29 de outubro de 2018

Capítulo 62

As Crochans não se dispersaram aos ventos.
Como uma, as Treze e as Crochans voaram para o sudoeste, em direção à parte mais externa dos Caninos. Para outro acampamento secreto, já que a localização do anterior estava bem e verdadeiramente comprometido. Mais distante de Terrasen, mas mais perto de Morath, pelo menos.
Um pequeno conforto, pensou Dorian, quando encontraram um lugar seguro para acampar durante a noite. As serpentes aladas poderiam ter conseguido continuar, mas as Crochans em suas vassouras não podiam voar por tanto tempo. Eles voaram até que a escuridão quase cegou todos eles, aterrissando apenas depois que as Sombras e as Crochans concordaram em um lugar seguro para ficar.
Vigias foram colocados, tanto no chão quanto no céu. Se as duas Matriarcas sobreviventes fossem retaliar por sua derrota humilhante, seria agora. As Crochans e Asterin passaram grande parte do seu tempo hoje deixando trilhas enganosas, mas só o tempo diria se eles escapariam.
A noite estava tão gelada que eles demoraram a erguer tendas, as serpentes aladas se amontoando contra uma das saliências rochosas. E, embora acender uma fogueira não fosse sábio, o frio ameaçava ser tão letal que Glennis pegou a chama sagrada do orbe de vidro, onde era mantido enquanto viajavam, e acendeu seu fogo. Outras seguiram o exemplo e, quando os encantamentos estavam no lugar para esconder o acampamento e suas fogueiras dos olhos inimigos, Dorian não podia esquecer inteiramente que as Matriarcas Dentes de Ferro os haviam encontrado independentemente disso.
Eles não tinham falado sobre onde iriam em seguida. O que fariam. Se finalmente se separariam finalmente ou se permaneceriam como um grupo unido.
Manon não perguntou ou forçou-as a uma aliança, para ir à guerra. Não exigiu saber para onde voavam, tal era a sua extrema necessidade de se afastar do acampamento esta manhã.
Mas o dia seguinte, Dorian pensou quando deslizou sob os cobertores de seu saco de dormir, um lampejo de sua própria chama aquecendo o espaço, o dia seguinte os forçaria a confrontar algumas coisas.
Com os ossos cansados, gelados, apesar da magia que o aquecia, Dorian afundou a cabeça contra o rolo de suprimentos que usava como travesseiro.
O sono quase o arrastara para baixo quando uma rajada de frio escorregou para dentro da tenda, depois desapareceu. Ele sabia quem era antes de ela se sentar ao lado do seu saco de dormir e, quando abriu os olhos, encontrou Manon sentada com as pernas encolhidas, braços apoiados sobre os joelhos.
Ela olhava para a escuridão de sua tenda, o espaço iluminado pela luz prateada das estrelas brilhantes em sua testa.
— Você não tem que usá-la o tempo todo — observou ele. — Estamos autorizados a tirá-las.
Olhos dourados deslizaram em direção a ele.
— Eu nunca vi você usar uma coroa.
— Os últimos meses não deram muito acesso à coleção real. — Ele se sentou. — E eu odeio usá-las de qualquer maneira. Era um peso impiedoso sobre minha cabeça.
Uma sugestão de sorriso.
— Esta não é tão pesada.
— Já que parece ser feita da própria luz, imagino que não. — Embora essa coroa pesasse de outras maneiras, ele sabia.
— Então você está falando comigo — disse ela, sem se preocupar em seguir com leveza.
— Eu falei com você antes.
— É porque eu sou rainha agora?
— Você era rainha antes de hoje.
Seus olhos dourados se estreitaram, examinando-o em busca da resposta que ela procurava. Dorian a deixou fazer isso e devolveu o favor. A respiração dela estava firme, sua postura à vontade pela primeira vez.
— Pensei que seria mais satisfatório. Vê-la fugir. — A avó dela. — Quando matou o seu pai, o que sentiu?
— Raiva. Ódio. — Ele não se esquivou da verdade em suas palavras, a feiura.
Ela mordeu o lábio inferior, sem sinal daqueles dentes de ferro. Uma rara e silenciosa admissão de dúvida.
— Você acha que eu deveria tê-la matado?
— Alguns podem dizer que sim. Mas humilhá-la daquela maneira — falou ele, considerando — pode enfraquecer a ela e as forças Dentes de Ferro mais do que a sua morte. Matá-la poderia ter reunido as Dentes de Ferro contra você.
— Eu matei a Matriarca das Pernas Amarelas.
