vindo para cá. Eu vi com meus olhos. As bruxas se reuniram em cima dela.
Silêncio absoluto.
E como se em resposta, a torre entrou em erupção.
Não na direção deles, mas para o céu. Um clarão de luz, um estrondo mais alto que um trovão, e então uma parte do céu ficou vazia.
Onde as Dentes de Ferro, rebeldes e fiéis lutavam, onde as Crochans estava se entrelaçavam entre elas, não havia nada.
Apenas cinzas.
A voz de Lysandra se quebrou quando a torre continuou se movendo. Uma linha reta e inquebrável em direção a Orynth.
— Elas pretendem arrasar a cidade.


Mãos e braços cobertos pelo sangue de Abraxos, Manon olhou para o campo de batalha. Olhou para onde todas aquelas bruxas, Dentes de Ferro e Crochans que lutavam por um dos dois exércitos, tinham acabado de... desaparecer.
Tudo o que sua avó havia alegado sobre as torres de bruxa era verdade.
E não foi Kaltain e seu fogo sombrio que alimentou aquela explosão de destruição, mas sim bruxas Dentes de Ferro.
Jovens bruxas Dentes de Ferro que se ofereceram. Que fizeram o Rendimento quando saltaram para o fosso forrado de espelhos dentro da torre.
Um Rendimento comum podia atingir vinte, trinta bruxas ao seu redor. Talvez mais, se ela fosse mais velha e mais poderosa.
Mas um Rendimento amplificado pelo poder daqueles espelhos de bruxa... Uma explosão, e o castelo sob deles seria escombros. Outra explosão, talvez duas, e Orynth toda tornaria escombros.
Dentes de Ferro protegiam a torre, uma parede cruel que mantinha as Crochans e as Dentes de Ferro rebeldes longe.
Algumas Crochans de fato tentaram romper essas defesas.
Seus corpos vestidos de vermelho caíram na terra em pedaços.
Petrah, agora dentro dos confins de seu clã, até voou para a torre. Para derrubá-la.
Elas foram rechaçadas por um enxame de Dentes de Ferro.
A torre avançou. Mais e mais perto.
Estaria dentro do alcance em breve. Mais alguns minutos, e essa torre estaria perto o suficiente para que sua explosão alcançasse o castelo. Para limpar este exército, este remanescente de resistência, para sempre.
Não haveria sobreviventes. Não haveria segundas chances.
Manon virou-se para Asterin e disse baixinho:
— Eu preciso de outra serpente alada.
A tenente dela apenas a encarou. Manon repetiu:
— Eu preciso de outra serpente alada.
Abraxos não estava em condições de voar. Não estaria por horas ou dias.
— Ninguém consegue atravessar a parede das Dentes de Ferro — Aedion Ashryver disse asperamente.
Manon mostrou os dentes.
— Eu conseguirei. — Ela virou para a metamorfa. — Você pode me carregar.
— Não — Aedion rosnou.
Mas Lysandra sacudiu a cabeça, tristeza e desespero em seus olhos verdes.
— Eu não posso, minha magia está drenada. Se eu tivesse uma hora...
— Temos cinco minutos — retrucou Manon. Ela se virou para as Treze. — Nós treinamos para isso. Para separar as fileiras inimigas. Podemos passar por elas. Desmontar aquela torre.
Mas todas se entreolharam. Como se tivessem conversado e concordado.
As Treze caminharam para suas próprias montarias. Sorrel apertou o ombro de Manon quando passou, então subiu nas costas da sua serpente alada. Deixando Asterin na frente de Manon.
Sua segunda em comando, sua prima, sua amiga, sorriu, olhos brilhantes como estrelas.
— Viva, Manon.
Manon piscou.
Asterin sorriu mais abertamente, beijou a testa de Manon e sussurrou novamente:
— Viva.
Manon não viu o golpe chegando.
O soco no estômago dela, tão duro e preciso que tirou o ar dela. Deixou-a de joelhos.
Ela lutava para respirar fundo, para se levantar, quando Asterin alcançou Narene e montou a serpente alada azul, juntando as rédeas.
— Leve seu povo para casa, Manon.
Manon soube então. O que elas iam fazer.
Suas pernas falharam, seu corpo falhou, enquanto ela tentava ficar de pé. Enquanto ela murmurava:
— Não.
Mas Asterin e as Treze já estavam nos céus.
Já em formação, aquele aríete que as servira tão bem. Lançando-se em direção ao campo de batalha. Em direção à torre de bruxas que se aproximava.
Manon abriu caminho até a borda da muralha e parou ali. Encostou-se contra as pedras, ofegando, tentando levar ar para seus pulmões, para que ela pudesse encontrar algum jeito de decolar, encontrar alguma Crochan e roubar sua vassoura...
Mas não havia bruxas aqui. Nenhuma vassoura a ser encontrada. Abraxos permanecia inconsciente.
Manon estava distantemente ciente da metamorfa e do príncipe Aedion aproximando-se ao lado dela, lorde Ren com eles. Distantemente ciente do silêncio que caiu sobre o castelo, a cidade, as muralhas.
