29 de outubro de 2018

Capítulo 87

CAPÍTULO 87

Mesmo se movendo o mais rápido que podiam, o exército dos khagan era muito lento. Muito lento e muito grande para alcançar Terrasen a tempo.
Na semana em que eles estavam indo para o norte, Aelin implorando a Carvalhal, ao Povo Pequeno, e Brannon por perdão quando ela devastou um caminho através da floresta, eles estavam apenas agora se aproximando de Endovier, e a fronteira a poucos quilômetros além dela. De lá, se eles tivessem sorte, seriam mais dez dias para Orynth. E provavelmente se tornaria um desastre se Morath mantivesse as forças estacionadas em Perranth depois da captura da cidade.
Então eles escolheram contornar a cidade em seu flanco ocidental, contornando as Montanhas Perranth ao invés de cortar caminho pelas terras baixas para a jornada mais fácil através da terra. Com Carvalhal como cobertura, eles poderiam ser capazes de se aproximar de Morath em Orynth.
Se ainda houvesse alguma coisa de Orynth no momento em que eles chegassem. Eles ainda estavam longe demais para os cavaleiros dos ruks fazerem qualquer tipo de reconhecimento, e nenhum mensageiro havia cruzado seu caminho. Mesmo os homens selvagens dos Presas, que permaneceram com eles e agora juraram marchar até Orynth para vingar seus parentes, não sabiam de um caminho mais rápido.
Aelin tentou não pensar nisso. Ou sobre Maeve e Erawan, onde quer que estejam. O que quer que eles possam ter planejado.
Endovier, o único posto avançado de civilização que eles tinham visto em uma semana, seria a primeira notícia desde que deixaram o Desfiladeiro Ferian.
Ela também tentou não pensar nisso. Do fato de que eles estariam passando por Endovier amanhã ou no dia seguinte. Que ela veria aquelas montanhas cinzentas que haviam abrigado as minas de sal.
Deitada de barriga para cima do catre, não adiantava fazer alguém arrumar uma cama de verdade para ela e Rowan quando eles marchariam dentro de algumas horas. Aelin estremeceu contra a queimação nas costas dela.
O tilintar das ferramentas de Rowan e o crepitar dos braseiros eram os únicos sons em sua tenda.
— Será que vai estar pronto ainda hoje? – Ela perguntou quando ele parou para mergulhar a agulha no pote de tinta salgada.
— Se você parar de falar. – Foi sua resposta seca.
Aelin bufou, levantando-se sobre os cotovelos para espiar por cima do ombro para ele. Ela não conseguia ver o que ele pintava, mas conhecia o design. Uma réplica do que ele escrevera sobre ela na primavera passada, as histórias de seus entes queridos e de suas mortes, escritas exatamente onde estavam suas cicatrizes. Exatamente onde elas estavam, como se ele tivesse a memória gravada em sua mente.
Mas outra tatuagem estava lá agora. Uma tatuagem que se esparramava sobre os ossos do ombro, como se fosse um par de asas abertas. Ou então ele esboçou para ela.
A história deles. Rowan e Aelin.
Uma história que começou em raiva e tristeza e se tornou algo completamente diferente.
Ela estava agradecida por ter se tornado assim. Felicidade.
Aelin descansou o queixo sobre as mãos.
— Nós estaremos perto de Endovier em breve.
Rowan voltou a trabalhar, mas ela sabia que ele tinha ouvido cada palavra, pensando em sua resposta.
— O que você quer fazer sobre isso?
Ela estremeceu com a picada de um ponto particularmente sensível perto de sua espinha.
— Queimarei até o chão. Explodirei as montanhas em escombros.
— Bom. Eu vou te ajudar.
Um pequeno sorriso curvou seus lábios.
— O lendário príncipe guerreiro não me disse para evitar gastar minha força descuidadamente?
— O lendário príncipe guerreiro diria para você manter o curso, mas se destruir Endovier vai ajudar, então ele estará lá com você.
Aelin ficou em silêncio enquanto Rowan continuou trabalhando por mais alguns minutos.
— Eu não me lembro da tatuagem demorando tanto na última vez.
— Eu fiz melhorias. E você está recebendo uma marcação totalmente nova.
Ela murmurou, mas não disse mais nada por um tempo.
