29 de outubro de 2018

Capítulo 69

Orynth não ficava tão silencioso desde o dia em que Aedion e os remanescentes da corte de Terrasen marcharam para Theralis.
Mesmo assim, havia um zumbido na cidade antiga erguida entre a foz do Florine e a borda da Galhada do Cervo, e Carvalhal uma ondulação de florestas a oeste.
Na época, as muralhas brancas ainda brilhavam.
Agora elas estavam manchadas e acinzentadas, tão sombrias quanto o céu, enquanto Aedion, Lysandra e seus aliados atravessavam as portas de metal do portão oeste. Ali, os muros tinham um metro e oitenta de espessura, os blocos de pedra tão pesados que a lenda contava que Brannon recrutara gigantes da Galhada do Cervo para colocá-los no lugar.
Aedion daria qualquer coisa para que aqueles gigantes há muito esquecidos encontrassem o seu caminho para a cidade agora. Para que as antigas Tribos do Lobo descessem correndo dos picos altos atrás da cidade, os feéricos perdidos de Terrasen entre eles. Para que qualquer um dos antigos mitos emergisse das sombras do tempo, como Rolfe e seus micênicos haviam feito.
Mas ele sabia que sua sorte havia acabado.
Seus companheiros também sabiam disso. Até mesmo Ansel de Penhasco dos Arbustos se tornara tão silenciosa quanto Ilias e seus assassinos, os ombros curvados. Ela estivera assim desde que as cabeças de seus guerreiros aterrissaram entre suas fileiras, seus cabelos vermelhos da cor do vinho sem brilho, seus passos pesados. Ele conhecia o horror, a culpa. Desejou ter um momento para consolar a jovem rainha além de um rápido sinto muito. Mas, aparentemente, Ilias assumira a responsabilidade de fazer exatamente isso, cavalgando ao lado de Ansel numa companhia firme e tranquila.
A cidade fora construída aos pés do castelo imponente, quase mítico, construído sobre um pedaço de rocha saliente. Um castelo que subia tão alto que suas torretas superiores pareciam perfurar o céu. Certa vez, aquele castelo brilhou, rosas e plantas rastejantes cobrindo as pedras aquecidas pelo sol, a canção de mil fontes cantando em todos os pátios e salões. Certa vez, bandeiras orgulhosos tremularam nas torres incrivelmente altas, vigiando as montanhas, a floresta, o rio e a planície de Theralis abaixo.
Ele tornou-se um mausoléu.
Ninguém falou enquanto subiam as ruas íngremes e sinuosas. Pessoas de rosto sombrio pararam para olhar ou continuaram correndo para se preparar para o cerco.
Não havia como fugir. Não com a Galhada do Cervo às suas costas, Carvalhal a oeste e o exército avançando do sul. Sim, eles podem fugir para o leste através das planícies, mas para onde? Para Suria, onde seria apenas uma questão de tempo antes de serem encontrados? Para o deserto além das montanhas, onde os invernos eram tão brutais que alegava-se que nenhum mortal poderia sobreviver?
O povo de Orynth estava tão preso quanto o seu exército.
Aedion sabia que deveria endireitar seus ombros. Deveria sorrir para essas pessoas – o seu povo – e oferecer-lhes um pouco de coragem.
No entanto, ele não podia. Não conseguia parar de pensar em quantas pessoas perderam a família, amigos, na batalha no rio. Nas semanas de luta antes disso. Quantos ainda rezavam para que as filas de soldados que se dirigiam para a cidade revelassem um ente querido.
Sua culpa, seu fardo. Suas escolhas os levaram até aqui. Suas escolhas haviam deixado tantos corpos na neve, um verdadeiro rastro deles desde a fronteira sul, até o Florine.
O castelo branco apareceu, maior a cada colina que eles subiram. Pelo menos eles tinham isso – a vantagem de ter um terreno mais alto.
