29 de outubro de 2018

Capítulo 65

Dorian foi para Morath.
Tinha voado do acampamento em suas próprias asas. Ele teria escolhido alguma espécie de pássaro pequeno e comum, Manon sabia. Algo que nem mesmo as Treze não notariam.
Manon ficou na beira da falésia, olhando para o leste.
O som de neve sendo pisada disse a ela que Asterin se aproximava.
— Ele foi embora, não foi?
Ela assentiu com a cabeça, incapaz de encontrar palavras. Ela lhe oferecera tudo e pensara que ele pretendia aceitá-lo. Tinha pensado que ele aceitara de fato, com o que eles fizeram depois.
No entanto, era uma despedida. Uma última noite antes de ele se aventurar nas garras da morte. Ele não a prenderia, não aceitaria o que ela havia dado.
Como se ele a conhecesse melhor do que ela mesma.
— Vamos atrás dele?
Na luz do amanhecer, o acampamento se movia. Hoje, hoje elas decidiriam para onde ir. Hoje, ela ousaria pedir às Crochans para a seguirem. Elas iriam?
Mas dirigir-se a Morath, onde seriam reconhecidas muito antes de se aproximarem, voltarem ao inferno...
O sol nasceu, cheio e dourado, como se fosse a nota solitária de uma canção enchendo o mundo.
Manon abriu a boca.
— Terrasen pede ajuda! — a voz de um jovem Crochan ecoou pelo acampamento.
Manon e Asterin se viraram, outras fazendo o mesmo à medida que a bruxa corria para a tenda de Glennis. A anciã surgiu quando a bruxa derrapou até parar. Uma batedora, sem dúvida, sem fôlego e cabelo bagunçado pelo vento.
— Terrasen pede ajuda — a batedora ofegou, apoiando as mãos nos joelhos enquanto se dobrava para recuperar o ar. — Morath os forçou para a fronteira, depois para Perranth, e avança em Orynth enquanto falamos. Eles saquearão a cidade em uma semana.
Notícias piores do que Manon havia previsto. Mesmo que ela precisasse, esperasse por isso.
As Treze se aproximaram, Bronwen um passo atrás, e Manon não se atreveu a respirar quando Glennis olhou para a chama imortal que ardia na fogueira a poucos metros de distância. A Chama da Guerra.
Então ela se virou para Manon.
— O que você diz, Rainha das Bruxas?
Uma provocação e um desafio.
Manon ergueu o queixo para os dois caminhos diante dela.
Um para leste, para Morath. Outro para o norte, para Terrasen e a batalha.
 O vento cantou e, nele, ela ouviu a resposta.
 — Responderei ao chamado de Terrasen — disse Manon.
Asterin foi para o lado dela, destemida enquanto encarava o acampamento reunido.
— Assim como eu.
Sorrel flanqueou o lado direito de Manon.
— Assim como as Treze.
Manon esperou, mal ousando reconhecer a coisa que começou a queimar em seu peito.
Então Bronwen se aproximou, seu cabelo escuro balançando no vento gelado.
— A lareira de Vanora voará para o norte.
Outra bruxa endireitou os ombros.
— Assim como a de Silian.
 E assim foi.
Até que as líderes de todas as sete Grandes Lareiras estivessem reunidas ali.
Até que Glennis disse a Manon:
— Há muito tempo atrás, Rhiannon Crochan cavalgou ao lado do rei Brannon na batalha. Agora que aquela à sua imagem renasceu, agora as antigas alianças serão forjadas novamente. — Ela gesticulou para a chama eterna. — Acenda a Chama da Guerra, Rainha das Bruxas, e convoque seu exército.
O coração de Manon disparou, tão violento que pulsou em suas palmas, mas ela pegou um galho de bétula colocado entre os gravetos.
Ninguém falou enquanto ela o mergulhava na chama eterna.
Vermelho, dourado e azul saltaram sobre a madeira, devorando-a. Manon retirou o galho apenas quando queimava de verdade, profundo e verdadeiro.
Nem mesmo o vento apagou a chama quando Manon a ergueu, uma tocha no novo dia que nascia.
A multidão de Crochan se abriu, revelando um caminho reto em direção à lareira de Bronwen. A bruxa já esperava, seu clã reunido em torno dela.
Cada passo era uma batida de guerra. Uma resposta a uma pergunta feita há muito tempo.
Os olhos de Bronwen estavam brilhantes quando Manon parou.
Manon apenas disse:
— Sua rainha a convoca para a guerra. — E tocou a chama dela na fogueira de Bronwen.  Luz queimou, brilhante e dançante.
Bronwen pegou um ramo próprio, uma longa acha queimando no fogo.
— Vanora voará.
Ela retirou a madeira e seguiu para a lareira do próximo clã, onde mergulhou aquele núcleo do fogo sagrado no poço. Mais uma vez a luz brilhou, e Bronwen declarou, alto e claro como o dia que os rodeava:
— A sua rainha a convoca para a guerra. As Vanora voam com ela. E vocês?
A líder da lareira disse apenas:
— As Redbriar voarão — e acendeu sua própria tocha antes de se apressar para o fogo do próximo clã.
De lareira para lareira. Até que todas as sete no acampamento tivessem aceitado e acendido o fogo.
Então, e só então, a jovem batedora do último clã pegou sua tocha acesa, agarrou sua vassoura e saltou para o céu. Para encontrar o próximo clã, dizer-lhes que o chamado havia sido feito.
Manon e as Treze, as Crochans à sua volta, assistiram até que a batedora não passasse de um pontinho vermelho contra o céu, então nada.
Manon fez uma oração silenciosa ao vento para que a chama sagrada que a jovem batedora carregava queimasse firme ao longo dos compridos e perigosos quilômetros.
Por todo o caminho até os campos de batalha em Terrasen.


