5 de outubro de 2018

Capítulo 7

AHMED ESPERAVA POR NÓS NA ENTRADA DO ACAMPAMENTO.
Não era um bom sinal.
Nosso príncipe rebelde podia não ter a altivez da realeza, mas tampouco costumava nos esperar como uma esposa cujo marido não voltava do bar.
— Delila. — Ele avançou na direção da irmã, deixando a cobertura do arco. Instintivamente, Shazad olhou em volta, procurando algum perigo que pudesse estar espreitando nas encostas do desfiladeiro. Até onde sabíamos, o local do acampamento ainda era seguro, mas se nossos inimigos descobrissem que estávamos ali, os desfiladeiros que nos cercavam permitiriam que qualquer atirador com um rifle o atingisse lá do alto. Alguém precisava cuidar da segurança de Ahmed, mesmo que ele não se preocupasse com isso. Ahmed nem pareceu notar a preocupação de Shazad. Toda a sua atenção estava voltada para a irmã. — Você está bem?
Uma parte de mim queria dizer a Ahmed que ele deveria ter mais fé na gente para saber que devolveríamos sua irmã inteira. Mas minha camisa estava mais vermelha do que branca, o que não indicava exatamente que estava tudo bem. Era melhor não chamar atenção para mim mesma naquele momento.
O sangue era meu. E do meu agressor. E de Ranaa.
Tentamos salvá-la. Mas todo mundo sabia que era impossível. Ela morreu rápido nos braços de Samira.
Pessoas morrem, procurei lembrar. Era o que acontecia nas missões. Ela não fora a primeira e, a menos que conseguíssemos matar o sultão no dia seguinte e Ahmed assumisse o trono, não seria a última. Esse é o custo da guerra, disse uma voz desagradável na minha cabeça, que soava parecida demais com a de Malik.
Só que eu nunca havia perdido uma demdji em batalha antes. Ou uma criança.
A culpa era do sultão. Não nossa. Ele que havia deixado os gallans cruzarem nossas fronteiras e permitido que matassem demdjis. Ele vinha nos caçando para nos usar como arma. Ele era culpado por Ranaa estar morta. Mas nós ainda estávamos vivos — eu, Imin, Delila — e não seguiríamos o caminho de Noorsham. Íamos derrubar o sultão antes que ele pudesse encontrar outro demdji. Eu precisava garantir isso.
— Estou bem. — Delila se contorceu enquanto o irmão a analisava em busca de ferimentos. — Sério, Ahmed.
Shazad me lançou um olhar expressivo, que disfarçou coçando o nariz. Depois de seis meses, ela era um livro aberto para mim. Aquele olhar significava que logo estaríamos em apuros.
Não tínhamos exatamente recebido permissão de levar Delila conosco. Mas sabíamos que precisaríamos de ajuda se quiséssemos atravessar os muros impenetráveis de Saramotai. Também sabíamos que Ahmed negaria se pedíssemos para levá-la em uma missão. Então não pedimos. Tecnicamente não era desobediência, porque não tínhamos sido proibidas de fazer isso. Mas sabíamos que essa desculpa era tão esfarrapada quanto nós duas.
Eu torcera para que Ahmed simplesmente não notasse que Delila não estava lá. Ele estava ocupado comandando a rebelião e só ficaríamos fora alguns dias. Mas, diferente de mim, a maioria das pessoas parecia saber o paradeiro dos irmãos.
— Delila se saiu bem, Ahmed — eu falei. — Muita gente teria morrido se não fosse por ela.
Muito mais gente, mas não disse isso em voz alta. Sabia que Shazad lera aquilo nas entrelinhas, entretanto. Delila apenas fitou os próprios pés enquanto Ahmed finalmente encarava o grupo e a multidão logo atrás. Alguns cavalgavam, mas os que eram fortes o bastante haviam caminhado. Mahdi estava entre os que disseram precisar de um cavalo. Imin tinha assumido a forma de uma garota e cavalgava com Navid, que a abraçava de maneira protetora. Ahmed sorriu.
— Vi que conseguiu resgatar Imin, Mahdi e mais algumas pessoas. — Havia um tom irônico apesar de seu sorriso indulgente.
