29 de outubro de 2018

Capítulo 63

Aedion e Kyllian mantiveram suas tropas em pânico alinhadas enquanto marchavam até as margens do Florine.
Não adiantava correr para o norte. Não quando os tambores de osso começaram a bater. E ficaram mais altos a cada minuto que Aedion ordenou sua legião em formação.
Andando pelas linhas de frente, sua armadura tão pesada que poderia ter sido feita de pedra, a falta da antiga espada em sua cintura como um membro fantasma, Aedion disse a Ren:
— Eu preciso que você me faça um favor.
Ren, debruçando-se em seu tremor, não se preocupou em olhar para cima.
— Não me peça para correr.
— Nunca. — Perto – eles estavam tão perto de Theralis. Quão apropriado seria morrer no campo onde Terrasen caíra uma década atrás. Ter seu sangue encharcando a terra onde tantos da corte que ele amara morreram, ter seus ossos juntos aos deles, sem identificação na planície.
— Eu preciso que você chame ajuda.
Ren olhou para cima então. Seu rosto marcado pela cicatriz estava mais magro do que há algumas semanas. Quando foi a última vez que algum deles teve uma refeição adequada? Ou uma noite inteira de descanso?
Onde Lysandra estava, que forma ela usava, Aedion não sabia. Ele não a procurara na noite anterior, e ela ficara longe dele por completo.
— Eu não sou ninguém agora — falou Aedion, as linhas de soldados se abrindo para eles. Devastação e feéricos, Assassinos Silenciosos, soldados de Wendlyn e dos Desertos também. — Mas você é o lorde de Allsbrook. Mande mensageiros. Mande Nox Owen. Peça ajuda. Despache-os em todas as direções, para qualquer um que eles possam encontrar. Diga a Nox e aos outros que implorem se precisarem, mas diga a eles para avisar que Terrasen pede ajuda.
Apenas Aelin tinha autoridade para fazê-lo, ou Darrow e seu conselho, mas Aedion não se importava.
Ren parou, e Aedion parou com ele, bem ciente dos soldados ao alcance da voz. Da audição feérica que muitos possuíam. Endymion e Sellene já estavam na linha de frente do flanco esquerdo, com os rostos sérios e cansados. Um lar – foi o que eles perderam, e pelo que agora lutavam para ganhar. Se alguém pudesse sobreviver a isso. O que seu pai faria de seu filho, lutando ao lado de seu povo finalmente?
— Alguém virá? — Ren perguntou, ciente dos ouvidos atentos também.
Consciente dos rostos sombrios que permaneciam com eles, apesar da morte que marchava as suas costas.
Aedion colocou o capacete na cabeça, o metal frio.
— Ninguém veio há dez anos. Mas talvez alguém se incomode desta vez.
Ren agarrou seu braço, puxando-o para perto.
— Pode não haver mais nada a defender, Aedion.
— Envie os pedidos de qualquer maneira. — Ele moveu o queixo para as fileiras pela qual tinham passado. Ilias polis suas lâminas entre um grupo de assassinos de seu pai, sua atenção presa no inimigo à frente. Preparando-se para tomar uma última posição nesta planície nevada tão longe de seu deserto quente.
— Você insiste que eu ainda sou seu general? Então aqui está a minha ordem final. Peça ajuda.
Um músculo se contraiu no queixo de Ren. Mas ele disse:
— Considere feito. — Então foi embora.
Eles não se deram ao trabalho de despedir-se. Sua sorte era ruim o suficiente.
Então Aedion continuou sozinho nas linhas de frente. Dois soldados da Devastação se afastaram para dar espaço, e Aedion ergueu o escudo, encaixando-o perfeitamente entre a frente unificada. A parede de metal contra a qual Morath atacaria primeiro e com mais força.
A neve caiu, ocultando tudo em um raio de trinta metros ou mais.
No entanto, os tambores de osso se tornaram mais altos. Logo a terra tremia sob os pés em marcha.
Sua posição final, aqui em um campo sem nome diante do Florine. Como isso veio a acontecer?
Aedion desembainhou a espada, os outros soldados seguindo o exemplo, o som de metal cortando o vento uivante.
Morath apareceu, uma linha de preto sólido emergindo da neve.
