29 de outubro de 2018

Capítulo 79

Yrene odiava o Desfiladeiro Ferian. Odiava o ar apertado entre os dois picos gigantescos, odiava os ossos e os restos que cobriam o chão rochoso, odiava o cheiro desagradável que escorria de quaisquer aberturas que haviam sido esculpidas nas montanhas.
Pelo menos estava vazio. Embora eles ainda não tivessem decidido se isso era uma bênção.
Os dois exércitos agora enchiam o desfiladeiro, os soldados de Hasar já se preparando para fazer a travessia de volta sobre o Avery entre as árvores de Carvalhal. Aquela caminhada levaria uma eternidade, até mesmo com o rukhin carregando as carroças e os suprimentos mais pesados. E então o impulso para o norte através da floresta, tomando a antiga estrada que ficava ao longo do ramo norte do Avery.
— Passe-me aquela faca ali — disse Yrene para Lady Elide, apontando com o queixo para o kit de suprimentos. Deitado em um cobertor no fundo da carroça coberta, um soldado do Darghan jazia inconsciente, com suor frio na testa. Ele não tinha visto um curandeiro depois de receber um corte na coxa na batalha por Anielle, e quando caiu do cavalo esta manhã, foi trazido para cá.
As mãos de Elide permaneceram firmes quando ela puxou a faca fina e passou para Yrene.
— Isso vai acordá-lo? — perguntou ela, enquanto Yrene se inclinava sobre o guerreiro inconsciente e examinava a ferida infeccionada que era horrível o bastante para revirar a maioria dos estômagos.
— Minha magia o leva a um sono profundo. — Yrene inclinou a faca. — Ele ficará fora do ar até eu acordá-lo.
Elide, para seu crédito, não vomitou quando Yrene começou a limpar a ferida, raspando os pedaços mortos e infectados.
— Nenhum sinal de envenenamento do sangue, graças aos deuses — anunciou Yrene quando o tecido ao lado do homem ficou coberto da podridão descartada. — Mas precisaremos dar-lhe uma infusão especial para ter certeza.
— Sua magia não pode apenas filtrar tudo? — Elide jogou o pano sujo no balde de lixo nas proximidades, e esticou outro.
— Pode, e farei isso — disse Yrene, lutando para cobrir o nariz enquanto o fedor do ferimento elevava-se até suas narinas — mas isso pode não ser suficiente, se a infecção realmente desejar fazer uma aparição.
— Você fala sobre doenças como se fossem criaturas vivas.
— Elas são, até certo ponto — disse Yrene — com seus próprios segredos e humores. Às vezes você tem que ser mais esperto do que qualquer outro inimigo.
Yrene pegou a lanterna espelhada ao lado da cama e ajustou os pratos para iluminar um feixe de luz na parte infeccionada. Quando o brilho não revelou mais sinais de podridão na pele, ela baixou a lanterna e a faca.
— Não foi tão ruim quanto eu temia — ela admitiu, e estendeu as mãos sobre a ferida sangrenta.
Calor e a luz aumentaram dentro dela, como uma lembrança do verão nesta passagem de montanha gelada, e enquanto suas mãos brilhavam, a magia de Yrene a guiou para dentro do corpo do homem. Fluía ao longo do sangue, tendões e ossos, unindo e remendando, ouvindo as dores e a febre que agora corriam soltas. Acalmando-as, diminuindo-as. Limpando-as.
Ela estava ofegante quando terminou, mas a respiração do homem relaxou. O suor em sua testa havia secado.
— Notável — sussurrou Elide, boquiaberta com a perna agora macia do guerreiro.
Yrene apenas virou a cabeça para o lado e vomitou no balde de lixo.
Elide saltou de pé. Mas Yrene levantou a mão, limpando a boca com a outra.
— Por mais feliz que esteja por saber que em breve serei mãe, a realidade dos primeiros meses não é... tão alegre.
Elide mancou até a jarra de água e serviu um copo.
— Existe alguma coisa que eu possa pegar para você? Você pode... pode curar seu próprio mal-estar, ou precisa de alguém para isso?
