29 de outubro de 2018

Capítulo 64

Horas depois, Yrene ainda tremia.
Pelo desastre que eles evitaram por pouco, pelas mortes que havia testemunhado antes de aquela onda ter atingido o poder da rainha na planície. O poder do príncipe, que impedira que o vapor resultante os queimasse vivos, qualquer um que fosse capturado em seu caminho.
Yrene voltou ao caos da cura desde então. Tinha deixado a realeza e seus comandantes para supervisionar as consequências e retornou ao Grande Salão. As curandeiras foram para o campo de batalha, procurando por aqueles que precisavam de ajuda.
Cada um deles, cada pessoa na fortaleza, nos céus ou no campo de batalha, olhava em direção à abertura agora vazia entre os dois picos das montanhas. Para a cidade inundada, dizimada, e a linha de demarcação entre a vida e a morte. A água e os detritos haviam destruído a maior parte de Anielle, e agora escorriam em direção ao Lago Prateado.
Uma visão do que teria restado deles, não fosse por Aelin Galathynius.
Yrene se ajoelhou sobre uma cavaleira, o peito da mulher aberto por um golpe de espada, e estendeu as mãos ensanguentadas e brilhantes.
Magia, limpa e brilhante, fluía dela para a mulher, remendando pele e músculos rasgados. Da perda de sangue levaria tempo para se recuperar – mas a mulher não perdera tanto que Yrene precisaria gastar sua energia para reabastecer seus níveis.
Ela precisaria descansar em breve. Por algumas horas.
Ela tinha sido convidada a inspecionar a rainha quando ela foi levada para uma câmara privada pelo príncipe Rowan, os dois carregados pela planície por Nesryn. Yrene não conseguiu impedir que as mãos tremessem enquanto as pairava sobre o corpo inconsciente de Aelin.
Não havia sinal de dano além de alguns cortes e ferimentos já curados da batalha em si. Nada além de uma mulher adormecida e cansada.
Que carregava o poder de uma deusa dentro de suas veias.
Yrene então inspecionou o príncipe Rowan, que parecia em uma situação muito pior, um corte considerável serpenteando por sua coxa. Mas ele acenou para ela, alegando que ele chegara perto de um esgotamento, e só precisava descansar também.
Então Yrene os deixara, apenas para cuidar de outro.
De Lorcan, cujos ferimentos... Yrene precisou convocar Hafiza para ajudá-la. Para emprestar seu poder, já que Yrene estava tão esgotada.
O guerreiro inconsciente, que aparentemente tinha caído do lombo de Farasha enquanto ele e Elide passavam pelo portão, não se mexeu enquanto trabalhavam nele.
Isso foi horas atrás. Dias atrás, parecia.
Sim, ela precisava descansar.
Yrene foi para a estação de água no fundo do corredor, com a boca seca como papel. Um pouco de água, um pouco de comida e talvez um cochilo. Então ela estaria pronta novamente para trabalhar.
Mas uma corneta, clara e alta, soou lá de fora.
Todos pararam e correram para as janelas. O sorriso de Yrene cresceu quando ela também encontrou um lugar para espiar o campo de batalha.
Para onde o resto do exército do khagan, o príncipe Kashin à frente, marchava na direção deles.
Graças aos deuses. Todos no salão murmuraram palavras semelhantes.
Da fortaleza, uma corneta respondeu suas boas-vindas. Não apenas um exército havia sido poupado aqui hoje, percebeu Yrene, voltando-se para a estação de água. Se aquela onda tivesse alcançado Kashin...
Sorte. Todos eles tiveram tanta, tanta sorte.
No entanto, Yrene se perguntou quanto tempo essa sorte duraria.
Se os vigiaria através da marcha brutal em direção ao norte e às muralhas de Orynth.


