29 de outubro de 2018

Capítulo 68

As torres negras de Morath erguiam-se acima das forjas fumegantes e das fogueiras do vale abaixo, como um grupo de espadas negras erguidas para o céu.
Elas se projetavam nas nuvens baixas, algumas quebrados e lascadas, algumas ainda erguendo-se orgulhosas. A ira e o ato final de Kaltain Rompier escritos por todos eles.
Abrindo suas asas cor de fuligem, Dorian pegou um vento que cheirava a ferro e carniça e contornou a fortaleza. Aprendera a como usar os ventos durante esses longos dias de viagem e, embora tivesse percorrido grande parte da jornada como um ágil e rápido falcão de cauda vermelha, havia se transformado esta manhã em um corvo comum.
Bandos deles rodeavam Morath, seus gritos tão abundantes quanto o martelar em bigornas por todo o vale. Mesmo com o inferno desencadeado no norte, ainda havia mais homens acampados aqui. Mais tropas, mais bruxas.
Dorian seguiu o exemplo dos outros corvos e deu às serpentes aladas um amplo espaço, voando baixo enquanto coven após coven voltava de sua patrulha, relatório ou treinamento. Tantas Dentes de Ferro. Todas esperando.
Ele circulou as torres mais altas de Morath, examinando a fortaleza, o exército no vale, as serpentes aladas em seus ninhos elevados. A cada bater de suas asas, o peso do que ele escondeu em um afloramento rochoso a dezesseis quilômetros ao norte ficava mais pesado.
Teria sido loucura trazer as duas chaves aqui. Então ele as enterrara na rocha de xisto sem nem mesmo ousar marcar o local. Ele só podia rezar para que fosse longe o suficiente para evitar a detecção de Erawan.
Ao lado de uma torre, duas criadas carregando roupas de lavanderia emergiram de uma pequena porta e começaram a subir a escada exterior, as cabeças inclinadas como se tentassem ignorar o exército que ondulava lá embaixo. Ou as serpentes aladas cujos rugidos ecoavam na rocha negra.
Lá. Aquela porta.
Dorian se agitou em direção a ela, desejando que seu coração se acalmasse, seu cheiro – a única coisa que poderia condená-lo – permanecesse oculto. Mas nenhuma das Dentes de Ferro que sobrevoavam notou o corvo-que-não-cheirava-como-um-corvo. E as duas lavadeiras que subiam as escadas da torre não gritaram quando ele pousou no pequeno corrimão de pedra e fechou as asas cuidadosamente.
Um pulo e ele estava nas pedras.
Uma transformação, músculos e ossos queimando, e o mundo se tornou menor, infinitamente mais mortal.
E infinitamente menos consciente de sua presença.
Os bigodes de Dorian se contorciam, suas orelhas enormes se virando. O rugido das serpentes aladas atravessou seu pequeno corpo peludo, e ele cerrou os dentes – grandes, quase grandes demais para sua pequena boca. O cheiro desagradável aumentou até ficar quase nauseante.
Ele podia sentir o cheiro... de tudo. O frescor da roupa lavada que passara. O aroma de algum tipo de caldo se agarrando às lavadeiras depois do almoço delas. Ele nunca tinha pensado que ratos fossem extraordinários, e mesmo voando como um falcão, ele nunca sentira esse estado de alerta, esse nível de estar desperto.
Em um mundo projetado para matá-los, ele supunha que os ratos precisassem de tanta perspicácia que possível para sobreviver.
Dorian permitiu-se um longo suspiro antes de apertar pela porta fechada. E para dentro de Morath.


