29 de outubro de 2018

Capítulo 67

Rowan seguiu Aelin enquanto ela serpenteava pelo campo de batalha até a margem do Lago Prateado. Ela só parava de vez em quando para pegar qualquer arma inimiga que valesse a pena. Havia poucas.
Os outros haviam se dispersado, Gavriel demorando-se para aprender como Yrene curava os valg, Fenrys saindo com Chaol para encontrar emissários dos selvagens, e a realeza do khaganato para cuidar de suas tropas.
Eles partiriam em dois dias, se o tempo durasse. Dois dias, e então começariam seu caminho para o norte.
Graças aos deuses. Mesmo que eles fossem os últimos seres a quem Rowan queria agradecer.
Aelin parou na margem rochosa, espiando pela extensão plana como um espelho, agora cheia de escombros. Ela pousou a mão em cima do punho de Goldryn, chama dançando em seus dedos, aparentemente na própria pedra vermelha.
— Levaria anos — ela observou — curar todos os infectados pelo valg.
— Cada um desses soldados tem uma família, amigos que gostariam que tentássemos.
— Eu sei. — O vento gelado açoitava seus cabelos no rosto dela, soprando para o norte.
— Então por que a caminhada até aqui fora?
Ela estava contemplativa durante a reunião deles na tenda, a testa franzida.
— Yrene poderia curá-los? Erawan e Maeve? Eu não sei porque não pensei nisso.
— O corpo de Erawan é feito por ele, ou roubado? E o de Maeve? — Rowan sacudiu a cabeça. — Eles podem ser totalmente diferentes.
— Não vejo como posso pedir a Yrene para fazer isso. Pedir a Chaol. — Aelin engoliu em seco. — Até mesmo colocar Yrene perto de Erawan ou Maeve... Eu não posso fazer isso.
Rowan também não seria capaz. Não por mil razões diferentes.
— Mas é um erro colocar a segurança de Yrene acima de todo mundo? — refletiu Aelin, examinando uma das adagas inimigas que ela havia coletado. Uma lâmina excepcionalmente fina, provavelmente roubada. — Ela é a maior arma que temos, se as chaves não estiverem em jogo. Nós somos idiotas por não usá-la?
Não era sua escolha, seu chamado. Mas ele poderia oferecer a ela uma caixa de ressonância.
— Você seria capaz de viver consigo mesma se algo acontecesse com Yrene, ou com a criança ainda por nascer?
— Não. Mas o resto do mundo viverá, pelo menos. Minha culpa seria secundária em relação a isso.
— E se você não forçar Yrene a tentar destruí-los, e Erawan ou Maeve ganhar... e então?
— Ainda restará o cadeado. Ainda restará a mim.
Rowan engoliu em seco. Viu a razão pela qual ela precisava para ficar longe dos outros, precisava andar.
—Yrene é um raio de esperança para você. Para nós. Que você talvez não precise forjar o cadeado. Você ou Dorian.
— Os deuses exigem isso.
— Os deuses podem ir para o inferno.
Aelin atirou a adaga para longe.
— Eu odeio isso. Eu realmente odeio.
Ele deslizou um braço ao redor dos ombros dela. Era tudo o que podia oferecer a ela.
Término – ela falou que queria que tudo terminasse. Ele faria tudo o que pudesse para isso acontecer.
Aelin encostou a cabeça no peito dele e eles ficaram olhando o lago gelado em silêncio.
— Você me deixaria fazer isso, se eu fosse Yrene? Se eu estivesse carregando o nosso filho?
Ele não conseguiu bloquear a imagem daquele sonho – de Aelin, grávida, seus filhos ao redor.
— Eu não deixo você fazer nada.
Ela fez um movimento de dispensa com a mão.
— Você sabe o que quero dizer.
Ele levou um momento para responder.
Não. Mesmo que o mundo acabasse por causa disso, eu não suportaria.
E com o cadeado, ele poderia muito bem ter que tomar essa decisão também.
Rowan correu os dedos sobre as marcas da reclamação no pescoço dela.
— Eu te falei que o amor era uma fraqueza. Seria muito mais fácil se todos nos odiássemos.
Ela bufou.
