29 de outubro de 2018

Capítulo 83

Dorian voou e voou. Ao longo da espinha dos Caninos, Carvalhal uma extensão de inverno à sua direita, ele voou para o norte por quase dois dias antes de se atrever a parar.
Escolhendo uma clareira em meio a um emaranhado de árvores antigas, ele se chocou contra os galhos, mal registrando as aguilhoadas através do couro espesso de sua forma de serpente alada. Ele se transformou assim que atingiu a neve, sua magia instantaneamente descongelando o córrego congelado que passava pela clareira.
Então ele caiu de joelhos e bebeu. Goles de água profundos e engasgados.
Encontrar comida foi mais fácil do que ele previra. Ele não precisou de uma armadilha ou flechas para capturar o coelho magro que se escondia ali perto. Não precisou de facas para esfolar. Ou um espeto.
Quando sua sede e fome foram saciadas, quando um olhar para o céu lhe mostrou que nenhum inimigo se aproximava, Dorian desenhou as marcas. Só mais uma vez.
Ele tinha ir logo. Mas para isso, ele poderia atrasar seu voo para o norte um pouco mais. Damaris também parecia concordar. Desta vez, as marcas convocaram quem ele desejava.
Gavin apareceu dentro do círculo de marcas de Wyrd desenhadas com sangue, mais pálido e enevoado na luz da manhã.
— Você encontrou, então — o antigo rei disse em saudação. — E deixou Erawan com uma grande bagunça para limpar.
— Encontrei. — Dorian colocou a mão sobre o bolso da jaqueta. Sobre o poder terrível que vibrava ali. Precisou de toda a sua concentração durante o voo furioso de Morath para bloquear os sussurros. Seu arrepio não era apenas do ar gelado.
— Então por que me convocar?
Dorian encontrou o olhar do homem. De rei para rei.
— Eu queria avisar-lhe que consegui – assim você pode ter uma chance de se despedir. De Elena, quero dizer. Antes que o cadeado seja forjado.
Gavin ficou rígido. Dorian não recuou do olhar avaliador do rei.
— Então suponho que também estarei me despedindo de você — Gavin falou suavemente depois de um momento.
Dorian assentiu. Ele estava pronto. Não tinha outra escolha senão estar pronto.
— Você decidiu, então? Que será aquele que será sacrificado?
— Aelin está no norte — disse Dorian. — Quando eu encontrá-la, suponho que decidiremos o que fazer. — Quem seria aquele que se juntaria às três chaves? E não voltaria. — Mas — ele admitiu — estou esperando que ela tenha outra solução. Uma para Elena também.
Aelin havia escapado de Maeve. Talvez  tivesse a sorte de encontrar uma maneira de escapar do destino deles.
Um vento fantasma soprou os fios do cabelo comprido de Gavin em seu rosto.
— Obrigado — disse ele com voz rouca. — Por mesmo considerar a possibilidade. — Mas tristeza brilhava nos olhos do rei. Ele sabia precisamente quão impossível seria.
— Sinto muito — Dorian falou então. — Pelo o que o sucesso com o cadeado significará para vocês dois.
A garganta de Gavin tremeu.
— Minha parceira fez sua escolha há muito tempo. Ela sempre esteve preparada para enfrentar as consequências, mesmo que eu não.
Assim como Sorscha fizera suas próprias escolhas. Seguiu seu próprio caminho.
E pela primeira vez, a lembrança dela não machucou. Em vez disso, fulgurou, um desafio brilhante. Para fazer valer. Por ela e tantos outros. Por si mesmo também.
— Não desista da vida com tanta facilidade — disse Gavin. — Foi a vida que tive com Elena que me permite até mesmo pensar em me separar dela agora. Uma boa vida – tão boa quanto qualquer outra que se possa esperar. — Ele inclinou a cabeça. — Eu desejo o mesmo para você.
Antes que Dorian pudesse expressar o que surgia em seu coração com palavras, Gavin olhou para o céu. Suas sobrancelhas escuras se estreitaram.
— Você precisa ir.
O som de bater de asas encheu o ar. Milhares de asas.
A legião de Dentes de Ferro de Morath havia se recuperado após o colapso da fortaleza, parecia. E agora fazia o seu longo voo para o norte, até Orynth, provavelmente infinitamente ansiosa para derrubar seus amigos.
Ele rezou para que Maeve não estivesse naquele exército. Que ela permanecesse lambendo suas feridas em Morath junto com Erawan. Até o resto de seus horrores marcharem, as princesas-aranhas com eles.
Mas, apesar do exército que se aproximava, Dorian tocou o punho de Damaris e disse:
— Eu vou cuidar disso. De Adarlan. Por qualquer que seja o tempo que me restar. Eu não vou abandoná-lo.
A espada queimava. E Gavin, apesar da perda que se aproximava dele, sorriu levemente. Como se sentisse o calor da espada também.
— Eu sei. Eu sempre soube disso.
O calor de Damaris se manteve firme. Dorian engoliu o aperto na garganta.
— Quando os portões de Wyrd estiveres selados, poderei abrir novamente este tipo de portal? — Poderei vê-lo, buscar seu conselho?
Gavin tremeluzia.
— Eu não sei. Mas espero que sim.
Dorian colocou a mão sobre o coração e curvou-se profundamente. E quando Gavin desapareceu na neve e no sol, Dorian poderia jurar que o rei fez uma reverência em resposta.
Minutos depois, quando asas esconderam o sol, ninguém notou a serpente alada solitária que se ergueu de Carvalhal e entrou nas fileiras do proliferante exército.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!