Yrene sorveu a água, deixando-a lavar a bile amarga.
— O vômito é um sinal de que as coisas estão progredindo com o bebê. — Uma mão foi para a sua barriga. — Não é algo que realmente possa ser curado, não a menos que eu tenha um curandeiro ao meu lado dia e noite, aliviando a náusea.
— Tornou-se tão ruim assim? — Elide franziu o cenho.
— O momento é terrível, eu sei — Yrene suspirou. — As melhores opções são gengibre – qualquer coisa de gengibre. Que eu preferiria economizar para os estômagos enjoados de nossos soldados. Hortelã também pode ajudar. — Ela gesticulou em direção a sua bolsa. — Eu tenho algumas folhas secas ali. Basta colocar algumas em um copo com água quente e eu ficarei bem.
Atrás delas, um pequeno braseiro mantinha uma chaleira fumegante, usada para desinfecção de suprimentos ao invés de fazer chá.
Elide estava instantaneamente em movimento, e Yrene assistiu em silêncio enquanto a lady preparava o chá.
— Eu poderia curar sua perna, sabe.
Elide parou, uma mão estendida para a chaleira.
— Sério?
Yrene esperou até que a lady tivesse colocado uma xícara de chá de hortelã em suas mãos antes de acenar para as botas dela.
— Posso ver o ferimento?
Elide hesitou, mas sentou-se no banquinho ao lado de Yrene e tirou a bota, depois a meia por baixo.
Yrene examinou as cicatrizes, o osso torcido. Elide havia contado a ela dias atrás por que ela se feriu.
— Você tem sorte de não ter contraído uma infecção.
Yrene tomou um gole do chá, achou que ainda estava quente demais, e colocou de lado antes de dar um tapinha no colo. Elide obedeceu, apoiando o pé na coxa de Yrene.
Cuidadosamente, Yrene tocou as cicatrizes e ossos mutilados, sua magia fazendo o mesmo.
A brutalidade da lesão foi suficiente para tirar o fôlego de Yrene. E fazê-la ranger os dentes, sabendo como Elide era jovem, como era insuportavelmente doloroso – sabendo que seu tio havia feito isso com ela.
— O que há de errado? — Elide murmurou.
— Nada, quero dizer, além do que você já sabe. — Tal crueldade. Uma crueldade tão terrível e imperdoável.
Yrene enrolou sua magia de volta em si mesma, mas manteve as mãos no tornozelo de Elide.
— Esta lesão exigiria semanas de trabalho para reparar, e com as nossas circunstâncias atuais, não acho que nenhum de nós possa passar por isso.
Elide assentiu.
— Mas se sobrevivermos a esta guerra, posso ajudá-la, se você quiser.
— O que isso implicaria?
— Existem dois caminhos — disse Yrene, deixando um pouco de sua magia penetrar na perna de Elide, relaxando os músculos doloridos, os pontos onde o osso encontrava osso sem amortecimento. A lady suspirou. — O primeiro é o mais difícil. Isso me obrigaria a reestruturar completamente seu pé e tornozelo. Quer dizer, eu teria que quebrar o osso, tirar as partes que foram curadas ou fundidas incorretamente e, em seguida, recriá-las. Você não poderia andar enquanto eu fizesse isso, e mesmo com a ajuda que eu pudesse lhe oferecer para a dor, a recuperação seria angustiante. — Não havia maneira de contornar essa verdade. — Eu precisaria de três semanas para desmontar seus ossos e juntá-los, mas você precisaria de pelo menos um mês de descanso e aprender a andar sobre ele novamente.
O rosto de Elide ficou pálido.
— E a outra opção?
— A outra opção seria não fazer a cura, mas dar-lhe uma pomada – como a que você disse que Lorcan lhe deu – para ajudar com as dores. Mas vou avisá-la: a dor nunca a deixará inteiramente. Da maneira como seus ossos raspam um no outro aqui — ela gentilmente tocou um ponto na parte superior do pé de Elide, depois outro descendo pelos dedos dos pés — a artrite já está começando. Como os ossos continuam a roçar um no outro, a artrite, aquela dor que você sente ao andar, só vai piorar. Pode chegar a um ponto em alguns anos – talvez cinco, talvez dez, é difícil dizer – quando você achará que a dor é tão ruim que nenhuma pomada pode ajudar.
