29 de outubro de 2018

Capítulo 61

Agonia era uma canção no sangue de Lorcan, seus ossos, sua respiração.
Cada passo do cavalo, cada salto que ela fazia sobre corpos e detritos, renovava a canção. Não havia fim, nem misericórdia. Tudo o que ele podia fazer era se manter na sela, se agarrar à consciência.
Manter o braço em volta de Elide.
Ela veio por ele. Encontrou-o, de algum modo, nesse infindável campo de batalha.
O nome dele em seus lábios tinha sido uma convocação que ele nunca poderia negar, mesmo quando a morte o embalara tão gentilmente, aninhado debaixo de todos aqueles que ele havia derrubado, e esperado por seus últimos suspiros.
E agora, indo em direção àquela fortaleza distante demais, tão distante além dos montes de soldados e cavaleiros que corriam para os portões, ele se perguntou se esses minutos seriam os últimos. Os últimos dela.
Ela veio por ele.
Lorcan conseguiu olhar para a represa à direita. Para o cavaleiro ruk sinalizando que era apenas uma questão de minutos até que se desencadeasse o inferno sobre a planície.
Ele não sabia como estava enfraquecido. Não se importou.
Farasha saltou sobre uma pilha de corpos valg e Lorcan não conseguiu impedir o gemido quando o sangue quente escorreu pela frente e pelas costas.
Ainda assim, Elide continuava incitando o cavalo para frente, mantendo-os em linha reta em direção à fortaleza distante tanto quanto possível.
Nenhum ruk viria pegá-los. Não, sua sorte foi gasta em sobreviver a tanto tempo, em ser encontrado. Seu poder não faria nada contra essa água.
As linhas mais distantes de soldados em pânico apareceram, e Farasha passou correndo por eles.
Elide soltou um soluço e ele seguiu a linha de sua visão. Para o portão da fortaleza, ainda aberto.
— Mais rápido, Farasha! — Ela não escondeu o terror cru em sua voz, o desespero.
Uma vez que a barragem se rompesse, levaria menos de um minuto para que a onda chegasse até eles.
Ela veio por ele. Ela o encontrou.
O mundo ficou em silêncio. A dor em seu corpo se desvaneceu em nada. Em algo secundário.
Lorcan deslizou o outro braço em volta de Elide, aproximando a boca do ouvido dela, enquanto dizia:
— Você tem que me deixar ir.
Cada palavra era grave, sua voz tensa quase ao ponto da inutilidade.
Elide não mudou seu foco da fortaleza à frente.
— Não.
Aquele suave silêncio fluiu ao redor dele, limpando a névoa de dor e batalha.
— Você precisa. Você precisa, Elide. Eu sou muito pesado – e sem o meu peso, você pode chegar à fortaleza a tempo.
— Não. — O sal de suas lágrimas encheu seu nariz.
Lorcan passou a boca pela bochecha úmida dela, ignorando a dor que rugia em seu corpo. O cavalo galopou e galopou, como se ela pudesse superar a própria morte.
— Eu te amo — ele sussurrou no ouvido de Elide. — Eu a amei desde o momento em que você pegou o machado para matar os ilken. — As lágrimas dela passaram por ele ao vento. — E eu estarei com você... — Sua voz quebrou, mas ele se forçou a dizer as palavras, a verdade em seu coração. — Eu estarei com você sempre.
Ele não estava com medo do que viria para ele uma vez que ele caísse do cavalo. Ele não estava assustado, se isso significava que ela alcançaria a fortaleza.
Então Lorcan beijou a bochecha de Elide novamente, permitiu-se respirar seu perfume uma última vez.
— Eu te amo — ele repetiu, e começou a puxar os braços ao redor de sua cintura.
Elide colocou a mão em seu antebraço. Cravou suas unhas, direto em sua pele, feroz como qualquer ruk.
— Não.