De lareira em lareira, a Chama da Guerra foi.
Sobre as montanhas cobertas de neve e entre as árvores das florestas, escondendo-se dos inimigos que rondavam os céus. Através de longas e amargas noites frias, onde o vento uivava enquanto tentava apagar qualquer traço daquela chama.
Mas o vento não teve sucesso, não contra a chama da rainha.
Então, de lareira em lareira, a chama foi.
Para aldeias remotas onde as pessoas gritavam e se dispersavam quando uma mulher de rosto jovem descia do céu montada em uma vassoura, acenando com a tocha para o alto.
Não ao sinal dela, mas das poucas mulheres que não correram. Que caminharam em direção à chama, à cavaleira, quando ela gritou:
— Sua rainha as convoca para a guerra. Vocês voarão?
Baús escondidos em sótãos foram abertos. Tecidos vermelhos dobrados foram puxados de dentro. Vassouras deixadas em armários, ao lado de portas, enfiadas debaixo de camas foram trazidas para fora, trançadas em ouro, prata ou corda.
E espadas – antigas e bonitas – foram puxadas debaixo das tábuas do assoalho, ou retiradas de cima de palheiros, seu metal brilhando tão brilhante e fresco quanto no dia em que foram forjadas em uma cidade que agora estava em ruínas.
As bruxas, os habitantes da cidade sussurravam, os maridos de olhos arregalados e incrédulos enquanto as mulheres subiam aos céus, mantos vermelhos ondulando. Bruxas entre nós todo esse tempo.
Aldeia a aldeia, onde lareiras que nunca haviam ficado completamente escuras brilharam em resposta. Sempre uma montadora saindo para encontrar a próxima lareira, o próximo bastião de seu povo.
Bruxas, aqui entre nós. Bruxas, agora indo para a guerra.
Uma maré crescente de bruxas, que subiram aos céus em suas capas vermelhas, espadas presas às costas, vassouras derramando anos de poeira a cada quilômetro para o norte.
Bruxas que se despediam de suas famílias sem oferecer nenhuma explicação antes de beijarem seus bebês adormecidos e desaparecerem na noite estrelada.
Quilômetro após quilômetro, através do mundo que escurecia, o chamado foi feito, incessante e interminável como a chama eterna que passava de lareira para lareira.
 Voe, voe, voe! — eles incitaram. — Para a rainha! Para a guerra!
Longe e em quantidade, através da neve e tempestade e perigo, as Crochans voaram.

2 comentários:

  1. Tô casanda de chorar, Sarah J. Maas! Assim não dá né, pô. Preciso manter dignidade

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  2. Cada capítulo me deixa mais empolgado

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Boa leitura, E SEM SPOILER!