5 de outubro de 2018

Capítulo 8

VI JIN PELA ÚLTIMA VEZ momentos antes de tomar um tiro na barriga.
Estávamos em Iliaz, um ponto-chave nas montanhas centrais. Enquanto estivesse nas mãos do sultão, não haveria um jeito fácil de chegar à parte oriental de Miraji. O que significava que não havia como tomar Izman e, por consequência, o trono.
Era para ser uma simples missão de reconhecimento.
Mas não fomos os únicos inimigos do sultão a perceber que Iliaz ajudaria bastante na conquista de Miraji. O lugar estava sob o cerco dos exércitos de Albis e Gamanix. Não sabia onde ficava nenhum desses dois países, mas Jin mostrou as bandeiras em suas tendas quando nos esgueiramos no topo da montanha para observar os acampamentos.
E acabou que o jovem príncipe que liderava o exército em Iliaz era um comandante muito melhor do que seu irmão Naguib tinha sido. Ele estava aguentando firme na fortaleza da montanha, lutando contra dois exércitos de uma vez só, com perdas mínimas. Até Shazad ficara impressionada. Mas ela achava que poderia dar um jeito de passar pelo cerco mesmo assim.
Foi mais ou menos desse jeito que nos vimos em meio a uma batalha entre o Primeiro Comando do emir de Iliaz e dois exércitos estrangeiros. E o Primeiro Comando era muito maior do que qualquer um de nós havia imaginado.
Eu não lembrava muito da luta. Explosões de pólvora rasgando o ar noturno de ambos os lados, gritos em línguas que eu não conhecia, sangue escorrendo sobre pedras poeirentas. Shazad abrindo caminho com sua espada como um furacão; eu mantendo o deserto sob meu controle; Jin apontando a arma para mirajins e estrangeiros na mesma proporção. Uma bala atingiu de raspão meu braço, neutralizando meu poder com apenas um beijo de ferro. Vi a faca que ia atingir as costas de Jin um segundo antes dele. O suficiente para mantê-lo vivo. Para sacar a pistola.
Saí do meu esconderijo e entrei na linha de fogo. Bastou um aperto no gatilho e o homem com a faca caiu. O problema era que havia outra arma atrás dele, apontada para mim, na mão firme de um soldado mirajin de cabelo escuro. A bala me atravessou como se eu não fosse areia do deserto e fogo djinni, apenas carne e sangue.
Tudo o que sei sobre o que aconteceu depois são coisas que me contaram quando acordei. Jin derrubou três homens na corrida até mim. Eu sangrava tão feio que parecia que metade da minha vida já estava nas minhas roupas quando ele me alcançou e me segurou. Shazad abriu caminho pelo que restava da batalha com alguns golpes de espada. Eles me colocaram nas costas de Izz, que tinha vindo nos salvar na forma de um roc gigante. Só que não havia tempo para me levar por todo caminho de volta até o acampamento. Eu morreria antes de chegar. Eles pararam na primeira cidade com uma casa de oração. Ficava do lado do país sob domínio do sultão. Território inimigo.
Izz, de volta à forma humana, fez o pai sagrado jurar que me curaria, depois repetiu aquilo para garantir que era verdade antes de me entregarem a ele.
Shazad arrastou Jin para longe quando ele tentou obrigar o pai sagrado a trabalhar com uma arma apontada para a cabeça.
O pai sagrado não tentou me matar, embora tenham me dito depois que eu quase morri uma ou duas vezes por conta própria. A bala tinha perdido por pouco três oportunidades de me matar. Eu mal parara de sangrar quando chegou o momento de me deslocarem novamente. O pai sagrado os alertou sobre os perigos de fazer isso, mas Izz tinha sido avistado. Me levaram de volta para o acampamento tão rápido quanto possível e me deixaram nas mãos do nosso próprio pai sagrado.
Ser uma demdji foi o que me salvou. Eu havia evitado sozinha qualquer chance de infecção, cauterizando tudo rapidamente. O pai sagrado só precisou se preocupar com o sangramento.
Quase uma semana havia se passado quando abri os olhos outra vez, lutando para escapar do torpor dos medicamentos que tinham me forçado goela abaixo com água.
Shazad estava cochilando ao meu lado. Foi assim que eu soube que quase havia morrido. A tenda dos doentes tinha sido território de Bahi. Shazad não havia botado os pés ali desde a morte dele. Nem quando ela mesma se feriu, na única vez que vi um golpe de espada ser mais rápido que seus reflexos. Daquela vez, eu mesma havia suturado o corte fino em seu braço.