Rowan continuou. Limpando o sangue quando necessário.
— Eu não acho que posso – Aelin respirou. – Eu não acho que posso permanecer de pé para olhar para Endovier, quanto mais destruí-la.
— Você quer que eu faça isso? – Uma pergunta calma de guerreiro. Ele faria, ela sabia. Se ela pedisse isso a ele, ele voaria para Endovier e a transformaria em pó.
— Não – ela admitiu. – Os superintendentes e escravos foram todos embora. Não há ninguém para destruir e ninguém para salvar. Eu só quero passar e nunca mais pensar nisso. Isso faz de mim uma covarde?
— Eu diria que isso te faz humana. – Uma pausa. – Ou o que qualquer que seja um ditado semelhante para os feéricos.
Ela franziu a testa, seus dedos entrelaçados sob o queixo.
— Parece que sou mais feérica hoje em dia do que qualquer coisa. Eu até esqueço às vezes... Quando foi a última vez foi que eu estive no meu corpo humano.
— Isso é uma coisa boa ou ruim? – Suas mãos não vacilaram.
— Eu não sei. Eu sou humana, no fundo, o absurdo da Rainha das Feéricos à parte. Eu tive pais humanos, e seus pais eram humanos, na maior parte, e mesmo com a linha de Mab sendo verdadeira... Eu sou uma humana que pode se transformar em feérica. Um humano que usa um corpo de feérica.
Ela não mencionou o tempo de vida imortal. Não com tudo o que eles tinham pela frente.
— Por outro lado, – Rowan respondeu – eu diria que você seria uma humana com os instintos feéricos. Talvez mais do que humanos. – Ela sentiu o sorriso dele. – Territorial, dominante, agressiva...
— Suas habilidades quando se trata de elogiar as mulheres são incomparáveis.
Sua risada foi uma brisa de ar quente ao longo de sua espinha.
— Por que você não pode ser humana e feérica? Por que ter que escolher em tudo?
— Porque as pessoas sempre parecem exigir que você seja uma coisa ou outra.
— Você nunca se preocupou em dar satisfação para o que as outras pessoas exigem.
Ela sorriu levemente.
— Verdade. – Ela cerrou os dentes quando a agulha perfurou sua espinha. – Estou feliz que você esteja aqui, que eu vou ver Endovier novamente pela primeira vez com você aqui.
Para enfrentar essa parte do seu passado, aquele sofrimento e tormento, se ela ainda não pudesse olhar muito de perto para os últimos meses.
Suas ferramentas, a dor entorpecente, pararam. Então seus lábios roçaram a parte superior de sua coluna, logo acima do início da nova tatuagem. A mesma tatuagem que ele pintou nas costas Gavriel e Fenrys por conta própria nos últimos dias, sempre que eles pararam para a noite.
— Também estou feliz por estar aqui, Coração de Fogo.
Por quanto mais tempo que os deuses permitissem.

•   •   •

Elide caiu em seu catre, gemendo baixinho enquanto se inclinava para desamarrar os laços de suas botas. Um dia ajudando Yrene na carroça não era tarefa fácil, e a perspectiva de esfregar sálvia no tornozelo e no pé parecia nada menos que divino. O trabalho, pelo menos, mantinha os pensamentos fervilhantes à distância: o que ela fizera com Vernon, o que acontecera com Perranth, o que os esperava em Orynth e o que eles poderiam fazer para derrotar isso.
Do catre oposto ao dela, Lorcan apenas observou, uma maçã meio descascada em suas mãos.
— Você deveria descansar mais vezes.
Elide acenou para ele, arrancando sua bota, então sua meia.
— Yrene está grávida, e vomitando a cada hora, mais ou menos. Se ela não descansar, eu não vou.
— Eu não tenho certeza se Yrene é totalmente humana. —Embora a voz fosse rouca, o humor faiscou nos olhos de Lorcan.
Elide pegou a lata de pomada do bolso. Eucalipto, dissera Yrene, citando uma planta de que Elide nunca ouvira falar, mas cujo cheiro - agudo e ainda reconfortante - ela gostava muito. Sob a erva pungente, havia lavanda, alecrim e algo mais misturado com o alívio opaco e pálido.