Lorcan soltou um gemido baixo ao emergir do caloroso e pesado abraço da escuridão.
— Seu bastardo de sorte.
Cedo demais. Muito, muito cedo depois de estar tão perto da morte para ouvir a voz de Fenrys.
Lorcan abriu um olho, encontrando-se deitado em uma cama em uma câmara estreita. Uma vela solitária iluminava o espaço, dançando no cabelo dourado do guerreiro feérico, sentado em uma cadeira de madeira ao pé da cama.
O sorriso de Fenrys era ofuscante.
— Você ficou fora do ar por um dia. Tirei o palito mais curto e tive que cuidar de você. — Uma mentira. Por alguma razão, Fenrys escolheu estar aqui.
 Lorcan mexeu o corpo – levemente.
Nenhuma sugestão de dor além de um latejar surdo nas costas e um aperto forte em seu estômago. Ele conseguiu erguer a cabeça o suficiente para arrancar o pesado cobertor de lã que cobria seu corpo nu. Onde ele tinha sido capaz de ver seu interior, apenas uma grossa cicatriz vermelha permanecia.
Lorcan bateu a cabeça no travesseiro.
— Elide. — Seu nome era um raspar em sua língua.
A última coisa de que ele se lembrava era de eles passando pelo portão, depois do poder profano de Aelin Galathynius. Então o esquecimento veio.
— Ajudando com a cura no Grande Salão — disse Fenrys, esticando as pernas diante dele.
Lorcan fechou os olhos, algo apertado em seu peito aliviou.
— Bem, já que você não está morto... — começou Fenrys, mas Lorcan já estava dormindo.