Cada passo que eles avançavam, mais apareciam atrás. A que distância estava aquela torre de bruxa? Em quanto tempo seu poder seria liberado?
Ele rezou, por causa de seus soldados, que fosse rápido e relativamente indolor. Que eles não sentissem muito medo antes de serem transformados em cinzas.
A Devastação não bateu as espadas em seus escudos desta vez.
Havia apenas a marcha de Morath e dos tambores.
Se eles tivessem ido a Orynth quando Darrow exigiu, eles teriam conseguido. Teriam tido tempo de atravessar a ponte ou pegar a rota do norte.
Essa derrota, essas mortes, repousava sobre seus ombros, apenas.
Abaixo na linha, o movimento chamou sua atenção – no exato momento em que uma cabeça enorme e peluda apareceu entre o Príncipe Galan e um de seus soldados restantes. Um leopardo fantasma.
Olhos verdes deslizaram em sua direção, drenados e sombrios.
Aedion desviou o olhar primeiro. Seria ruim o suficiente sem saber que ela estava aqui. Que Lysandra, sem dúvida, ficaria até que ela também caísse.
Ele rezou para que ele fosse primeiro. Assim não testemunharia isso.
Morath se aproximou o suficiente para que a ordem de Ren para os arqueiros soasse.
Flechas voaram, desaparecendo na neve.
Morath enviou uma saraivada em resposta que escondeu a luz baça do sol.
Aedion inclinou seu escudo, agachando-se debaixo dele. O impacto reverberou através de seus ossos.
Grunhidos e gritos encheram seu lado do campo de batalha. Quando o assalto parou, quando se endireitaram novamente, muitos homens não se levantaram.
Não foram apenas flechas que foram disparadas, e que agora salpicavam a neve.
Mas cabeças. Cabeças humanas, muitas ainda em seus capacetes. Carregando a insígnia do lobo rugindo de Ansel de Penhasco dos Arbustos.
O resto do exército que ela prometera. Que eles estavam esperando.
Eles devem ter interceptado Morath – e foram obliterados.
Clamores se ergueram do exército atrás dele quando a percepção se espalhou pelas fileiras. Uma voz feminina, em particular, sobrepôs as outras vozes, seu urro de tristeza ecoando dentro do capacete de Aedion.
Os olhos grandes e leitosos da cabeça decapitada que havia pousado perto de suas botas fitavam o céu, a boca ainda aberta em um grito de terror.
Quantos Ansel conhecia? Quantos amigos estiveram entre eles?
Não era hora de procurar a jovem rainha para oferecer suas condolências. Não quando nenhum deles provavelmente sobreviveria ao dia. Não quando poderia ser a cabeça de seus próprios soldados que seriam lançadas nos muros de Orynth.
Ren ordenou outra saraivada, suas flechas tão poucas comparadas com as que haviam sido atiradas segundos antes. Uma garoa comparada a um aguaceiro. Muitas encontraram seus alvos, soldados de armadura escura caindo. Mas eles foram substituídos por aqueles atrás deles, meras engrenagens em alguma máquina terrível.
— Nós lutamos como um — Aedion anunciou através das fileiras, obrigando-se a ignorar as cabeças espalhadas. — Nós morremos como um.
Um toque soou de dentro das fileiras inimigas. Morath começou sua corrida total contra a sua linha de frente.
As botas de Aedion enterraram-se na lama quando ele firmou o braço do escudo. Como se pudesse conter a maré que se estendia até o horizonte.
Ele contou suas respirações, sabendo que elas eram limitadas. O rugido de um leopardo fantasma rasgou a linha, um desafio para o exército atacante.
Quinze metros. Os arqueiros de Ren ainda disparavam menos e menos flechas. Doze. Dez.
A espada em sua mão não era como a lâmina antiga que ele usava com tanto orgulho. Mas funcionaria. Seis. Três.
Aedion respirou fundo. Os olhos negros e profundos dos soldados Morath ficaram nítidos sob seus capacetes.
A linha de frente de Morath apontava suas espadas, suas lanças...
Fogo rugindo explodiu do flanco esquerdo.
Seu flanco esquerdo.
Aedion não se atreveu a mudar o foco do inimigo sobre ele, mas vários dos soldados Morath fizeram.