Shazad acordou assim que me mexi. Seus olhos se arregalaram, procurando uma arma que não estava lá, antes de se concentrar em mim.
— Veja só quem voltou dos mortos.


Shazad me encontrou em uma das piscinas para banho. Tecidos escuros pendiam entre as árvores de todos os lados para isolar o local. A piscina era rasa o bastante para eu conseguir sentar e ficar com os ombros cobertos, e transparente o bastante para enxergar os dedos do pé. O chão era de pedrinhas brancas e pretas, cuja superfície havia sido alisada pela água. Empurrei-as com os dedos dos pés.
Estava ali dentro fazia bastante tempo. Havia tirado a sujeira do cabelo, que secara em estranhas ondas selvagens, cacheando desde a raiz, como de costume. Estava esfregando areia para retirar com cuidado as crostas de sangue que ainda pendiam do ferimento na minha clavícula ganhado em Saramotai. Pensei em ir ao pai sagrado para que desse alguns pontos, mas imaginei que estivesse ocupado demais lidando com as refugiadas. Incluindo aquela que havia me chamado pelo nome da minha mãe. Não sabia se ela já havia acordado, mas esse era outro motivo para ficar longe da tenda.
Shazad também havia tirado a poeira do corpo. Vestia um khalat branco e amarelo que lembrava o uniforme de Miraji. Sua pele do deserto parecia ainda mais escura contra a palidez do linho. Ela trazia um pacote embaixo do braço.
— Os instintos de fugir e lutar competem em pé de igualdade dentro de Jin, sabia? — disse. — Foi assim que Ahmed acabou sozinho em Izman para começo de conversa.
— Eu conhecia a história. Ahmed escolhera permanecer no país onde havia nascido, mas Jin decidira continuar no navio onde estavam trabalhando. Ele voltaria alguns meses depois com Delila, após a morte de sua mãe. — Jin também fez isso nos jogos do sultim. — Shazad sacudiu os sapatos até saírem do pé. — Desapareceu na noite anterior e voltou com um olho roxo e uma costela quebrada, sem nunca nos dar nenhuma explicação.
— Jin brigou num bar com um soldado por causa de uma garota.
— Hum. — Shazad pensou naquilo enquanto arregaçava seu shalvar. Sentou na borda da piscina e enfiou o pé na água para refrescá-lo. Ao nosso redor, o som do acampamento flutuava na brisa delicada, o canto dos pássaros se misturando a vozes indistintas. — Temos pouco tempo, então vou acelerar as coisas. Você vai me perguntar se eu sabia que ele tinha pedido para ir embora. Eu vou dizer que não sabia. Você vai acreditar em mim porque nunca menti para você. O que é um dos dois motivos de gostar tanto de mim.
Ela tinha certa razão.
— Já que é tão esperta, qual é o outro motivo?
— Você estaria constantemente pelada se não fosse por mim. — O pacote que carregava se desenrolou em um khalat que eu tinha visto antes no fundo do seu baú. Era da cor do céu nos últimos instantes antes de chegar a noite plena do deserto, pontilhado com o que pareciam ser pequenas estrelas. Quando ele tiniu em suas mãos, notei que não eram feitas de linha. Eram pedrinhas de ouro. Eu não tinha roupas suficientes para lutar uma guerra quando cheguei à rebelião, mas Shazad possuía o bastante para nós duas. Mesmo que nada dela servisse perfeitamente em mim. Aquela era de longe a peça mais bonita que eu a vira tirar do baú.
— Qual é a ocasião especial? — perguntei, me arrastando pela água para me apoiar perto dela na borda da piscina.
— Navid de alguma forma conseguiu convencer Imin a casar com ele.
Engoli um pouco de água com o susto e comecei a tossir. Shazad deu algumas batidas nas minhas costas.
Navid tinha se apaixonado por Imin no momento em que chegara ao acampamento. Independente da forma que assumisse, Navid identificava de imediato o objeto de seu afeto onde quer que estivesse. Ele havia declarado seu amor no equinócio, alguns meses antes, completamente bêbado e na frente do acampamento inteiro. Lembro de ter segurado o braço de Shazad, me preparando para a inevitável zombaria e rejeição de Imin. Mas por algum motivo inesperado isso não aconteceu. Era inesperado porque Imin tratava todo mundo, exceto Hala, com o tipo de desdém que só podia vir de uma dor profunda, o tipo de dor da qual a rebelião havia salvado os demdjis.
Imin olhou em volta com seus olhos amarelos irônicos para todos que a encaravam antes de nos perguntar se não tínhamos nada mais interessante para ver. Então deu a mão para Navid e o levou para longe da luz da fogueira e de nosso silêncio estupefato.
