29 de outubro de 2018

Capítulo 81

— Cem mil — Ren falou, aquecendo suas mãos diante do fogo rugindo no Grande Salão.
Eles haviam perdido dois dos Assassinos Silenciosos para os arqueiros de Morath em busca de retaliação pela destruição das torres de bruxa, mas não mais do que isso, misericordiosamente.
Ainda assim, a refeição da noite tinha sido sombria. Ninguém comera realmente, não quando a escuridão havia caído e as fogueiras do acampamento inimigo se acenderam. Mais do que eles poderiam contar.
Aedion permanecera aqui depois que todos os outros haviam se arrastado para suas próprias camas. Apenas Ren continuava ali, Lysandra escoltando uma Evangeline ainda trêmula até seu quarto. O que a manhã traria, só os deuses sabiam.
Talvez os deuses os tivessem abandonado de novo, agora que o único jeito de voltar para casa fora trancado em uma caixa de ferro. Ou concentraram seus esforços inteiramente em Dorian Havilliard.
Ren soltou um longo suspiro
— É isso, não é? Não sobrou ninguém para nos ajudar.
— Não será um fim bonito — admitiu Aedion, encostado no consolo da lareira. — Especialmente quando eles tiverem a terceira torre operacional novamente.
Eles não teriam outra chance de surpreender Morath agora. Ele moveu o queixo na direção do jovem lorde.
— Você deveria descansar um pouco.
— E você?
Aedion apenas olhou para a chama.
— Teria sido uma honra — Ren falou — servir nesta tribunal. Com você.
Aedion fechou os olhos, engolindo em seco.
— Teria sido uma honra, de fato.
Ren deu um tapinha no ombro dele. Então seus passos se arrastaram pelo corredor.
Aedion permaneceu sozinho na luz da fogueira por mais alguns minutos antes de se dirigir para a cama e qualquer que fosse o sono que pudesse encontrar.
Ele quase alcançou a entrada da torre leste quando a viu. Lysandra parou, uma xícara do que parecia ser leite quente em suas mãos.
— Para Evangeline — explicou ela. — Ela não consegue dormir.
A garota tremeu o dia todo. Parecia que vomitaria sobre a mesa.
— Posso falar com ela? — Aedion perguntou.
Lysandra abriu a boca como se para dizer não, e ele estava disposto a deixá-la ir, mas ela inclinou a cabeça.
Eles caminharam em silêncio por todo o caminho até a torre norte, depois para cima, para cima e para cima. Para o antigo quarto de Rose. Ren deve ter cuidado disso mais uma vez. A porta estava entreaberta, a luz dourada caindo no patamar.
— Eu lhe trouxe um pouco de leite — anunciou Lysandra, quase sem fôlego pela subida. — E companhia — acrescentou ela à menina enquanto Aedion entrava na sala aconchegante.
Apesar dos anos de negligência, a câmara de Rose no castelo real permaneceu incólume – uma das poucas salas que podiam reclamar tal coisa.
Os olhos de Evangeline se arregalaram ao vê-lo, e Aedion ofereceu à garota um sorriso antes de se empoleirar na lateral da cama dela. Ela tomou o leite que Lysandra ofereceu enquanto a metamorfa se sentava na outra extremidade do colchão, e tomou um gole, mãos brancas enroscadas ao redor da xícara.
— Antes da minha primeira batalha — Aedion falou para a menina — passei a noite inteira na privada.
— Você? — Evangeline guinchou.
Aedion sorriu.
— Ah, sim. Quinn, o antigo Capitão da Guarda, disse que era uma maravilha que eu tivesse qualquer coisa dentro de mim quando o amanhecer chegou. — Uma dor antiga encheu o peito de Aedion à menção de seu mentor e amigo, o homem que ele admirava tão grandemente. Que fez a sua posição final, como Aedion, na planície além desta cidade.
Evangeline soltou uma risadinha.
— Isso é nojento.
— Certamente foi — disse Aedion, e poderia jurar que Lysandra sorria um pouco. — Então você já é muito mais valente do que e fui.
— Eu vomitei mais cedo — sussurrou Evangeline.
Aedion disse em um sussurro conspiratório:
— Melhor do que cagar suas calças, querida.
Evangeline soltou uma gargalhada que a fez apertar a xícara para evitar que o conteúdo derramasse.
Aedion sorriu e bagunçou o cabelo vermelho-dourado.
— A batalha não será bonita — disse ele enquanto Evangeline bebericava seu leite. — E você provavelmente vai vomitar de novo. Mas sabe esse seu medo? Ele significa que você tem algo pelo qual vale a pena lutar – algo que você se importa tanto que perder é a pior coisa que você pode imaginar. — Ele apontou para as janelas cobertas de gelo. — Aqueles bastardos lá fora na planície? Eles não têm nada disso. — Ele colocou a mão sobre a dela e apertou suavemente. — Eles não têm nada pelo que lutar. E embora possamos não ter seus números, temos algo que vale a pena defender. E por causa disso, podemos superar nosso medo. Nós podemos lutar contra eles, até o fim. Por nossos amigos, pela nossa família... — Ele apertou a mão dela novamente. — Por aqueles que amamos... — ele se atreveu a olhar para Lysandra, cujos olhos verdes estavam cobertos por prateado. — Por aqueles que amamos, podemos nos erguer acima desse medo. Lembre-se disso amanhã. Mesmo que você vomite, mesmo que passe a noite inteira no banheiro. Lembre-se de que temos algo pelo que lutar e isso sempre triunfará.
Evangeline assentiu.
— Eu lembrarei.
Aedion bagunçou o cabelo dela mais uma vez e caminhou até a porta, parando no limiar. Ele encontrou o olhar de Lysandra, os olhos dela brilhantes como esmeralda.
— Eu perdi a minha família há dez anos. Amanhã vou lutar pela nova que formei.
Não apenas por Terrasen e sua corte e seu povo. Mas também pelas duas mulheres nesta sala.
Eu queria que fosse você no final.
Ele quase falou as palavras dela então. Quase falou de volta para Lysandra quando algo como tristeza e saudade apareceu em seu rosto.
Mas Aedion saiu do quarto, fechando a porta atrás dele.


