29 de outubro de 2018

Capítulo 84

Não havia armaduras no arsenal esgotado do castelo. E nenhuma teria se encaixado nas serpentes aladas, de qualquer maneira.
As que sobreviveram à ocupação de Adarlan ou foram adquiridas desde a sua queda foram distribuídas, e embora o Príncipe Aedion tenha oferecido um ferreiro para soldar chapas de metal para fazer armaduras, Manon deu uma olhada nas portas reaproveitadas que eles usavam e sabia que seriam pesadas demais.
Contra a legião Dentes de Ferro, velocidade e agilidade seriam seus maiores aliados. Então elas iriam para a batalha como sempre fizeram: com nada além de suas espadas, seus dentes e unhas de ferro e sua astúcia.
De pé na grande varanda no topo da torre mais alta do castelo de Orynth, o exército de Morath se espalhando muito abaixo, Manon observou o sol nascente e soube que poderia muito bem ser o último.
Mas as Treze, muitas delas encostadas no balaústre da varanda, não olhavam para o leste.
Não, a atenção delas estava no inimigo, se mexendo à luz que crescia. Ou nas duas Crochans que estavam com Manon, as vassouras na mão e espadas presas nas costas.
Não foi um choque ver Bronwen chegar esta manhã vestida para a batalha. Mas Manon fez uma pausa quando Glennis emergiu com uma espada, o cabelo trançado para trás.
Elas já haviam acertado os detalhes. E os revisaram três vezes na noite passada. E agora, à luz do dia que nascia, elas permaneciam no topo da antiga torre.
Longe, no fundo das fileiras de Morath, ouviu-se uma trombeta. Lentamente, uma grande fera despertando de um sono profundo, o exército de Morath começou a se mover.
— Já é hora — Asterin murmurou ao lado de Manon, seu cabelo trançado preso com uma tira de couro na testa.
As serpentes aladas das Dentes de Ferro se elevaram no ar, batendo as asas contra o peso de sua armadura.
Não ganharia o dia, no entanto. Não, as Dentes de Ferro, depois de uma ascensão pesada, logo encheram os céus. Pelo menos mil. Onde estavam as tropas do Desfiladeiro Ferian, Manon não queria saber. Ainda não.
Nas torres do castelo, nos telhados da cidade e ao longo das muralhas, o exército Crochan arrumou as vassouras ao lado do corpo, prontas para o sinal para voar.
Um sinal de Bronwen, do chifre esculpido a seu lado. O chifre estava rachado e amarelado pela idade, os símbolos entalhados tão desgastados que mal eram visíveis.
Observando o olhar de Manon, Bronwen explicou:
— Uma relíquia do antigo reino. Pertenceu a Telyn Vanora, uma jovem guerreira inexperiente durante os últimos dias da guerra, que estava perto dos portões quando Rhiannon caiu. Minha ancestral. — Ela passou a mão pelo chifre. — Ela soprou o chifre para avisar ao nosso povo que Rhiannon havia sido morta e para que fugissem da cidade. Depois do sinal, a Matriarca Sangue Azul a matou. Mas deu ao nosso povo tempo suficiente para fugir. Para sobreviver. — Prata cobriu os olhos escuros de Bronwen. — É uma honra soprar este chifre hoje de novo. Não para avisar o nosso povo para fugir, mas para reuni-lo.
Nenhuma das Treze olhou para Bronwen, mas Manon sabia que elas ouviam cada palavra.
Bronwen pôs a mão no peitoral de couro.
— Telyn está aqui hoje. Nos corações de cada Crochan que saiu, que chegou até aqui. Todos os que caíram nas guerras das bruxas estão conosco, mesmo que não possamos vê-los.
Manon pensou naquelas duas presenças que sentiu enquanto lutava contra as Matriarcas e sabia que as palavras de Bronwen eram verdadeiras.
— É por eles que lutamos — disse Bronwen, seu olhar descendo para o exército que se aproximava. — E pelo futuro que temos a ganhar.
— Pelo futuro que temos ganhar — repetiu Manon, e encontrou os olhos das Treze. Embora não sorrissem, a ferocidade em seus rostos falava o suficiente.
Manon se virou para Glennis.
— Você realmente pretende lutar?
Glennis assentiu, firme e inflexível.
— Quinhentos anos atrás, minha mãe escolheu o futuro da linhagem real ao invés de lutar ao lado de seus entes queridos. E embora ela nunca tenha se arrependido de sua escolha, o peso do que deixou para trás a afetou. Eu carreguei seu fardo por toda a minha vida. — A anciã gesticulou para Bronwen e depois para Asterin. — Todos nós que lutamos aqui hoje o fazemos com alguém invisível nos dando suporte.
Os olhos negros salpicados de ouro de Asterin suavizaram-se um pouco.
— Sim — foi tudo o que a tenente de Manon disse enquanto a mão ia para o abdômen.
Não em memória da palavra odiosa marcada ali, do que tinha sido feito com ela.
Mas em memória da bruxinha morta que havia sido lançada no fogo pela avó de Manon antes que Asterin tivesse a chance de segurá-la.
Em memória do caçador que Asterin amara como nenhuma Dente de Ferro jamais amara um humano e para quem nunca voltou, por vergonha e medo. O caçador que nunca parou de esperar que ela voltasse, mesmo quando envelheceu.
Por eles, pela família que ela perdeu, Manon sabia que sua tenente lutaria hoje. Assim, isso nunca mais aconteceria novamente.
Manon lutaria hoje para se certificar de que nunca acontecesse também.
— Então chegamos a isso depois de quinhentos anos — disse Glennis, sua voz inabalável ainda distante, como se puxada para as profundezas das lembranças. O sol nascente banhou as paredes brancas de Orynth em dourado. — A posição final dos Crochans.
Como se as próprias palavras fossem um sinal, Bronwen levou o chifre de Telyn Vanora aos lábios e soprou.