— Você a matou, poupou a bruxa Sangue Azul e sua avó fugiu. Essa é uma derrota desmoralizante. Se você tivesse matado todos elas, até mesmo matado apenas sua avó e a Matriarca Pernas Amarelas, poderia ter transformado suas mortes em nobres sacrifícios em nome dos clãs Dentes de Ferro.
Ela assentiu com a cabeça, seus olhos dourados fixando-se nele novamente com clareza e quietude sobrenatural.
— Sinto muito. Por sobre como falei quando soube dos seus planos de ir a Morath.
Ele ficou atordoado o suficiente para apenas pestanejar. Atordoado o suficiente para que o humor fosse seu único escudo, respondeu:
— Parece que o comportamento Crochan de fazer o bem está passando para você, Manon.
Um meio sorriso.
— A Mãe me ajude se eu me tornar tão chata.
Mas a diversão de Dorian desapareceu.
— Eu aceito suas desculpas. — Ele segurou seu olhar, deixando-a ver a verdade nele.
Parecia resposta suficiente para ela. Resposta, e de alguma forma a pista final para o que ela procurava.
Seus olhos dourados oscilaram.
— Você está indo embora — ela respirou. — Amanhã.
Ele não se incomodou em mentir.
— Sim.
Estava na hora. Ela havia enfrentado a avó e desafiara o que a criara. Era hora de ele fazer o mesmo. Ele não precisava do calor de confirmação de Damaris ou dos espíritos dos mortos para lhe dizer isso.
— Como?
— Vocês bruxas têm vassouras e serpentes aladas. Eu aprendi a fazer minhas próprias asas.
Por algumas respirações, ela não disse nada. Então abaixou os joelhos, virando-se para encará-lo completamente.
— Morath é uma armadilha mortal.
— É.
— Eu... nós não podemos ir com você.
— Eu sei.
Ele poderia jurar ter visto medo em seus olhos. No entanto, ela não se enfureceu com ele, rugiu para ele – nem sequer rosnou. Ela só perguntou:
— Você não tem medo de ir sozinho?
— Claro que tenho. Qualquer pessoa em sã consciência teria. Mas minha tarefa é mais importante que o medo, acredito.
A raiva cintilou em seu rosto, seus ombros enrijecendo.
Então desapareceu e foi substituída por algo que ele tinha visto apenas mais cedo hoje – o rosto daquela rainha. Firme e sábio, afiado com tristeza e brilhando com clareza. Seus olhos desceram para o saco de dormir, depois se ergueram para encontrar os seus.
— E se eu pedisse para você ficar?
A pergunta também o pegou de surpresa. Ele cuidadosamente pensou em sua resposta.
— Eu precisaria de uma razão muito convincente, suponho.
Seus dedos foram para as fivelas e botões de seus couros, e começaram a soltá-los.
— Porque eu não quero que você vá — foi tudo o que ela falou.
Seu coração trovejou quando ela revelou centímetro após centímetro de pele nua e sedosa. Não uma remoção sedutora de suas roupas, mas sim uma oferta desnudada.
Os dedos dela começaram a tremer, e Dorian se moveu finalmente, ajudando-a a tirar as botas, depois o cinto da espada. Ele deixou sua blusa aberta, as elevações de seus seios apenas visíveis entre as lapelas. Eles entraram em um ritmo irregular que só se tornou mais instável quando ela esticou os braços entre eles e começou a tirar a jaqueta dele.
Dorian permitiu. Deixou-a tirar sua jaqueta e depois a camisa por baixo.
Lá fora o vento uivava.
E quando se ajoelharam diante um do outro, nus da cintura para cima, aquela coroa de estrelas ainda em cima de sua cabeça, Manon disse suavemente:
— Poderíamos formar uma aliança. Entre Adarlan e as Crochans. E qualquer Dentes de Ferro que possa me seguir.
Era sua resposta, ele percebeu. Ao seu pedido por uma razão convincente para permanecer.
Ela pegou a mão dele e entrelaçou seus dedos.
 Era mais íntimo do que qualquer coisa que eles compartilharam, mais vulnerável do que ela jamais se permitiu ser.
— Uma aliança — disse ela, sua garganta tremendo — entre mim e você.
Seus olhos dourados se ergueram para os dele, a oferta brilhando ali.
Por casamento. Unir seus povos nos termos mais fortes e inquebráveis.
— Você não quer isso — ele falou com o mesmo tom de voz. — Nunca desejaria ser algemada a qualquer homem dessa maneira.
Ele podia ver a verdade lá, em seu belo rosto. Que ela concordava com ele.
Mas ela balançou a cabeça, a luz das estrelas dançando em seus cabelos.
— As Crochans não se ofereceram para voar para a guerra. Ainda não ousei pedir a elas. Mas se eu tivesse a força de Adarlan ao meu lado, talvez elas pudessem finalmente ser convencidas.
