29 de outubro de 2018

Capítulo 66

Aelin acordou com o cheiro de pinheiros e neve e soube que estava em casa.
Não em Terrasen, ainda não, mas no sentido em que ela estaria sempre em casa se Rowan estivesse com ela.
Suas respirações constantes enchiam sua orelha direita, o som de alguém verdadeira e profundamente adormecido, e o braço que ele tinha apoiado em sua cintura era um peso sólido e quente. Luz prateada cobria as antigas pedras do teto.
Manhã – ou um dia nublado. Os corredores além do quarto ofereciam fragmentos de som que ela peneirava, pedaço por pedaço, como se montasse um espelho quebrado que pudesse revelar o mundo além.
Aparentemente, fazia três dias desde a batalha. E o resto do exército do khagan, liderado pelo príncipe Kashin, o terceiro filho, chegara.
Foi esse detalhe que a fez se elevar completamente à consciência, uma mão deslizando para o braço de Rowan. Uma carícia de um toque, só para ver quão profundamente o sono rejuvenescedor o segurava. Três dias, eles dormiram aqui, inconscientes do mundo. Um momento perigoso e vulnerável para qualquer portador de magia, quando seus corpos exigiam um sono profundo para se recuperar de gastar tanto poder.
Essa foi outro detalhe que ela capturou: Gavriel estava sentado do lado de fora da porta. Na forma de leão da montanha. As pessoas se calavam quando se aproximavam, sem perceber que seus sussurros de Aquele gato estranho e aterrorizante assim que passavam por ele podiam ser detectados por ouvidos feéricos.
Aelin passou um dedo pela costura da manga de Rowan, sentindo o músculo forte por baixo. Claro – era como cabeça dela, seu corpo, pareciam. Como a primeira respiração gelada tomada na manhã de inverno.
Durante os dias em que dormiram, nenhum pesadelo a abalou, a perseguiu. Um pequeno e misericordioso alívio.
Aelin engoliu, a garganta seca. O que tinha sido real, o que Maeve tentara plantar em sua mente – importava se a dor era verdadeira ou imaginada?
Ela fugiu, se afastou de Maeve e Cairn. Encarar os pedaços quebrados dentro de si viria depois.
Por enquanto, era o suficiente ter essa clareza de volta. Mesmo que libertar seu poder, gastar aquele poderoso golpe aqui, não tivesse sido o seu plano.
Aelin deslizou o olhar em direção a Rowan, o rosto severo suavizou-se em beleza durante o sono. E limpo – o sangue que sujava os dois desaparecera. Alguém deve tê-los lavado enquanto dormiam.
Como se sentisse a atenção dela, ou apenas sentisse a mão apoiada em seu braço, os olhos de Rowan se abriram. Ele examinou-a da cabeça aos pés, considerou tudo certo, e encontrou seu olhar.
— Exibida — ele murmurou.
Aelin deu um tapinha no braço dele.
— Você mesmo exibiu-se grandemente, príncipe.
Ele sorriu, sua tatuagem enrugando.
— Aquela exibição será a última de suas surpresas, ou haverá mais chegando?
Ela debateu contar a ele, revelar. Talvez.
Rowan se sentou, o cobertor escorregando. É do tipo de surpresa que terminará com meu coração parando morto em meu peito?
Ela bufou, apoiando a cabeça no punho enquanto traçava marcas ociosas sobre o cobertor gasto.
— Enviei uma carta quando estávamos naquele porto em Wendlyn.
Rowan assentiu.
— Para Aedion.
— Para Aedion — concordou ela, em voz baixa o suficiente para que Gavriel não ouvisse de seu lugar do lado de fora da porta. — E para o seu tio. E para Essar.
As sobrancelhas de Rowan se ergueram.
— Dizendo o quê?
— Dizendo que fui de fato prisioneira de Maeve e que, enquanto eu era sua cativa, ela traçou planos bem nefastos — ela murmurou para si mesma.
O parceiro dela ficou imóvel.
— Com que objetivo em mente?
Aelin sentou-se e examinou suas unhas.