— Você tem que ir — Shazad disse enquanto eu me recuperava. — E precisa estar vestida de acordo. Imin já me roubou três khalats, porque nenhuma de suas roupas serve direito, de acordo com ela.
Ergui as sobrancelhas.
— Você argumentou que Imin pode fazer qualquer coisa ficar bem nela, já que é metamorfa?
— Claro. — Shazad parecia irritada. — Funcionou tão bem quanto você deve imaginar. E agora tenho três khalats a menos.
— Vai acabar sem roupas se continuar assim.
— Quando esse dia chegar, vou liderar uma missão até a tenda de Imin para reclamar os espólios. Por enquanto, consegui salvar este aqui. — Ela apontou para o linho branco que vestia com perfeição. — E este outro, que posso recuperar depois, considerando que você dorme a um metro de mim.
Passei o indicador e o dedão pela bainha do khalat que ela segurava, minha mão já seca com o sol impiedoso. Lembrei de algo que Shazad me dissera uma vez, numa daquelas noites escuras em que nenhuma de nós conseguia dormir e ficávamos conversando até acabarem as palavras ou as horas. Quando ela contou aos pais que ia aderir à luta de Ahmed, o general lhe dera as espadas para lutar. E a mãe lhe dera aquele khalat.
— É o khalat que você deveria usar para entrar em Izman. Quando vencermos essa guerra.
Se vencermos.
— Ainda estamos longe — disse Shazad, como se tivesse escutado o “se” em meus pensamentos. — Não vou deixar que apodreça no fundo do baú. Você pode usar se jurar que não vai derramar sangue nele.
— É perigoso pedir a uma demdji que faça uma promessa — eu disse.
Promessas eram como contar a verdade. Assim, elas viravam profecias, que acabariam se concretizando. Só que não da forma como se esperava.
— É um casamento, Amani. — Shazad estendeu a mão para me ajudar a sair da água. — Nem mesmo você vai conseguir se meter em encrenca.


Na Vila da Poeira, casamentos aconteciam depressa. A maioria das garotas simplesmente desenterrava seu melhor khalat, gasto depois de anos de mães e irmãs passando-o adiante, e jogava um sheema sobre a cabeça para esconder o rosto naquela época incerta entre o compromisso e o casamento, para que um carniçal ou um djinni não notasse uma mulher que não pertencia a ninguém, uma jovem que não era mais filha e ainda não era esposa, e tentasse reivindicá-la como sua.
Não tínhamos uma casa de oração no acampamento, mas sempre dávamos um jeito.
O pai sagrado preparara a cerimônia em uma clareira onde o solo se inclinava apenas o suficiente para permitir uma visão clara de todo o acampamento lá embaixo sob a última luz do dia. A cerimônia começou ao entardecer, com o sol se pondo no desfiladeiro. Era sempre assim. Um momento de mudança no dia para um momento de mudança na vida de duas pessoas.
Imin não vestia um sheema reaproveitado. Era um verdadeiro manto de casamento, feito de tecido fino costurado com fio brilhante. Quando o sol batia nele, dava para ver o contorno do rosto desconhecido que ela havia escolhido através da musselina amarela. Imin era nossa melhor espiã e permanecia viva justamente pelas mudanças constantes na aparência. O rosto que havia escolhido aquele dia era impressionante, e ela sorria radiante como eu nunca tinha visto. Hala e eu nos entreolhamos quando os dois se ajoelharam na areia lado a lado.
Nós duas, demdjis, havíamos feito um pacto não declarado de manter um olho em Imin após a noite em que Navid declarara seu amor por ela. Nunca a tínhamos visto baixar a guarda antes.
Imin e Hala podiam compartilhar um pai djinni, mas ao que tudo indicava suas mães eram completamente diferentes. Rumores diziam que Hala odiava tanto a sua que havia bagunçado a mente dela, deixando-a louca. A rebelião encontrara Imin em uma prisão, esperando para ser executada pelas mãos dos gallans. Ela havia passado dezesseis anos escondida na casa dos avós, que haviam ocultado a criança demdji da própria mãe. Ela vivera sozinha e solitária, mas segura. Até o dia em que sua avó desmaiara de calor na porta de casa. Imin estava sozinha e esperou, aflita, na esperança de que um vizinho notasse o que havia acontecido. Por fim, movida pelo desespero, ela correu para ajudá-la, na forma da garota esguia que adotara para enfrentar o calor daquela manhã. Contudo, o corpo era fraco demais para arrastar uma mulher adulta. Assim, Imin se transformou em homem à vista de todos.