Seus sentidos poderiam estar mais afiados, mas ele nunca havia percebido quão assustador era um lance de escadas sem pernas humanas.
Ele manteve-se nas sombras, misturando-se ao pó à sujeira a cada par de pés que passava. Alguns envolvidos em armaduras, outros em botas, outros ainda em sapatos gastos. Todos os donos pálidos e miseráveis.
Nenhuma bruxa, graças aos deuses. E nenhum valg, fosse príncipe ou de estirpe mais baixa.
Certamente nenhum sinal de Erawan. A torre em que ele entrara era uma passagem de serviço, uma da qual Manon falara durante uma de suas várias explicações para Aelin. Era graças a ela que ele seguia um mapa mental, confirmado por seu sobrevoo das últimas horas.
A torre de Erawan – era por onde ele começaria. E se o rei valg estivesse lá... ele descobriria. Se poderia devolver a Erawan tudo o que ele fez, independentemente do aviso de Kaltain.
Com a respiração entrecortada, Dorian alcançou o início dos degraus, enrolando a longa cauda ao redor de si enquanto olhava para o corredor escuro à frente.
A partir daqui, ele precisaria cruzar o andar inteiro, subir outra escada, dobrar em outro corredor, e então, se tivesse sorte, a torre de Erawan estaria em sua frente.
Manon nunca teve acesso a ela. Nunca soube o que esperava lá em cima. Só que era guardado por valg a todas as horas. Um bom lugar para começar sua caçada.
Suas orelhas se contraíram. Nenhum som de passos próximos. Sem gatos, felizmente.
Dorian virou a esquina, seu pelo castanho-acinzentado se misturando à rocha, e correu pelo sulco onde a parede encontrava o chão. Um guarda estava de vigia no final do corredor, olhando para o nada. Ele pareceu grande como uma montanha quando Dorian se aproximou.
Dorian quase alcançou o guarda e a encruzilhada que ele monitorava quando sentiu – a agitação, e depois o silêncio.
Até a guarda se endireitou, olhando para a fenda de uma janela atrás dele.
Dorian parou, colocando-se em uma sombra. Nada. Sem gritos ou alarmas, mas ainda... O guarda voltou ao seu posto, mas examinou o corredor. Dorian permaneceu imóvel e quieto, esperando. Teriam descoberto a sua presença? Um alarme foi dado?
Não podia ter sido tão fácil quanto parecia. Erawan, sem dúvida, tinha armadilhas para alertá-lo de qualquer presença inimiga...
Passos leves e apressados soaram na esquina, e o guarda se virou na direção deles.
— O que houve? — o homem exigiu.
O servo que se aproximava não diminuiu o ritmo.
— Quem é que sabe hoje em dia, com a companhia que mantemos? Eu não vou esperar para descobrir. — Então o homem se apressou, passando por Dorian.
Não correndo na direção de algo, mas para longe. Os bigodes de Dorian se agitaram enquanto ele farejava o ar. Nada.
Esperar em um corredor não seria bom. Mas mergulhar à frente, procurar o que quer que esteja acontecendo... Também não seria sábio.
Havia um lugar onde ele poderia ouvir alguma coisa. Onde as pessoas estavam sempre fofocando, mesmo em Morath.
Então Dorian se aventurou a voltar pelo corredor. Desceu outro lance de escadas, suas pequenas patas mal conseguiam se mover rápido o suficiente.
Para a cozinha, quente e brilhante com a luz da grande lareira.
Lady Elide trabalhara aqui – conhecia essas pessoas. Não valg, mas os humanos recrutadas em serviço. Pessoas que, sem dúvida, falariam sobre as idas e vindas desta fortaleza. Assim como no palácio de Forte da Fenda.
Os vários criados e cozinheiros esperavam de fato. Olhando para as escadas do lado oposto da cozinha cavernosa. Assim como o gato malhado de olhos verdes do outro lado da sala.
Dorian se tornou o menor possível. Mas a besta não lhe deu atenção, com a atenção fixa nas escadas. Como se soubesse também.
E depois passos – rápidos e silenciosos. Duas mulheres entraram, bandejas vazias em suas mãos. Ambas pálidas e trêmulas.
Um homem que tinha que ser o cozinheiro chefe perguntou às mulheres:
— Vocês viram alguma coisa?
Uma das mulheres balançou a cabeça.
— Eles ainda não estavam na sala do conselho. Graças aos deuses.
As mãos de sua parceira tremeram quando ela pousou a bandeja.
— Eles estarão em breve, no entanto.
— Sorte sua terem saído antes que eles chegassem — alguém disse. — Ou vocês poderiam ter sido parte do almoço também.
Sorte, de fato. Dorian permaneceu, mas a cozinha retomou seu ritmo, as duas serventes satisfeitas por terem conseguido voltar em segurança.
A sala do conselho – talvez a mesma que Manon havia descrito. Onde Erawan preferia ter suas reuniões. E se o próprio Erawan estivesse lá...
Dorian correu, seguindo o mapa mental de Manon que tinha criado. Um tolo – só um tolo iria de bom grado ver Erawan. Correr o risco.
Talvez ele tivesse um desejo de morte. Talvez ele realmente fosse um tolo. Mas ele queria vê-lo. Tinha que vê-lo, essa criatura que arruinou tanto. Que estava preparado para devorar seu mundo.
Tinha que olhar para ele, aquela coisa que ordenou que ele fosse escravizado, que havia massacrado Sorscha. E, se tivesse sorte, talvez ele o matasse.
Ele poderia permanecer nesta forma e atacar. Mas seria muito mais satisfatório retornar ao seu próprio corpo, desembainhar Damaris e acabar com ele. Deixar que Erawan visse a faixa pálida em torno de sua garganta e saber quem o matou, que ele não o havia quebrado ainda.
E então Dorian encontraria a chave.
O silêncio mostrou-lhe o caminho, talvez mais do que o mapa mental que havia memorizado.
Salões se tornaram vazios. O ar ficou denso e frio. Como se a corrupção de Erawan o afetasse.
Não havia guardas, humanos ou valg, vigiando diante das portas abertas.
Ninguém para ver a figura encapuzada que entrou, capa preta balançando.
Dorian se apressou, deslizando atrás da figura assim que as portas se fecharam.
Sua magia inchou, e ele desejou que ela acalmasse, se enrolasse, uma serpente pronta para dar o bote.
Um golpe para derrubar Erawan, então ele se transformaria e desembainharia Damaris.
A figura parou, o manto balançando, e Dorian correu para a sombra mais próxima – pela fenda entre a porta e o chão.
A câmara era comum, exceto por uma mesa de vidro preto no centro. E o homem de cabelos e olhos dourados sentado nela. Manon não mentira: Erawan realmente havia trocado a pele de Perrington por algo muito mais claro.
Embora ainda se vestisse com elegância, Dorian percebeu quando o rei valg se levantou, o paletó cinza e as calças perfeitamente ajustadas. Nenhuma arma pendia de sua cintura. Nenhuma dica da chave de Wyrd.
Mas ele podia sentir o poder de Erawan, o sentimento de algo errado emanando dele. Podia senti-lo, e lembrar, lembrar do modo como aquele poder era dentro dele, coalhando sua alma.
O gelo rachava em suas veias. Rápido, ele precisava ser rápido. Atacar agora.
— Este é um prazer inesperado — disse Erawan, sua voz jovem e, mesmo assim, velha. Ele gesticulou para a comida disposta ali – frutas e carnes assadas. — Fique à vontade.
A magia de Dorian vacilou quando duas mãos esbeltas e pálidas com o luar se ergueram das dobras do manto negro e afastaram o capuz.
A mulher sob ele não era bonita, não da maneira clássica. No entanto, com seus cabelos negros, seus olhos escuros, seus lábios vermelhos... Ela era admirável. Hipnotizante.
Aqueles lábios vermelhos se curvaram, revelando dentes brancos como ossos. Frio percorreu a espinha de Dorian quando notou as orelhas pontudas e delicadas que espreitavam acima da cortina de cabelos escuros. Feérica. A mulher – a fêmea era feérica.
Ela tirou a capa para revelar um vestido esvoaçante do púrpura mais profundo antes de se acomodar na mesa de Erawan. Nem um pingo de hesitação ou medo marcava seus movimentos graciosos.
 — Você sabe por que vim, então.
Erawan sorriu enquanto se sentava, servindo uma taça de vinho para a fêmea, depois para si mesmo. E todos os pensamentos de matar desapareceram da cabeça de Dorian quando o rei valg perguntou:
— Há alguma outra razão para se dignar a visitar Morath, Maeve?

