29 de outubro de 2018

Capítulo 72

De longe, o Desfiladeiro Ferian não parecia o posto avançado de um bom número da legião aérea de Morath.
Nem parecia, decidiu Nesryn, que criava serpentes aladas há anos. Ela supunha que a falta de sinais óbvios da presença de um rei valg fosse parte do motivo pelo qual permaneceu em segredo por tanto tempo.
Voando mais perto dos imponentes picos gêmeos que flanqueavam um dos lados – o Canino do Norte de um lado, a Ômega do outro – e separavam aos Caninos Brancos das montanhas Ruhnn, Nesryn mal conseguia distinguir estruturas embutidas em qualquer uma delas. Como o ninho Eridun, e ainda assim não de todo. A casa da montanha do Eridun estava cheia de movimento e vida. O que havia sido construído no desfiladeiro, conectado por uma ponte de pedra perto do topo, permanecia em silêncio. Frio e sombrio.
A neve cegava um pouco Nesryn, mas Salkhi deslizou em direção aos picos, permanecendo no alto. Borte e Arcas vinham do norte, pouco mais que sombras escuras em meio à imensidão do branco.
Bem atrás deles, na planície do vale além do desfiladeiro, metade do exército deles esperava, os ruks com eles. Esperava que Nesryn e Borte, junto com os outros batedores que saíram, relatassem que era hora de atacar. Eles fizeram a travessia do rio sob a cobertura da escuridão na noite anterior, e aqueles que os ruks não puderam carregar foram trazidos em barcos.
Uma posição precária para se estar, aquela planície antes do desfiladeiro. O Avery se bifurcava atrás deles, efetivamente impedindo-os de passar. Grande parte dele estava congelada, mas a cobertura não era espessa o suficiente para arriscarem a travessia a pé. Se esta batalha correr mal, não haverá para onde fugir.
Nesryn cutucou Salkhi, contornando o Canino do Norte pelo lado sul. Lá embaixo, a neve caía espaçada o suficiente para revelar o que parecia ser um portão dos fundos da montanha. Nenhum sinal de sentinelas ou quaisquer serpentes aladas.
Talvez o clima as tivesse espantado para dentro. Ela olhou para o sul, para os caninos. Mas não havia sinal da segunda metade de seu exército, marchando para o norte pelos próprios picos para chegar ao desfiladeiro pela entrada oeste. Uma jornada muito mais traiçoeira do que a que eles fizeram.
Mas se eles cronometrassem corretamente, se atraíssem o exército no desfiladeiro para a planície antes que os outros chegassem do oeste, poderiam esmagar as forças de Morath entre eles. E isso sem o poder desencadeado de Aelin Galathynius. Sem seu consorte e sua corte.
Salkhi rodeou o Canino do Norte. Distantemente, Nesryn pôde ver Borte fazendo o mesmo ao redor do Ômega. Mas não havia sinal de seu inimigo.
E quando Nesryn e Borte fizeram outra passagem pelo Desfiladeiro Ferian, indo tão longe a ponto de voar entre os dois picos, também não encontraram nenhum sinal.
Como se o inimigo tivesse desaparecido.