Pelo menos eles tinham isso.


Darrow e os outros lordes esperavam.
Não na sala do trono, mas na espaçosa câmara do conselho do outro lado do palácio.
A última vez que Aedion estivera na sala, um bastardo convencido adarlaniano presidira a reunião. O vice-rei de Terrasen, ele se chamara.
Parecia que o homem havia pegado seus ornamentos, cadeiras e tapeçarias, e fugido no momento em que o rei foi morto.
Assim, uma mesa de trabalho antiga servia agora de mesa de guerra, uma variedade de cadeiras meio velhas de vários cômodos do castelo rodeando-a. Atualmente ocupadas por Darrow, Sloane, Gunnar e Ironwood. Murtaugh, para surpresa de Aedion, estava entre eles.
Eles se levantaram enquanto Aedion e seus companheiros entraram. Não por qualquer respeito a Aedion, mas pela realeza com ele.
Ansel de Penhasco dos Arbustos examinou o espaço pobre, como fizera durante toda a caminhada pelo sombrio e abandonado castelo e soltou um assobio baixo.
— Você não estava brincando quando disse que Adarlan raspou seus cofres. — Suas primeiras palavras em horas. Dias.
Aedion grunhiu.
— Pelo cobre.
Ele parou diante da mesa.
— Onde está Kyllian? — Darrow perguntou.
Aedion deu-lhe um sorriso que não alcançou seus olhos. Ren ficou tenso, lendo o aviso naquele sorriso.
— Ele me pediu para vir na frente, enquanto ele liderava o exército até aqui. — Uma mentira.
Darrow revirou os olhos e fixou-os em Rolfe, que ainda franzia a testa para o castelo decaído.
— Devemos agradecê-lo pela afortunada retirada, pelo o que entendo.
Rolfe fixou seu olhar verde mar no homem.
— Isso mesmo.
Darrow sentou-se novamente, os outros lordes seguindo o exemplo.
— E você é?
— Corsário Rolfe — o pirata respondeu suavemente. — Comandante da Armada de Sua Majestade. E herdeiro do povo micênico.
Os outros lordes se endireitaram.
— Os micênicos desapareceram há muito tempo — disse lorde Sloane. Mas o homem notou a espada na cintura de Rolfe, o pomo de dragão marinho. Não havia dúvidas de que frota subia o Florine.
— Desapareceram, mas não morreram — respondeu Rolfe. — E nós viemos para pagar uma dívida antiga.
Darrow esfregou sua têmpora. Velho – Darrow realmente parecia ter a idade que tinha enquanto se inclinava contra a borda da mesa.
— Bem, temos que agradecer aos deuses por isso.
— Você tem que agradecer a Aelin por isso — Lysandra disse, fervendo de raiva.
O homem estreitou os olhos, e o humor de Aedion se transformou em algo letal.
Mas a voz de Darrow estava esgotada – pesada, quando ele perguntou:
— Não está fingindo hoje, lady?
Lysandra apenas apontou para Rolfe, depois para Ansel e depois para Galan. Apontou o braço para as janelas, para onde a realeza dos feéricos e Ilias dos Assassinos Silenciosos cuidavam dos seus próprios assuntos nos terrenos do castelo.
— Todos eles. Todos eles vieram aqui por causa de Aelin. Não de vocês. Então, antes que desdenhem ao dizer que não existe a Armada de Sua Majestade, permitam-me dizer-lhe que existe. E vocês não fazem parte dela.
Darrow soltou um longo suspiro, esfregando a têmpora novamente.
— Você está dispensada desta sala.
— Com o inferno que ela está — Aedion rosnou.
Mas Murtaugh interrompeu:
— Há alguém, lady, que gostaria de vê-la. — Lysandra levantou as sobrancelhas e o velho gesticulou com a mão. — Eu não queria arriscar deixá-la sozinha em Allsbrook. Evangeline está na torre do norte – no quarto da minha finada neta. Ela viu sua aproximação da janela e tudo o que pude fazer foi convencê-la a esperar.