Algumas ex-prisioneiras permaneceram em Saramotai, mas muitas partiram conosco. Mulheres que não tinham motivo nenhum para ficar, cujos maridos e filhos estavam entre os corpos pendurados nos muros. Aquela que havia me chamado de Zahia era uma delas. O pai sagrado em Saramotai a havia examinado e dito que não morreria na viagem até o acampamento. Mahdi foi contra trazê-la, mas Shazad não me questionou quando eu disse que parecia errado deixá-la indefesa na cidade que havia tentado matá-la. Shazad sabia que eu estava escondendo alguma coisa. A mulher ficou oscilando entre a consciência e o sono desde que deixamos a cidade, cavalgando a maior parte do tempo atada com um sheema à mulher na frente dela, para que não escorregasse.
Não era exatamente incomum voltar de missões com desgarrados. Eu sabia bem disso, já que, seis meses antes, havia acontecido comigo. Jin viajara com o objetivo de obter informações sobre uma possível arma do sultão. Mas voltara comigo, e pouco tempo depois eu já não era a mais novata do acampamento. Simpatizantes dos rebeldes como Navid haviam se juntado a nós, impulsionados pela batalha de Fahali. Órfãos vieram de Malal, segurando a barra da camisa de Jin por todo o caminho até o acampamento. Um soldado desertor tinha sido orientado a nos procurar pelo pai de Shazad, o general Hamad. Às vezes, Shazad se distraía e os chamava de “tropas”. Ahmed preferia considerá-los “refugiados”. Após algumas semanas, todos se tornavam simplesmente “rebeldes”.
— Precisamos conversar sobre a missão. — As palavras vieram com um olhar expressivo para mim e Shazad. Ahmed não daria bronca na frente de todo mundo. Mas isso não significava que deixaria para lá.
Shazad começou a falar enquanto ele nos conduzia pelo portão que levava ao acampamento. Ela deu detalhes de como tinha planejado que eu fosse capturada e então pulou para a parte de como ela e Delila, invisíveis graças à ilusão da menina, tinham entrado atrás de mim no momento em que fingi tropeçar e esperado o anoitecer para abrir a porta para os outros. Quanto menos lembrasse Ahmed de que havíamos colocado a irmã dele em perigo, melhor. Do modo como contara, mal dava para perceber que houve um combate sangrento. Shazad explicou que havíamos deixado Samira no comando da cidade.
— Precisamos enviar reforços — ela disse enquanto trilhávamos nosso caminho pelo interior do penhasco. — Deixamos o máximo de gente possível para ajudar. — Isso significava meia dúzia de homens que tinham ido conosco para Saramotai. Navid sozinho valeria por sete deles, mas sabíamos que não pretendia se separar de Imin de novo. Não era exatamente um exército capaz de manter uma fortaleza, mas era o que tínhamos. — Não é o bastante para garantir a paz. Devíamos mandar cinquenta soldados bem treinados antes que alguém ambicioso siga os passos de Malik. E precisamos reforçar a cidade contra o sultão. Ahmed… — Shazad baixou a voz, olhando para trás, onde a multidão recém-recrutada caminhava nervosa pela escuridão. — As tropas do seu pai estavam na nossa metade do deserto.
O príncipe não a respondeu de imediato, mas conforme nos aproximávamos do fim do túnel, pude notar que entendia o significado daquilo ainda melhor do que eu.
Boa parte do poder que mantínhamos dependia de aparências. Não conseguiríamos manter nossa metade do deserto à força, mas podíamos parecer mais fortes do que éramos de fato. Contanto que o sultão não perambulasse pelo nosso território.
Conforme caminhávamos, a outra face do penhasco surgiu. Pisquei com o brilho repentino. A luz do verão fazia o acampamento rebelde parecer uma das ilusões de Delila, bonito e vivo demais para um deserto cheio de poeira e morte. Um mundo à parte.
O acampamento tinha dobrado em tamanho desde a primeira vez que o vira. Não pude evitar olhar por cima do ombro para ver a reação das mulheres de Saramotai que nos acompanhavam. Eu tinha adquirido o hábito de observar o rosto dos refugiados quando viam aquilo pela primeira vez. Não fiquei desapontada. Uma a uma, elas saíram do túnel e tiveram um vislumbre do novo lar. Por apenas um momento, o medo, o pesar e a exaustão foram embora, dando lugar ao maravilhamento diante do oásis que se estendia embaixo delas. Ao observá-las, senti por um breve segundo como se estivesse redescobrindo aquele lugar.