Lysandra mal dormiu. Toda vez que fechava os olhos, via a expressão no rosto de Aedion, ouvia suas palavras.
Ele não esperava sobreviver a essa batalha. Não esperava que nenhum deles sobrevivesse. Ela deveria ter ido atrás dele. Corrido pelas escadas da torre atrás dele. E ainda assim ela não o fez. A aurora chegou, um dia claro junto. Então eles puderam ver o tamanho do exército esperando por eles com mais clareza.
Lysandra trançou o cabelo de Evangeline, a garota mais ereta do que estivera no dia anterior. Ela poderia agradecer a Aedion por isso. Pelas palavras que permitiram à garota dormir na noite passada.
Elas caminharam em silêncio, o queixo de Evangeline erguido, até o Grande Salão, para o que poderia muito bem ser o último café da manhã.
Eles estavam quase lá quando uma velha voz falou:
— Eu gostaria de uma palavra. — Darrow.
Evangeline se virou antes de Lysandra. O velho lorde estava na porta do que parecia ser um escritório e chamou-as para dentro.
— Não vai demorar muito — disse ele ao notar o descontentamento ainda no rosto de Lysandra.
Ela se fez parecer gentil para homens a quem não tinha interesse em ser gentil.
Evangeline olhou para ela com uma pergunta silenciosa, mas Lysandra fez um gesto com a cabeça na direção do velho.
— Muito bem.
O escritório estava abarrotado de pilhas de livros – pilhas e pilhas contra as paredes, ao longo do chão. Bem mais de mil. Muitos se desfazendo com a idade.
— Os últimos textos sagrados da Biblioteca de Orynth — explicou Darrow, apontando para a mesa cheia de papéis diante de uma janela de vidro estreita. — Tudo o que os mestres estudiosos conseguiram salvar dez anos atrás.
Tão poucos. Tão poucos comparados com o que Aelin dissera ter havido um dia naquela biblioteca quase mítica.
— Eu os tirei do esconderijo depois da morte do rei — disse Darrow, sentando-se atrás da mesa. — Um otimismo de tolo, suponho.
Lysandra dirigiu-se a uma das pilhas, observando um título. Era em uma linguagem que ela não reconheceu.
— Os restos de uma civilização que já foi grande — disse Darrow com voz rouca.
E foi a ligeira rouquidão em sua voz que fez Lysandra se virar. Ela abriu a boca para exigir o que ele queria, mas vislumbrou o que estava ao lado de sua mão direita.
Envolto em um cristal que não era maior do que uma carta de baralho, a flor vermelha e laranja parecia brilhar – assim como o poder de seu homônimo.
— A chama do rei — ela falou, incapaz de se conter enquanto se aproximava. Aelin e Aedion contaram a ela sobre a lendária flor que crescia nas montanhas e nos campos no dia em que Brannon pusera os pés naquele continente, prova da paz que trouxera consigo.
E desde aqueles dias antigos, apenas poucas flores haviam sido vistas, tão raras que sua aparição era considerada um sinal de que a terra abençoara qualquer soberano sentado no trono de Terrasen. Que o reino estava verdadeiramente em paz. O que fora sepultada em cristal na mesa de Darrow, dissera Aelin, aparecera durante o reinado de Orlon. Orlon, o amor de toda a vida de Darrow.
— Os mestres estudiosos pegaram os livros quando Adarlan invadiu — disse Darrow, sorrindo tristemente para a chama do rei. — Eu peguei isso.
O trono de chifres, a coroa – tudo isso destruído. Exceto por este tesouro, tão grande quanto qualquer um pertencente à família Galathynius.
— É muito bonita — disse Evangeline, aproximando-se da mesa. — Mas muito pequena.