Não havia lágrimas em sua voz. Nada além de aço sólido e firme.
— Não — ela disse novamente. A voz da Senhora de Perranth.
Lorcan tentou mover o braço, mas seu aperto não foi desalojado.
Se ele caísse do cavalo, ela iria com ele.
Juntos. Eles ou fugiriam disso ou morreriam juntos.
— Elide...
Mas Elide bateu os calcanhares nas laterais do cavalo. Bateu com os calcanhares no flanco escuro e gritou:
 VOE, FARASHA. — Ela estalou as rédeas. — VOE, VOE, VOE!
E os deuses a ajudem, aquele cavalo voou.
Como se o deus que a criara tivesse enchido os pulmões da égua com a própria respiração, Farasha guinou em uma onda de velocidade.
Mais rápida que o vento. Mais rápida que a morte.
Farasha ultrapassou os primeiros da cavalaria Darghan em fuga. Passou por cavalos e cavaleiros desesperados em um galope para os portões.
Seu coração poderoso não vacilou, mesmo quando Lorcan sabia que estava enfurecido ao ponto de explodir.
Menos de um quilômetro e meio estava entre eles e a fortaleza. Mas um estalo trovejante e estridente partiu o mundo, ecoando no lago, nas montanhas.
Não havia nada que ele pudesse fazer, nada que um bravo e valente cavalo pudesse fazer, enquanto a represa se rompia.


Rowan começou a rezar por aqueles que estavam na planície, pelo exército prestes a ser varrido, quando a represa se rompeu.
A poucos metros de distância, Yrene também sussurrava suas preces. Para Silba, a deusa das mortes suaves. Que seja rápido, seja indolor.
Uma parede de água, grande como uma montanha, se soltou. E correu para a cidade, a planície, com a ira de mil anos de confinamento.
— Eles não vão conseguir — sibilou Fenrys, olhando para Lorcan e Elide, galopando na direção deles. Tão perto – tão perto, e ainda assim essa onda chegaria em questão de segundos.
Rowan se forçou a ficar parado ali, a assistir os últimos momentos da Senhora de Perranth e seu ex-comandante. Era tudo o que ele podia oferecer: testemunhar suas mortes, para que ele pudesse contar a história para aqueles que encontrasse.
Assim eles não seriam esquecidos.
O rugido da onda que se aproximava tornou-se ensurdecedor, mesmo a quilômetros de distância.
Elide e Lorcan ainda corriam, Farasha passando a galope cavalo após cavalo.
Mesmo aqui em cima, eles escapariam do alcance da onda? Rowan ousou examinar as ameias, para avaliar se ele precisava levar os outros, precisava levar Aelin, para um lugar mais alto.
Mas Aelin não estava ao seu lado.
Ela não estava na ameia.
O coração de Rowan parou. Simplesmente parou de bater quando um ruk marrom avermelhado desceu dos céus, voando pelo centro da planície.
Arcas, o ruk de Borte. Uma mulher de cabelos dourados pendurada em suas garras.
Aelin. Aelin estava...
Arcas se aproximava da terra, garras abertas.
Aelin atingiu o chão, rolando, rolando, até que se pôs de pé.
Bem no caminho daquela onda.
— Oh deuses — Fenrys respirou, vendo-a também.
Todos eles a viram.
A rainha na planície.
A interminável parede de água se erguendo sobre ela.
As pedras da fortaleza começaram a estremecer. Rowan estendeu a mão para se preparar, medo como nada que já tivesse sentido rasgar através dele quando Aelin levantou os braços acima da cabeça.
Uma coluna de fogo se ergueu em volta dela, levantando seu cabelo com ela.
A onda rugiu e rugiu para ela, para o exército atrás dela.
O tremor na fortaleza não era da onda.
Não era dessa parede de água.
Rachaduras se formaram na terra, se dividindo. Serpenteando a partir de Aelin.