— Então eu precisaria da cura, independentemente disso.
— Cabe a você decidir que quer a cura. Só quero que tenha uma ideia melhor do caminho a seguir. — Ela sorriu para a dama. — Cabe a você decidir como deseja enfrentá-lo.
Yrene deu um tapinha no pé de Elide e a dama o colocou de volta no chão antes de vestir a meia novamente, depois a bota. Movimentos eficientes e fáceis.
Yrene tomou um gole do chá, agora frio o bastante para beber. O frescor da hortelã a atravessou, limpando sua mente e acalmando seu estômago.
— Não sei se posso enfrentar essa dor de novo — Elide falou.
Yrene assentiu.
— Com esse tipo de lesão, seria necessário enfrentar muitas coisas dentro de você. — Ela sorriu em direção à entrada da carroça. — Meu marido e eu passamos por uma dessas jornadas juntos.
— Foi difícil?
— Incrivelmente. Mas ele fez isso. Nós fizemos.
Elide considerou, depois deu de ombros.
— Nós teríamos que sobreviver a esta guerra primeiro, suponho. Se vivermos... então podemos conversar sobre isso.
— É justo.
Elide franziu a testa para o teto da carroça.
— Eu me pergunto o que eles descobriram lá em cima.
Na Ômega e no Canino do Norte, onde Chaol e os outros estavam agora se encontrando com os criadores e treinadores que haviam sido deixados para trás.
Yrene não queria saber mais do que isso, e Chaol não ofereceu nenhuma outra pista sobre como extrairiam informações dos homens.
— Espero que algo que valha a pena a nossa visita a este lugar horrível — Yrene murmurou, então bebeu o resto do chá. Quanto mais cedo eles saíssem, melhor.
Era como se os deuses estivessem rindo dela – das duas. Uma batida nas portas da carroça fez com que Elide mancasse naquela direção, pouco antes de Borte aparecer. Seu rosto estranhamente solene.
Yrene se preparou, mas foi para Elide que a cavaleira de ruk se dirigiu.
— Você vem comigo — disse Borte, sem fôlego.
Atrás da garota, Arcas esperava, um pardal empoleirado na sela. Falkan Ennar. Não um companheiro, percebeu Yrene, mas uma guarda adicional.
— O que há de errado? — Elide perguntou.
Borte se mexeu com impaciência ou nervosismo, Yrene não sabia dizer.
— Eles encontraram alguém na montanha. Querem você lá em cima para decidir o que fazer com ele.
Elide ficou imóvel. Totalmente imóvel.
— Quem? — Yrene perguntou.
A boca de Borte se apertou.
— O tio dela.


Elide se perguntou se a rukhin a evitaria para sempre se ela vomitasse em Arcas. De fato, durante o rápido e íngreme voo até a ponte que da Ômega e do Canino do Norte, tudo o que ela podia fazer era não esvaziar o conteúdo de seu estômago por toda a extensão das penas do pássaro.
— Eles o encontraram escondido no Canino do Norte — dissera Borte antes de puxar Elide para a sela, com Falkan já voando pela face do desfiladeiro. — Tentando fingir ser um treinador de serpentes aladas. Mas um dos outros treinadores o entregou. A rainha Aelin a chamou assim que o mantiveram seguro. Seu tio, não o treinador, quero dizer.
Elide não conseguira responder. Apenas acenou com a cabeça. Vernon estava aqui. No desfiladeiro. Não em Morath com seu mestre, mas aqui.
Gavriel e Fenrys esperavam quando Arcas pousou na abertura cavernosa do Canino do Norte. A rocha bruta surgiu como uma boca escancarada, o fedor do que estava ali dentro fazendo seu estômago revirar. Como carne podre e pior. Valg, sem dúvida, mas também um cheiro de ódio e crueldade e corredores apertados e sem ar.