A informação chegou aos gallans. Eles mataram todos os seus parentes, que tentavam bloquear a entrada dos soldados na casa.
Até Navid, ela tinha tratado com desconfiança qualquer um que não fosse demdji.
Até mesmo eu, que pensava ser humana até os dezesseis anos.
Bastaria um deslize mínimo dele para Imin reerguer suas muralhas. Mas nem Hala tinha sido capaz de descobrir algo errado com Navid, embora houvesse se esforçado bastante. Qualquer um podia notar o modo como ele olhava para Imin. E aquilo não mudava, independente do corpo que a metamorfa assumisse, fosse de homem ou mulher, mirajin ou estrangeiro.
O pai sagrado estava de pé entre os dois, virados em nossa direção, sentados na areia de pernas cruzadas. Ele recitou as bênçãos costumeiras enquanto enchia duas grandes tigelas de barro com fogo. Passou uma a Imin e outra a Navid. Falou de como a humanidade havia sido criada pelos seres primordiais a partir de água e terra, esculpidos pelo vento e acesos com a centelha do fogo de um djinni. Lembrou-nos de que quando a princesa Hawa e Attallah se tornaram os primeiros mortais a se casar, suas chamas se uniram e brilharam ainda mais forte. Tantos séculos depois, pronunciávamos as mesmas palavras que eles.
Enquanto o pai sagrado falava, as mulheres do acampamento se juntavam a Imin; os homens, a Navid. Cada um de nós deixou algo no fogo para abençoar a união. Na Vila da Poeira, eu sempre dava uma cápsula de bala vazia ou uma mecha de cabelo. Não tinha outra coisa a oferecer.
Mas aquilo tinha mudado, e tive que pensar no que dar enquanto Shazad e eu nos aprontávamos. Por um breve segundo, meus dedos passearam pelo sheema vermelho. Aquele que Jin me dera em Sazi, a cidade mineradora destruída na montanha. Enquanto fechava os olhos para Shazad passar o khol nas minhas pálpebras, podia me imaginar jogando-o no fogo, vendo o tecido vermelho se incendiar. Ele seria devorado em segundos. Mas eu ainda não estava irritada com Jin a esse ponto. Em vez disso, enrolei-o em volta da cintura como uma faixa, como sempre fazia quando usava as roupas de Shazad.
Fiquei atrás de Hala, que ergueu a mão sobre o fogo, picando com uma agulha os três dedos restantes da mão esquerda, numa sucessão rápida de movimentos. Sangue era a oferta tradicional de parentes, mesmo que o pai das duas não sangrasse. Pontos vermelhos brilhantes brotaram da ponta de seus dedos dourados. As gotas chiaram ao atingir o fogo.
Enquanto Hala saía, segurei meu presente acima do fogo e um punhado de areia do deserto deslizou por entre meus dedos, indo para dentro das chamas. Percebi um sorriso sutil de Imin enquanto me afastava, deixando espaço para Shazad jogar uma pequena escova. Perto dela, Ahmed soltou uma moeda xichan na tigela de Navid. Ele vestia um kurta preto limpo, bordado em vermelho, que fazia parecer que pertencia a um palácio, não a uma rebelião. Ahmed e Shazad formavam um belo par, lado a lado diante do fogo do casamento.
Atrás de Ahmed, os gêmeos Izz e Maz seguravam uma pena azul, arrancando-a da mão um do outro alternadamente e se empurrando em uma guerra silenciosa para decidir quem a jogaria no fogo. O olhar de “comportem-se” que Shazad lançou ao virar foi claro o bastante para que entrassem na linha. Quando me viram, acenaram freneticamente. Eu não via os gêmeos desde o dia em que fora ferida. Eles deviam ter voltado enquanto eu estava em Saramotai.
Quando o acampamento inteiro já tinha passado, Imin e Navid se voltaram um para o outro para declarar seus votos.
— Eu me entrego a você. — Imin derrubou cuidadosamente seu fogo sobre a terceira tigela que o pai sagrado segurava entre eles, as cinzas de nossos presentes se misturando às brasas vivas de carvão e produzindo faíscas enquanto iam de uma tigela para a outra. — Tudo o que sou, entrego a você, e tudo o que tenho é seu. Compartilho minha vida com você. Até o dia da nossa morte.
Navid repetiu essas palavras enquanto despejava o conteúdo de sua tigela junto ao dela, até que uma única chama, maior e mais brilhante do que a que seguravam sozinhos, queimou entre eles. O pai sagrado abençoou-a, passando as mãos tatuadas sobre ela.