Lysandra podia jurar que os lábios do velho se contorceram em direção a um sorriso.
— É verdade — disse Darrow. — Assim como você.
Ela não esperava o amolecimento de sua voz, a gentileza. E também não esperava as próximas palavras dele.
— A batalha nos alcançará antes do meio-dia — Darrow falou a Evangeline. — Acho que precisarei de alguém de inteligência rápida e pés mais rápidos ainda para me ajudar aqui. Para enviar mensagens aos nossos comandantes deste castelo e buscar suprimentos quando necessário.
Evangeline inclinou a cabeça.
— O senhor quer que eu ajude?
— Você treinou com guerreiros durante suas viagens com eles, ouvi dizer.
Evangeline olhou para Lysandra em indagação, e ela acenou para sua protegida. Eles tinham supervisionado Evangeline aprendendo o básico de esgrima e arco e flecha enquanto estavam na estrada.
A garota acenou para o velho lorde.
— Eu tenho alguma habilidade, mas não como Aedion.
— Poucos têm — disse Darrow ironicamente. — Mas precisarei de alguém com um coração destemido e mão firme para me ajudar. Você é essa pessoa?
Evangeline não olhou para Lysandra novamente.
— Eu sou — ela respondeu, levantando o queixo.
Darrow sorriu levemente.
— Então desça para o Grande Salão. Coma seu café da manhã, e quando voltar aqui, haverá uma armadura esperando por você.
Os olhos de Evangeline se arregalaram com a menção da armadura, nenhum traço de medo os escurecendo suas feições.
Lysandra murmurou para ela:
— Vá. Eu descerei para encontrá-la em um minuto.
Evangeline saiu correndo, a trança voando atrás dela. Só quando Lysandra teve certeza de que a menina tinha descido, ela perguntou:
— Por quê?
— Suponho que essa pergunta signifique que você está permitindo que eu comande a sua protegida.
— Por quê?
Darrow pegou o cristal da chama do rei.
— Nox Owen não tem qualquer utilidade para mim agora que sua lealdade foi esclarecida, e aparentemente desapareceu para os deuses sabem onde, provavelmente a pedido de Aedion. — Ele virou o cristal sobre os dedos finos. — Mas além disso, nenhuma criança deveria ter que assistir quando seus amigos são abatidos. Mantê-la ocupada, dar-lhe um propósito e um pouco de poder será melhor do que trancá-la na torre norte, assustada com cada som e morte horríveis.
Lisandra não sorriu, não baixou a cabeça.
— Você faria isso pela protegida de uma prostituta?
Darrow abaixou o cristal.
— São os rostos das crianças das quais mais me lembro dez anos atrás. Ainda mais que o de Orlon. E o rosto de Evangeline ontem, enquanto olhava para aquele exército – foi o mesmo desespero que vi naquela época. Então você pode me achar um bastardo de marca maior, como Aedion diria, mas eu não sou tão cruel como você pode acreditar. — Ele acenou em direção à porta aberta. — Ficarei de olho nela.
Ela não estava totalmente certa do que dizer. Se deveria cuspir na cara dele e mandá-lo para o inferno com sua oferta.
Ainda que o brilho nos olhos de Evangeline, o jeito como saiu correndo daqui... Propósito. Darrow havia oferecido a ela propósito e orientação.
Então ela se virou da sala, com seu precioso tesouro, os livros antigos valendo mais do que ouro. Os companheiros silenciosos e tristes de Darrow.
— Obrigada.
Darrow acenou para ela e voltou a estudar os papéis que estavam em sua mesa – embora seus olhos não se movessem pelas páginas.