A maioria acreditava que o rio Florine descia das Galhadas do Cervo, passando pela margem oeste de Orynth, antes de atravessar as planícies.
Mas a maioria não sabia que o antigo rei feérico havia construído sua cidade com sabedoria, escavando esgotos e rios subterrâneos que levavam a água fresca da montanha diretamente para a própria cidade. Por todo o caminho abaixo do castelo.
Uma tocha erguida no alto, Lysandra olhou para um desses canais subterrâneos, a água escura redemoinhando enquanto fluía pelo túnel de pedra e saía pelas muralhas da cidade. Sua respiração se condensou no ar quando ela falou com o grupo de soldados da Devastação que a acompanhava.
— Tranquem a grade uma vez que eu esteja fora.
Um grunhido foi sua única confirmação. Lysandra franziu a testa para a pesada grade de ferro que atravessava o rio subterrâneo, as barras de metal grossas como oseu  antebraço. Fora lorde Murtaugh quem sugerira esta rota particular de ataque, seu conhecimento dos cursos de água sob a cidade e o castelo além do domínio de Aedion.
Lysandra se preparou para o mergulho, sabendo que a água estaria gelada. Mais que gelada.
Mas Morath estava se movendo, e se ela não se posicionasse logo, poderia muito bem ser tarde demais.
— Que os deuses estejam com você — disse um dos soldados da Devastação.
Lysandra deu ao homem um sorriso tenso.
— E com todos vocês.
Ela não se permitiu reconsiderar. Deu um passo além da margem de pedra.
O mergulho foi rápido, sem alcançar fundo. O frio arrancou o ar de seus pulmões, mas ela já estava se transformando, a luz e o calor enchendo seu corpo enquanto seus ossos mudavam de forma, enquanto a pele desaparecia. Sua magia pulsou, drenando rapidamente à medida que o forjamento deste corpo requeria, mas então estava feito.
Distante, acima da superfície, a Devastação praguejou. Fosse por medo ou admiração, ela não se importava.
Subindo o suficiente para tomar ar, Lysandra submergiu novamente. Mesmo nessa forma, o frio rasgou-a, a água turva e escura, mas ela nadou com a correnteza, deixando-a guiá-la em seu caminho para fora do antigo túnel.
Para além das muralhas da cidade. Para o vasto Florine, onde o frio aumentou até o quase insuportável. Blocos grossos de gelo flutuavam acima, ocultando-a dos olhos inimigos.
Ela nadou rio abaixo, ao longo do flanco leste do exército de Morath, e esperou por seu sinal.


As Crochans tomaram o céu em uma onda de vermelho que varreu a cidade e suas muralhas.
No topo da seção sul dos muros, Ren ao seu lado, Aedion inclinou a cabeça para trás enquanto as observava voar no ar acima da planície.
— Você realmente acha que elas podem lutar contra aquilo? — Ren acenou com a cabeça em direção ao mar das bruxas Dentes de Ferro e serpentes aladas.
— Acho que não temos outra escolha a não ser esperar que elas possam — respondeu Aedion, soltando o arco de suas costas. Ren fez o mesmo.
Ao sinal silencioso, arqueiros ao longo das muralhas da cidade pegaram seus arcos. Espalhados entre eles, os micênicos de Rolfe posicionaram seus lança-chamas, apoiando as engenhocas de metal no próprio muro.
Morath marchou. Não haveria mais atrasos, nen surpresas. Esta batalha se desdobraria.
Aedion olhou para a curva do Florine, as placas de gelo brilhando no sol da manhã. Ele afastou o medo em seu coração. Eles estavam desesperados demais, superados em número, para que ele negasse a Lysandra a tarefa que ela assumira hoje.
Um olhar por cima do ombro confirmou a Aedion que os soldados da Devastação tinham as catapultas preparadas no topo das ameias, a realeza dos feéricos pronta para usar sua magia quase esgotada para levitar os enormes blocos de pedra provenientes do rio ao lugar certo. E nas muralhas da cidade, os arqueiros feéricos permaneceram atentos enquanto esperavam pelo sinal deles.
Aedion colocou uma flecha em seu arco, tensionando o braço enquanto puxava a corda.
Como um só, o exército reunido nas muralhas da cidade fez o mesmo.
— Vamos fazer dessa uma batalha digna de uma canção — disse Aedion.

3 comentários:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!