Se elas não tivessem sido convencidos pelo triunfo de hoje, então nada mudaria suas mentes. Até mesmo sua rainha oferecendo a liberdade que tanto ansiavam.
Que Manon até mesmo consideraria isso, porém…
Dorian enrolou uma mecha de seu cabelo prateado ao redor de seu dedo. Por um instante, ele se permitiu beber nela.
Ela seria sua esposa, sua rainha. Ela já era sua igual, seu par, seu espelho de muitas maneiras. E com a união deles, o mundo saberia disso.
Mas ele podia ver as barras da gaiola que se aproximavam mais e mais a cada dia. E a quebraria completamente, ou a transformaria em algo que nenhum deles desejava que ela fosse.
— Você se casaria comigo, tudo para que pudéssemos ajudar Terrasen nessa guerra?
— Aelin está disposta a morrer para acabar com esse conflito. Por que ela deveria suportar o peso do sacrifício?
E lá estava sua resposta, embora ele soubesse que ela não perceberia.
Sacrifício.
A outra mão de Dorian foi para os botões das calças dela e os libertou com algumas manobras hábeis. Revelando a cicatriz longa e grossa em seu abdômen.
Teria ele mostrado a contenção que Manon apresentou hoje, se tivesse enfrentado a avó dela?
Absolutamente não.
Ele passou os dedos pela cicatriz. Para cima e subindo pelo estômago. Para cima e para cima, sua pele se retorcendo sob seu toque, até que parou logo acima de seu coração. Até que ele colocou a palma da mão contra ela, a curva de seu seio subindo para encontrar sua mão a cada respiração instável que ela tomava.
— Você estava certo — ela disse baixinho. — Eu estou com medo. — Manon colocou a mão sobre a dele. — Medo que você vá a Morath e retorne como algo que não conheço. Algo que terei que matar.
— Eu sei. — Aqueles mesmos medos assombravam seus passos.
Seus dedos apertaram os dele, pressionando com mais força. Como se ela estivesse tentando imprimir sua mão no coração acelerado abaixo.
— Você ficaria aqui, se tivéssemos essa aliança entre nós?
Ele ouviu cada palavra não dita.
Então Dorian roçou sua boca contra a dela. Manon soltou um som baixo.
Dorian a beijou novamente, e a língua dela encontrou a sua, voraz e penetrante. Então as mãos dela mergulhavam em seu cabelo, ambos se erguendo sobre os joelhos para se encontrarem no meio do caminho.
Ela gemeu, as mãos deslizando do seu cabelo para o peito, até as calças. Ela acariciou-o através do tecido, e Dorian gemeu em sua boca.
O tempo girou e havia apenas Manon, uma lâmina viva em seus braços. Suas calças se juntaram às camisas e jaquetas no chão, e então ele estava deitando-a sobre seu saco de dormir.
Manon afastou as mãos dele para remover a coroa brilhante no topo da cabeça, mas ele a deteve com um toque fantasma.
— Não — ele disse, a voz quase gutural. — Deixe-a.
Seus olhos se tornaram puro ouro derretido, as pálpebras ficando pesadas enquanto ela se contorcia, inclinando a cabeça para trás.
Sua boca ficou seca com a beleza que ameaçava desfazê-lo, a tentação que todos os seus instintos rugiam para reivindicar. Não o corpo, mas o que ela tinha oferecido.
Ele quase disse sim, então.
Era quase egoísta o suficiente, ganancioso o suficiente por ela, que quase disse sim. Sim, ele a tomaria como sua rainha.
Assim, ele nunca teria que dar adeus a isso, de modo que essa bruxa magnífica e feroz permanecesse ao seu lado por todos os seus dias.
Manon estendeu a mão para ele, os dedos cravando em seus ombros, e Dorian se ergueu sobre ela, encontrando sua boca em um beijo saqueador.
Um movimento de seus quadris, e ele estava enterrado, a seda aquecida dela o suficiente para fazê-lo esquecer que eles tinham um acampamento ao redor deles, ou reinos para proteger.
Ele não se incomodou com toques fantasmas. Ele a queria toda para si mesmo, pele a pele.
A cada impulso dentro dela, Manon respondeu com seu próprio movimento exigente. Fique. A palavra ecoou em cada respiração.
Dorian pegou uma de suas pernas e ergueu-a mais alto, inclinando-se para mais perto. Ele gemeu com a perfeição disso, e Manon engoliu o som com um beijo próprio, uma mão apertando  seu traseiro para impulsioná-lo mais forte, mais rápido.
Dorian deu a Manon o que ela queria. Deu a si mesmo o que ele queria. De novo e de novo e de novo.
Como se pudesse durar para sempre.