Os dois machos feéricos silenciosamente foram para o lado dela quando eles chegaram. Nenhum sinal de Lorcan ou Aelin. Ou do tio dela.
Homens jaziam mortos em alguns dos corredores escuros por onde Fenrys e Gavriel a levaram, mortos pelo rukhin quando eles entraram. De nenhum deles escorria sangue negro, mas eles ainda tinham aquele cheiro desagradável. Como se este lugar houvesse infectado suas próprias almas.
— Eles estão aqui em cima — Gavriel disse em voz baixa – gentilmente.
As mãos de Elide começaram a tremer e Fenrys colocou uma das mãos no ombro dela.
— Ele está bem contido.
Ela não sabia se com meras cordas ou correntes. Provavelmente com fogo e gelo e talvez até com o próprio poder sombrio de Lorcan.
Mas isso não a impediu de tremer, de quão pequena e frágil ela se tornou quando viraram a esquina e viram Aelin, Rowan e Lorcan de pé diante de uma porta fechada. Mais adiante no corredor, Nesryn e Sartaq, lorde Chaol com eles, esperavam. Deixando-os decidir o que fazer.
Deixando Elide decidir.
O rosto grave de Lorcan estava congelado de raiva, seus olhos profundos como piscinas geladas de noite. Ele disse em voz baixa:
— Você não precisa entrar lá.
— Nós o trouxemos para cá — disse Aelin, o próprio rosto o retrato da ira reprimida — para que você pudesse escolher o que fazer com ele. Se você quiser falar com ele antes de nós.
Um olhar para as facas nos lados de Rowan e Lorcan, no modo como os dedos da rainha se curvaram, e Elide sabia o que o tipo de conversa deles incluiria.
— Você quer torturá-lo por informações?
Ela não se atreveu a encontrar os olhos de Aelin.
— Antes que ele receba o que é devido a ele — Lorcan rosnou.
Elide olhou entre o macho que amava e a rainha que ela servia. E seu coxear nunca pareceu tão pronunciado, tão óbvia, quando ela deu um passo mais perto.
— Por que ele está aqui?
— Ele ainda tem que revelar isso — respondeu Rowan. — E embora não tenhamos confirmado que você está aqui, ele suspeita. — Um olhar em direção a Lorcan. — A decisão é sua, lady.
— Vocês vão matá-lo independentemente disso?
— Você quer que a gente faça isso? — Lorcan perguntou. Meses atrás, ela havia dito para ele. E Lorcan concordara em fazer isso. Isso foi antes de Vernon e os ilken terem vindo para sequestrá-la – antes da noite em que ela estava disposta a abraçar a morte em vez de ir com ele para Morath.
Elide olhou para dentro. Eles deram a ela a cortesia do silêncio.
— Eu gostaria de falar com ele antes de decidirmos o seu destino.
Um arco da cabeça de Lorcan foi sua única resposta antes de ele abrir a porta atrás de si.
Tochas cintilavam, a câmara vazia, exceto por uma mesa de trabalho contra uma parede.
E seu tio, amarrado em ferros grossos, sentado em uma cadeira de madeira. Sua elegância estava gasta, seus cabelos escuros desgrenhados, como se tivesse lutado enquanto eles o amarravam. De fato, o sangue escorria de uma de suas narinas, o nariz inchado.
Quebrado.
Um olhar para a direita confirmou o sangue nas juntas de Lorcan.
Vernon endireitou-se quando Elide parou a vários metros de distância, a porta se fechando, Lorcan e Aelin poucos passos atrás. Os outros permaneceram no corredor.
— Que companhia poderosa você tem hoje em dia, Elide — disse Vernon. Aquela voz. Mesmo com o nariz quebrado, aquela voz sedosa e horrível arranhou garras ao longo de sua pele.
Mas Elide manteve o queixo para cima. Manteve os olhos sobre o tio.
— Por que você está aqui?
— Primeiro você deixa o bruto para mim — Vernon refletiu, acenando para Lorcan — então manda a garota de rosto doce para persuadir as respostas? — Um sorriso em direção a Aelin. — Uma técnica sua, Majestade?