Houve um momento de silêncio enquanto o sol desaparecia totalmente atrás de nós, deixando o acampamento em uma escuridão rompida apenas pelo fogo. Então Navid ficou de pé, abraçando Imin pela cintura e a erguendo antes de lhe dar um beijo. Todo o acampamento comemorou. A cerimônia havia acabado. Era hora da festa.
— Amani! — Nem tive chance de virar para ver quem gritava meu nome. Um par de braços azul-claros me agarrou pela cintura, me girando alegremente. Eu ri, me soltando de Izz quando meus pés tocaram o chão outra vez, cambaleantes. Mas ainda estava completamente vestido, mas Izz mantinha apenas as calças. Os gêmeos tinham uma verdadeira aversão a roupas. Não precisavam delas em sua forma animal, e o fato de terem que usá-las em sua forma humana parecia confundi-los.
Izz apontou para a pele azul de seu peito e para meu khalat.
— Estamos combinando. — Ele sorriu para mim como um bobo.
— Que sorte que só um de nós precisou tirar a camisa para isso. Vejo que sobreviveram a Amonpour. — Os albish fizeram uma aliança com nossos vizinhos a oeste após perder Miraji para os gallans. De acordo com Shazad, não passava de assinaturas num papel. Até que Albis soube que os gallans tinham sido expulsos do deserto. Então, de repente, aquele pedaço de papel foi usado para convencer Amonpour a deixá-los acampar em suas fronteiras, esperando um momento oportuno de reivindicar Miraji como prêmio novamente. Eles estavam perto demais de nós, então os gêmeos foram enviados para espionar as tropas acampadas ao longo da fronteira oeste, só para o caso de terem um desejo súbito de marchar pela nossa metade do deserto. A última coisa de que precisávamos era combater em duas frentes.
— Elefantes! — Izz jogou os braços para cima tão animado que cambaleei pra trás, quase tropeçando no fogo com aquela estranha palavra estrangeira. — Amonpour tem elefantes. Já ouviu falar deles?
— Estava escondendo isso da gente? — Maz passou um braço nos ombros nus do irmão, apontando para mim de um jeito acusador. Era fácil esquecer que um deles era azul e o outro apenas tinha o cabelo dessa cor quando agiam dessa maneira, se movendo e conversando como se fossem uma só pessoa. O braço escuro de Mas quase parecia uma extensão do corpo do irmão.
Izz deu uma piscadela.
— Confesse, demdji.
Revirei os olhos para eles.
— Mesmo se tivesse ouvido falar em elefantes, provavelmente não contaria para vocês, a julgar pelo brilho maluco em seus olhos.
— Quer ver um? — Maz já estava tirando os sapatos.
— Acho que precisaríamos de mais espaço. — Izz começou a gesticular numa tentativa de tirar as pessoas do caminho.
Não tinha como terminar bem.
— Vai ser igual àquela vez em que descobriram o que era um rinoceronte?
Os gêmeos congelaram, trocando olhares ligeiramente envergonhados.
— É que…
— Elefantes são…
— Um pouco maiores…
— Então o que acham de me mostrar quando não houver tanta gente ou bebida por perto? — sugeri.
Os gêmeos trocaram um olhar, parecendo ponderar em silêncio entre o bom senso e sua vontade de me mostrar o novo truque. Por fim, assentiram e se contentaram em me dar uma explicação muito detalhada sobre a aparência dos elefantes, e em não me contar nada além disso sobre o que havia acontecido em Amonpour. Com isso, concluí que ainda não tínhamos sido invadidos.
Tochas foram acesas. A música começou e com ela as danças e os comes e bebes.
Fiquei feliz de saber que por algumas horas não estaríamos em guerra. Era em noites assim no acampamento rebelde que eu acreditava mais do que nunca no que poderíamos conseguir. Noites em que todo mundo parava de brigar e apenas aproveitava a vida, como havíamos prometido ao restante de Miraji.
Havia escurecido fazia algumas horas quando o vi no meio da multidão.
Com o tanto que havia bebido, não confiei em meus olhos a princípio. Tive apenas um vislumbre enquanto girava. A cabeça inclinada pra trás, rindo, à vontade, como o tinha visto milhares de vezes. Perdi o rumo, tropeçando perto demais do fogo.
Alguém me segurou, me puxando de volta antes que acabasse tacando fogo nas roupas de Shazad. Saí correndo da dança e observei ao redor, procurando por ele na confusão nebulosa de rostos na escuridão. Mas ele havia partido, tão rápido quanto eu o imaginara. Então a multidão se abriu.
Jin.