Os Caninos Brancos eram totalmente implacáveis.
Os homens selvagens que os guiavam impediam que as montanhas fossem fatais, sabendo que passagens poderiam ser destruídas pela neve, quais teriam uma plataforma de gelo instável, quais eram abertas demais para olhos que voassem sobre sua cabeça. Mesmo com o exército seguindo atrás deles, Chaol se maravilhou com a velocidade de sua viagem e como, depois de três dias, eles atravessaram as montanhas e alcançaram as planícies cobertas de neve do lado oeste.
Ele nunca pôs os pés no território, embora fosse tecnicamente seu. A fronteira oficial de Adarlan reivindicava as planícies além dos Caninos por uma boa distância antes que cedessem aos territórios sem nome das terras desérticas. Mas ainda parecia o deserto, estranhamente quieto e amplo, uma estranha área que se estendia, sem interrupções, até o horizonte.
Mesmo os estoicos guerreiros do khaganato não pareciam olhar por muito tempo em direção aos desertos à sua esquerda enquanto cavalgavam para o norte. À noite, eles ficavam próximos de suas fogueiras.
Todos eles ficavam. Yrene se tornava um pouco mais tensa à noite, sussurrando sobre a estranheza da terra, seu silêncio vazio. Como se a terra em si não cantasse, ela disse algumas vezes agora, estremecendo ao fazê-lo.
De longe o melhor lugar, pensou Chaol enquanto seguiam para o norte, contornando a borda dos Caninos à direita, para que Erawan fizesse seu império. Inferno, eles poderiam ter dado o espaço a ele se ele tivesse montado sua fortaleza nas profundezas da planície e se mantido ali.
— Estamos a um dia do Desfiladeiro — disse um dos homens selvagens – Kai – a Chaol enquanto atravessavam uma manhã excepcionalmente ensolarada. — Acamparemos ao sul do Canino do Norte esta noite, e a marcha da manhã nos levará até o próprio Desfiladeiro.
Havia outra razão pela qual os homens selvagens se aliaram a eles, além do território que tinham para ganhar. As bruxas tinham caçado seu povo nesta primavera – clãs e acampamentos inteiros deixados em tiras ensanguentadas. Muitos foram reduzidos a cinzas, e os poucos sobreviventes haviam sobre uma mulher de cabelos escuros com um poder profano. Chaol estava disposto a apostar que fora Kaltain, mas não dissera aos homens selvagens que aquela ameaça em particular, pelo menos, fora apagada. Ou que se incinerara no final.
Não importaria para eles de qualquer maneira. Dos cerca de duzentos homens selvagens que haviam se juntado ao exército desde que deixaram Anielle, todos tinham ido ao Desfiladeiro Ferian para conseguir vingança contra as bruxas. Em Morath, Chaol se absteve de mencionar que ele próprio matara um de seus semelhantes há quase um ano.
Poderia muito bem ter sido uma década atrás, por tudo o que aconteceu desde que ele matou Cain durante seu duelo com Aelin. Yulemas ainda estava a semanas de distância – se eles sobrevivessem tempo suficiente para celebrá-lo.
Chaol se virou para o homem magro e barbudo, que compensava a falta de volume tradicional de seu clã com perspicácia rápida e olhos penetrantes.
— Há algum lugar que possa esconder um exército tão grande esta noite?
Kai balançou a cabeça.
— Não tão perto. Esta noite será o maior risco.
Chaol olhou para as carroças distantes das curandeiras, onde Yrene cavalgava, trabalhando em qualquer soldado que tivesse ficado doente ou ferido na jornada.
Ele não a via desde que acordaram, mas sabia que ela passou a cavalgada curando – a tensão em sua espinha cresceu a cada quilômetro.
— Só teremos que rezar — disse Chaol, voltando-se para a imponente montanha tomando forma diante deles.
— Os deuses não vêm para essas terras — foi tudo o que Kai disse antes de voltar a um grupo de seu próprio povo.
Um cavalo parou ao lado do seu e ele encontrou Aelin enrolada em um manto de pele, uma mão no punho de Goldryn. Gavriel estava atrás dela, Fenrys ao seu lado. O primeiro mantinha um olho nas planícies do oeste; o último monitorando a parede de picos à sua direita. Ambos os machos feéricos de cabelos dourados permaneceram em silêncio, no entanto, quando Aelin franziu a testa para a forma de Kai que se distanciava.