Um farfalhar de roupas e, em seguida, Lorcan estava ajoelhado diante dela, o pé de Elide nas mãos. Quase engolido pelas mãos dele, na verdade.
— Deixe-me – ele ofereceu.
Elide ficou atordoada o suficiente para que, de fato, permitisse que ele tirasse a lata de suas mãos e observou em silêncio Lorcan mergulhar os dedos na pomada. Então começou a esfregar em seu tornozelo.
Seu polegar encontrou o local em seu tornozelo onde osso batia contra osso. Elide soltou um gemido. Ele cuidadosamente, com quase reverência, começou a aliviar a dor.
Essas mãos abateram reinos. Mantinha vestígios das cicatrizes para provar isso. E ainda assim ele segurou o pé dela como se fosse um pequeno pássaro, como se fosse algo ... sagrado.
Eles não tinham compartilhado uma cama - não quando essas cabanas eram pequenas demais, e Elide desmaiava depois do jantar. Mas eles compartilharam essa barraca. Ele tinha sido cuidadoso, talvez muito cuidadoso, às vezes ela pensava, para lhe dar privacidade quando trocava de roupa e tomava banho.
De fato, uma banheira fumegava no canto da tenda, mantida quente por cortesia de Aelin. Muitos dos banhos do acampamento eram calorosos graças a ela, para a eterna gratidão da realeza e dos soldados.
Alternando longos movimentos com pequenos círculos, Lorcan lentamente estimulou a dor do pé. Parecia contente em fazer exatamente isso a noite toda, se ela quisesse.
Mas ela não estava meio adormecida. Dessa vez. E cada roçado de seus dedos em seu pé a fez se sentar, algo aquecendo em seu núcleo.
O polegar dele empurrou o arco do pé dela, e Elide soltou um pequeno ruído. Não com a dor, mas...
O calor queimava em suas bochechas. Ficou mais quente quando Lorcan olhou para ela sob seus cílios, uma faísca de malícia iluminando seus olhos escuros.
Elide ficou boquiaberta. Então bateu no ombro dele. Músculo duro a cumprimentou.
—Você fez isso de propósito.
Ainda segurando seu olhar, a única resposta de Lorcan foi para repetir o movimento.
Bom, parecia tão malditamente bom.
Elide tirou o pé do aperto dele. Fechou as pernas. Firmemente.
Lorcan deu-lhe um meio sorriso que fez os dedos dos pés enrolarem.
Mas então ele disse:
— Você é suficientemente e verdadeiramente a Senhora de Perranth agora.
Ela sabia. Ela pensara nisso incessantemente durante esses duros dias de viagem.
— É sobre isso que você realmente quer falar?
Seus dedos não pararam seu trabalho milagroso e pecaminoso.
— Nós não falamos sobre isso. Sobre Vernon.
— E daí? – Ela disse, tentando e falhando ter indiferença. Mas ele olhou para ela por baixo de seus cílios grossos. Bem ciente de sua evasão. Elide soltou um suspiro, olhando para o teto pontudo da tenda. – Isso me faz melhor do que Vernon, como eu escolhi puni-lo no final?
Ela não se arrependeu no primeiro dia. Ou o segundo. Mas estas longas milhas, quando ficou claro que Vernon provavelmente estava morto, ela se perguntou.
—Só você pode decidir isso, eu acho – disse Lorcan. No entanto, seus dedos pararam no pé dela. – Pelo que vale, ele mereceu.
 Seu poder sombrio retumbou pela sala.
—Claro que você diria isso.
Ele deu de ombros, sem se importar em negar isso.
— Perranth vai se recuperar, você sabe – ele ofereceu. – Do saque de Morath. E tudo o que Vernon fez até agora.
Esse foi o outro pensamento que pesava muito a cada quilômetro ao norte. Que sua cidade, a cidade do seu pai e da sua mãe havia sido dizimada. Que Finnula, sua babá, pode estar entre os mortos. Que qualquer um dos seus habitantes possa estar sofrendo.
— Isso é, se vencermos esta guerra – disse Elide.
Lorcan retomou seus golpes calmantes.
— Perranth será reconstruída – foi tudo o que ele disse. – Vamos ver.
— Você já fez isso? Reconstruiu uma cidade?