— Convencê-los a debandar do exército. Começar uma revolta em Doranelle. Tirar Maeve do trono. Você sabe, pequenas coisas.
Rowan apenas olhou para ela. Depois esfregou o rosto.
— Você acha que uma carta poderia fazer isso?
— Foi fortemente formulada.
Ele ficou boquiaberto.
— Que tipo de planos nefastos você mencionou?
— Desejo de conquistar o mundo, sua completa falta de interesse em poupar vidas feéricas em uma guerra, seu interesse em coisas valg. — Ela engoliu em seco. — Eu posso ter mencionado que ela é possivelmente valg.
Rowan sobressaltou-se.
Aelin deu de ombros.
— Foi um palpite de sorte. As melhores mentiras tem sempre um fundo de verdade.
— Sugerir que Maeve é valg é uma mentira bastante remota, mesmo para você. Mesmo que tenha se tornado verdade.
Ela acenou com a mão.
— Vamos ver se algo virá disso.
— Se funcionar, se eles de alguma forma se revoltarem e o exército se voltar contra ela... — Ele balançou a cabeça, rindo baixinho. — Seria uma benção nesta guerra.
— Eu faço esquemas e minto tão grandiosamente, e esse é todo o crédito que recebo?
Rowan bateu o dedo de leve no nariz dela.
— Você receberá crédito se o exército dela não aparecer. Até lá, nos preparamos para sua vinda. O que é altamente provável. — Ao ver o seu cenho franzido, ele disse: — Essar não exerce muito poder, e meu tio não assume muitos riscos. Não como Enda e Sellene. Eles derrubarem Maeve... seria monumental. Se ainda estiverem vivos.
Seu estômago revirou.
— É escolha deles, o que farão. Eu apenas expus os fatos. — Fatos cuidadosamente formulados e metade adivinhação. Uma aposta absoluta, se ela fosse honesta.
Rowan sorriu.
— E além de tentar derrubar o trono de Maeve? Alguma outra surpresa que eu deva saber?
Seu sorriso desapareceu quando ela se deitou, Rowan fazendo o mesmo ao lado dela.
— Não há mais.
Às suas sobrancelhas levantadas, ela acrescentou:
— Eu juro pelo meu trono. Não há mais nada.
A diversão em seus olhos apagou-se.
— Eu não sei se estou aliviado.
— Tudo que eu sei, você sabe. Todas as cartas estão sobre a mesa agora.
Com os vários exércitos que reuniram, com o cadeado, com tudo.
— Você acha que poderia fazer aquilo de novo? — ele perguntou. — Desencadear tanto poder?
— Eu não sei. Acho que não. É necessário ser... contido. Com os ferros.
Uma sombra escureceu seu rosto, e ele rolou para o lado, apoiando a cabeça sobre o braço.
— Eu nunca vi nada parecido.
— E nunca mais verá. — Era a verdade.
— Se o custo do poder foi o que você suportou, então ficarei feliz em não ver.
 Aelin passou a mão pelos poderosos músculos de sua coxa, os dedos parando no rasgo de tecido logo acima do joelho.
— Eu não senti você ser ferido através do elo da parceria — disse ela, passando os dedos pela espessa cicatriz nova. Um troféu da batalha. Ela se forçou a encontrar seu olhar penetrante. De alguma forma, Maeve quebrou essa parte? Essa parte de nós?
— Não — ele respondeu e afastou o cabelo da testa dela. — Percebi que o elo só transmite a dor dos ferimentos mais graves.
Ela tocou o local em seu ombro onde a flecha de Asterin Bico Negro o perfurara todos aqueles meses atrás. O momento em que soube o que ele era para ela.
— Foi por isso que eu não sabia o que estava acontecendo com você na praia — Rowan disse asperamente. Porque o chicote, brutal e insuportável como tinha sido, não a levara à beira da morte. Apenas a um caixão de ferro.
Ela franziu o cenho.
— Se você está prestes a me dizer que se sente culpado por isso...
— Nós dois temos coisas com que lidar – sobre o que aconteceu nesses meses.
Um olhar para ele, e ela sabia que ele estava bem ciente do que ainda nublava sua alma.