Mesmo que nos seis meses anteriores eu tivesse me acostumado a voltar para casa.
Conhecia cada detalhe do acampamento; os rostos que me esperavam aqui, as cicatrizes que exibiam. Tanto as marcas que os trouxeram para nosso lado quanto aquelas que ganharam lutando por nós. Sabia quais tendas estavam ligeiramente tortas, e como os pássaros soavam no fim da tarde nas piscinas, e que o cheiro de pão significava que era dia de Lubna na cozinha.
Eu meio que esperava ver Jin caminhando na minha direção, como havia feito da última vez que voltei de uma missão sem ele. Com um sorriso no rosto, a gola aberta revelando a ponta da tatuagem, as mangas dobradas até os cotovelos de modo que, quando me puxasse para si, fazendo minha própria camisa subir, a pele fria de seus braços encostasse na minha pele quente do calor do deserto.
Mas pelo visto ele ainda não havia voltado para casa.
Shazad discutia com Ahmed os detalhes de quem e quantos enviar para Saramotai, me deixando no comando das nossas novas refugiadas. Dei a Imin e Navid instruções para acomodá-las. Levar as doentes e feridas para o pai sagrado. Colocar o restante para trabalhar. Mas Navid não precisava de instruções, porque ele mesmo já havia passado por isso. Ainda assim, sorriu cordialmente. Imin o ajudou a guiar as mulheres para o outro lado do acampamento.
Meu olhar encontrou o de Ahmed por cima do ombro de Shazad enquanto eles discutiam, com Mahdi se metendo de vez em quando. Ele indicou Delila rapidamente com os olhos. Eu entendi que não a queria mais envolvida do que já estava.
— Delila — chamei —, se importa de acompanhar Navid e Imin para garantir que não comecem a se agarrar antes de acomodar todo mundo?
Ela podia ser inocente, mas não tinha nada de burra. Sabia o que eu estava fazendo. Pensei que fosse insistir em testemunhar a nosso favor, mas apenas baixou a cabeça e ajeitou o cabelo roxo atrás das orelhas com falsa empolgação antes de seguir Imin, Navid e as mulheres de Saramotai.
Ahmed esperou até que ela tivesse se afastado para começar.
— O que vocês estavam pensando? — Ele não tirou os olhos das costas da irmã. — Delila é uma criança e não foi treinada para lutar.
— Sem falar que o plano quase terminou com Amani tomando um tiro na cabeça — Mahdi se intrometeu.
— Foi justamente a falta de um plano que te fez terminar preso numa cela, então eu não sairia fazendo acusações se fosse você. Sabe o que dizem por aí: se você aponta o dedo para os outros, acaba com eles tão quebrados que apontam de volta pra você. — Shazad tinha ainda menos paciência com Mahdi do que eu. Ela o conhecia havia mais tempo. De uma época anterior aos jogos do sultim em Izman.
— Tenho quase certeza de que esse ditado não existe — eu disse.
— Você quase morreu — Mahdi repetiu, como se fôssemos burras demais para entender.
— Do jeito que você fala, parece que foi a primeira vez que apontaram uma arma para mim — retruquei enquanto Shazad revirava os olhos. — Não foi a primeira vez nem esse mês.
— Minha irmã não está acostumada a encarar a morte como vocês duas. — Ahmed começou a andar, deixando implícito que deveríamos acompanhá-lo.
— Você sabe que não deixaríamos nada acontecer a ela, Ahmed — disse Shazad enquanto ficávamos cada uma de um lado dele, com Mahdi tentando se enfiar no meio a cotoveladas.
— Além disso, Delila é tão demdji quanto eu. — Passamos pelo sol brilhante na ponta do acampamento e seguimos sob a sombra das árvores do oásis. Estávamos indo para o pavilhão de Ahmed. Eu tentava lembrar quando havia ficado tão confortável em discutir com a realeza. — Ela quer ajudar, como todo mundo aqui.
— Mas não foi por isso que você a levou, não é? — Ahmed não olhou para mim ao dizer isso. — Você só queria provar um ponto.
Ele estava falando de Jin.
Dois meses tinham se passado desde que eu havia tomado um tiro e quase morrido em uma missão com ele em Iliaz. Eu tivera sorte de sobreviver. Quando acordei no acampamento, suturada e enfaixada, Jin havia partido. Ahmed o enviara para a fronteira enquanto eu estava inconsciente. Para se infiltrar no exército xichan, que vinha corroendo Miraji pela borda oriental, tentando firmar uma posição no nosso deserto desde que a aliança entre o sultão e os gallans havia se esfacelado.