Aelin encostou-se à parede de pedra, com as mãos nos bolsos. Nada humano em seu rosto. Embora Elide percebesse o modo como suas mãos, mesmo dentro de seus limites, se moviam.
Preso em ferros. Maltratado.
Apenas semanas atrás, fora a própria rainha no lugar de Vernon. E agora parecia que ela estava aqui por pura vontade. Parada aqui, pronta para arrancar informações de Vernon, pelo bem de Elide.
Isso fortaleceu Elide o suficiente para que ela dissesse ao seu tio:
— Suas respirações são limitadas. Eu sugiro que você os use com sabedoria.
— Impiedosa. —Vernon sorriu. — O sangue de bruxa em suas veias corre verdadeiro depois de tudo.
Ela não podia suportar. Estar nesta sala com ele. Respirar o mesmo ar que o homem que sorriu enquanto seu pai era executado, sorriu enquanto a trancava naquela torre por dez anos. Sorriu enquanto tocara em Kaltain, talvez fazendo muito pior depois, que tentou vender Elide a Erawan para reprodução.
— Por quê? — ela perguntou. Era a única questão em que ela realmente conseguia pensar, que realmente importava. — Por que isso?
— Desde que minhas respirações são limitadas — disse Vernon — suponho que não faz diferença o que eu falar. — Um pequeno sorriso curvou seus lábios. — Porque eu podia — disse seu tio. Lorcan rosnou. — Porque meu irmão, seu pai, era um bruto insuportável, cuja única qualificação para governar era a ordem de nosso nascimento. Um guerreiro bruto — cuspiu Vernon, zombando de Lorcan. Então de Elide. — A preferência de sua mãe parece ter passado para você também. — Um balançar odioso de cabeça. — Uma pena. Ela era uma beleza rara, você sabe. É uma pena que ela tenha sido morta defendendo Sua Majestade. — O calor se espalhou pela sala, mas o rosto de Aelin permaneceu imóvel. — Poderia ter havido um lugar para ela em Perranth se ela não...
— Chega — disse Elide em voz baixa, mas não fracamente. Ela deu outro passo em direção a ele. — Então você ficou com ciúmes. Do meu pai. Ciúmes de sua força, seu talento. De sua esposa. — Vernon abriu a boca, mas Elide levantou a mão. — Eu não terminei ainda.
Vernon piscou.
Elide manteve a respiração firme, ombros para trás.
— Eu não me importo porque você está aqui. Eu não me importo com o que eles planejam fazer com você. Mas quero que saiba que uma vez que eu saia desta sala, nunca pensarei em você novamente. Seu nome será apagado de Perranth, de Terrasen, de Adarlan. Nunca haverá um sussurro de você, nem nenhum lembrete. Você será esquecido.
Vernon empalideceu – apenas ligeiramente. Então ele sorriu.
— Apagado de Perranth? Você diz isso como se não soubesse, lady Elide. — Ele se inclinou para frente tanto quanto suas correntes permitiam. — Perranth agora está nas mãos de Morath. Sua cidade foi saqueada.
As palavras ondularam através dela como um golpe, e até mesmo Lorcan respirou fundo.
Vernon se inclinou para trás, presunçoso como um gato.
— Vá em frente e me apague, então. Com os escombros, não será difícil.
Perranth foi capturada por Morath. Elide não precisou olhar por cima do ombro para saber que os olhos de Aelin estavam quase brilhando. Ruim – isso era muito pior do que eles previram. Eles tinham que se mover rapidamente. Ir para o norte o mais rápido que puderem.
Então Elide se virou para a porta, Lorcan se aproximando para abri-la para ela.
— É isso? — Vernon exigiu.
Elide fez uma pausa. Lentamente virou.
— O que mais eu teria para lhe dizer?
— Você não me pediu detalhes. — Outro sorriso de cobra. — Você ainda não aprendeu a jogar o jogo, Elide.
Elide devolveu seu sorriso com um de seus próprios.
— Não há nada mais que eu gostaria de ouvir de você. — Ela olhou para Lorcan e Aelin, em direção a seus companheiros reunidos no corredor. — Mas eles ainda têm perguntas.