— As fontes termais — Chaol respirou. — O chão do vale está cheio de veias da própria terra.
No coração ardente do mundo.
O torreão tremeu, mais violentamente desta vez.
O pilar de fogo foi sugado de volta para Aelin. Ela estendeu a mão diante dela, o punho fechado.
Como se isso fosse parar a onda em seu caminho.
Ele sabia então. Como seu parceiro ou seu carranam, ele sabia.
— Três meses — Rowan respirou.
Os outros pararam.
— Três meses — ele disse novamente, seus joelhos tremendo. — Ela está fazendo a descida em seu poder por três meses.
Todos os dias em que ela esteve com Maeve, presa em ferro, ela tinha ido mais fundo. E ela não tinha tocado muito nesse poder desde que eles a libertaram porque ela continuava fazendo o mergulho.
Para reunir todo o poder de sua magia. Não pelo cadeado, não por Erawan.
Mas para o golpe da morte de Maeve.
Algumas semanas de aprofundamento levaram seus poderes a níveis devastadores. Três meses disso...
Deuses sagrados. Deuses sagrados.
E quando o fogo atingiu a parede de água que se erguia sobre ela, quando colidiram...
 ABAIXEM-SE! — gritou Rowan, sobre as águas agitadas. — ABAIXEM-SE AGORA!
Seus companheiros caíram sobre as pedras, qualquer um dentro do alcance da voz fazendo o mesmo.
Rowan mergulhou em seu poder. Mergulhou rápido e forte, arrancando qualquer fragmento de magia restante. Elide e Lorcan ainda estavam longe demais dos portões. Milhares de soldados ainda estavam longe demais dos portões quando a onda se elevou acima deles.
Quando Aelin abriu a mão em direção a ela.
Fogo irrompeu.
Fogo cor de cobalto. A alma furiosa de uma chama.
Um maremoto dele.
Mais alto que as águas revoltas, explodiu dela, alargando-se.
A onda o acertou. E onde a água encontrou uma parede de fogo, onde mil anos de confinamento se encontraram com três meses dele, o mundo explodiu.
Vapor escaldante, capaz de derreter carne do osso, atravessou a planície.
Com um rugido, Rowan jogou tudo o que restava de sua magia para o vapor que se aproximava, uma parede de vento que o empurrou para o lago, as montanhas.
Ainda assim as águas vieram, quebrando-se contra as chamas que não cediam nem um centímetro.
O golpe da morte de Maeve. Gasto aqui para salvar o exército que poderia significar a salvação de Terrasen. Para poupar as vidas na planície.
Rowan rangeu os dentes, ofegando contra seu poder desgastante. Um esgotamento espreitava, mortalmente próximo.
A onda furiosa se atirou repetidamente contra a parede de chamas.
Rowan não viu se Elide e Lorcan conseguiram entrar na fortaleza. Se os outros soldados e cavaleiros na planície pararam para ficar boquiabertos.
A princesa Hasar disse, levantando-se ao lado dele:
— Esse poder não é uma benção.
— Diga isso a seus soldados — rosnou Fenrys, também de pé.
— Eu não quis dizer dessa maneira — Hasar reclamou, e a admiração era de fato gritante em seu rosto.
Rowan se apoiou nas ameias, ofegando enquanto lutava para impedir que o vapor letal fluísse em direção ao exército. Enquanto ele o esfriava e o mandava para longe.
Mãos sólidas deslizaram sob seus braços, e então Fenrys e Gavriel estavam lá, apoiando-o entre eles.
Um minuto se passou. Então outro.
A onda começou a diminuir. O fogo ainda queimava.
A cabeça de Rowan caiu, sua boca ficou seca.
O tempo escorregou dele. Um sabor acobreada encheu sua boca.
A onda baixou mais, águas furiosas se aquietaram. Então rugidos se transformaram em corredeiras, corredeiras em redemoinhos.