A respiração de Manon estava tão irregular quanto a de Dorian quando finalmente se separaram.
Ela mal conseguia mover seus membros, mal conseguia respirar o suficiente enquanto olhava para o teto da tenda. Dorian, tão esgotado quanto ela, não se incomodou em tentar falar.
O que restava para ser dito, de qualquer maneira?
Ela expôs o que queria. Havia falado tanta verdade quanto ousava expressar.
Em seu despertar, uma espécie de saciedade iluminada brilhou. De um modo como ela não se sentia há muito, muito tempo.
Seus olhos de safira se demoraram no rosto dela, e Manon se virou para ele. Lentamente removeu sua coroa de estrelas e colocou-a de lado.
Então ela puxou os cobertores em volta dos dois.
Ele nem sequer se encolheu quando ela se aproximou mais, no músculo sólido de seu corpo.
Não, Dorian apenas colocou um braço sobre ela, e puxou-a firmemente contra si.
Manon ainda ouvia sua respiração quando adormeceu, aquecida em seus braços.


Ela acordou de madrugada em uma cama fria.
Manon deu uma olhada no lugar vazio onde o rei estivera, na falta de suprimentos e daquela antiga espada, e soube.
Dorian fora para Morath. E levara as duas chaves de Wyrd consigo.

3 comentários:

  1. O Dorian é muito burro ,mds!!!

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  2. Que CAGADA ele fez... no desfiladeiro ele não levou, aí leva as pedra para Morath??!! Burro...!

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