As paredes da muralha da cidade estavam alinhadas com soldados. Cada um com o rosto como pedra enquanto viam o que marchava para mais perto.
A torre de bruxa ainda estava inutilizada, graças aos deuses. Mas mesmo à distância, Aedion podia ver que soldados trabalhavam para consertar sua roda danificada. No entanto, sem outra serpente alada para substituir a que foi abatida no dia anterior, a torre não se moveria em breve. Isso não tornaria o dia mais fácil, no entanto. Não, hoje iria doer.
— Eles estarão dentro do alcance dos arqueiros em cerca de uma hora — relatou Elgan.
As ordens de Darrow que se danassem. Kyllian ainda era geral, sim, mas cada relatório que seu amigo recebia, Aedion também ouvia.
— Lembre-os de fazer seus tiros contarem. Escolherem alvos. — A Devastação sabia disso sem ser informado. Os outros – eles provaram sua coragem nessas batalhas, mas um lembrete nunca machucava.
Elgan apontou para as seções das muralhas da cidade que Ren e os nobres feéricos consideraram a melhor vantagem para seus arqueiros. Contra cem mil soldados, eles poderiam apenas tentar afinar as linhas, mas deixar o inimigo atacar incontestado contra as muralhas seria uma loucura total. E quebraria o espírito dessas pessoas antes que elas encontrassem o seu fim.
— O que é aquilo? — Ren murmurou, apontando para o horizonte.
Afiados – os olhos de Ren tinham que ser mais afiados do que a maioria dos humanos, já que ainda era apenas uma mancha no horizonte para Aedion.
Uma respiração passou. A mancha escura começou a tomar forma, subindo para o céu azul.
Voando em direção a eles.
— Ilken? — Ren piscou quando ele protegeu os olhos contra o brilho.
— Grande demais — respirou Aedion.
Mais perto, a massa que voava acima do vasto exército ficou mais clara. Maior.
— Serpentes aladas — disse Aedion, temor enrolando-se em seu estômago.
A legião aérea das Dentes de Ferro finalmente aparecera.
— Oh deuses — Ren sussurrou.
Contra um cerco terrestre, Orynth poderia ter resistido – alguns dias ou semanas, mas eles poderiam ter durado.
Mas com as mil ou mais bruxas Dentes de Ferro que vinham na direção deles naquelas serpentes aladas... Elas não precisariam de suas torres infernais para destruir esta cidade, o castelo. Para abrir os portões e muros da cidade e deixar entrar as hordas de Morath.
Os soldados começaram a identificar as serpentes aladas. Pessoas gritavam ao longo das ameias. Acima no castelo que se erguia atrás deles.
Este cerco não teria sequer a chance de ser um cerco. Acabaria hoje. Dentro de algumas horas.
Sons de pés correndo até parar, e então Lysandra estava lá, ofegante.
— Diga-me o que fazer, aonde ir. — Seus olhos esmeralda estavam arregalados de terror – terror indefeso e desespero. — Eu posso me transformar em uma serpente alada, tentar mantê-las...
— Há mais de mil Dentes de Ferro — disse Aedion, sua voz oca em seus ouvidos. O medo dela trouxera algo afiado e perigoso nele, mas ele se absteve de alcançá-la. — Não há nada que você ou nós possamos fazer.
Algumas dúzias dos Dentes de Ferro saquearam Forte da Fenda em questão de horas. Este exército... Aedion se concentrou em sua respiração, mantendo a cabeça erguida enquanto os soldados começavam a se afastar de suas posições ao longo das muralhas.
Inaceitável.
— FIQUEM ONDE ESTÃO — ele gritou. — SEGUREM A LINHA, E NÃO FALHEM.
O comando rugido parou aqueles que pareciam propensos a fugir, pelo menos. Mas isso não impediu as espadas trêmulas, o fedor de seu medo crescente.
Aedion se virou para Lysandra e Ren.
