29 de outubro de 2018

Capítulo 75

Darrow e os outros lordes de Terrasen gastaram o tempo sabiamente nos últimos meses, graças aos deuses, e Orynth estava bem abastecido contra o cerco que se aproximava a cada hora que passava.
Alimentos, armas, suprimentos de cura, planos para onde os cidadãos poderiam dormir, caso fugissem para o castelo, reforços nos locais ao longo da cidade e nas muralhas do castelo, onde a pedra antiga enfraquecera – Aedion havia encontrado pouco a que criticar.
No entanto, depois de uma noite de sono em seu antigo quarto no castelo – horrível, estranho e frio – ele fazia a ronda em uma das torretas baixas quando o amanhecer chegou. Aqui em cima, o vento era muito mais selvagem, mais gelado.
Passos constantes e se aproximando soaram do arco atrás dele.
— Eu o vi aqui em meu caminho para o café da manhã — disse Ren a título de saudação.
Os aposentos da corte de Allsbrook sempre estiveram na torre adjacente à de Aedion – quando eram meninos, eles tinham passado um verão planejando um sistema de sinalização para os quartos um do outro usando uma lanterna.
Foi o último verão que eles passaram em amizade, uma vez que tinha começado a ficar claro para o pai de Ren que Aedion era favorecido a fazer o juramento de sangue. E então a rivalidade começou.
Em um verão: grosseiros como ladrões e selvagens. No seguinte: infindáveis competições baixas, tudo, desde corridas nos pátios, empurrões nas escadas e até brigas no Grande Salão. Rhoe tentara desfazer essa ideia, mas Rhoe nunca fora um mentiroso confortável. Tinha se recusado a negar ao pai de Ren que Aedion era quem faria aquele juramento. E no final daquele verão, até mesmo o príncipe herdeiro começou a olhar para o outro lado quando os dois meninos se lançavam em mais uma briga no chão. Não que isso importasse agora.
Seu próprio pai, Gavriel, teria encorajado a rivalidade? Ele supunha que isso não importava também. Mas por um instante, Aedion tentou imaginá-lo – Gavriel aqui, presidindo seu treinamento. Seu pai e Rhoe, ensinando-o juntos. E ele sabia que Gavriel teria encontrado alguma maneira de acalmar a competição, muito do modo como ele mantinha a paz na equipe. Que tipo de homem ele teria se tornado, se o Leão estivesse aqui? Gavriel provavelmente teria sido massacrado com o resto da corte, mas... ele teria estado aqui.
O caminho de um tolo, percorrer esse caminho. Aedion era quem ele era e, na maior parte do tempo, não se importava nem um pouco. Rhoe fora seu pai da maneira que contava. Mesmo que houvesse ocasiões em que Aedion olhara para Rhoe, Evalin e Aelin e ainda se sentisse como um convidado.
Aedion expulsou o pensamento de sua cabeça. Estar aqui, neste castelo, o havia afetado. Arrastou-o para um reino de fantasmas.
— Não espere que Darrow distribua um café da manhã como os que costumávamos ter — disse Aedion. Não que ele esperasse ou quisesse um. Ele comia apenas porque seu corpo exigia que ele o fizesse, porque significava força, e ele precisaria disso, seu povo precisaria, em pouco tempo.
Ren examinou a cidade, depois a planície de Theralis além. O horizonte ainda vazio.
— Organizarei os arqueiros hoje. E garantirei que os soldados nos portões saibam como manejar aquele óleo fervente.
— Você sabe como manejá-lo? — Aedion arqueou uma sobrancelha.
Ren bufou.
— O que há para aprender? Você joga um caldeirão gigante muralha afora. Dano causado.
Certamente exigia um pouco mais de habilidade do que isso, mas era melhor que nada. Pelo menos Darrow se certificara de que eles tivessem esses suprimentos.
Aedion rezou para que eles tivessem a chance de usá-los. Com as torres de bruxa de Morath, as chances eram que eles seriam explodidos em escombros antes que o exército inimigo chegasse a um dos dois portões da cidade.
— O que realmente poderíamos usar é algum fogo infernal — Ren murmurou. — Isso os manteria longe dos portões.
E potencialmente derreteria todos ao redor deles também. Aedion abriu a boca para concordar quando suas sobrancelhas se estreitaram. Ele examinou a planície, o horizonte.
— Pare com isso — disse Ren.
Aedion guiou Ren de volta para a entrada da torreta.
— Precisamos conversar com Rolfe.