16 comentários:

  1. NÃO
    PELO CALDEIRÃO, NÃO!
    NÃOOOOOOOO

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  2. Cara Dorian é burro.. nem Chaol foi tão burro assim... Ele enterrou as chaves em qualquer lugar.. está em uma sala com 2 valgs poderosos.... vai dar muito ruim isso!

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  3. Desespero para ler, mas tentar me segurar e aguardar revisão.rsrs

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    1. Do texto. Eu postei o livro da maneira que encontrei na internet, fui revisando aos poucos depois

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  4. Eu sinto la no fundo que Dorian vai fazer alguma besteira😓

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  5. Ai caraio, certamente a Maeve ja deve ter percebido q o Dorian ta la

    Ass: Ahgasa

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  6. EU S A B I A que seria ela :0

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  7. Idiota idiota idiota!!!! Por quê esse imbecil não ouve o que dizem pra ele?

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  8. Será que ele sabe que ela é a ex-esposa do irmão ou pensa que ela é só uma feerica mesmo?

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  9. Dorian está caindo na sua rede de arrogância. Ser arrogante pode ser bom, mas apenas com uma dose de auto preservação, coisa que ele perdeu desde a morte de Sorscha.
    E, cara, a Maeve vai se aliar à Erawan, contra Aelin? Ela realmente se rebaixaria TANTO, só por isso?

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  10. Aff Dorian me enterra por aí as chaves e ainda quer aparecer no meio de morath.. vai dar ruim

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Boa leitura, E SEM SPOILER!