29 de outubro de 2018

Capítulo 60

Rowan sabia que sua magia simplesmente atrasaria o inevitável. Ele tinha debatido voar para a represa, para ver se poderia manter a estrutura no lugar por tempo suficiente, se não pudesse parar o rio por inteiro, mas a força da coisa do outro lado... não poderia ser impedida.
Soldados e curandeiras corriam para a torre de vigia, os ruks dardejando pelo campo de batalha para levar os primeiros no caminho da água para a segurança. Mas não rápido o suficiente. Mesmo sem saber quando a represa romperia, não seria rápido o suficiente.
Lorcan estava atualmente entre aqueles correndo, ou ele conseguiu subir em um ruk?
— O poder — Fenrys disse baixinho para ele, segurando a parede escorregadia. — Era a única coisa que Connall e eu compartilhávamos.
— Eu sei — disse Rowan. Ele não deveria ter forçado. — Sinto muito.
Fenrys apenas balançou a cabeça.
— Eu não tenho conseguido aguentar desde então. Eu nem tenho certeza de que consigo usá-lo novamente — ele falou, e repetiu: — Sinto muito.
Rowan deu um tapinha no ombro dele. Outra coisa pela qual ele faria Maeve pagar.
— Você poderia nem tê-lo encontrado, de qualquer maneira.
 A mandíbula de Fenrys se apertou.
— Ele poderia estar em qualquer lugar.
— Ele poderia estar morto — murmurou a princesa Hasar.
— Ou ferido — interrompeu Chaol, dirigindo-se à borda da muralha para examinar o campo de batalha abaixo e a represa distante além dele.
Aelin, a poucos metros de distância, também olhava para ela, com o cabelo encharcado de sangue se soltando da trança no vento forte. Fluindo em direção àquelas montanhas, a destruição que em breve seria desencadeada.
Ela não disse nada. Não tinha feito nada desde que Nesryn e Sartaq trouxeram a notícia. Seu tipo exato de pesadelo, ele percebeu, ser incapaz de ajudar, ser forçado a assistir enquanto outros sofriam. Nenhuma palavra poderia confortá-la, nenhuma palavra poderia consertar isso. Parar isso.
— Eu poderia tentar rastreá-lo — Gavriel ofereceu.
 Rowan sacudiu seu medo arrepiante.
— Eu vou voar para fora, tentar localizá-lo, e sinalizar de volta para você.
— Não se incomode — disse a princesa Hasar, e Rowan estava prestes a rosnar sua réplica quando ela apontou para o campo de batalha. — Ela já está à sua frente.
Rowan girou, os outros seguindo o exemplo.
— Não — Fenrys respirou.
Ali, galopando pela planície em um familiar cavalo negro, estava Elide.
— Farasha — murmurou Chaol.
— Ela será morta — disse Gavriel, enrijecendo como se estivesse prestes a pular das ameias e correr atrás dela. — Ela vai...
Farasha saltou sobre corpos caídos, costurando entre os feridos e os mortos, Elide se contorcendo de um lado para o outro na sela. E, à distância, Rowan pôde ver sua boca se movendo, gritando uma palavra, um nome, repetidamente. Lorcan.
— Se algum de vocês for até lá — avisou Hasar — também morrerá.
Isso ia contra todos os instintos, contra os séculos de treinamento e batalhas ao lado de Lorcan, mas a princesa estava certa. Perder uma vida era melhor do que várias. Especialmente quando ele precisaria tanto de sua equipe durante o resto da guerra.
Lorcan concordaria – ensinara Rowan a fazer esse tipo de escolhas.
Ainda assim, Aelin permaneceu em silêncio, como se tivesse descido profundamente dentro de si, olhando para o campo de batalha.
Para a pequena cavaleira e o poderoso cavalo correndo por ele.