Eu não era mesquinha a ponto de expor sua irmã ao perigo só porque ele havia feito o mesmo com o irmão enquanto minha vida corria risco.
Por outro lado, não sabia se conseguiria dizer isso em voz alta.
— Podemos precisar dela e provar um ponto ao mesmo tempo. — Shazad se intrometeu, ficando ao meu lado. Tínhamos quase chegado ao pavilhão de Ahmed quando ele parou e virou para nos encarar. Interrompi a passada abruptamente e por um momento tudo o que podia ver era o príncipe rebelde de frente para mim, delineado pelo sol dourado que marcava a entrada de seu pavilhão, meio passo à frente, como se pudesse fazer a justiça cair sobre nossas cabeças a qualquer instante. Como se fosse nosso governante, e não nosso amigo.
Foi então que notei que a entrada para o pavilhão estava fechada. Era por isso que eu podia ver o sol costurado nas abas da tenda radiando de Ahmed. Eu só a tinha visto fechada quando um conselho de guerra fora convocado. Algo estava acontecendo.
Shazad percebeu no mesmo instante que eu.
— Hala voltou — explicou Ahmed. Pelo modo como abandonara a conversa sobre sua irmã tão rápido, havia algo errado. — Ela chegou de Izman pouco antes de vocês. Maz viu vocês lá do alto, então pensamos que seria melhor esperar para… conversar. — Seus olhos passaram por Mahdi e se afastaram tão rápido que eu não teria notado se não estivesse observando tão de perto.
— O que aconteceu? — Shazad perguntou. — Por que não contou a Imin sobre Hala? — As duas eram irmãs, filhas do mesmo djinni. Se Hala estivesse no acampamento quando Imin foi capturada, nós a teríamos levado no lugar de Delila. Ela teria invadido a mente de cada habitante de Saramotai para tirar a irmã de lá.
— Sayyida está com ela? — perguntou Mahdi, interrompendo.
Sayyida. O motivo pelo qual Hala tinha sido enviada a Izman para começo de conversa.
Eu não a conhecia, mas já tinha ouvido falar um bocado dela. Tínhamos a mesma idade. Ela havia casado aos quinze anos com um dos soldados do general Hamad. Foi Shazad quem notou que Sayyida tinha mais ossos quebrados do que seu marido soldado. Foi ela quem arquitetou sua fuga para um abrigo da rebelião em Izman.
A partir daí, Sayyida se envolveu com a causa. E com Mahdi, pelo visto.
No começo, logo após os jogos do sultim, Sayyida conseguira uma posição no palácio, onde atuaria como espiã para a rebelião. Fazia um mês que ela havia deixado de enviar seu relatório costumeiro. Ahmed esperara uma semana. Podia ser só um atraso, e a última coisa que queríamos era estragar seu disfarce. Mahdi ficou enchendo a paciência de Ahmed todo dia e finalmente Hala fora mandada para descobrir o que estava acontecendo.
— Sayyida está bem? — Mahdi pressionou. Ele soava esperançoso, embora eu pudesse ver a apreensão em seus olhos enquanto observava o pavilhão fechado por cima do ombro do príncipe.
O silêncio de Ahmed foi a resposta.
Dentro do pavilhão, Hala estava de joelhos, curvada sobre uma bela mirajin, com as mãos douradas repousando na cabeça da menina. Seus olhos permaneceram totalmente fechados quando entramos. Ela parecia cansada. Tanto que não estava usando uma ilusão para completar os dedos faltantes, como de costume. Sua pele demdji se movia como ouro fundido, com cada respiração estremecida mudando o reflexo da luz sobre ela. Uma camada fina de suor cobria seu corpo, não de calor, percebi, mas de esforço.
Ela estava usando seus poderes demdji, só que não em si mesma, mas na menina.
Os olhos daquela que supus ser Sayyida estavam arregalados, fixos em algo muito longe que nenhum de nós podia saber o que era. Hala estava dentro da mente dela.
Mahdi se ajoelhou do lado da menina, em frente a Hala.
— Sayyida! — Ele a pegou em seus braços. — Consegue me ouvir?