— Aquele homem tem um talento para o dramático que deveria ter lhe garantido um lugar em alguns dos melhores palcos de Forte da Fenda.
— Belo elogio, na verdade, vindo de você.
Ela piscou, acariciando o pomo de rubi de Goldryn. A pedra pareceu brilhar em resposta.
— Eu reconheço um espírito semelhante quando vejo um.
Apesar da batalha que os aguardava à frente, Chaol riu. Mas, então, Aelin disse:
— Rowan e seus companheiros estiveram acumulando o poder deles nos últimos dias. — Ela assentiu por cima do ombro para Fenrys e Gavriel, depois para onde Rowan cavalgava à frente da companhia, o cabelo prateado do príncipe feérico brilhando como o sol sobre a neve ao redor deles. — Assim como eu. Nós nos asseguraremos que nada atinja este exército durante a noite. — Um olhar conhecedor em direção às carroças das curandeiras. — Certas áreas serão especialmente vigiadas.
Chaol assentiu com gratidão. Ter Aelin capaz de usar seus poderes, tendo seus companheiros empunhando-os também, tornaria a batalha muito mais fácil.
As serpentes aladas nem sequer conseguiriam chegar perto o suficiente para tocar seus soldados se Aelin pudesse explodi-las dos céus, ou Rowan quebrasse suas asas com uma rajada de vento. Ou apenas arrancasse o ar de seus pulmões.
Ele tinha visto o suficiente de Fenrys e Gavriel lutando em Anielle para saber que, mesmo sem tanta magia, eles seriam letais. E Lorcan... Chaol não olhou por cima do ombro para onde Lorcan e Elide cavalgavam. Os poderes negros do guerreiro não eram nada que Chaol quisesse enfrentar.
Com um aceno de resposta, Aelin trotou para o lado de Rowan, o rubi no punho de Goldryn como um pequeno sol. Fenrys a seguiu, guardando as costas da rainha mesmo entre aliados. No entanto, Gavriel permaneceu, guiando seu cavalo para o lado de Farasha. A égua negra olhou para o ruão do guerreiro que se aproximava, mas não fez nenhum movimento para mordê-lo. Graças aos deuses.
O Leão deu-lhe um leve sorriso.
— Eu não tive a chance de parabenizá-lo por suas boas novas.
Uma coisa estranha para o guerreiro dizer, dado que eles mal falaram além dos conselhos, mas Chaol inclinou a cabeça.
— Obrigado.
Gavriel olhou para a neve e as montanhas – em direção ao norte distante.
— Não tive a oportunidade de estar presente desde o início. Para ver meu filho crescer e se tornar um homem.
Chaol pensou nisso – na vida que crescia no ventre de Yrene, na criança que criariam. Pensou no que Gavriel não tinha experimentado.
— Sinto muito. — Era a única coisa a dizer.
Gavriel balançou a cabeça, olhos castanhos brilhando dourados, manchas de esmeralda surgindo no sol ofuscante.
— Eu não falei isso buscando simpatia. — O Leão olhou para ele, e Chaol sentiu o peso de cada um dos séculos de Gavriel pesando sobre ele. — Mas para falar o que você talvez já saiba: saboreie cada momento disso.
— Sim. — Se eles sobrevivessem a essa guerra, ele o faria. Cada segundo maldito.
Gavriel puxou as rédeas, como se prestes a conduzir seu cavalo de volta a seus companheiros, mas Chaol disse:
— Suponho que Aedion não facilitou para você aparecer na vida dele.
O rosto sério de Gavriel se apertou.
— Ele tem todos os motivos para isso.
E embora Aedion fosse filho de Gavriel, Chaol disse:
— Tenho certeza de que você já sabe disso, mas Aedion é tão teimoso e impetuoso quanto sua parenta — ele apontou o queixo para Aelin, cavalgando à frente. Dizendo algo a Fenrys que fez Rowan rir – e Fenrys dar uma risada. — Aelin e Aedion poderiam muito bem ser gêmeos. — Que Gavriel não o impedisse de falar indicava que ele lera a mágoa nos olhos do Leão bem o suficiente. — Os dois costumam dizer uma coisa, mas querem dizer algo completamente diferente. E depois negam até o último suspiro. — Chaol balançou a cabeça. — Dê tempo a Aedion. Quando chegamos a Orynth, tenho a sensação de que ele ficará mais feliz em vê-lo do que deixará transparecer.