Enquanto todos eles assistiam a aproximação daquela torre de bruxas, a desgraça se reunindo dentro dela.
Quando as Treze voaram para ela, correndo contra o vento e a própria morte.
Uma parede de Dentes de Ferro ergueu-se diante da torre, bloqueando seu caminho.
Cem contra doze.
Dentro da torre de bruxa, perto o suficiente agora que Manon podia ver através do arco aberto no nível mais alto, uma jovem bruxa de vestes negras se aproximou do interior escavado.
Aproximou-se para onde a avó de Manon estava, gesticulando para o buraco abaixo.
As Treze se aproximaram do inimigo em seu caminho e não vacilaram.
Manon enfiou os dedos nas pedras com tanta força que as unhas de ferro estalaram. Começou a sacudir a cabeça, algo em seu peito rachando completamente.
Rachando quando as Treze bateram no bloqueio de Dentes de Ferro.
A manobra foi perfeita. Mais impecável do que qualquer outra. Uma linha de batalha letal que atravessou as fileiras do inimigo. Mirando a torre.
Segundos. Eles tinham segundos até que a jovem bruxa convocasse o poder e desencadeasse o Rendimento em uma explosão de escuridão.
As Treze perfuraram as Dentes de Ferro, espalhando-se largamente, empurrando-as para o lado.
Abrindo um caminho direto para a torre enquanto Asterin entrava por trás, impulsionando-se para o nível mais alto.
Imogen caiu primeiro.
Então Lin.
E Ghislaine, sua serpente alada envolta por inimigos.
Então Thea e Kaya, juntas, como sempre estiveram.
Então as gêmeas demônios de olhos verdes, rindo enquanto iam. Então as Sombras, Edda e Briar, flechas ainda disparando. Ainda encontrando seus alvos.
Então Vesta, rugindo seu desafio para os céus.
E então Sorrel. Sorrel, que mantinha o caminho aberto para Asterin, uma parede sólida para a tenente de Manon enquanto ela subia. Uma parede contra a qual as ondas de Dentes de Ferro se quebravam e quebravam.
A jovem bruxa dentro da torre começou a brilhar em preto, a passos do poço.
Ao lado de Manon, Lysandra e Aedion abraçaram-se. Prontos para o fim dos batimentos cardíacos.
E então Asterin estava lá. Asterin ia em direção àquele trecho aberto de ar, para a torre em si, comprada com as vidas das Treze. Com o seu suporte final.
Manon só podia assistir, observar e observar e observar, sacudindo a cabeça como se pudesse desfazer aquilo, enquanto Asterin tirava seus couros, a camisa também.
Quando Asterin se levantou na sela, soltou-se das fivelas, uma adaga na mão enquanto sua serpente alada apontava diretamente para a torre.
A avó de Manon se virou então. Virou do buraco, da jovem bruxa prestes a pular para dentro e destruir todos eles.
Asterin arremessou sua adaga.
A lâmina voou em linha reta.
Mergulhou nas costas da jovem bruxa, fazendo-a cair esparramada sobre as pedras. A um passo de distância da queda para o fosso.
Asterin puxou as espadas gêmeas das bainhas em seus quadris e bateu com sua serpente alada ao lado da torre. O impacto de osso contra rocha ecoou pelo mundo.
Mas Asterin já estava pulando. Já se dobrava no ar, as espadas levantadas, Narene caindo, o corpo se quebrando no impacto.
Manon começou a gritar então.
Gritando, sem fim e sem palavras, com aquela coisa em seu peito, seu coração, despedaçando-se.
Quando Asterin pousou no arco aberto da torre das bruxas, espadas girando nas bruxas que se apressavam para matá-la. Elas podiam muito bem ter sido fiapos de grama. Podiam muito bem ter sido neblina, pela facilidade com que Asterin as derrubou, uma após a outra, dirigindo-se para a frente, em direção à Matriarca, que tinha marcado as letras austeras no abdômen de Asterin.
IMPURA
Girando, torcendo, lâminas voando, Asterin abriu seu caminho em direção a avó de Manon.
A Matriarca do Clã Bico Negro se afastou, balançando a cabeça. Sua boca se moveu, como se ela dissesse “Asterin, não...”
Mas Asterin já estava lá.
E não foi escuridão, mas luz – luz, brilhante e pura como o sol na neve, que irrompeu de Asterin.
Luz, quando Asterin fez o Rendimento.
Quando as Treze, seus corpos quebrados espalhados pela torre em um círculo próximo, também fizeram o Rendimento.
Luz. Todas elas queimaram assim. Irradiando luz.
Luz que fluiu de suas almas, seus corações ferozes enquanto se entregavam a esse poder. Tornando-se incandescentes com ele.
Asterin levou a Matriarca Bico Negro ao chão, a avó de Manon pouco mais do que uma sombra contra o brilho. Então pouco mais do que um pedaço de ódio e memória quando Asterin explodiu.
Quando ela e as Treze se renderam completamente, e se explodiram, e a torre de bruxa se despedaçou.