— Dê algumas semanas na estrada com esse exército, naquelas montanhas, e talvez não sejamos mais aliados tão agradáveis.
Rowan beijou o topo de sua cabeça.
— Que os deuses nos ajudem.
Mas Aelin se afastou com as palavras, da frase que saiu de sua língua.
Ela franziu a testa em direção ao exército acampado.
— O quê? — ele perguntou.
— Quero ver os livros com as marcas de Wyrd que Chaol e Yrene trouxeram.


— O que diz aqui? — Aelin perguntou a Borte, batendo um dedo em uma linha rabiscada de texto em halha, a língua do continente do sul.
Sentada ao lado dela na escrivaninha da tenda de guerra do príncipe Sartaq, a montadora de ruk esticou o pescoço para estudar a nota manuscrita ao lado de uma longa coluna de marcas de Wyrd.
— Um bom feitiço para encorajar seus canteiros a crescer.
Do outro lado da mesa, Rowan bufou. Um livro estava aberto diante dele, seu progresso muito mais lento do que o de Aelin.
A maioria dos volumes estava inteiramente escrita em marcas de Wyrd, mas anotações rabiscadas nas margens a levaram a procurar a jovem rukhin. Borte, completamente entediada em ajudar Yrene, deu um salto à chance de ajudá-los, passando os valg para o seu prometido carrancudo.
Mas durante as duas horas que Aelin e Rowan examinaram a coleção que Chaol e Yrene trouxeram da biblioteca proibida de Hafiza, no topo da Torre, nada se mostrara útil.
Aelin suspirou para o teto de lona da grande tenda do príncipe. Felizmente Sartaq trouxera esses baús com ele, em vez de deixá-los com seu exército, mas... exaustão cutucou-a, enevoando a intricada treliça de símbolos nas páginas amareladas.
Rowan se endireitou.
— Este abre alguma coisa — disse ele, virando o livro para ela. — Eu não conheço os outros símbolos, só aquele diz “abra”.
Mesmo com as horas de instrução na viagem de volta a este continente, Rowan e os outros não tinham dominado totalmente a linguagem das marcas meio esquecidas. Mas seu parceiro se lembrava mais – como se tivessem ganhado raízes em sua mente.
Aelin estudou cuidadosamente a linha de símbolos na página. Leu-os uma segunda vez.
— Não é o que estamos procurando. — Ela mordeu o lábio inferior. — É um feitiço para abrir um portal entre locais – apenas neste mundo.
— Como o que Maeve pode fazer? — perguntou Borte.
Aelin deu de ombros.
— Sim, mas este é para viagens curtas. Mais como o que Fenrys pode fazer. — Ou fazia, antes que Maeve o quebrasse.
A boca de Borte se curvou para o lado.
— Qual é o sentido disso, então?
— Entreter pessoas nas festas? — Aelin devolveu o livro a Rowan.
Borte riu e recostou-se no banco, brincando com a ponta de uma longa trança.
— Você acha que o feitiço existe – para encontrar uma maneira alternativa de selar os portões de Wyrd? — A pergunta era pouco mais que um sussurro, e ainda assim Rowan lançou um olhar de advertência à garota. Borte apenas dispensou-o com um gesto.
Não. Elena teria dito a ela, ou Brannon, se tal coisa existisse.
Aelin passou a mão pela página antiga e seca, os símbolos se apagando.
— Vale a pena dar uma procurada, não é?
Rowan retomou a cuidadosa leitura e decodificação. Ele ficaria aqui por horas, ela sabia. E se eles não encontrassem nada, ela sabia que ele se sentaria aqui e releria todos, só para ter certeza.
Uma saída – um caminho alternativo. Para ela, para Dorian. Pois um deles pagaria o preço para forjar o cadeado e selar o portão. Uma esperança desesperada e tola.
As horas passaram, as pilhas de livros diminuindo. Fenrys se juntou a eles depois de um tempo, excepcionalmente solene enquanto procuravam e procuravam. E não encontraram nada.
Quando não havia mais livros no baú, quando Borte cochilava e Rowan andava pela tenda, Aelin fez um favor a todos e ordenou que voltassem para a fortaleza.
Valeu a pena dar uma olhada, ela disse a si mesma. Mesmo que o peso em suas entranhas dissesse o contrário.