— Não – ele admitiu, seus polegares persuadindo a dor de seus ossos doloridos. – Eu apenas as distruí. – Seus olhos se ergueram para os dela, procurando e abertos. – Mas eu gostaria de tentar. Com você.
Ela viu a outra oferta ali, não apenas para construir uma cidade, mas uma vida. Juntos.
Calor subiu para suas bochechas quando ela assentiu.
— Sim – ela sussurrou. – Por quanto tempo tivermos.
Pois, se sobrevivessem a essa guerra, ainda havia algo entre eles: sua imortalidade.
Algo se fechou nos olhos de Lorcan, e ela pensou que ele diria mais, mas sua cabeça mergulhou. Então ele começou a soltar sua outra bota.
— O que você está fazendo? – Suas palavras foram uma corrida sem fôlego.
Seus dedos hábeis - deuses acima, aqueles dedos - fizeram um trabalho rápido em seus laços.
— Você deveria deixar de molho esse pé. Ficar-se molho em geral. Como eu disse, você trabalha muito duro.
— Você disse que eu deveria descansar mais.
— Porque você trabalha muito duro. – Ele empurrou seu queixo em direção ao banho quando ele tirou a bota e ajudou-a a se levantar. – Eu vou encontrar um pouco de comida.
— Eu já comi.
— Você deveria comer mais.
Dando-lhe privacidade sem o constrangimento de sua necessidade de pedir por isso. Isso é o que ele estava tentando fazer.
Descalça diante dele, Elide olhou para o seu rosto de granito. Tirou o casaco, depois a jaqueta. A garganta de Lorcan se balançou.
Ela sabia que ele podia ouvir seu coração quando ele começou a correr. Poderia provavelmente cheirar cada emoção nela. Mas ela disse:
— Eu preciso de ajuda. Entrando no banho.
— Vá você, agora. – Sua voz era quase gutural.
Elide mordeu o lábio, os seios ficando pesados, formigando.
— Eu poderia escorregar.
Seus olhos percorreram seu corpo, mas ele não fez nenhum movimento.
— Um momento perigoso, a hora do banho.
Elide encontrou a si mesma para andando em direção à banheira de cobre. Ele arrastou alguns pés atrás, dando a ela espaço. Deixando ela liderar isso.
Elide parou ao lado da banheira, com vapor passando. Ela puxou a bainha de sua camisa de suas calças.
Lorcan observou cada movimento. Ela não estava inteiramente certa de que ele estava respirando.
Mas as mãos dela pararam. Incerta. Não dele, mas desse rito, esse caminho.
— Mostre-me o que fazer – ela respirou.
— Você está indo muito bem – Lorcan disse.
Mas ela deu-lhe um olhar desamparado e ele se aproximou. Seus dedos encontraram a bainha solta de sua camisa.
— Posso? – Ele perguntou baixinho.
— Sim. – Elide sussurrou.
Lorcan ainda estudava seus olhos, como se estivesse lendo a sinceridade daquela palavra. Considerando verdade.
Delicadamente, ele puxou o tecido dela. O ar fresco beijou sua pele, se agitando. A faixa flexível em torno dos seios permaneceu, o olhar de Lorcan permaneceu nela.
— Diga-me o que você quer em seguida – ele disse asperamente.
Com a mão tremendo, Elide passou um dedo pela faixa.
As próprias mãos de Lorcan tremiam quando ele soltou a faixa. Quando ele a revelou para o ar, para ele.
Seus olhos pareciam ter ficado totalmente negros quando ele percebeu seus seios, sua respiração irregular.
—Linda – ele murmurou.
A boca de Elide se curvou quando a palavra se estabeleceu dentro dela. Deu coragem suficiente para que ela levasse as mãos a jaqueta dele e começasse a desabotoar. Até que o peito de Lorcan estivesse exposto, e ela passou os dedos pelos cabelos escuros sobre o abdômen esculpido.
— Lindo – ela disse.
Lorcan tremeu - com moderação, com emoção, ela não sabia. Aquele ronronar predileto dele retumbou nela enquanto ela pressionava sua boca contra seu peitoral.
A mão dele foi para o cabelo dela, cada carícia desmanchando sua trança.
— Nós só vamos tão longe quanto você quiser – disse ele.