Ele os matou por isso. Abateu seus companheiros atordoados também, enquanto se voltavam para outra explosão de chamas.
Aelin. Aelin...
Os soldados atrás dele gritaram. Em triunfo e alívio.
— Fechem a lacuna  Aedion rosnou para os guerreiros de ambos os seus lados e recuou o suficiente para ver a fonte de sua salvação, livre e finalmente em segurança...
Não foi Aelin quem soltou o fogo no flanco esquerdo.
Não foi Aelin quem se esgueirou pelo rio coberto de neve.
Navios encheram o Florine, quase invisíveis nas neves rodopiantes. Alguns traziam as bandeiras de sua frota unida.
Mas muitos, tantos que ele não podia contar, ostentavam uma bandeira cor de cobalto adornada com um dragão marinho verde.
A frota de Rolfe. Os micênicos.
No entanto, não havia sinal dos antigos dragões marinhos que haviam entrado em combate com eles. Apenas soldados humanos marchavam pela neve, cada um com uma engenhoca familiar, lenços sobre a boca.
Lança-chamas.
Uma corneta explodiu do rio. E então os lança-chamas dispararam chamas quentes e brancas contra as fileiras de Morath, como se fossem gavinhas do inferno. Dragões, todos eles, vomitando fogo sobre seu inimigo.
Chama derreteu armadura e carne. E queimou os demônios que temiam calor e luz.
Como se fossem fazendeiros queimando seus campos de plantio para o inverno, os micênicos de Rolfe marchavam em frente, com as armas vomitando fogo até formarem uma linha entre Aedion e seu inimigo.
Morath se virou e correu.
Correu rápido, seus gritos de alerta se elevaram acima das chamas. A Portadora do Fogo os armou! Seu poder queima novamente!
Os tolos não perceberam que não havia mágica – nenhuma além da pura sorte e boa sincronia.
Então uma voz familiar soou.
— Rápido! A bordo, todos vocês! — Rolfe.
Pois os navios no rio tinham parado, pranchas baixadas e barcos a remo já na costa.
Aedion não perdeu tempo.
— Para o rio! Para a frota!
Seus soldados não hesitaram. Correram para a armada que aguardava, para qualquer navio que pudessem alcançar, saltando para os escaleres. Foi caótico e bagunçado, mas com Morath em retirada, só os deuses sabiam por quanto tempo, ele não se importou.
Aedion manteve sua posição na linha de frente, garantindo que nenhum soldado ficasse para trás.
Abaixo na linha, o príncipe Galan e uma forma peluda listrada fizeram o mesmo. Ao lado deles, cabelos ruivos balançando ao vento, Ansel de Penhasco dos Arbustos mantinha sua espada apontada para o inimigo. Lágrimas escorriam por suas bochechas sardentas. As cabeças de seus homens estavam espalhadas na neve ao redor dela.
E à frente deles, ainda soltando chamas, os micênicos de Rolfe compravam-lhes tempo para recuarem.
Cada segundo escorria, mas lentamente, e aqueles navios se encheram. Lentamente, seu exército deixou a costa, e cada embarcação que partiu foi substituída por outra.
Muitos feéricos mudaram de forma, aves de rapina enchendo o céu cinzento enquanto subiam o rio.
E quando restavam somente algumas embarcações, entre eles um belo navio com um mastro entalhado na forma de um dragão marinho que atacava, Rolfe rugiu do leme:
— Recuem, todos vocês!
Os micênicos e seus fogos fizeram uma rápida retirada, correndo para os escaleres que retornavam à margem.
Lysandra e Ansel correram com eles, e Aedion fez o mesmo. Foi a mais longa corrida de sua vida.
Mas então ele estava na prancha do navio de Rolfe, o rio fundo o suficiente para que pudesse chegar perto da margem. Lysandra, Galan e Ansel já passavam por ele e Aedion mal havia chegado ao convés quando a prancha foi levantada. Abaixo, em volta, os micênicos saltavam em seus escaleres e remavam como o inferno. Nenhum soldado foi deixado para trás. Apenas os mortos.
Luz brilhou, e Aedion girou em direção ao timão do navio a tempo de ver Lysandra mudar de leopardo fantasma para mulher, nua como no dia em que nasceu.