Até que a parede de fogo começou a baixar também. Seguindo as águas para baixo e para baixo e para baixo. Deixando infiltrar-se nas fendas da terra.
Os joelhos de Rowan se dobraram, mas ele segurou sua magia por tempo suficiente para diminuir o vapor. Para ele, também, ser acalmado.
Encheu a planície, transformando o mundo em névoa flutuante. Bloqueando a visão da rainha em seu centro.
Então silêncio. Silêncio absoluto.
O fogo cintilou através da neblina, azul se transformando em dourado e vermelho. Um brilho mudo e pulsante.
Rowan cuspiu sangue nas pedras da muralha, sua respiração como cacos de vidro em sua garganta.
As chamas brilhantes se encolheram, o vapor passou. Até que havia apenas um fino pilar de fogo, velado na planície envolta em névoa.
Não um pilar de fogo.
Mas Aelin.
Brilhando branco e quente. Como se ela tivesse se entregado tão completamente à chama que ela mesma se transformara em fogo.
A Portadora do Fogo, alguém sussurrou das ameias.
A névoa ondulou e levantou, transformando-a em nada além de uma efígie incandescente.
O silêncio tornou-se reverente.
Um vento suave do norte soprou. O véu de névoa recuou e lá estava ela.
Ela brilhava por dentro. Brilhava em dourado, mechas de seus cabelos flutuando em um vento fantasma.
— Herdeira de Mala — Yrene respirou.
Na planície, Elide e Lorcan haviam parado.
O vento afastou mais a neblina, limpando a terra além de Aelin.
E onde aquela poderosa onda letal se aproximava, onde a morte havia se lançado para eles, nada permanecia.


Durante três meses, ela cantou para a escuridão e a chama, e eles cantaram de volta para ela.
Por três meses, ela se enterrou tão profundamente em seu poder que atingira profundidades não descobertas. Enquanto Maeve e Cairn trabalhavam nela, ela mergulhara. Nunca deixando que eles soubessem o que ela extraía, o que ela reunia consigo, dia após dia após dia.
Um golpe mortal. Um para limpar uma rainha negra da terra para sempre.
Ela manteve esse poder enrolado em si mesma, mesmo depois de ter sido libertada dos ferros. Tinha lutado para mantê-lo sob controle estas semanas, a tensão enorme.
Em alguns dias, tinha sido mais fácil mal falar. Alguns dias, arrogância tinha sido a chave para ignorá-lo.
No entanto, quando viu aquela onda, quando viu Elide e Lorcan escolhendo a morte juntos, quando viu o exército que poderia salvar Terrasen, ela soube. Ela sentiu o fogo dormindo debaixo desta cidade, e sabia que eles tinham vindo aqui por uma razão.
Ela viera aqui por este motivo.
Um rio ainda fluía da represa, inofensivo e pequeno, indo em direção ao lago.
Nada mais.
Aelin ergueu uma mão brilhante diante dela quando abençoado, o vazio refrescante a encheu finalmente.
Lentamente, a partir da ponta dos dedos, o brilho desapareceu.
Como se ela fosse forjada novamente, forjada de volta em seu corpo.
De volta a Aelin.
Clareza, nítida e cristalina, encheu seu rastro. Como se ela pudesse ver novamente, respirar novamente.
Centímetro por centímetro, o brilho dourado desvaneceu-se de sua pele e ossos.
Em uma mulher mais uma vez.
Um falcão de cauda branca já se lançava para o céu.
Mas quando o último brilho desvaneceu, desaparecendo pelos dedos dos pés, Aelin caiu de joelhos.
Caiu de joelhos no silêncio absoluto do mundo e se enrolou de lado.
Ela tinha a vaga sensação de braços fortes e familiares pegando-a. De ser transportada para costas largas de penas, ainda naqueles braços.
De voar pelos céus, o que restou da névoa ondulando no sol da tarde.
E então doce escuridão.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!