No entanto, ela se atreveu a olhar para o corpo dele, para o que ficava sob as calças dele.
Sua boca ficou seca.
— Eu... eu não sei o que estou fazendo.
— Tudo o que você fizer será o suficiente – disse ele.
Ela levantou a cabeça, examinando o rosto dele.
— O suficiente para o quê?
Outro meio sorriso.
— O suficiente para me agradar.
Ela zombou da arrogância, mas Lorcan roçou a boca no pescoço dela. Suas mãos seguraram sua cintura, seus polegares roçando suas costelas. Mas não mais alto.
Elide arqueou-se ao toque, um pequeno som escapou enquanto seus lábios roçavam logo abaixo de sua orelha. E então sua boca encontrou a dela, gentilmente e com cuidado.
As mãos dela se entrelaçaram ao redor do pescoço dele, e Lorcan a ergueu, levando-a não para o banho, mas para o catre atrás deles, os lábios dele nunca deixando os dela.
Casa. Isso, com ele. Esta era a sua casa, como ela nunca teve. Por quanto tempo eles possam compartilhá-lo.
E quando Lorcan deitou-se no catre, sua respiração tão desigual como a sua própria, quando ele fez uma pausa, deixando-a decidir o que fazer, para onde levar isso, Elide beijou novamente e sussurrou:
— Mostre-me tudo.
Então Lorcan fez.

•   •   •

Havia um portão e um caixão.
Ela escolheu nenhum dos dois.
Ela estava em um lugar que não era um lugar, a névoa a envolvia e olhava para elas. Suas escolhas.
Um baque bateu dentro do caixão, gritos abafados femininos e implorando subindo.
E o portão, o arco negro na eternidade - o sangue escorria pelos lados, infiltrando-se na pedra escura. Quando o portão terminou com o jovem rei, esse sangue era tudo o que restava.
— Você não é melhor que eu – disse Cairn.
Ela se virou para ele, mas não era o guerreiro que a atormentava nas névoas.
Doze deles espreitavam lá, sem forma e ainda presentes, antigos e frios. Como um, eles falaram:
— Mentirosa. Traidora. Covarde.
O sangue no portão encharcou a pedra, como se o próprio portão devorasse até mesmo este último pedaço dele. Aquele que tinha ido em seu lugar. O que ela deixaria ir em seu lugar.
A batida de dentro do caixão não cessou.
— Essa caixa nunca vai abrir – disseram eles.
Ela piscou, e ela estava dentro da caixa - a pedra tão fria, o ar sufocante. Piscou, e ela estava batendo na tampa, gritando e gritando. Piscou, e havia correntes nela, uma máscara no rosto...

•   •   •

Aelin acordou com os braseiros e o cheiro de neve e pinho de seu companheiro em volta dela. Do lado de fora da tenda, o vento uivava, deixando as paredes da lona balançando e voando.
Cansada. Ela estava tão cansada.
Aelin olhou para o escuro por longas horas e não voltou a dormir.
Mesmo com a cobertura de Carvalhal, apesar do caminho mais amplo que Aelin incinerou em ambos os lados da antiga estrada que subia pelo continente como uma veia murcha, ela podia sentir Endovier se aproximando. Podia sentir as Montanhas Ruhnn projetando-se em direção a eles, uma parede contra o horizonte.
Ela andava perto da frente da companhia, não dizendo muito pela manhã, então a tarde passou. Rowan ficou ao lado dela, permanecendo sempre à sua esquerda – como se ele pudesse ser um escudo entre ela e Endovier – enquanto ela enviava plumas de chamas que derreteram árvores antigas à frente. O vento de Rowan sufocou qualquer fumaça que servisse de alertar para o inimigo de sua aproximação.
Ele tinha terminado as tatuagens na noite anterior. Tinha levado um pequeno espelho de mão para mostrar a ela o que ele tinha feito. A tatuagem que ele fez para eles.
Ela deu uma olhada nas asas abertas - as asas de um falcão - nas costas e beijou-o. Beijou-o até que suas próprias roupas se fossem, e ela estava montada nele, nem incomodando com as palavras, ou capaz de encontrá-las.
Suas costas haviam se curado pela manhã, embora permanecesse sensível em alguns pontos ao longo de sua espinha, e nas horas em que se aproximaram de Endovier, descobrira que o peso invisível da tinta estava se estabilizando.