— Estou trazendo sua rainha de volta e cavalgando com um exército. Acho que ele ficaria feliz de ver seu inimigo mais odiado caso fizesse isso por ele. — Preocupação empalideceu as feições bronzeadas do Leão. Não pelo reencontro, mas pelo o que seu filho poderia estar enfrentando no norte.
Chaol considerou.
— Meu pai é um bastardo — ele disse baixinho. — Ele esteve na minha vida desde a minha concepção. No entanto, nunca se preocupou em fazer as perguntas que você faz — disse Chaol. — Ele nunca se importou o suficiente para fazê-las. Ele nunca se preocupou. Essa será a diferença.
— Se Aedion escolher me perdoar.
— Ele irá — disse Chaol. Ele faria Aedion peprdoar.
— Por que está tão certo?
Chaol considerou suas palavras cuidadosamente antes de encontrar novamente o olhar intimidador de Gavriel.
— Porque você é o pai dele. E não importa o que possa haver entre vocês, Aedion sempre vai querer perdoá-lo. — Lá estava sua própria vergonha secreta, ainda guerreando em seu interior depois de tudo o que seu pai fizera. Mesmo depois do baú cheio das cartas de sua mãe. — E Aedion perceberá, à sua própria maneira, que você foi salvar Aelin não por ela ou por Rowan, mas por ele. E que ficou com eles, e marchou neste exército, por causa dele também.
O Leão olhou para o norte, os olhos reluzindo.
— Espero que você esteja certo. — Nenhuma tentativa de negação – que tudo o que Gavriel tinha feito e faria seria apenas por Aedion. Que ele marchava para o norte, para o inferno, por Aedion.
O guerreiro começou a ultrapassar seu cavalo novamente, mas Chaol se viu dizendo:
— Eu gostaria... eu gostaria de ter tido a sorte de ter você como meu pai.
Surpresa e algo muito mais profundo atravessou o rosto de Gavriel. Sua garganta tatuada tremeu.
— Obrigado. Talvez seja a nossa sorte – nunca ter os pais que desejamos, mas ainda esperar que eles possam superar o que são, falhas e tudo mais.
Chaol se absteve de dizer a Gavriel que ele já era mais que suficiente.
— Me esforçarei para ser digno do meu filho — Gavriel falou em voz baixa.
Chaol estava prestes a murmurar que seria Aedion melhor considerar o Leão digno quando duas formas surgiram nos céus acima. Grandes, escuras e se aproximando rápido.
Chaol agarrou o arco preso às costas enquanto os soldados gritavam, o próprio arco de Gavriel já apontado para o céu, mas Rowan gritou acima da balbúrdia:
— Não atirem! — Cascos galoparam em direção a eles, então Aelin e o príncipe feérico estavam lá, o último anunciando: — São Nesryn e Borte.
Em poucos minutos, as duas mulheres tinham pousado, os ruks cobertos de gelo do ar acima dos picos.
— Quão ruim é? — perguntou Aelin, agora acompanhada por Fenrys, Lorcan e Elide.
Borte estremeceu.
— Isso não faz sentido. Nada disso.
Nesryn explicou antes que Chaol pudesse dizer à garota para chegar ao ponto:
— Nós já passamos pelo Desfiladeiro três vezes. Até pousamos na Ômega. — Ela balançou a cabeça. — Está vazio.
— Vazio? — Chaol perguntou. — Não há uma alma lá?
Os guerreiros feéricos se entreolharam.
— Alguns dos fornos ainda estão em funcionamento, então deve ter alguém lá — disse Borte — mas não havia uma bruxa ou serpente alada. Quem ficou para trás foi um mínimo – provavelmente não mais do que treinadores ou criadores.
O Desfiladeiro Ferian estava vazio. A legião de Dentes de Ferro desaparecida.
Rowan examinou o pico à frente.
— Nós precisamos descobrir o que eles sabem, então.
O aceno de Nesryn foi sombrio.
— Sartaq já tem pessoas trabalhando nisso.

9 comentários:

  1. de duas uma: ou elas se juntaram à Manon, ou o exército de bruxas dela já começou a fazer a limpa. Talvez elas tenham fugido depois da luta da Demônio Branco com as matriarcas também.


    -jo

    ResponderExcluir
  2. Eu acho q é as bruxas q estão em terrasen

    ResponderExcluir
  3. Acho q elas foram caçar a Manon pra se vingar

    Ass: Ahgasa

    ResponderExcluir
  4. Acredito que parte debandou para Manon e o resto foi para Terrasen. Mas queria todas indo pra Manon! Ou Erawan tem um plano maligno ainda não revelado; afinal o coração mais sombrio dessa história é o da autora que ama me torturar!!!!!!

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!