Chaol encontrou seu pai onde o deixara, fervendo em seu escritório.
— Você não pode dar um único acre deste território para os selvagens — seu pai sibilou quando Chaol entrou na sala e fechou a porta.
Chaol cruzou os braços, sem se incomodar em parecer apaziguador.
— Eu posso, e vou.
Seu pai se levantou e apoiou as mãos na mesa.
— Você cuspiria na vida de todos os homens de Anielle que lutaram e morreram para manter este território longe daquelas mãos imundas?
— Se oferecer a eles uma pequena porção de terra significará que as futuras gerações de homens e mulheres de Anielle não terão que lutar ou morrer, acho que nossos ancestrais ficariam satisfeitos.
— Eles são bestiais, mal preparados para serem seus próprios senhores.
Chaol suspirou, recostando-se na cadeira. Uma vida inteira disso – era o que Dorian havia colocado sobre ele. Como Mão, ele teria que lidar com senhores e governantes como seu pai. Se eles sobrevivessem. Se Dorian sobrevivesse também. O pensamento foi suficiente para Chaol dizer:
— Todos nesta guerra estão fazendo sacrifícios. De longe muito maiores que alguns quilômetros de terra. Fique grato por ser tudo o que pedimos de você.
— E se eu negociasse com você? — o homem escarneceu.
Chaol revirou os olhos, chegando a virar a cadeira de volta para a porta.
Seu pai levantou um papel.
— Você não quer saber o que seu irmão escreveu para mim?
— Não o suficiente para impedir esta aliança — disse Chaol, girando a cadeira para longe.
Seu pai desdobrou a carta e leu:
— Espero que Anielle queime até o chão. E você junto. — Um pequeno e odioso sorriso. — Isso foi tudo o que seu irmão disse. Meu herdeiro, e é assim que ele se sente sobre esse lugar. Se ele não proteger Anielle, então o que será daqui sem você?
Outra abordagem, para a culpa forçá-lo a ceder.
— Eu apostaria que o sentimento de Terrin por Anielle está ligado ao que sente por você — Chaol disse.
O velho senhor se sentou mais uma vez na poltrona.
— Eu gostaria que você soubesse o que Anielle enfrentará se você não conseguir protegê-lo. Estou disposto a negociar, garoto. — Ele riu. — Embora eu saiba o quão bem você aguenta o fim das coisas.
Chaol aceitou o golpe.
— Eu sou um homem rico e não preciso de nada que você possa me oferecer.
— Nada? — Seu pai apontou para um baú perto da janela. — E quanto a algo mais inestimável que ouro?
Quando Chaol não falou, seu pai foi até o baú, destrancou-o com uma chave do bolso e abriu a tampa pesada. Aproximando a cadeira, Chaol olhou para o conteúdo.
Cartas. O baú inteiro estava cheio de cartas com seu nome escrito em uma letra elegante.
— Ela descobriu o baú. Logo antes de recebermos a notícia de que Morath nos atacava — disse seu pai, com um sorriso zombeteiro e frio. — Eu deveria tê-las queimado, é claro, mas algo me levou a salvá-las. Para este exato momento, suponho.
O baú estava cheio de cartas. Todas escritas por sua mãe. Para ele.
— Quanto tempo — demandou ele em voz baixa.
— Desde o dia em que você partiu. — O desdém do pai permanecia.
Anos. Anos de cartas, de uma mãe de quem ele não tinha ouvido falar, que acreditava que não queria falar com ele, cedendo aos desejos de seu pai.
— Você a deixou acreditar que eu não escrevi de volta — disse Chaol, surpreso ao encontrar sua voz ainda calma. — Nunca os enviou, e deixou-a acreditar que eu não respondi.
Seu pai fechou o baú e trancou-o novamente.
— Parece que sim.
— Por quê? — Era a única questão que importava.
Seu pai franziu a testa.
— Eu não podia permitir que você se afastasse do seu dever de primogênito, de Anielle, sem consequências, poderia?
Chaol apertou os braços de sua cadeira para evitar colocar as mãos em torno da garganta do homem.
— Você acha que me mostrar este baú de cartas me fará querer negociar com você?