Ele tinha mesmo voltado.
Estava de pé do outro lado da fogueira, ainda vestindo as roupas da viagem, a poeira cobrindo seu cabelo escuro. Parecia que não se barbeava havia um tempo.
Lembrei imediatamente a última vez que ele havia me beijado com a barba por fazer. Meu coração queria que eu cambaleasse em sua direção, mas aguentei firme, lutando para me segurar.
Virei rápido, antes que pudesse me ver. Eu não estava em condições de encará-lo.
Me sentia tonta com o álcool e a exaustão. Procurei Shazad. Ela estava a alguns passos de distância, envolvida numa conversa com Ahmed, as mãos se movendo tão rápido quanto a dança de insetos ao redor do fogo enquanto discutiam algo apaixonadamente.
Parecia um pouquinho bêbada. Shazad não era muito de movimentos desnecessários quando sóbria. Quando nossos olhares se encontraram, ela me leu como um livro.
Apontei discretamente com a cabeça para trás. Seu olhar entrou em foco, como fazia quando estava tentando rastrear um inimigo numa batalha. Vi a surpresa transparecer em seu rosto no momento em que o identificou. Ótimo. Isso significava que era realmente ele, não alguma ilusão conjurada por Hala para me torturar.
Eu esperava que, quando o visse outra vez, estivesse pronta para encará-lo de cabeça erguida. Mas agora me sentia exposta. Como se ao falar com Jin os sentimentos fossem sair descontrolados na forma de palavras. Limpei o suor no pescoço.
Minha mão voltou vermelha.
Por um momento, pensei que ver Jin tinha realmente me partido em pedaços.
Mas era apenas o ferimento na clavícula abrindo outra vez. O reparo apressado feito em Saramotai não aguentara toda a dança e bebida. Shazad dissera que não passava de um arranhão, mas agora parecia um bom motivo para fugir.
Como Jin havia feito. Tudo bem. Era justo fazer o mesmo.
O calor e o barulho ficaram para trás enquanto achava meu caminho em direção à tenda do pai sagrado, erguida em uma das pontas do acampamento. Ela havia mudado um pouco desde que fora domínio de Bahi, onde acordei pela primeira vez no acampamento, sob um dossel de estrelas. Mas aquilo não facilitava nem um pouco a minha entrada. Seis meses haviam se passado desde que meu irmão matara Bahi, e eu ainda podia sentir o cheiro de carne queimando quando me aproximava demais do lugar onde ele havia trabalhado. Não era de admirar que Shazad evitasse a tenda, considerando que eu tinha convivido com ele apenas por algumas semanas. Ela o conhecera metade da vida. O novo pai sagrado havia mantido a colcha de retalhos de estrelas. Foi a primeira coisa que vi quando entrei.
Uma mulher que estava deitada ergueu a cabeça. Eu não esperava que houvesse alguém ali. Pelo menos não acordado. Na cama perto da entrada, Sayyida dormia imóvel como um cadáver. Na frente dela estava um jovem rebelde cujo nome me escapava, com ataduras do cotovelo ao pulso, onde costumava haver uma mão. Pelo visto, ele havia sido dopado com algo que o faria sonhar que ainda possuía dez dedos.
E na terceira cama… quase havia me esquecido da mulher inconsciente que carregáramos desde Saramotai. A que havia me chamado pelo nome da minha mãe.
Aparentemente ela tinha acordado.
— Desculpe — eu disse ali parada, mantendo uma das abas da tenda aberta, pensando numa desculpa. Só que eu não precisava de uma. Pertencia àquele lugar. Muito mais do que ela. Então por que estava passando o peso de uma perna para a outra como se voltasse a ser uma criança na Vila da Poeira? — Não queria te acordar. É que estou sangrando. — Ergui a mão, como se precisasse provar algo àquela estranha.
— O pai sagrado não está aqui. — A mulher levantou um pouco, apoiada nos cotovelos. Seus olhos se moviam freneticamente à luz fraca da lamparina, como se procurasse algum jeito de escapar.
— Ele ainda está nas comemorações. — Finalmente atravessei o limiar da tenda e fechei a aba da entrada. Tentei não olhar para Sayyida enquanto caminhava. — Só vim buscar suprimentos.
Eu havia ficado naquela tenda por um longo tempo antes de acordar da minha quase morte. Poderia desenhar cada canto dela de cabeça. Fui direto para o baú de ferro e madeira com palavras sagradas grafadas, onde os suprimentos eram guardados.
— Está trancado — a mulher disse enquanto eu me abaixava.