O rosto de Vernon ficou da cor de leite estragado.
— Você quer me deixar nas mãos deles, totalmente indefeso?
— Eu estava indefesa quando você deixou minha perna permanecer sem tratamento — disse ela, um tipo estável de calma pairando sobre ela. — Eu era criança e sobrevivi. Você é um homem adulto. — Ela deixou os lábios se curvarem em outro sorriso. — Veremos se você sobrevive também.
Ela não tentou esconder seu coxear enquanto caminhava para fora. Quando olhou nos olhos de Lorcan e viu o orgulho brilhando ali.
Nem um sussurro – nem um sussurro daquela voz que a guiara. Não por medo, mas... Talvez ela não precisasse de Anneith, a Senhora das Coisas Sábias.
Talvez a deusa soubesse que ela mesma não era necessária.
Não mais.


Aelin sabia que uma palavra dela, e Lorcan arrancaria a garganta de Vernon. Ou talvez começasse com ossos quebrados.
Ou arrancando a pele dele vivo, como Rowan fizera com Cairn. Enquanto seguia Elide, a dama de Perranth ainda ereta, Aelin forçou sua própria respiração a permanecer firme. Para se preparar para o que estava por vir. Ela podia passar por isso. Afastando o tremor nas mãos, o suor frio nas costas. Para descobrir o que precisavam, ela poderia encontrar alguma maneira de suportar essa próxima tarefa.
Elide parou no corredor, Gavriel, Rowan e Fenrys dando um passo mais perto. Nenhum sinal de Nesryn, Chaol ou Sartaq, embora um grito provavelmente os convocasse nesse labirinto apodrecido.
Deuses, o fedor deste lugar. A sensação. Ela debateu durante a última hora se valia a pena para sua sanidade e estômago voltar a sua forma humana – para o abençoado olfato menos apurado que ela oferecia.
Elide disse para nenhum deles em particular:
— Eu não me importo com o que fizerem com ele.
— Você se importa se ele sai vivo? — Lorcan perguntou com calma mortal.
Elide estudou o homem cujo coração ela segurava.
— Não.
Bom, Aelin quase disse.
— Mas seja rápido — Elide acrescentou. Lorcan abriu a boca. Elide sacudiu a cabeça. — Meu pai gostaria que fosse assim.
Puna todos eles, Kaltain fez Aelin prometer uma vez. E Vernon, pelo o que Elide dissera a Aelin, parecia estar no topo da lista de Kaltain.
— Precisamos interrogá-lo primeiro — disse Rowan. — Ver o que ele sabe.
— Então interroguem — disse Elide. — Mas quando for a hora, faça isso rápido.
— Rápido — ponderou Fenrys — mas não indolor?
O rosto de Elide estava frio, inflexível.
— Vocês decidem.
O sorriso brutal de Lorcan disse a Aelin o suficiente. O mesmo aconteceu com o machado duplo de Rowan, brilhando ao seu lado.
Suas palmas ficaram suadas. Estiveram suando desde que prenderam Vernon, desde que ela viu as correntes de ferro.
Aelin alcançou sua magia. Não a chama furiosa, mas a gotinha refrescante da água. Ela ouviu sua música silenciosa, deixando-a passar por ela. E ao seu rastro, ela soube o que queria fazer.
Lorcan deu um passo em direção à porta da câmara, mas Aelin bloqueou seu caminho.
— Tortura não vai tirar nada dele — ela falou.
Mesmo Elide piscou com isso.
— Vernon gosta de jogar jogos. Então eu vou jogar — Aelin falou.
Os olhos de Rowan se fecharam. Como se ele pudesse sentir o cheiro do suor nas mãos dela, como se soubesse que fazê-lo da maneira antiga... a faria vomitar suas entranhas sobre a borda da Canino do Norte.
— Nunca subestime o poder de quebrar alguns ossos — retrucou Lorcan.
— Veja o que consegue tirar dele — Rowan disse a ela em vez disso. Lorcan girou, a boca se abrindo, mas Rowan rosnou: — Podemos decidir, aqui e agora, o que queremos ser como uma corte. Nós agimos como nossos inimigos? Ou encontramos métodos alternativos para quebrá-los?