— Eu agradeceria se não fizesse isso. — A voz rápida e familiar de Hala soava cansada. Ela mantinha os olhos fechados. — É meio insultante tentar me arrancar para fora da cabeça dela como se eu fosse um sonho ruim, considerando que venho mantendo uma ilusão por boa parte da semana para tentar ajudar a garota. — Uma semana? Aquilo explicava por que Hala parecia estar desmoronando. Era difícil para qualquer um de nós, exceto os metamorfos, usar nossos poderes ininterruptamente por mais de algumas horas.
— Foi fácil encontrar Sayyida numa cela. — Hala desabou no chão. Ela tremia. Mal conseguia aguentar. — Entrar em sua mente foi o único jeito que encontrei de trazer a garota para cá discretamente. — Hala olhou desesperada para Ahmed. — Você trouxe algo para a dopagem?
Ahmed assentiu, tirando uma pequena garrafa com um líquido claro do bolso.
— O que aconteceu com ela? — Mahdi mudou de posição para embalar Sayyida.
Sempre o tomei como um covarde, mas percebia agora que nunca o vira realmente assustado antes. Nem mesmo trancafiado na prisão. E esse medo não era por si próprio. Talvez Mahdi pertencesse de fato à nossa rebelião, no fim das contas.
Hala olhou para Ahmed como se pedisse permissão. Ele hesitou um segundo antes de assentir. O único sinal de que Hala estava deixando de usar seu poder foi o pequeno suspiro que escapou de seus lábios antes de sentar sobre os calcanhares.
Já a mudança em Sayyida foi como se a noite caísse ao meio-dia. Sua paz vazia se transformou em gritos, a cabeça arqueando para trás enquanto se contorcia nos braços de Mahdi. Ela se debatia cegamente, como um animal numa armadilha, cravando as unhas nas roupas de Mahdi, no solo e em qualquer coisa ao alcance.
Shazad pegou a garrafa da mão de Ahmed e o sheema do seu pescoço, derramando o conteúdo no tecido. Só o cheiro daquilo já fez minha cabeça girar. Ela passou o braço ao redor do corpo de Sayyida, que ainda gritava, e prendeu os braços da garota na lateral do corpo, pressionando o tecido molhado sobre seu nariz e sua boca. Shazad apertou levemente o abdome de Sayyida, forçando-a a inalar os vapores com força total.
Mahdi não se mexeu. Apenas observou com os olhos vazios a luta de Sayyida ficando mais fraca até que caísse inconsciente e mole nos braços de Shazad.
— Mahdi. — Ahmed finalmente quebrou o silêncio. — Leve Sayyida à tenda do pai sagrado. Ela pode descansar lá.
Mahdi assentiu, grato por poder sair dali. Ele não era um homem forte; era um estudioso, não um guerreiro, e seus braços tremeram com o esforço. Mas nenhum de nós ia insultá-lo oferecendo ajuda.
— Descansar não vai ajudar — falei quando a aba da tenda se fechou atrás dele. — Ela está morrendo. — A verdade veio fácil. Nós demdjis não podíamos mentir. Independente do que tivessem feito a ela, aquilo a estava matando.
— Eu sei — disse Ahmed. — Mas acredite em mim: não faz nenhum bem dizer a alguém que a pessoa que ama está morrendo. — Ele olhou diretamente para mim quando disse isso. Me perguntei o que havia acontecido entre Ahmed e Jin enquanto eu estava à beira da morte.
— O que fizeram com ela? — A voz de Shazad estava apreensiva. — Será que ela contou alguma coisa sobre nós? — De todos no acampamento, era ela quem tinha mais a perder. Pertencia a uma família importante de Izman, e se a notícia de que estava do lado do príncipe rebelde se espalhasse, o sultão poderia facilmente pôr as mãos em muitas pessoas próximas a ela.
— Ah, desculpe, não perguntei detalhes da tortura enquanto a resgatava sozinha e tentava não me entregar de bandeja para o sultão — Hala rebateu. — Talvez você prefira que eu volte lá e me ofereça em troca de alguma informação inútil.
Hala geralmente tinha o pavio curto, mas nunca com Shazad. Ninguém se dava bem bancando o espertinho pra cima de Shazad. Hala devia estar num estado pior do que eu imaginara.
— Se o sultão soubesse a seu respeito, nós já estaríamos cientes disso — falou Ahmed.