— Eu sei. — Peguei a pequena lamparina de óleo azul que o pai sagrado sempre mantinha acesa durante a noite quando havia alguém na tenda. Ninguém deveria ser deixado para sofrer ou morrer no escuro. Tateei pela base até meus dedos encontrarem a pequena chave que ele guardava ali. O baú se abriu com um clique satisfatório.
Dentro dele, havia fileiras e fileiras de garrafas, agulhas, pós e pequenas facas, tudo bem arrumado. Era tão diferente da bagunça das ferramentas e materiais de Bahi espalhados pelo chão que quase chegava a doer. Como se não houvesse restado nada dele no acampamento após a morte.
— Acredite ou não, essa não é minha primeira visita — eu disse sem virar a cabeça completamente, enquanto retirava uma garrafa de um líquido claro com a qual vira o pai sagrado limpar feridas e a colocava de lado. Segurei o conjunto de agulhas contra a luz, analisando-as. Até então, nunca havia notado como eram grandes, mas precisava descobrir se havia alguma menor.
— Vai dar os pontos sozinha? — ela perguntou, como se indecisa entre ficar chocada ou impressionada.
— De novo, não seria a primeira vez. — Escolhi uma agulha aleatoriamente antes de encarar a mulher. Ela parecia bem melhor do que quando a encontramos naquela cela em Saramotai e mal conseguia me enxergar claramente. A febre parecia ter baixado e ela estava alerta, o rosto quase de uma cor normal.
— Eu… — Ela hesitou, passando a língua nos lábios ressecados. — Entendo um pouco disso. Se não se importar.
Não precisava da ajuda dela. Poderia pegar os materiais e partir. Poderia esquecer que já tinha sido uma garota da Vila da Poeira com a mãe chamada Zahia. Mas, se saísse dali, teria que conversar com Jin. Não lembrava de uma única vez em que fugir dos meus problemas realmente tinha funcionado. Além disso, não era como se estivesse animada com a ideia de enfiar um objeto pontiagudo na própria pele.
Sentei na frente dela, passando a garrafa, a linha e a agulha. A mulher parecia nervosa enquanto afastava a gola do khalat. Passou os dedos de leve sobre a ferida, limpando com o líquido onde o sangue havia endurecido, o que produziu uma série de pequenas alfinetadas de dor. Mas eu não estava prestando muita atenção. Apenas observava o rosto dela sob o brilho suave da lamparina. Tentando enxergar algo ali que talvez pudesse reconhecer.
— Você andou bebendo — ela disse enfim. — Posso sentir o cheiro. Acho que foi por isso que a ferida reabriu. O álcool afina o sangue. Não vai precisar de pontos, só de um curativo. E menos bebida.
Foi o jeito que ela falou sobre bebida que me fez ter certeza. O sotaque dela havia sido amenizado por anos em outros lugares, lugares que não engoliam aquela palavra como se estivessem sempre com sede, mas não havia dúvida. Não com a entonação do restante das palavras, descendo e subindo. Eu poderia reconhecer aquele sotaque no meio da cacofonia de um bazar. Era igual ao meu.
— Você me chamou de Zahia — eu disse, decidindo esclarecer de uma vez antes que mudasse de ideia. — Esse era o nome da minha mãe. Zahia Al-Hiza. — Observei atenta a reação dela. — Mas ela nasceu Zahia Al-Fadi.
O rosto da mulher fechou como os céus do deserto antes de uma tempestade. Ela se afastou de mim, soltando a gola do meu khalat, e pressionou o dorso das mãos nos lábios, abafando o que soou como um soluço.
Eu a encarei, sem saber o que fazer. O certo seria lhe dar alguma privacidade ou conforto. Mas não conseguia tirar os olhos dela.
— Isso significa que você é Amani. — Sua voz soou espantada quando finalmente voltou a falar. Ela balançou a cabeça com raiva, como se quisesse afastar as lágrimas. Mulheres do deserto não choram. — Você é igual a Zahia quando tinha sua idade. — Já havia escutado aquilo antes. Ela estendeu a mão como se fosse me tocar. Havia lágrimas em seus olhos. — É como rever minha irmã no dia em que deixei a Vila da Poeira.
— Sua irmã? — Me afastei antes que os dedos dela pudessem tocar minha bochecha. — Você é a Safiyah Al-Fadi? — Tive certeza assim que disse aquilo. Eu podia ser a imagem esculpida da minha mãe, mas também via algo dela nessa mulher. Era a mítica irmã do meio da minha mãe e da tia Farrah. Aquela que havia ficado famosa por desaparecer da Vila da Poeira para seguir a própria vida. Aquela que minha mãe sempre dizia que queria fugir para encontrar. A pessoa que eu estava procurando quando saí pela primeira vez da Vila da Poeira. Antes de escolher Jin e a rebelião. — Você devia estar em Izman.