Seu parceiro encontrou seu olhar, compreensão brilhando lá.
Lorcan ainda parecia pronto para discutir. Acima da dor fantasma de correntes nos pulsos, o peso de uma máscara no rosto, Aelin disse:
— Façamos do meu jeito primeiro. Você ainda pode matá-lo, mas primeiro tentaremos da minha maneira. — Quando Lorcan não objetou, ela disse: — Precisamos de uma cerveja.


Aelin deslizou a caneca de cerveja gelada pela mesa até onde Vernon agora estava sentado, as correntes soltas o suficiente para ele usar as mãos.
Um movimento em falso, e o fogo dela o derreteria. Apenas o Leão e Fenrys estavam na câmara, posicionados perto das portas. Rowan e Lorcan rosnaram com a ordem dela para permanecerem no corredor, mas Aelin havia declarado que eles só impediriam seus esforços aqui.
Aelin tomou um gole de sua caneca e cantarolou.
— Um dia estranho, quando alguém tem que elogiar o bom gosto do seu inimigo na cerveja.
Vernon franziu o cenho para a caneca.
— Não está envenenada — disse Aelin. — Destruiria o propósito se estivesse.
Vernon tomou um pequeno gole.
— Suponho que você pense que me servir de cerveja e conversar como se fôssemos melhores amigos lhe dará o que você quer saber.
— Você preferiria a alternativa? — Ela sorriu levemente. — Eu certamente não.
— Os métodos podem ser diferentes, mas o resultado final será o mesmo.
— Diga-me algo interessante, Vernon, e talvez isso mude.
Seus olhos passaram por ela.
— Se eu soubesse que você se tornaria uma rainha, talvez eu não tivesse me incomodado em me ajoelhar para Adarlan. — Um sorriso malicioso. — Tão diferente dos seus pais. Seu pai alguma vez torturou um homem?
Ignorando a provocação, Aelin bebeu, deixando a cerveja permanecer na boca, como se pudesse lavar a mancha daquele lugar.
— Você tentou e não conseguiu ganhar poder para si mesmo. Primeiro, roubando-o de Elide, depois tentando vendê-la a Erawan. Morath saqueou Perranth e, sem dúvida, marcha sobre Orynth, e ainda assim encontramos você aqui. Escondido. — Ela bebeu novamente. — Seria de se pensar que o favor de Erawan mudou para outro lugar.
— Talvez ele tenha me colocado aqui por uma razão, Majestade.
Sua magia já o havia estudado. Para garantir que nenhum coração de ferro ou pedra de Wyrd batesse em seu peito.
— Eu acho que você foi posto de lado — disse ela, inclinando-se para trás e cruzando os braços. — Acho que você sobreviveu à sua utilidade, especialmente depois que não conseguiu recapturar Elide, e Erawan não se sentiu como se estivesse se livrando de um lacaio, mas também não queria que você se esquivasse. Então você está aqui. — Ela acenou com a mão para a câmara, a montanha acima deles. — O amável Desfiladeiro Ferian.
— É lindo na primavera — disse Vernon.
Aelin sorriu.
— Mais uma vez, conte-me algo interessante, e talvez você viva para ver.
— Você jura? Pelo seu trono? Que não vai me matar? — Um olhar para Fenrys e Gavriel, com o rosto de pedra atrás dela. — Nem nenhum de seus companheiros?
Aelin bufou.
— Eu estava esperando que você aguentasse mais tempo antes de mostrar sua mão. — Ela bebeu o resto de sua cerveja. — Mas sim. Juro que nem eu, nem nenhum dos meus companheiros o mataremos se você nos contar o que sabe.
Fenrys ficou rígido. Toda a confirmação que Vernon precisava de que eles não tinham planejado isso.
Vernon bebeu profundamente da cerveja. Então disse:
— Maeve chegou a Morath.
Aelin ficou feliz por estar sentada. Ela manteve seu rosto entediado, sem graça.
— Para ver Erawan?
— Para unir-se a ele.

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