— Consiga os reforços de Rolfe nas torres e edifícios mais altos. Veja se eles podem queimar as Dentes de Ferro do céu.
Quando Ren hesitou, Aedion rosnou:
— Faça isso agora.
Então Ren estava correndo em direção ao lugar onde o Lorde Pirata estava com seus soldados micênicos.
— Não vai adiantar nada, vai? — Lysandra perguntou suavemente.
Aedion apenas disse:
— Pegue a Evangeline e vá. Há um pequeno túnel no nível inferior do castelo que leva às montanhas. Pegue-a e vá embora.
Ela balançou a cabeça.
— Para qual finalidade? Morath nos encontrará a todos de qualquer maneira.
Seus comandantes corriam em sua direção, e pela primeira vez desde que os conheceu, havia um verdadeiro temor brilhando nos olhos da Devastação. Nos olhos de Elgan.
Mas Aedion manteve sua atenção fixa em Lysandra.
— Por favor. Estou te implorando. Estou implorando para você, Lysandra, ir.
O queixo dela ergueu.
— Você não está pedindo aos nossos outros aliados para fugirem.
— Porque eu não estou apaixonado pelos nossos outros aliados.
Por uma batida de coração, ela apenas piscou para ele.
Depois seu rosto se enrugou, e Aedion apenas olhou para ela, sem medo das palavras que havia dito, apenas com medo da massa escura que voava em sua direção, permanecendo na formação acima daquele exército sem fim. Medo do que essa legião faria com ela, com Evangeline.
— Eu deveria ter dito a você — Aedion falou, voz quebrando. — Todos os dias depois que percebi, todos esses meses. Eu deveria ter dito a você todos os dias.
Lysandra começou a chorar, e ele limpou as lágrimas.
Seus comandantes o alcançaram, pálidos e ofegantes.
— Ordens, general?
Ele não se incomodou em dizer a eles que não era o general deles. Não importaria como diabos ele fosse chamado. Em poucas horas, de qualquer maneira.
Lysandra ainda permanecia ao seu lado. Não fez nenhum movimento para correr.
— Por favor — ele repetiu.
Lysandra apenas entrelaçou os dedos aos dele em resposta silenciosa. E desafio.
Seu coração se partiu com essa recusa. À mão, tremendo e fria, que se agarrava à dele.
Ele apertou seus dedos com força e não as soltou enquanto enfrentava seus comandantes.
— Nós...
— Serpentes aladas vindo do norte! — A advertência gritada veio das ameias abaixo, e Aedion e Lysandra se abaixaram enquanto giravam em direção ao ataque que vinha às suas costas.
Treze serpentes aladas voavam das montanhas Galhada do Cervo, mergulhando em direção às muralhas da cidade.
E quando elas dispararam em direção a Orynth, cidadãos e soldados gritando e fugindo diante deles, o sol atingiu a pequena serpente alada que liderava o ataque. Iluminando as asas como prata viva. Aedion conhecia aquela serpente alada. Conhecia a cavaleira de cabelos brancos em cima.
— NÃO ATIREM! — ele gritou pelas linhas. Seus comandantes repetiram a ordem, e todas as flechas que haviam sido apontadas para cima agora pararam.
— É... — Lysandra respirou, sua mão caindo da dele enquanto ela andava para frente um passo, como se estivesse atordoada. — É...
Soldados ainda se abaixaram nas muralhas da cidade enquanto Manon Bico Negro e suas Treze pousavam ao lado deles, logo diante de Aedion e Lysandra.
Não era a bruxa que ele vira pela última vez em uma praia em Eyllwe.
Não, não havia nada daquela criatura fria e estranha no rosto que sorria sombriamente para ele. Nada dela naquela notável coroa de estrelas no alto de sua testa.
Uma coroa de estrelas.
Para a última Rainha Crochan.