— Precisamos de um novo espião no palácio. — Os dedos de Shazad tamborilaram no cabo da espada. — Talvez seja hora de eu voltar da minha peregrinação. — Até onde todo mundo em Izman sabia, Shazad Al-Hamad, a bela filha do general Hamad, tinha sido acometida por um surto de santidade. Ela havia se retirado para o sítio sagrado de Azhar, onde diziam que o primeiro mortal havia sido criado, para rezar e meditar. — O Auranzeb está chegando. Seria um bom motivo para voltar.
— Você foi convidada para o Auranzeb? — Isso atraiu minha atenção. O Auranzeb era uma festa organizada todo ano no aniversário do golpe em que o sultão tomara o trono de Miraji. Uma comemoração da noite sangrenta em que ele firmou um acordo com o Exército gallan e assassinou seu próprio pai e metade dos seus irmãos. Mesmo na Vila da Poeira, ouvíamos histórias sobre as comemorações. Fontes cheias de água polvilhada de ouro, dançarinos que saltavam através do fogo como entretenimento, esculturas de açúcar feitas com tanto capricho que os artesãos haviam ficado cegos.
— Privilégios da filha do general. — Shazad já soava entediada.
— Não — Ahmed nos interrompeu. — Não posso abrir mão de você. Talvez eu não seja tão bom estrategista, mas sei que não se envia seu melhor general como espião se for possível evitar.
— E eu sou tão dispensável assim? — Hala perguntou, ainda esparramada no chão, com uma ponta de sarcasmo. Ahmed a ignorou. Era impossível responder a cada frase sarcástica dela e fazer qualquer outra coisa no mesmo dia. Estendi a mão para ajudá-la a levantar. Hala me ignorou, preferindo se esticar para roubar meia laranja descascada de cima da mesa.
— Temos que fazer alguma coisa. — Shazad passou as mãos compulsivamente sobre o mapa desenrolado sobre a mesa. Ele costumava ser uma única folha de papel limpa e firme mostrando Miraji. Agora, era uma colcha de retalhos composta por uma dezena de pedaços diferentes mostrando as extremidades do país. Havia cidades com os nomes dos rebeldes alocados lá rabiscados e rasurados, e outros pedaços de papel colocados uns sobre os outros conforme o deserto mudava em nossas mãos. Uma anotação havia sido feita recentemente perto de Saramotai. — Não podemos nos esconder nesse deserto para sempre, Ahmed.
Reconheci o reinício de uma discussão que Shazad e Ahmed vinham tendo havia meses. Ela dizia que precisávamos levar a rebelião para a capital se quiséssemos ter uma chance de vitória. Ahmed insistia que era arriscado demais. Shazad apontava que ninguém jamais ganhara uma guerra na defensiva.
Ahmed esfregou dois dedos num ponto da testa junto ao cabelo onde havia uma pequena cicatriz, quase invisível. Notei que cada vez que enviava um de nós para uma missão potencialmente fatal ele a esfregava como se ainda doesse. Como se guardasse sua consciência ali. Eu não sabia como Ahmed tinha conseguido a marca. Era uma lembrança da vida que ele e Jin levavam antes de voltarem a Miraji.
Jin tinha me contado as histórias por trás de algumas de suas cicatrizes uma vez, numa daquelas noites sombrias no deserto entre o acampamento e uma missão. Logo após ele ganhar a ferida que se transformaria em uma nova cicatriz logo abaixo da tatuagem do sol em seu peito. Estávamos muito longe de qualquer pai sagrado que pudesse cuidar dos ferimentos, o que significava que ele só podia contar comigo. No escuro da tenda, minha mão viajou por sua pele, encontrando novos inchaços e marcas enquanto Jin me contava a origem de cada um. A faca de um marinheiro bêbado em uma briga num porto de Albis. Um osso quebrado no convés em uma tempestade. Então meus dedos encontraram aquela marca atrás de seu ombro esquerdo, perto da tatuagem de bússola que ficava oposta ao seu coração.
— Essa aí — dissera ele, tão perto de mim que sua respiração agitara o cabelo que escapava do rabo improvisado na minha cabeça — foi do tiro que tomei no ombro quando uma garota chata que fingia ser menino me abandonou no meio de uma confusão.
— Que bom que a chata pelo menos suturou você — eu brinquei, traçando a tatuagem com meu polegar.