Não sobre fogo infernal nos portões sul e oeste. De modo nenhum.
Esperaram até a cobertura da escuridão, quando os espiões de Morath não pudessem ver o pequeno grupo deles que se arrastou, quilômetro após quilômetro, através da Planície de Theralis.
Vestidos em preto de batalha, eles se moveram sobre o campo que mais uma vez seria banhado em sangue. Quando chegaram aos marcos que Aedion e Ren usaram as horas do dia para planejar, Aedion levantou a mão.
Os Assassinos Silenciosos fizeram jus ao nome quando Ilias sinalizou de volta e eles se espalharam. Entre eles, moviam-se os micênicos de Rolfe, carregando suas cargas pesadas.
Mas foi a metamorfo que começou a trabalhar primeiro. Transformando-se em um texugo gigante, maior que um cavalo, que escavou a terra congelada com patas fortes e hábeis.
O cheiro do sangue dela encheu o ar, mas Lysandra não parou de cavar. E quando ela terminou o primeiro buraco, ela passou para o seguinte, deixando o grupo de Assassinos Silenciosos e micênicos para plantar sua armadilha, em seguida, começou a cavar novamente.
O vento brutal gemia ao passar por eles. No entanto, eles trabalharam durante a noite, usaram cada minuto. E quando terminaram, desapareceram de volta para a cidade, invisíveis mais uma vez.


