29 de outubro de 2018

Capítulo 82

Todas as Crochan que podiam voar e empunhar uma espada tinham chegado.
Durante dias, elas voaram para o norte, mantendo-se nas profundezas das montanhas, depois cortando para baixo sobre Carvalhal antes de fazer um circuito largo para evitar a detecção de Morath.
De fato, enquanto Manon e as Treze se empoleiravam nas muralhas da cidade, as Crochans sobrevoando enquanto seguiam para qualquer lugar que pudessem encontrar nas ameias do castelo, ainda era difícil acreditar que elas conseguiram.
E sem uma hora de tolerância. Quanto mais ao norte elas voaram, mais Crochans entraram nas linhas. Como se a coroa de estrelas que Manon usava fosse um ímã, convocando-as para ela.
A cada quilômetro, mais apareceram das nuvens, das montanhas, da floresta. Jovens e velhas, de olhos sábios ou rosto jovem, elas vieram.
Até cinco mil voarem atrás de Manon e das Treze.
— Eles pararam completamente — falou a metamorfa ao lado de Aedion, apontando para o campo de batalha.
Longe, o exército de Morath havia parado. Totalmente interrompido. Como se estivesse em dúvida e choque.
— Sua avó está com eles — Asterin murmurou para Manon. — Eu posso sentir.
— Eu sei. — Manon virou-se para o jovem príncipe-general. — Vamos lidar com as Dentes de Ferro.
Seus olhos turquesa estavam brilhantes como o dia acima deles, quando ele apontou para a planície.
— Por todos os meios, vá em frente.
A boca de Manon se curvou para o lado, então ela apontou com o queixo para as Treze.
— Nós estaremos nas ameias do seu castelo. Deixo uma das minhas sentinelas aqui com você, se precisar mandar uma mensagem.
Um aceno para Vesta, e a bruxa ruiva não fez nenhum movimento para voar enquanto as outras se afastavam em direção ao grande e imponente palácio. Manon nunca vira algo assim – até o antigo castelo de vidro em Forte da Fenda não era nada comparado a ele.
Manon sorriu para o velho que sibilara para ela, mostrando todos os dentes.
— De nada — disse ela, e com um estalo das rédeas, estava no ar.


Morath havia parado completamente.
Como se reavaliassem sua estratégia agora que as Crochans haviam surgido das névoas da lenda. Não caçadas até quase tão perto da extinção como acreditaram, parecia.
Isso permitiu que Manon e o exército que ela erguera tivesse a chance de recuperar o fôlego, pelo menos.
E uma noite para dormir, se intermitentemente. Ela se encontrou com os líderes mortais durante o jantar, quando ficou claro que Morath não terminaria com tudo hoje.
Cinco mil Crochans não venceriam esta guerra. Elas não parariam cem mil soldados. Mas poderiam manter as legiões Dentes de Ferro afastadas – impedi-las de saquear a cidade e deixar as hordas de demônios entrarem.
Tempo suficiente para qualquer pequeno milagre, Manon não sabia. Ela não ousou perguntar, e nenhum dos mortais fez a pergunta também.
Poderia a cidade aguentar cem mil soldados martelando seus muros e portões? Possivelmente.
Mas não com a torre de bruxa ainda operacional na planície. Ela tinha poucas dúvidas de que estava sendo consertada, uma nova serpente alada sendo engatada.
Talvez fosse por isso que eles pararam – para se darem tempo para consertar aquela torre novamente. E explodir as Crochans para o esquecimento.
Só o alvorecer revelaria o que as Dentes de Ferro escolheram fazer. O que elas decidiram.
Manon e as Treze, Bronwen e Glennis com elas, passaram horas organizando as Crochans. Atribuindo-lhes a certos flancos das Dentes de Ferro com base no conhecimento de Manon das formações de seus inimigos.
Ela criara essas formações. Tinha planejado liderá-las. E quando isso foi feito, quando o encontro com os líderes mortais terminou, todos ainda com o rosto sombrio, mas não tão perto de pânico, Manon e as Treze encontraram uma câmara para dormir.
Algumas velas queimavam na sala espaçosa, mas nenhuma mobília a preenchia. Nada, exceto os sacos de dormir que elas trouxeram. Manon tentou não olhar demais para o dela, procurar o cheiro que havia desaparecido a cada quilômetro para o norte.
Onde Dorian estava, o que ele estava fazendo – ela não se permitiu pensar. Se apenas porque isso a faria voar para o sul novamente, todo o caminho para Morath.
Na sala escura, Manon sentou-se em seu colchonete, as Treze sentadas ao seu redor, e ouviu o caos do castelo.
O lugar era pouco mais que um túmulo, os fantasmas de suas riquezas assombrando todos os cantos. Ela se perguntou o que esse cômodo tinha sido – uma sala de reuniões, um lugar para dormir, um escritório... Não havia indicadores.
Manon encostou a cabeça nas pedras frias da parede atrás dela, a coroa descartada junto com as botas.
Asterin falou primeiro, cortando o silêncio do coven.
— Conhecemos todos os seus movimentos, todas as armas. E agora as Crochans também. As Matriarcas provavelmente estão em pânico.
Ela nunca tinha visto a avó em pânico, mas Manon soltou uma risada sombria.
— Veremos amanhã, suponho. — Ela inspecionou suas Treze. — Vocês vieram comigo até aqui, mas amanhã será sua própria raça que enfrentaremos. Vocês podem estar lutando com amigos ou amantes ou membros da família. — Ela engoliu em seco. — Eu não vou culpá-las se não puderem fazê-lo.
— Chegamos até aqui — disse Sorrel — porque estamos todas preparadas para o que o amanhã trará.
De fato, os Treze assentiram.
— Não temos medo — Asterin falou.
Não, elas não tinham. Olhando para os olhos límpidos em volta dela, Manon podia ver isso por si mesma.
— Eu esperava que pelo menos algumas — Vesta reclamou — do Desfiladeiro Ferian se juntassem a nós.
— Elas não entendem — disse Ghislaine — o que nós lhes oferecemos.
Liberdade – liberdade das Matriarcas que as forjaram em ferramentas de destruição.
— Um desperdício — Asterin resmungou.
Até as gêmeos demônios de olhos verdes assentiram.
O silêncio caiu novamente. Apesar de seus olhos límpidos, suas Treze estavam bem cientes das limitações de cinco mil Crochans contra as Dentes de Ferro, e o exército abaixo dele.
Então Manon disse, olhando-as nos olhos:
— Eu prefiro voar com vocês do que com dez mil Dentes de Ferro ao meu lado. — Ela sorriu levemente. — Amanhã, vamos mostrar a elas o porquê.
Seu clã sorriu, perverso e desafiador, e tocou dois dedos em suas sobrancelhas em deferência.
Manon devolveu o gesto, inclinando a cabeça.
— Nós somos as Treze — disse ela. — De agora até que a Escuridão nos reivindique.