E porque ele era a única pessoa que via tudo o que ela era e não se afastava disso, Aelin falou:
— Eu queria que o fogo fosse para Maeve.
— Eu sei. — Palavras tão simples, e ainda assim significavam tudo – aquela compreensão.
— Eu queria que isso tornasse as coisas... melhores. — Ela soltou um longo suspiro. — Para acabar com tudo. — Todas as memórias e pesadelos e mentiras.
— Vai demorar um pouco, Aelin. Enfrentar, trabalhar apesar disso.
— Eu não tenho um tempo.
Sua mandíbula ficou tensa.
— Isso é o que veremos.
Ela não se incomodou em discutir. Não quando admitiu:
— Eu quero que isso termine.
Ele ficou totalmente rígido, mas concedeu-lhe o espaço para pensar, falar.
— Eu quero que isso termine e acabe de uma vez — ela disse com voz rouca. — Esta guerra, os deuses, os portões de Wyrd e o cadeado. Tudo isso. — Ela esfregou as têmporas, empurrando o peso, a mancha persistente que nenhum fogo poderia limpar. — Eu quero ir para Terrasen, lutar, e então quero que isso termine.
Ela queria que isso acabasse desde que descobriu o verdadeiro custo de forjar o cadeado novamente. Queria que acabasse com cada uma das chicotadas de Cairn na praia de Eyllwe. E com tudo o que ele fez com ela depois. O que quer que pudesse trazer, da maneira que pudesse terminar, ela queria que acabasse.
Ela não sabia quem e o que isso a tornava.
Rowan permaneceu em silêncio por um longo momento antes de falar.
— Então nos certificaremos de que o exército dos khagan vá para o norte. Então voltaremos a Terrasen e esmagaremos os exércitos de Erawan. — Ele levou as mãos à boca para um beijo rápido. — E então, depois de tudo isso, veremos o que fazer quando a esse maldito cadeado. — Uma vontade intransigente enchia cada respiração sua, o ar ao redor deles.
Ela deixou que fosse suficiente para os dois. Escondeu suas palavras, seu juramento, todas aquelas promessas entre eles e estendeu a palma da mão no ar entre eles.
Ela convocou a magia – a gota de água que a linhagem de sua mãe lhe dera. A linhagem de Mab.
Uma pequena bola de água tomou forma em sua mão. Sobre os calos que ela tão cuidadosamente reconstruiu.
Ela deixou o suave e refrescante poder transbordar sobre ela. Deixou-o alisar as pontas irregulares dentro de si e cantar para que dormissem. O dom de sua mãe.
Você não cede.
Quando o cadeado levasse tudo, também reivindicaria esta parte? Esta parte mais preciosa de seu poder?
Ela afastou esses pensamentos também.
Concentrando-se, cerrando os dentes, Aelin ordenou que a bola de água girasse em sua palma.
Um tremeluzir foi tudo o que ela conseguiu em resposta.
Ela bufou.
— Rainha das Fadas do Ocidente, de fato.
Rowan bufou uma risada silenciosa.
— Continue praticando. Em mil anos, você pode realmente ser capaz de fazer algo com isso.
Ela bateu em seu braço, a porção de água encharcando a manga da camisa dele.
— É uma maravilha que eu tenha aprendido alguma coisa de você com esse tipo de incentivo. — Ela sacudiu a umidade de sua mão. Bem no rosto dele.
Rowan mordiscou o nariz dela.
— Eu mantenho um registro, princesa. De todas as coisas horríveis que saem da sua boca.
Os dedos dos pés dela se curvaram, e ela passou as mãos pelos cabelos dele, deleitando-se nos fios sedosos.
— Como pagarei por isso?
Do outro lado da porta, ela poderia jurar que passos macios de gato afastaram-se rapidamente.
Rowan sorriu, como se sentisse a rápida saída de Gavriel também.
Então sua mão abriu-se no abdômen dela, sua boca roçando a parte inferior da mandíbula dela.
— Eu estive pensando em algumas maneiras.