— E estava. — Ela decidiu se ocupar repentinamente, tirando garrafas do baú do pai sagrado e verificando-as com um olhar rápido e hábil. — Fui para lá trilhar meu próprio destino. Fiquei cerca de dezessete anos. — Ela tirou a rolha de uma garrafa sem etiqueta para cheirar o conteúdo, evitando olhar para mim.
Eu não gostava que ela estivesse ali. Não parecia certo que na imensidão do deserto pudéssemos nos encontrar onde nenhuma das duas deveria estar. Parecia que o mundo havia se dobrado no meio tentando nos empurrar uma para perto da outra. Seria possível que eu fosse a responsável por isso? Vasculhei minha mente repassando o que dissera nos dias em que Jin e eu perambulamos pelo deserto, quando ainda pensava que acabaria parando em Izman. Será que tinha dito alguma coisa por acidente? Antes de saber que era uma demdji e não podia mentir, antes de entender o quanto era perigoso fazer afirmações sobre o futuro, já que o universo poderia se distorcer para torná-las realidade? Tudo o que eu precisaria ter feito era dizer a Jin que ia encontrar minha tia, e as estrelas se realinhariam para tornar aquilo real, me entregando alguma versão corrompida da verdade.
Ou era pura coincidência?
Seus dedos nervosos finalmente se firmaram numa garrafa. Ela os molhou com algo espesso e fedido e passou na minha ferida.
— E por que você foi embora de Izman?
— Porque o destino é uma coisa engraçada. — Esperei, mas parecia que essa era toda a explicação que eu receberia sobre como ela havia parado em Saramotai. — Embora deva admitir que não imaginava que acabaria sendo presa por um revolucionário que queria alterar a ordem mundial.
— Malik não era um dos nossos — retruquei, estremecendo com a pressão de seus dedos na minha clavícula.
— Vocês escolhem todos os seus seguidores a dedo? — Ela pressionou a ferida com mais força do que o necessário. — Ele fez coisas horríveis em nome do seu príncipe, e isso basta para mim. Quase me matou no processo. Alguns de nós não pedimos por uma rebelião que pode acabar nos matando, sabia? — Ela se afastou de mim, limpando os dedos num tecido. — Mas imagino que é tudo sorte e destino, como diria o pai sagrado da Vila da Poeira.
Duas palavras e eu estava de volta à casa de orações na Vila da Poeira, ouvindo o sermão. Aquela era uma velha expressão que o pai sagrado usava em épocas difíceis.
Sorte e destino. O que implicava que ambos nem sempre eram a mesma coisa.
Eu entendia aquilo melhor do que ninguém.
— Aqui. — Tia Safiyah limpou as mãos rapidamente, tirando outra das garrafas do pai sagrado do baú. — Leve isto para a dor. Vai te ajudar a dormir.
Seu sotaque, misturado com aquelas palavras e a conversa sobre remédios e sono, trouxe à tona uma memória no fundo da minha mente.
Tamid.
Aquilo me acertou como um soco no peito.
Eu vinha reprimindo havia meses todos os pensamentos sobre ele. Mas foi como se ela o houvesse conjurado ali, com o sotaque da Vila da Poeira, a pequena garrafa de remédio na luz difusa, a saudade dolorosa de gente que um dia eu conheci. Ele tinha sido meu único amigo antes de eu conhecer aquele lugar e a rebelião. Era Tamid quem costumava me dar pontos e remédios escondido até a dor ir embora. Foi ele que eu abandonei para morrer na areia.
Será que era isso que aconteceria comigo por ter feito afirmações sobre encontrar minha tia? Eu seria lembrada de quem era antes de me unir à rebelião? Ou das pessoas que haviam sofrido e morrido por minha causa?
De repente, tomar alguma coisa que me faria dormir e me afastar daquela memória pareceu tentador.
Mas, antes que pudesse pegar a garrafa, alguém abriu a aba da tenda violentamente.
Virei a cabeça. De início, pensei que Jin havia me seguido. Mas através da névoa persistente da bebida vi a silhueta de duas pessoas à luz da lamparina. Jin estaria sozinho. Os dois estavam enroscados como foliões bêbados à procura de um pouco de privacidade, tropeçando na tenda errada.
Então eles viraram e a luz iluminou uma faca.
Fiquei de pé num segundo enquanto uma voz que eu conhecia muito bem chamou meu nome.
Era Delila.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!