Morath apareceu no horizonte um dia mais tarde.
Das torres e passarelas mais altas do castelo, cada fileira em marcha podia ser contada. Uma após a outra após a outra.
Com as mãos ainda feridas e enfaixadas por cavar através da terra congelada, Lysandra estava posicionada com uma variedade de seus aliados em uma dessas passarelas, Evangeline agarrada a ela.
— São quinze mil — Ansel de Penhasco dos Arbustos anunciou quando surgiu outra fileira. Ninguém disse nada. — Vinte.
— Morath deve estar vazio para ter tantos aqui agora — o príncipe Galan murmurou.
Evangeline tremeu, não inteiramente de frio, e Lysandra apertou o braço ao redor da garota. Mais abaixo na parede da passarela, Darrow e os outros lordes de Terrasen conversavam em voz baixa. Como se sentisse a atenção de Lysandra, Darrow lançou um olhar semicerrado para ela – que então desceu para a pálida e trêmula Evangeline. Darrow não disse nada, e Lysandra não se incomodou em parecer agradável antes de se voltar para seus companheiros.
— São trinta — disse Ansel.
— Sabemos contar — Rolfe cortou.
Ansel ergueu uma sobrancelha vermelho como vinho.
— Você realmente sabe?
Apesar do exército que marchava em sua direção, a boca de Lysandra se contraiu para cima. Rolfe apenas revirou os olhos e voltou a observar o exército que se aproximava.
— Eles não chegarão até o amanhecer, no mínimo — observou Aedion, com o rosto sombrio.
Ela ainda não havia decidido que forma tomar. Onde lutar. Se ilken ainda voasse em suas fileiras, então seria uma serpente alada, mas se houvesse esquadras mais próximos, então... ela não tinha decidido. Ninguém lhe dissera para estar em qualquer lugar em particular, embora o pedido de Aedion na outra noite para ajudar em seu plano louco tivesse sido um alívio raro naqueles dias de espera e temor.
Ela ficaria feliz em passar os dias marchando em vez de esperar o que se aproximava deles.
— Cinquenta mil — disse Ansel, lançando um olhar irônico para Rolfe.
Lysandra engoliu em seco contra o aperto na garganta. Evangeline pressionou o rosto em sua cintura.
E então as torres de bruxas tomaram forma. Como lanças maciças se projetando do horizonte, elas eram uma sombra através da luz cinzenta da manhã. Três delas se espalharam igualmente em meio ao exército que continuava a fluir atrás deles.
Até mesmo Ansel parou de contar agora.
— Não achei que seria tão terrível — sussurrou Evangeline, com as mãos afundando no pesado manto de Lysandra. — Não achei que seria tão miserável.
Lysandra deu um beijo no topo de seu cabelo vermelho-dourado.
— Nenhum dano a alcançará.
— Não temo por mim mesma — disse Evangeline. — Mas pelos meus amigos.
Aqueles olhos citrinos realmente brilhavam com lágrimas de terror, e Lysandra limpou um deles antes de assistir as torres de bruxas avançando ameaçadoramente na direção deles. Ela não tinha palavras para consolar a garota.
— A qualquer momento agora — murmurou Aedion, e Lysandra olhou para a planície coberta de neve.
Para as figuras que surgiram debaixo da neve, vestidas de branco. Flechas flamejantes colocadas em seus arcos. As linhas de frente de Morath estavam quase em cima deles, mas esses soldados não eram seus alvos.
Abaixo na parede, Murtaugh agarrou as pedras antigas enquanto uma figura que tinha que ser Ren dava a ordem. Flechas flamejantes se arquearam e voaram, soldados Morath se escondendo sob seus escudos.
Eles não se incomodaram em olhar sob seus pés. Nem as bruxas que lideravam suas três torres. As flechas flamejantes atingiram a terra com uma precisão mortal, graças aos Assassinos Silenciosos que manejavam aqueles arcos.
Bem em cima das linhas de fusíveis que fluíam diretamente nos poços que eles cavaram. Bem quando as torres de bruxas passavam por eles.
Clarões cegantes quebraram o mar negro do exército. Então o poderoso bum.
E então uma chuva de pedras, todas as forças de Morath se virando para ver. Proporcionando a distração certeira, Ren, Ilias e os Assassinos Silenciosos correram para os cavalos brancos escondidos atrás de um monte de neve.
Quando o clarão diminuiu, quando a fumaça se foi, um suspiro de alívio desceu pela passarela.
Duas daquelas torres de bruxas estavam diretamente sobre os poços. Poços que estiveram cheios de reagentes químicos e pós que alimentavam os lançadores de fogo de Rolfe, ocultos sob a terra – esperando por uma faísca para acendê-los.
Aquelas duas torres agora jaziam em uma ruína dispersa, suas serpentes aladas quebradas abaixo deles, soldados espremidos sob uma chuva de pedras.
No entanto, uma ainda estava de pé, a cova que estava mais perto explodiu cedo demais. Uma das serpentes aladas que a puxava fora atingida por destroços de outra torre – e estava morta ou ferida.
E aquela terceira torre restante havia parado.
Uma corneta baixa e arrepiante soou do exército inimigo e as linhas pararam também.
— Graças aos malditos deuses — disse Rolfe, curvando a cabeça.
Mas Aedion ainda olhava para a planície – para as figuras a cavalo galopando para as paredes de Orynth. Certificando-se de que todos retornassem.
— Por quanto tempo isso vai impedi-los? — perguntou Evangeline.
Todos, inclusive Darrow, se voltaram para a garota. Ninguém tinha uma resposta. Nenhuma mentira para oferecer.
Então eles novamente se viraram para o exército reunido na planície, seus confins mais distantes agora visíveis.
— Cem mil — Ansel de Penhasco dos Arbustos anunciou suavemente.

3 comentários:

  1. A Ansel só ajuda né 😂
    MANON, CHEGA LOGOOOO

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  2. o negócio está tão frenético que ninguém, nem sequer comenta. o_O

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  3. Tô esperando a Manon chegar divando com a coroa brilhando na cabeça e o exército de Crochans e Dentes de Ferro atrás dela

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Boa leitura, E SEM SPOILER!