Lorcan acordou mais tarde. Horas, dias, ele não sabia.
A vela ainda ardia no peitoril estreito, quase até a base. Horas, então. A menos que ele tivesse dormido por tanto tempo que eles substituíram a vela por outra.
Ele não se importou. Não quando a luz fraca revelou a delicada mulher deitada de bruços na extremidade de sua cama, a metade inferior de seu corpo ainda na cadeira de madeira onde Fenrys estivera. Seus braços apoiavam a cabeça, um estendido para ele. Alcançando sua mão, a poucos centímetros da dela.
Elide.
Seus cabelos escuros se derramavam sobre o cobertor, por cima das canelas dele, cobrindo muito de seu rosto.
Estremecendo com a dor persistente em seu corpo, Lorcan esticou o braço apenas o suficiente para tocar seus dedos.
Eles estavam frios, seus dedos muito menores que os dele. Eles se contraíram, afastando-se enquanto ela sugava uma respiração aguda e despertava.
Lorcan saboreou cada traço de seu rosto enquanto ela fazia uma careta à dor no pescoço. Mas seus olhos se fixaram nele.
Ela ficou parada quando o encontrou olhando para ela, acordado e absolutamente maravilhado com a mulher que havia atravessado o inferno para encontrá-lo...
Cansada. Ela parecia perdida, mas seu queixo permanecia sem se curvar.
Lorcan não tinha palavras. Ele deu todas as que tinha para ela no lombo daquele cavalo, de qualquer maneira.
— Como você se sente? Elide perguntou.
Doído. Exausto. No entanto, encontrá-la sentada ao seu lado...
— Vivo — respondeu ele, e falava a verdade.
O rosto dela permaneceu ilegível, mesmo quando seus olhos mergulharam em seu corpo. O cobertor havia deslizado o suficiente para revelar a maior parte de seu torso, embora ainda escondesse a ferida em seu abdômen. No entanto, ele nunca se sentiu tão nu.
Foi um esforço manter a respiração estável sob o olhar aguçado.
— Yrene disse você que teria morrido, se não o tivessem alcançado quando  chegaram.
— Eu teria morrido — disse ele, voz como cascalho — se você não tivesse enfrentado o inferno para me encontrar.
Seu olhar se ergueu para o dele.
— Eu te fiz uma promessa.
— Assim você diz.
Era uma sugestão de cor passando em suas bochechas pálidas? Mas ela não recuou.
— Você disse algumas coisas interessantes também.
Lorcan tentou se sentar, mas uma explosão de dor atravessou seu corpo em protesto.
— Yrene avisou que, embora as feridas estejam curadas, alguma dor persistirá — Elide explicou.
Lorcan rangeu os dentes ao redor da forte pontada em suas costas, seu estômago. Ele conseguiu se apoiar nos cotovelos e considerou ter progredido o suficiente.
— Já faz um tempo desde que estive gravemente ferido. Eu tinha esquecido como é inconveniente.
Um leve sorriso apareceu na boca dela.
O coração dele parou. O primeiro sorriso que ela lhe dera em meses. Desde aquele dia no navio, quando ele tocou sua mão enquanto eles balançavam em suas redes.
Seu sorriso desapareceu, mas a cor em suas bochechas permaneceu.
— Você falava a verdade? Quando falou aquelas coisas.
Ele segurou seu olhar. Deixou algum muro interno dentro dele desmoronar. Só para ela. Para esta pequena mentirosa, esperta e perspicaz que havia contornado todas as defesas e regras férreas que ele já fizera para si mesmo. Ele deixou-a ver isso em seu rosto. Deixou-a ver tudo, como ninguém jamais havia feito antes.
— Sim.
A boca dela apertou, mas não em desgosto.
Então Lorcan disse suavemente:
— Cada palavra era verdade. — Seu coração trovejou, tão selvagem que era uma maravilha que ela não pudesse ouvir. — E será até o dia em que eu desaparecer no além-mundo.
Lorcan não respirou quando Elide gentilmente estendeu a mão. E entrelaçou seus dedos nos dele.
— Eu te amo — ela sussurrou.
Ele estava feliz por estar deitado. As palavras o teriam deixado de joelhos. Mesmo agora, ele estava meio inclinado a se curvar diante dela, a verdadeira dona de seu coração antigo e perverso.
Eu o amei — continuou ela — desde o momento em que você veio lutar por mim contra Vernon e os ilken. — A luz em seus olhos lhe roubou o ar. — E quando eu soube que você estava em algum lugar naquele campo de batalha, a única coisa que eu queria era poder dizer isso a você. Era a única coisa que importava.
Uma vez, ele teria zombado dela. Teria declarado que coisas muito maiores importavam, especialmente nessa guerra. E ainda assim, com sua mão garrando a dele... Ele nunca conheceu nada mais precioso.
Lorcan passou o polegar pelas costas da mão dela.
— Eu sinto muito, Elide. Por tudo isso.
— Eu sei — ela disse suavemente, e nenhum arrependimento ou mágoa ofuscou seu rosto. Apenas a calma limpa e inabalável brilhava ali. O rosto da mulher poderosa em que ela estava se transformando, e já se tornara, e que governaria Perranth com sabedoria em uma mão e compaixão na outra.
Eles se encararam por alguns minutos. Por uma eternidade abençoada.
Então Elide desentrelaçou as mãos e se levantou.
— Devo retornar para ajudar Yrene.
Lorcan segurou sua mão novamente.
— Fique.
Ela arqueou uma sobrancelha escura.
— Só vou ao Grande Salão...
Lorcan acariciou o polegar nas costas da mão dela mais uma vez.
— Fique — ele respirou.
Por um instante, ele pensou que ela diria que não, e estava preparado para aceitar isso, para aceitar esses últimos minutos como mais um presente que ele não merecia.