Rolfe, para seu crédito, pareceu apenas levemente surpreso quando ela lançou os braços ao redor de seu pescoço. E para seu crédito mais uma vez, o Lorde Pirata envolveu seu manto ao redor dela antes de abraçá-la de volta.
Aedion chegou até eles, ofegando e tão aliviado que ele poderia vomitar nas tábuas brilhantes.
Rolfe soltou Lysandra, oferecendo-lhe seu manto completamente. Quando a metamorfa enrolou-o em torno de si, ele disse:
— Você parecia precisar de um resgate.
Aedion apenas abraçou o homem, então apontou para as mãos enluvadas de Rolfe.
— Suponho que temos que agradecer a esse seu mapa.
— De vez em quando ele é bom para algo diferente de saquear. — Rolfe sorriu. — Ravi e Sol de Suria nos interceptaram perto da fronteira norte — admitiu ele. — Eles imaginaram que vocês poderiam estar em apuros e nos enviaram para cá. — Ele passou a mão pelo cabelo. — Eles permanecem com o que resta da sua frota, guardando a costa. Se Morath atacar do mar, eles não terão navios suficientes para ter uma chance. Eu lhes disse isso, e eles ainda me mandaram para cá. — O rosto bronzeado do Lorde Pirata se apertou. — Então aqui estou eu.
Aedion mal notou os marinheiros e soldados que remavam rapidamente até o outro lado do rio.
— Obrigado — ele falou. E graças aos deuses por Ravi e Sol.
Rolfe balançou a cabeça, olhando para a massa de soldados Morath ainda recuando.
— Nós os surpreendemos, mas não vai segurá-los por muito tempo.
Lysandra deu um passo para o lado de Rolfe. Aedion tentou não se encolher com a visão de seus pés descalços, pernas e ombros descobertos, enquanto o vento frio do rio os açoitava.
— Nós só precisamos chegar a Orynth e atrás de suas muralhas. De lá, podemos nos reagrupar.
— Não posso carregar todo o seu exército para Orynth  disse Rolfe, gesticulando para os soldados reunidos na margem oposta. — Mas eu posso levar vocês para lá agora, se quiserem chegar com antecedência para se prepararem. — O lorde Pirata estudou a praia como se procurasse por alguém. — Ela não está aqui, não é?
Lysandra balançou a cabeça.
— Não.
— Então teremos que bastar  foi tudo o que Rolfe disse, o retrato do comando tranquilo. Seus olhos verde mar deslizaram para onde Ansel de Penhasco dos Arbustos estava na amurada do navio, olhando para o campo de cabeças deixado na neve.
Nenhum deles falou quando a jovem rainha caiu de joelhos, a armadura batendo no convés, e abaixou a cabeça.
— Mandarei avisarem às nossas tropas para marcharem até Orynth, depois navegamos para a cidade — Aedion murmurou.
— Eu farei isso — Lysandra falou sem olhar para ele. Ela não se incomodou em dizer mais nada. Com a capa caindo nas tábuas, ela se transformou em um falcão e foi para onde Kyllian agora saía de um barco. Trocaram apenas algumas palavras antes de Kyllian se virar para Aedion e erguer a mão em despedida.
Aedion levantou a sua em resposta, e então Lysandra se transformou novamente.
Quando ela pousou no navio, retornando à sua forma humana e pegando o manto, foi para Ansel que ela caminhou.
Em silêncio, a metamorfa pôs a mão no ombro coberto por armadura da rainha. Ansel não fez tanto quanto olhar para cima.
— Quantos desses lança-chamas você tem? — Aedion perguntou a Rolfe.
O Lorde Pirata moveu o olhar de Ansel para a massa negra desaparecendo atrás deles. Sua boca se apertou.
— Não o suficiente para sobreviver a um cerco.
E nem mesmo os lança-chamas não fariam nada, absolutamente nada, uma vez que as torres de bruxa alcançassem os muros de Orynth.

Um comentário:

  1. Meu coração parou de bater
    MEU Deus, perdi a conta do quanto de palavrão que eu murmurei aqui nesse capítulo

    Rolfe, eu te amo, cara. Nunca nem falei mal de você S2

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Boa leitura, E SEM SPOILER!