Mas a mão que ele tinha colocado sobre a barriga dela desceu apenas o suficiente para que Aelin soltasse um huumf. E percebeu que ela estava dormindo por três dias e tinha uma bexiga. Ela estremeceu, pulando de pé. Ela oscilou, e ele estava instantaneamente lá, estabilizando-a.
— Antes que você me explore completamente — declarou ela — preciso encontrar um banheiro.
Rowan riu, inclinando-se para recolher o cinto de sua espada, cuidadosamente deixado junto à parede ao lado do dela. Apenas Gavriel os teria arranjado com tanto cuidado.
— Essa necessidade realmente supera o que eu havia planejado.


As pessoas ficaram boquiabertas nos corredores, algumas sussurrando enquanto passavam.
A rainha e seu consorte. Onde você acha que eles estiveram nesses últimos dias?
Ouvi dizer que eles foram para as montanhas e trouxeram selvagens junto.
Ouvi dizer que eles estão tecendo feitiços ao redor da cidade para protegê-la de Morath.
Rowan ainda sorria quando Aelin saiu do banheiro comunal das senhoras.
— Viu? — Ela andou ao lado dele enquanto eles seguiam não para o quarto e para a exploração, mas para o salão onde a comida fora servida. — Você está começando a gostar da notoriedade.
Rowan arqueou uma sobrancelha.
— Pensa que em todos os lugares a que fui nos últimos trezentos anos, sussurros não me seguiram?
Ela revirou os olhos, mas ele riu.
— Isso é muito melhor do que O bastardo de coração frio ou Ouvi dizer que ele matou alguém com uma perna de mesa.
— Você matou alguém com uma perna de mesa.
 O sorriso de Rowan cresceu.
— E você é um bastardo de coração frio — ela atirou.
Rowan bufou.
— Eu nunca falei que esses sussurros eram mentira.
Aelin passou o braço pelo dele.
— Começarei um boato sobre você, então. Algo verdadeiramente grotesco.
Ele gemeu.
 — Temo o pensamento do que você pode inventar.
Ela adotou um sussurro alto quando passaram por um grupo de soldados humanos.
— Você voou de volta para o campo de batalha para bicar os olhos dos nossos inimigos? — Sua exclamação ecoou na rocha. — comeu aqueles olhos?
Um dos soldados tropeçou, os outros virando suas cabeças para eles.
Rowan deu um peteleco em seu ombro.
— Obrigado por isso.
Ela inclinou a cabeça.
— De nada.
Aelin continuou sorrindo enquanto eles encontravam comida e almoçavam rápido – era meio-dia, eles descobriram – sentados lados a lado em uma escada empoeirada, meio esquecida. Bastante semelhante aos dias que passaram em Defesa Nebulosa, joelho a joelho e ombro a ombro na cozinha enquanto ouviam as histórias de Emrys.
Embora, ao contrário daqueles meses de primavera, quando Aelin pousou o prato entre os pés, ela passou os braços pelo pescoço de Rowan e a boca dele instantaneamente encontrou a dela.
Não, certamente não era como a época que passaram em Defesa Nebulosa enquanto ela subia para o colo de Rowan, sem se importar inteiramente que alguém pudesse subir ou descer as escadas, e o beijou preguiçosamente.
Eles pararam, sem fôlego e de olhos arregalados, antes que ela pudesse decidir que não seria uma má ideia afrouxar as calças ali mesmo, ou que a mão dele, discreta e preguiçosamente esfregando aquele maldito ponto entre suas coxas, deveria estar dentro dela.
Se Aelin fosse honesta consigo mesma, ela ainda debatia levá-lo ao armário mais próximo quando eles partiram para encontrar seus companheiros. Um olhar nos olhos vidrados de Rowan e ela sabia que ele debatia o mesmo.
No entanto, até mesmo o desejo de aquecer seu sangue esfriou quando entraram no antigo escritório perto do topo da fortaleza e viram o grupo reunido.
Fenrys e Gavriel já estavam lá, Chaol com eles, nenhum sinal de Elide ou Lorcan.
Mas o pai de Chaol, infelizmente, estava presente. E olhou com raiva quando eles entraram na reunião que parecia a caminho. Aelin deu-lhe um sorriso zombeteiro e caminhou até a grande mesa.