Mas então Elide sentou-se na beira da cama, bem ao lado de seu ombro, e passou a mão pelo cabelo dele. Lorcan fechou os olhos, inclinando-se para o toque, incapaz de impedir o profundo ronronar que reverberou por seu peito.
Ela fez um ruído baixo de admiração, talvez algo mais, e seus dedos acariciaram sua cabeça novamente.
— Diga — ela sussurrou, os dedos em seus cabelos.
Lorcan abriu os olhos, encontrando o olhar dela.
— Eu te amo.
Ela engoliu em seco, e Lorcan cerrou os dentes quando se sentou totalmente. Tão perto, ele havia esquecido o quanto se elevava sobre ela. Em cima daquele cavalo, ela tinha sido uma força da natureza, uma tempestade desafiadora. Seu cobertor escorregou perigosamente baixo, mas ele deixou-o ficar onde ele se acumulava em seu colo.
Ele não perdeu a direção do olhar dela. Ou a longa contemplação que ela fez de seu torso. Ele quase podia senti-lo, demorando-se em todos os músculos e cicatrizes.
Um gemido suave saiu dele enquanto ela continuava a parecer satisfeita. Pedindo coisas que ele com certeza não estava em condições de lhe dar. E que ela talvez ainda não estivesse pronta para dar a ele, declarações à parte.
Ele foi imediatamente desafiado a provar sua determinação enquanto Elide passava os dedos pela nova cicatriz em seu abdômen.
— Yrene disse que você pode ter isso para sempre — ela falou, sua mão misericordiosamente se afastando.
— Então será a cicatriz que mais valorizarei. — Fenrys riria até as lágrimas se o ouvisse falar assim, mas Lorcan não se importava. Para o inferno com o resto deles.
Outro daqueles pequenos sorrisos curvou seus lábios, e as mãos de Lorcan apertaram os lençóis com o esforço necessário para não provar aquele sorriso, adorá-lo com sua própria boca.
Mas essa coisa nova e frágil zumbindo entre eles... Ele não arriscaria por todo o mundo.
Elide, graças aos deuses, não tinha essas preocupações. Nenhuma, ao que parecia, quando ela levou a mão ao rosto dele e passou o polegar ao longo de sua bochecha. Cada respiração era um esforço de controle.
Lorcan permaneceu absolutamente imóvel quando ela levou a boca à dele. Roçou seus lábios contra os dele.
Ela se afastou.
— Descanse, Lorcan. Eu estarei aqui novamente quando você acordar.
Qualquer coisa que ela pedisse, ele daria a ela. Tudo.
Abalado demais por aquele beijo suave e belo para se incomodar com palavras, ele se deitou de novo.
Ela sorriu diante de sua absoluta obediência e, como se não conseguisse se conter, inclinou-se mais uma vez.
Esse beijo foi mais demorado. Sua boca traçou a dele, e à ligeira pressão de seus lábios, ao pedido gentil, ele respondeu com o seu próprio.
O gosto dela ameaçou desfazê-lo por completo, e a tentativa de roçar a língua contra a dele atraiu outro ronronar profundo do peito dele. Mas Lorcan deixou Elide explorá-lo, devagar e docemente, dando-lhe tudo o que ela pedia.
E quando a boca dela se tornou mais insistente, quando a respiração dela ficou irregular, ele deslizou uma mão ao redor de seu pescoço até a nuca dela. E abriu-se para ele, e com o gemido baixo, Lorcan pensou que voaria de sua pele.
A mão escorregou da nuca para percorrer suas costas, acariciando o corpo quente e inquebrável sob as camadas de roupa. Elide arqueou-se ao toque, outro daqueles pequenos barulhos vindos dela. Como se ela estivesse tão faminta por ele.
Mas Lorcan se obrigou a se afastar. Forçou-se a retirar a mão da parte inferior daquelas costas. Ofegante, compartilhando o mesmo ar, ele disse em sua boca:
— Mais tarde. Vá ajudar os outros.
Os olhos escuros dela brilharam com desejo, e Lorcan ajustou o cobertor caindo em seu colo.
— Vá ajudar os outros — ele repetiu. — Eu estarei aqui quando você estiver pronta para dormir.
O pedido não verbalizado perdurou, e Elide recuou, estudando-o mais uma vez.
— Apenas dormir — disse Lorcan, sem se incomodar em esconder o calor que subia em seu olhar. — Por enquanto.
Até que ela estivesse pronta. Até que ela dissesse a ele, lhe mostrasse que ela queria compartilhar tudo com ele. A reivindicação final.
Mas até então, ele a queria aqui. Dormindo ao seu lado, onde ele poderia cuidar dela. Como ela havia cuidado dele.
O rosto de Elide ficou vermelho quando ela se levantou, as mãos tremendo. Não por medo, mas pelo mesmo esforço que agora tomava Lorcan, para não alcançá-la.
Ele gostaria muito de enlouquecê-la. De ensinar-lhe aos poucos tudo o que ele sabia sobre prazer, sobre desejo. Ele tinha poucas dúvidas de que também aprenderia um bom número de coisas com ela, também.
Elide pareceu ler seu rosto e suas bochechas se avermelharam ainda mais.
— Mais tarde, então — ela murmurou, mancando para a porta.
Lorcan enviou um lampejo de seu poder para envolver seu tornozelo. O manquejar desapareceu.
Com uma mão na maçaneta, ela deu um pequeno e grato aceno de cabeça.
— Senti falta disso. — Ele ouviu as palavras não ditas enquanto ela desaparecia no corredor ocupado.
 Senti falta sua.
 Lorcan se permitiu um sorriso raro.

4 comentários:

  1. Esse casal e uma coisa de lindo <3

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  2. Esse casal é muito lindo! Já tava na hora do Lorcan dizer pra Elide o que ele sentia por ela.❤

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  3. Já estava na hora da Elide parar de orgulho besta

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  4. Vomitando arco-íris com esses dois *-----*

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Boa leitura, E SEM SPOILER!