De canto de olho, vi a boca de Jin se contorcer num sorriso muito sutil.
— Eu já sabia que estava encrencado desde aquele momento. Estava fugindo desesperado, sangrando no chão, e só conseguia pensar em te beijar, dane-se se nós dois fôssemos pegos.
Eu disse a ele que teria sido uma idiotice. E então Jin me beijou até que estivéssemos agindo como completos idiotas.
— E quanto a Jin? — De volta ao presente, a pergunta escapou sem querer, interrompendo a discussão que vinha passando por suas etapas usuais enquanto meus pensamentos estavam em uma tenda no meio do deserto.
Ahmed sacudiu a cabeça, os nós dos dedos ainda apoiados na testa.
— Nenhuma notícia.
— Não acha que devemos enviar alguém atrás dele como fizemos com Sayyida? — A frase saiu antes que eu pudesse dosar a raiva nas minhas palavras.
— Então você está brava por causa de Jin. — Ahmed parecia cansado.
— Estamos no meio de uma guerra.
Se era mesquinho da minha parte ficar com raiva de Ahmed por enviar Jin para longe enquanto eu estava entre a vida e a morte, então eu era uma pessoa mesquinha.
— Estamos. — De algum modo, sua calma tornava aquilo ainda pior. De canto de olho, peguei um olhar de Shazad. Só que daquela vez ela o dirigia a Hala, e não a mim, e foi rápido demais para que eu pudesse entender. Hala enfiou o último pedaço de laranja na boca, finalmente se levantando e se afastando de mim.
— Isso não é uma resposta — Ahmed me disse. — Acha que cometi um erro ao enviar Jin para espionar os xichans? Quando os estrangeiros enfrentando meu pai são a única coisa que o mantém longe do nosso encalço?
— Acho que isso não importa mais. O sultão já voltou para o nosso território, a julgar pelos soldados que matamos em Saramotai. — Eu não deveria ter dito isso. — Acho que poderíamos ter agido de outra maneira. — Tampouco isso. Mesmo que pensasse a respeito havia meses.
Ahmed juntou as mãos no alto da cabeça. O gesto lembrava tanto Jin que fiquei com mais raiva ainda.
— Você acha que só por sua causa eu não deveria ter enviado meu irmão em uma missão para o bem do país?
— Acho que podia ter esperado um pouco. — Eu me descontrolei. De repente, estava gritando. Shazad avançou como se fosse me impedir de dizer algo de que eu pudesse me arrepender depois. — Pelo menos até eu me recuperar do tiro que havia tomado por causa da sua rebelião.
Eu nunca tinha visto o temperamento de Ahmed se alterar. Soube que tinha forçado a barra antes mesmo de ele elevar o tom de voz.
— Ele pediu pra ir, Amani.
As palavras eram bastante simples, mas levei um segundo para entendê-las.
Shazad e Hala permaneciam quietas, observando a discussão.
— Eu não o mandei embora. — Ahmed não levantou mais a voz, mas nem por isso ela perdeu a força. — Jin me pediu para fazer alguma coisa que o levasse para longe daqui e de você. Tentei convencer meu irmão do contrário, mas eu o amo o suficiente para não tentar obrigá-lo a ver você morrer. Passei os últimos dois meses mentindo para te proteger, mas não tenho tempo de ficar me preocupando que você faça alguma bobagem para me desafiar só porque pensa que sou o culpado pela partida dele.
Mágoa e raiva lutavam dentro de mim, e eu não sabia em qual das duas prestar atenção primeiro. Queria chamar Ahmed de mentiroso, mas sabia que não era capaz.
Tudo o que ele falava soava verdadeiro. Fazia mais sentido do que ter enviado Jin em uma missão sem se preocupar comigo ou com ele. Mais sentido do que Jin ter partido contra a própria vontade. Eu estivera à beira da morte, e Jin ia me deixar morrer sozinha.
— Amani… — Ahmed me conhecia tão bem quanto qualquer um e sabia que meu instinto era correr. E eu também sabia. Podia sentir a inquietação nas pernas. Ele abandonou a postura de príncipe e voltou a ser meu amigo. Tentando se aproximar.
Tentando me impedir. Mas eu já estava fora de alcance, deixando para trás a escuridão sufocante do pavilhão e entrando na luz do sol irritantemente brilhante do oásis.

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