Um homem alto, de ombros largos, estava com Nesryn, Sartaq e Hasar, bonito e cheio de uma espécie de energia impaciente. Seus olhos castanhos eram acolhedores, seu sorriso era fácil. Ela gostou dele imediatamente.
— Meu irmão — disse Hasar, acenando com a mão sem levantar os olhos do mapa. — Kashin.
O príncipe esboçou uma reverência graciosa.
Aelin ofereceu uma de volta, Rowan fazendo o mesmo.
— Uma honra — disse Aelin. — Obrigada por ter vindo.
— Você pode na verdade agradecer ao meu pai por isso. E Yrene — disse Kashin, seu uso da linguagem dela tão perfeita quanto a de seus irmãos.
De fato, Aelin tinha muito a agradecer à curandeira.
Os olhos agudos de Nesryn examinaram Aelin da cabeça aos pés.
— Você está se sentindo bem?
— Eu só precisava descansar. — Aelin apontou com o queixo para Rowan. — Ele precisa de cochilos frequentes em sua velhice.
Sartaq tossiu, mantendo a cabeça baixa enquanto continuava estudando o mapa.
Fenrys, no entanto, riu.
— De volta ao seu bom humor, percebo.
Aelin sorriu para o pai de costas eretas de Chaol.
— Veremos quanto tempo dura.
O homem não disse nada.
Rowan seguiu para a escrivaninha e perguntou à realeza:
— Vocês já decidiram para onde marcharão agora?
Uma pergunta tão casual e calma. Como se o destino de Terrasen não estivesse sobre ele.
Hasar abriu a boca, mas Sartaq a interrompeu.
— Norte. Nós iremos para o norte com vocês. Mesmo que apenas para recompensá-los por salvar nosso exército – nosso povo.
Aelin tentou não parecer muito aliviada.
— Gratidão à parte — disse Hasar, não parecendo muito agradecida — os batedores de Kashin confirmaram que Terrasen é onde Morath está concentrando seus esforços. Então é para lá que devemos ir.
Aelin desejou não ter comido um almoço tão farto.
— Quão ruim está?
Nesryn sacudiu a cabeça, respondendo pelo príncipe Kashin.
— Os detalhes eram nebulosos. Tudo o que sabemos é que hordas foram vistas marchando para o norte, deixando um rastro de destruição.
Aelin manteve os punhos ao lado do corpo, evitando a vontade de esfregar o rosto.
— Espero que seu poder possa ser convocado novamente — o pai de Chaol falou.
Aelin deixou uma brasa de seu poder arder em seus olhos.
— Agradeço pela armadura — ela cantarolou.
— Considere como um presente antecipado de coroação — o Senhor de Anielle respondeu com um sorriso zombeteiro.
Sartaq limpou a garganta.
— Se você e seus companheiros estão recuperados, então avançaremos para o norte assim que pudermos.
Nenhuma objeção de Hasar quanto a isso.
— E marchar pelas montanhas? — Rowan perguntou, examinando o mapa.
Aelin traçou o caminho que eles seguiriam.
— Nós teríamos que passar diretamente pelo Desfiladeiro Ferian. Nós mal vamos alcançaríamos a outra extremidade deste lago antes de estarmos em outra batalha.
— Então nós os atraímos para fora de lá — Hasar falou. — Enganá-los para afastar quaisquer forças que esperem no desfiladeiro, então atacar por trás.
— Adarlan controla todo o Avery — Chaol disse, movendo uma linha invisível para o interior de Forte da Fenda. — Para ir ao norte, temos que atravessar o rio de qualquer maneira. Ao escolher o desfiladeiro como nosso campo de batalha, evitaremos a confusão que viria com a contenda no meio de Carvalhal. Os ruks, pelo menos, seriam capazes de fornecer cobertura aérea. Não seria assim com as árvores.
Rowan assentiu.
— Nós precisávamos levar a maioria do exército para as montanhas, então – para chegar ao desfiladeiro de onde eles menos esperariam. É um terreno acidentado, no entanto. Precisamos escolher nossa rota com cuidado.