Respirações ofegantes se aproximaram, e Aedion desviou o olhar de Manon Bico Negro para ver Darrow correr para as muralhas da cidade, boquiaberto para a bruxa e sua serpente alada, para Aedion por não atirar nela – ela, a quem Darrow acreditava ser um inimigo que veio parlamentar antes do seu abate.
— Não vamos nos render — cuspiu Darrow.
Asterin Bico Negro, seu serpente alada azul ao lado da de Manon, soltou uma risada baixa. De fato, os lábios de Manon se curvaram em frieza enquanto dizia a Darrow:
— Viemos para garantir que vocês não o façam, mortal.
— Então por que seu mestre a mandou para falar conosco? — Darrow devolveu.
Asterin riu novamente.
— Não temos nenhum mestre — disse Manon Bico Negro, e era de fato a voz de uma rainha que falava, seus olhos dourados brilhantes. — Nós viemos para honrar uma amiga.
Não havia sinal de Dorian entre as Treze, mas Aedion ainda se recuperava, não tinha as palavras para perguntar.
— Nós viemos — disse Manon, alto o suficiente para que todos nos muros da cidade pudessem ouvir — para honrar uma promessa feita a Aelin Galathynius. Para lutar pelo o que ela nos prometeu.
— E o que foi isso? — Darrow perguntou em voz baixa.
Manon sorriu então.
— Um mundo melhor.
Darrow deu um passo para trás. Como se não acreditasse no que estava diante dele, desafiando a legião que varreria sua cidade.
Manon apenas olhou para Aedion, aquele sorriso persistente.
— Há muito tempo, as Crochans lutaram ao lado de Terrasen, para honrar a grande dívida que tínhamos com o rei feérico Brannon por nos conceder uma pátria. Durante séculos, fomos seus aliados e amigos mais próximos. — Aquela coroa de estrelas brilhava em sua cabeça. — Ouvimos seu chamado por ajuda. — Lysandra começou a chorar. — E viemos para responder.
— Quantos — respirou Aedion, examinando os céus, as montanhas. — Quantos?
Orgulho e admiração encheram o rosto da Rainha das Bruxas, e até seus olhos dourados estavam cobertos por prata quando ela apontou para as montanhas Galhada do Cervo.
— Veja por si mesmo.
E então, surgindo por entre os picos, elas apareceram. Mantos vermelhos fluindo no vento, encheram o céu do norte. Tantas que ele não podia contar, nem as espadas, arcos e armas que carregavam nas costas, as vassouras voando em linha reta para eles, inabaláveis.
Milhares. Milhares delas desceram sobre Orynth. Milhares delas agora tomavam a cidade, seus soldados boquiabrindo-se para a correnteza vermelha, destemida e imperturbada pela força inimiga que escurecia o horizonte. Uma a uma, elas pousam nas ameias vazias do castelo.
Uma legião aérea para desafiar as Dentes de Ferro.
As Crochans finalmente haviam retornado.

8 comentários:

  1. Kkkk vou ter um ataque até acabar. Qq isso !!!!

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  2. Eh disso que tou falando poha... Dorian só poderia ter uma uniún rainha a seu lado...manon !!!

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  3. Milesima vez q eu morri nesse livro

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  4. AAAAHHHH EU NAO AGUENTO ESSAS COISAS

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  5. Não tô aguentando... se eu me arrepiar mais a pele racha kkkkkkkk

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  6. Genteee... to chorando! esse livro está me fazendo derramar rios de lágrimas!
    Ps: toma essa Darrow! haha

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  7. EU TO CHORANDO, Sarah consegue me fazer em cada capitulo, meu Deus to chorando

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Boa leitura, E SEM SPOILER!