Uma maneira educada e inteligente de desarmar a tempestade. Aedion debateu dizer a Lysandra que ela podia ficar, mas Lysandra já se virava, cabelos escuros fluindo atrás dela.
Quando ela saiu, Aedion disse:
— Ela lutou nas linhas de frente em todas as batalhas. Quase morreu contra nossos inimigos. Não vi nenhum de vocês se incomodando em fazer o mesmo.
O grupo de velhos lordes franziu a testa com desagrado. No entanto, foi Darrow quem se mexeu na cadeira – levemente. Como se Aedion tivesse atingido uma ferida infeccionada.
— Ser velho demais para lutar — disse Darrow em voz baixa — enquanto homens e mulheres mais jovens morrem não é tão fácil quanto você imagina, Aedion. — Ele olhou para baixo, para a espada sem nome na cintura de Aedion. — Não é nada fácil.
Aedion debateu dizer-lhe para perguntar às pessoas que morreram se isso também não era fácil, mas o príncipe Galan limpou a garganta.
— Que preparativos estão em andamento para um cerco?
Os lordes Terrasen não pareciam gostar de ser questionados, mas eles abriram suas odiosas bocas e falaram.


Uma hora depois, os outros procurando por seus quartos, depois por banhos e refeições quentes, Aedion se viu seguindo o cheiro dela.
Ela não fora para a torre norte e nem para a protegida que a esperava, mas para a sala do trono.
As imponentes portas de carvalho estavam rachadas, os dois cervos empinados esculpidos nelas olhando-o para baixo. Certa vez, filigranas de ouro cobriram a chama imortal que brilhava entre seus chifres orgulhosos.
Durante a última década, alguém raspou o ouro. Quer por despeito ou por dinheiro rápido.
Aedion escorregou pelas portas, a câmara cavernosa como o fantasma de um velho amigo.
Quantas vezes ele se lamentara por ter sido forçado a se vestir com suas melhores roupas e ficar ao lado dos tronos no alto do estrado, no fundo da sala cheia de colunas? Quantas vezes ele pegou Aelin cochilando durante um interminável dia de pompa?
Na época, as bandeiras de todos os territórios dos Terrasen pendiam no teto. Na época, o chão de mármore pálido era tão polido que ele podia ver seu reflexo nele.
Na época, um trono de galhadas se erguia no estrado, alto e primitivo. Construído a partir dos chifres do imortal cervo de Carvalhal.
Cervos agora massacrados e queimados, assim como o trono de galhadas fora destruído e incendiado depois da batalha de Theralis. O rei ordenou que fosse feito no campo de batalha.
Era diante daquela plataforma vazia que Lysandra estava. Olhando para o mármore branco como se pudesse ver o trono que uma vez esteve lá. Ver os outros tronos menores que estiveram ao lado dele.
— Eu não tinha percebido que Adarlan destruiu este lugar tão completamente — disse ela, ao sentir seu cheiro ou ao reconhecer a cadência de seus passos.
— A ossada ainda está intacta — disse Aedion. — Por quanto tempo isso permanecerá verdadeiro, eu não sei.
Os olhos verdes de Lysandra deslizaram em direção a ele, obscurecidos pela exaustão e tristeza.
— No fundo — ela disse baixinho — uma parte de mim pensou que eu viveria para vê-la sentada aqui. — Ela apontou para o estrado, para onde o trono de chifre estivera outrora. — No fundo, achei que realmente conseguiríamos de alguma forma. Mesmo com Morath, o cadeado e tudo mais.
Não havia esperança no rosto dela.
Talvez fosse por isso que ela se incomodou em falar com ele.
— Eu também pensei — disse Aedion com o mesmo tom, embora as palavras ecoassem na vasta câmara vazia. — Também pensei.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!