Evangeline tinha decidido que não queria mais ser pajem de Lord Darrow, mas sim uma bruxa Crochan.
Uma das mulheres até chegou a dar à garota de olhos arregalados um manto vermelho extra, que Evangeline ainda vestia quando Lysandra a colocou na cama. Ela ajudaria Darrow amanhã, prometeu Evangeline, enquanto adormecia. Depois que se assegurasse que as Crochans tivessem toda a ajuda de que precisavam.
Lysandra sorrira com isso, apesar das dificuldades ainda grandes contra eles. Manon Bico Negro – agora Manon Crochan, ela supôs – fora contundente em sua avaliação. As Crochans poderiam manter as Dentes de Ferro à distância, talvez derrotá-las se tivessem muita sorte, mas as hostes de Morath ainda continuariam lá para enfrentar. Assim que o exército marchasse novamente, seus planos para defender as muralhas continuariam os mesmos.
Incapaz e sem vontade de adormecer no catre ao lado da cama de Evangeline, Lysandra se viu vagando pelos corredores do antigo castelo. Que lar teria sido para ela e Evangeline. Que corte.
Talvez ela inconscientemente tenha seguido o seu cheiro, mas Lysandra não ficou surpresa quando entrou no Salão Principal e encontrou Aedion diante do fogo que esmorecia.
Ele estava sozinho, e ela duvidava que fizesse pouco tempo.
Ele se virou antes que ela conseguisse passar pela porta. Assistiu cada passo dela.
Porque eu não estou apaixonado pelos nossos outros aliados. Como as palavras mudaram tudo e ainda nada.
— Você deveria estar dormindo.
Aedion deu-lhe um meio sorriso.
— Assim como você.
O silêncio caiu entre eles enquanto fitavam os olhos um do outro. Ela poderia passar a noite toda assim. Poderia ter passado muitas noites assim, na pele de outra fera. Apenas observando-o, capturando as linhas poderosas de seu corpo, a vontade inquebrável em seus olhos.
— Pensei que morreríamos hoje — disse ela.
— Nós íamos morrer.
— Eu ainda estou com raiva de você — ela desabafou. — Mas...
Suas sobrancelhas se ergueram, uma luz que ela não via há algum tempo brilhando em seu rosto.
— Mas?
Ela franziu o cenho.
— Mas eu pensarei no que você me disse. Isso é tudo.
Um sorriso familiar e perverso enfeitou os lábios dele.
— Você vai pensar sobre isso?
Lysandra ergueu o queixo, olhando de cima tanto quanto podia, já que ele era mais alto que ela.
— Sim, eu vou pensar sobre isso. O que eu pretendo fazer.
— Sobre eu estar apaixonado por você.
— Hã...  — ele sabia que o comportamento arrogante a deixaria desequilibrada. — Se é assim que você quer chamar.
— Há algo mais do que eu deveria chamar? — Ele deu um único passo mais perto, deixando-a decidir se ela permitiria. Ela permitiu.
— Só... — Lysandra apertou os lábios. — Não morra amanhã. Isso é tudo o que eu peço.
— Assim você terá tempo para pensar sobre o que planeja fazer com a minha declaração.
— Precisamente.
O sorriso de Aedion se tornou predatório.
— Posso pedir algo a você, então?
— Eu não acho que você esteja em posição de fazer pedidos, mas certo.
Aquele sorriso lupino permaneceu enquanto ele sussurrava em seu ouvido:
— Se eu não morrer amanhã, posso beijá-la quando o dia acabar?
O rosto de Lysandra aqueceu quando ela se afastou, cedendo um passo. Ela era uma cortesã treinada, deuses acima. Altamente treinada. E, no entanto, o simples pedido reduziu os joelhos a geleia.
Ela se dominou, endireitando os ombros.
— Se você não morrer amanhã, Aedion, então conversaremos. E veremos o que acontece.
O sorriso lupino de Aedion não diminuiu.
— Até amanhã à noite, então.
O inferno esperava por eles amanhã. Talvez o seu destino. Mas ela não o beijaria, não agora. Não daria esse tipo de promessa ou despedida.
Então Lysandra saiu para o corredor, o coração acelerado.
— Até amanhã.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!