O pai de Chaol resmungou. Aelin ergueu as sobrancelhas, mas seu filho respondeu:
— Eu enviei emissários aos Caninos no dia seguinte à batalha. Para entrar em contato com os homens selvagens que vivem lá, ver se conhecem caminhos secretos através das montanhas para o desfiladeiro.
Os antigos inimigos desta cidade.
— E?
— Eles conhecem. Mas a um custo.
— Um que não será pago — o Senhor de Anielle estalou.
— Deixe-me adivinhar: território — disse Aelin.
Chaol assentiu. Daí a tensão nesta sala.
Ela bateu um pé enquanto inspecionava o Lorde de Anielle.
— E você não dará uma porção de terra para eles?
Ele apenas a encarou.
— Aparentemente não — Fenrys murmurou.
Aelin deu de ombros e virou-se para Chaol.
— Bem, está resolvido, então.
— O que está resolvido? — o pai dele perguntou.
Aelin ignorou-o e piscou para o amigo.
— Você é a Mão do Rei de Adarlan. Você o supera. Tem autorização para agir em nome de Dorian. — Ela apontou para o mapa. — A terra pode ser parte de Anielle, mas pertence a Adarlan. Vá em frente e faça a troca.
— Você... — o pai dele começou.
— Estamos indo para o norte — disse Aelin. — Você não ficará no nosso caminho. — Ela novamente deixou um pouco de fogo acender em seus olhos, fazendo o dourado neles queimar. — Eu parei aquela onda. Considere esta aliança com os homens selvagens uma forma de retribuir o favor.
— Aquela onda destruiu metade da minha cidade — rosnou o homem.
Fenrys soltou uma risada baixa e incrédula. Rowan rosnou baixinho.
— Você é um bastardo — Chaol rosnou para o pai.
— Cuidado com a língua, garoto.
Aelin assentiu com simpatia para Chaol.
— Vejo por que você saiu.
Chaol, para seu crédito, estremeceu e voltou a atenção para o mapa.
— Se conseguirmos passar pelo Desfiladeiro Ferian, seguimos para o norte.
Passando por Endovier. Esse caminho os levaria para além de Endovier. O estômago de Aelin se apertou. A mão de Rowan roçou a dela.
— Temos que decidir logo — declarou Sartaq. —Agora estamos entre o Desfiladeiro Ferian e Morath. Seria muito fácil para Erawan enviar tropas para nos esmagar entre eles.
Hasar virou-se para Chaol.
— Yrene está perto de terminar?
Ele apoiou um cotovelo no braço da cadeira de rodas.
— Mesmo com os poucos sobreviventes, há muitos deles. Estamos aqui há semanas.
— Quantos feridos? — Rowan perguntou.
Chaol sacudiu a cabeça.
— Não feridos. — Sua mandíbula apertou. — Valg
Aelin olhou para ele.
— Yrene está curando os valg?
Hasar sorriu.
— É uma maneira de falar.
Aelin dispensou com um aceno de mão.
— Posso ver?


Eles encontraram Yrene não na fortaleza, mas em uma tenda no remanescente campo de batalha, inclinando-se sobre um humano que se debatia em cima de um catre. O homem havia sido imobilizado em âncoras no chão pelos pulsos e tornozelos.
Aelin deu uma olhada naquelas correntes e teve que engolir em seco.
Rowan colocou a mão na parte inferior das costas dela, e Fenrys aproximou-se ao seu lado.
Yrene fez uma pausa, as mãos cobertas de luz branca. Borte, espada desembainhada, permanecia por perto.
— Há algo errado? — perguntou Yrene, o brilho em suas mãos desaparecendo.
O homem caiu, ficando mole quando o ataque da curandeira ao demônio dentro dele parou.
Chaol moveu sua cadeira para mais perto dela, as rodas equipadas para terrenos mais ásperos.
— Aelin e seus companheiros querem uma demonstração. Se você estiver preparada para isso.
Yrene alisou o cabelo que havia escapado de sua trança.
— Não é realmente nada que se possa ver. O que acontece é sob a pele – de mente para mente.