Seu pai bufou.
— Você é um homem sentimental. Observá-lo com essa sua esposa só prova isso. Acho que você negociaria para poder ler essas cartas.
Chaol apenas olhou para ele. Piscou uma vez, como se para reprimir o rugido em sua cabeça, seu coração.
Sua mãe nunca se esqueceu dele. Nunca parou de escrever para ele.
Chaol sorriu ligeiramente.
— Fique com as cartas — disse ele, dirigindo a cadeira de volta para as portas. — Agora que ela o deixou, pode ser a sua única maneira de lembrar dela.
Ele abriu a porta do escritório e olhou por cima do ombro. Seu pai permanecia ao lado do baú, rígido como uma espada.
— Eu não faço negócios com bastardos — disse Chaol, sorrindo novamente quando entrou no corredor além. — Certamente não começarei com o senhor.


Chaol deu aos homens selvagens dos Caninos um pequeno pedaço de território no sul de Anielle. Seu pai havia se enfurecido, recusando-se a reconhecer o ofício, mas ninguém o havia escutado, para a eterna diversão de Aelin.
Dois dias depois, uma pequena unidade desses homens chegou ao extremo oeste da cidade, perto do buraco onde a barragem estivera, e sinalizou o caminho.
Cada um dos homens barbudos montava um pônei de montanha desgrenhado e, embora suas pesadas peles escondessem grande parte de seus volumosos corpos, suas armas estavam em nítida exibição: machados, espadas, facas, todos cintilavam na luz cinzenta.
O povo de Cain – ou assim sido. Aelin decidiu não mencioná-lo durante sua breve apresentação. E Chaol, sabiamente, absteve-se de admitir que havia matado o homem.
Outra vida. Outro mundo.
Sentada em cima de um belo cavalo Muniqi que Hasar lhe emprestara, Aelin cavalgava a frente da companhia enquanto marchavam de Anielle, Chaol em Farasha à sua esquerda, Rowan em seu próprio cavalo Muniqi à direita. Seus companheiros estavam espalhados mais atrás, Lorcan curado o suficiente para cavalgar, Elide ao lado dele.
E atrás deles, serpenteando na distância, o exército do khagan se movia.
Parte dele, pelo menos. Metade dos ruks e dos cavaleiros Darghan marchavam sob o estandarte de Kashin pelo leste das montanhas, para atrair as forças do Desfiladeiro Ferian para uma batalha aberta no vale. Enquanto eles se iriam por trás, pela porta dos fundos.
A neve pesava sobre os Caninos, o céu cinzento ameaçando mais, mas os batedores rukhin e os selvagens haviam avaliado que o mau tempo não os atingiria por enquanto – não até que chegassem ao desfiladeiro, pelo menos.
Cinco dias de caminhada, com o exército e as montanhas. Seriam três para o exército que marchava contornando o lago e ao longo do rio.
Aelin inclinou o rosto para o céu frio enquanto começavam a interminável série de ziguezagues pelas encostas das montanhas. O rukhin podia carregar muito do equipamento mais pesado, graças aos deuses, mas a subida para as montanhas seria o primeiro teste.
Os exércitos do khagan cruzaram todos os terrenos, no entanto. Montanhas e desertos e mares. Eles não se recuariam agora.
Então, Aelin supunha que também não o faria. Por qualquer que fosse tempo que lhe restasse, até que acabasse.
Este empurrão final para o norte, para casa... Ela sorriu sombriamente para as montanhas iminentes, para o exército que se esticava atrás deles.
E só porque ela podia, só porque eles estavam indo para Terrasen, finalmente, Aelin desencadeou um lampejo de seu poder. Alguns dos porta-estandartes atrás deles agitaram-se em surpresa, mas Rowan apenas sorriu. Sorriu com aquela esperança feroz, aquela determinação brutal que brilhava em seu próprio coração, quando ela começou a queimar.
Ela deixou a chama envolvê-la, um brilho dourado que ela sabia que podia ser visto até mesmo das linhas mais distantes do exército, da cidade e da fortaleza deixadas para trás.
Um farol que brilhava nas sombras das montanhas, nas sombras das forças que os aguardavam, Aelin iluminou o caminho para o norte.

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