33 comentários:

  1. AAAAAAAAAAHHHHHHHH! Nunca esquecerei as 13!!!!

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  2. Ah Deuses... Não... Eu sabia que vinha dor por ai, só não imaginei que seria assim.

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  3. Em lágrimas e completamente destroçada.😭😭😭😭

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  4. NAAAAAAAAAAAAO!!!
    MEU DEUS OQ TA ACONTECENDO? NAO NAO NAO NAO NAO, POR FAVOR NÃO!!! 😧😭😭😭😭😭😭

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  5. Aaaaa chorei tanto 😭😭

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  6. Destroçada, despedaçada! Chorando rios e rios!

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  7. Fiquei seca de tanto chorar
    Não acredito nisso

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  8. Chorando litros!!! Tô com medo de continuar lendo!!
    Sarah você tá mais pra George RR Martin. Que maldade!!! :(

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  9. Chorando cachoeiras aqui 😭😭😭😭

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  10. NAAAOOOO! Todas de uma vez só? meu deus que tristeza.

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  11. R.I.P 12 😭😭✌
    Lin.
    Ghislaine
    Thea
    Kaya
    Edda
    Briar
    Vesta
    Sorrel
    Asterin
    Vão deixar saudades

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  12. R.I.P
    Asterin
    Sorrel
    Vesta
    Faline
    Fallon
    Edda
    Briar
    Thea
    Kaya
    Linnea
    Ghislaine
    Imogen
    Vão deixar saudades 😭😭😭✌

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  13. Chorando muito..
    Lindas as luzes delas, estou me afogando em lágrimas aqui..

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  14. Bom saber q não fui a única q acabou chorando rios de lagrimas...Sarah pq ? POR QUE?????????

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  15. Eu simplesmente não consigo aceitar isso. Não dá pra acreditar! Deuses,que cruel!

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  16. NÃAOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO MENTIRA QUE AS TREZE MORRERAM

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  17. Chorando muito aqui!!!😭😭 Asterin cumpriu sua missao teve um fim lindo as trezes...

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  18. A gente sabe que muitas pessoas iriam morrer, mas mesmo assim é impossivel segurar as lágrimas

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  19. Naooooooo tava demorando Sarah começar a matar meus amores😭😭😭😭😭😭

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  20. Manon e as 13 mereciam viver pelo menos um pouquinho de alegria na vida delas. Estou revoltada

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  21. Primeiro capítulo desse livro que eu chorei. Tô devastada

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Boa leitura, E SEM SPOILER!