— Você enfrenta os demônios valg diretamente — disse Fenrys, sem nenhum espanto.
— Eles são infelizes, odiosos, covardes. — Yrene cruzou os braços e fez uma careta para o homem amarrado ao catre. — Totalmente patéticos — ela cuspiu em direção a ele — o demônio dentro dele.
O homem sibilou. Yrene apenas sorriu. O homem – o demônio – choramingou.
Aelin piscou, sem saber se devia rir ou cair de joelhos.
— Mostre-me. Faça o que quer que você faça, mas mostre-me.
Então a curandeira fez. Mãos brilhando, ela as colocou sobre o peito do homem. Ele gritou e gritou e gritou.
Yrene ofegou, franzindo as sobrancelhas. Por longos minutos, os gritos continuaram.
— Não é muito emocionante com eles amarrados, é? — Borte observou.
Sartaq lançou-lhe um olhar exasperado. Como se esta fosse uma conversa recorrente entre eles.
— Você pode ficar de plantão, se preferir.
Borte revirou os olhos, mas se virou para Aelin, olhando-a com uma franqueza que Aelin só podia apreciar.
— Alguma outra missão para mim?
Aelin sorriu.
— Ainda não. Logo, talvez.
Borte sorriu de volta.
— Por favor. Por favor, me poupe do tédio disso.
Aelin olhou para a curandeira radiante de luz.
— Quantos desse ela fez hoje?
— Dez — resmungou Borte.
— E quantos ela pode fazer diariamente? — Aelin perguntou a Chaol.
— Quinze, no máximo. Alguns exigem mais energia do que outros para expulsar, então nesses dias são menos.
Aelin tentou fazer as contas sobre quantos soldados infestados foram deixados no campo.
— E uma vez que eles estão curados? O que vocês fazem com eles?
— Nós os interrogamos — disse Chaol, franzindo a testa. — Vemos quais são as histórias deles, como acabaram sendo capturados. Onde repousam sua lealdade.
— E vocês acreditam neles? — perguntou Fenrys.
Hasar deu um tapinha no cabo da sua fina espada.
— Nossos interrogadores são hábeis em recuperar a verdade.
Aelin ignorou a agitação em seu estômago.
— Então vocês os libertam — disse Gavriel, em silêncio por alguns minutos agora — e depois os torturam?
— Isso é guerra — Hasar disse simplesmente. — Nós os deixamos em condições de funcionar. Mas não nos arriscaremos a poupar suas vidas apenas para encontrar um novo exército às nossas costas.
— Alguns se uniram de bom grado a Erawan — Chaol falou em voz baixa. — Alguns aceitaram o anel de bom grado. Yrene pode dizer, quando está lá, quem o queria ou não. Ela não se incomoda em salvar aqueles que de bom grado se ajoelharam. Assim, a maioria das pessoas que ela salva era tola ou levada à força.
— Alguns querem lutar por nós — disse Sartaq. — Aqueles que passam pelo nosso processo de habilitação estão autorizados a começar a treinar com os soldados de infantaria. Não muitos deles, mas alguns.
Ótimo. Tudo bem, tudo ótimo.
Yrene engasgou, sua luz brilhante o suficiente para Aelin piscar.
O homem atado ao catre tossiu, arqueando.
Vômito preto e nocivo jorrou.
Borte fez uma careta, afastando-se do cheiro. Então a fumaça negra ondulou da boca dele.
Yrene caiu para trás, Chaol esticando um braço para segurá-la. A curandeira apenas se empoleirou no braço da cadeira, a mão no peito arfante.
Aelin deu-lhe um momento para recuperar o fôlego. Administrar tal façanha era notável. Fazê-lo durante a gravidez... Aelin sacudiu a cabeça, maravilhada.
— Aquele demônio não queria ir — Yrene falou a ninguém em particular.
— Mas agora foi embora? — perguntou Aelin.
Yrene apontou para o homem no catre, que abria os olhos. Castanhos, não pretos, olharam para cima.
— Obrigado — foi tudo o que o homem disse, sua voz rouca.
E humana. Totalmente humana.

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