Ela saiu. Ela sobreviveu.
De Endovier... e de Maeve.
E agora estava em sua responsabilidade cavalgar como o inferno para o Norte, para tentar salvar seu povo antes que Morath os apagasse para sempre. Antes que Erawan e Maeve chegassem para fazer exatamente isso.
Mas isso não impediu o peso, que a puxava para o oeste. Para olhar para o lugar que ela levou tanto tempo para escapar, mesmo depois de ter sido libertada fisicamente.
Depois do almoço, encontrou Elide à sua direita, andando em silêncio sob as árvores. Cavalgando mais alto do que ela tinha visto a garota antes. Um rubor nas bochechas dela.
Aelin tinha a sensação de que sabia exatamente por que aquele rubor desabrochava ali, que se olhasse para trás, para onde Lorcan cavalgava, o encontraria com um sorriso satisfeito e puramente masculino.
Mas as palavras de Elide eram tudo menos aquelas de uma donzela apaixonada.
— Eu não achava que eu realmente poderia ver Terrasen novamente, uma vez que Vernon me tirou de Perranth.
Aelin piscou. E até o rubor no rosto de Elide se desvaneceu, sua boca se apertando.
De todos eles, apenas Elide vira Morath. Morou lá. E sobreviveu.
Aelin disse:
— Houve um tempo em que pensei que nunca mais veria Terrasen novamente, também.
O rosto de Elide ficou contemplativo.
— Quando você era uma assassina ou quando você era uma escrava?
— Ambos.
E talvez Elide tivesse vindo para o seu lado apenas para fazê-la falar, mas Aelin explicou:
— Foi uma tortura de outro tipo, quando eu estava em Endovier, sabendo que minha casa ficava a alguns quilômetros de distância. E que eu não seria capaz de vê-la uma última vez antes de morrer.
Os olhos escuros de Elide brilharam de compreensão.
— Pensei que morreria naquela torre, e ninguém se lembraria de que eu existira.
Ambas haviam sido cativas, escravas – a sua maneira. Ambas usavam algemas. E suportavam as cicatrizes delas.
Ou Elide suportava. A falta delas em Aelin ainda a rasgava, uma ausência da qual ela nunca pensara que se arrependeria.
— Nós conseguimos sair no final – disse Aelin.
Elide estendeu a mão para apertar a mão de Aelin.
— Sim, nós conseguimos.
Mesmo que ela agora desejasse que isso acabasse. Tudo isso. Cada respiração dela se sentia sobrecarregada por ele, esse desejo.
Eles continuaram depois disso, e assim que Aelin viu a bifurcação na estrada, a encruzilhada que os levaria às próprias minas de sal, um grito de alerta surgiu do rukhin, subindo ao longo da borda entre a floresta e as montanhas.
Aelin instantaneamente retirou Goldryn. Rowan se armou ao lado dela, e o exército inteiro parou enquanto examinavam a floresta, os céus.
Ela ouviu o aviso no momento em que uma forma escura passou, tão grande que apagou o sol acima da cobertura da floresta.
Wyvern.
As bestas gemeram, e os ruks estavam correndo, perseguindo aquela wyvern. Se uma batedora dentes de ferro os tivessem avistado...
Aelin preparou sua magia. O wyvern inclinou-se para eles, pouco visível através da treliça de galhos.
Mas a luz se acendeu então. Explodindo de volta o rukhin, inofensivamente.
Não luz. Mas gelo, cintilante e piscando antes de se transformar em chamas.
Rowan também reconheceu isso. Rugiu a ordem para cessar fogo.
Não foi Abraxos que pousou na encruzilhada. E não havia sinal de Manon Blackbeak.
A luz brilhou novamente. E então Dorian Havilliard apareceu ali, com o casaco e a capa manchados e gastos.
Aelin galopou pela estrada em direção a ele, Rowan e Elide a seu lado, os outros em suas costas.
Dorian levantou a mão, seu rosto grave como a morte, mesmo quando seus olhos se arregalaram ao vê-la.
Mas então Aelin sentiu aquilo.
O que Dorian carregava.
As chaves de Wyrds.
Todas as três.


2 comentários:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!