Farasha era uma tempestade sob ela, mas a égua não procurou desalojar Elide enquanto eles trovejavam pela planície coberta de corpos.
— Lorcan!
Seu grito foi engolido pelo vento, pelos berro dos soldados e pessoas em fuga, pelo grito dos ruks acima.
— Lorcan!
Ela procurou por todos os cadáveres pelos quais passara por um indício daquele cabelo preto brilhante, aquele rosto severo. Tantos. O campo dos mortos se estendia para sempre, os corpos se acumulavam em várias profundezas.
Farasha saltou sobre eles, fazendo curvas fechadas quando Elide girava para olhar, olhar e olhar.
Cavalos e cavaleiros Darghan passavam correndo. Alguns para a fortaleza, alguns para a floresta distante ao longo do horizonte. Farasha costurou entre eles, mordendo os que estavam em seu caminho.
— Lorcan! — Quão pequeno seu grito soou, quão fraco.
Ainda a represa se mantinha.
Eu sempre vou te encontrar.
E suas palavras, suas palavras estúpidas e odiosas para ele... Ela fez isso? Trouxe isto sobre ele? Pediu a algum deus para fazer isso?
Suas palavras tinham desaparecido no momento em que ela percebeu que ele não estava nas ameias. Os últimos meses tinham desaparecido completamente.
— Lorcan!
Sem falhar, Farasha continuou se movendo, sua crina preta fluindo no vento.
A barragem tinha que segurar. Iria segurar. Até que ela o trouxesse de volta para a fortaleza.
Então Elide não parou, não olhou para a desgraça que espreitava, esperando para ser libertada.
Ela cavalgou, cavalgou e cavalgou.


No topo da muralha, Chaol não sabia o que olhar: a represa, as pessoas fugindo da destruição que se aproximava, ou a jovem Senhora de Perranth, correndo pelo campo de batalha em cima de seu cavalo.
Uma mão quente pousou em seu ombro e ele sabia que era Yrene sem se virar.
— Acabei de ouvir sobre a represa. Eu tinha enviado Elide para ver se você estava... — as palavras de sua esposa se apagaram quando ela viu o cavaleiro solitário se afastando das massas que trovejavam pela fortaleza. — Silba a salve — Yrene sussurrou.
— Lorcan está lá embaixo — foi tudo o que Chaol disse como explicação.
Os machos feéricos estavam tensos como cordas de um arco enquanto a jovem cruzava o campo de batalha pouco a pouco. As chances de ela encontrar Lorcan, ainda antes de a represa explodir...
Mesmo assim Elide continuou cavalgando. Correndo contra a morte propriamente dita.
A princesa Hasar disse baixinho:
— A menina é uma tola. A mais valente que já vi, mas uma tola mesmo assim.
Aelin não disse nada, seus olhos distantes. Como se ela tivesse recuado em si mesma ao perceber que essa lasca de esperança estava prestes a ser lavada. Seus amigos com ela.
— Hellas guarda Lorcan — murmurou Fenrys. — E Anneith, sua consorte, vigia Elide. Talvez eles se encontrem.
— O cavalo de Hellas — disse Chaol.
Eles se viraram para ele, afastando os olhos do campo. Chaol balançou a cabeça e gesticulou para o campo, para a égua negra e sua cavaleira.
— Eu chamo Farasha de cavalo de Hellas. Eu fiz isso desde o momento em que a conheci.
Como se conhecer aquele cavalo, trazê-la aqui, não fosse tanto para ele como para isto. Para esta corrida desesperada através de um campo de batalha sem fim.
Yrene apertou a mão dele, como se ela também entendesse.
O silêncio caiu ao longo de sua seção da ameia. Não havia mais palavras a serem ditas.


— Lorcan!
A voz de Elide se quebrou no choro. Ela perdeu a conta de quantas vezes gritou até agora.
Nenhum sinal dele.
Ela se direcionou para o lago. Mais perto da represa. Ele teria escolhido o lago por suas vantagens defensivas. Corpos eram um borrão embaixo, ao redor delas. Tantos valg caídos no campo. Alguns ergueram as mãos pálidas para Farasha. Como se eles a agarrassem, a rasgassem, implorassem por ajuda.
A égua os pisoteou na lama, ossos quebrando e crânios estalando.
Ele tinha que estar aqui fora. Tinha que estar em algum lugar. Vivo, machucado, mas vivo.
Ela sabia disso.
O lago era uma mancha cinza à sua esquerda, uma zombaria do inferno a ser desencadeada a qualquer momento.
— Lorcan!
Elas chegaram ao coração do campo de batalha, e Elide reduziu a velocidade de Farasha o suficiente para ficar de pé nos estribos, ignorando a agonia em seu tornozelo. Ela nunca se sentiu tão pequena, tão inconsequente. Uma partícula de nada neste mar condenado.
Elide recostou-se na sela, cutucou o cavalo com os calcanhares e puxou Farasha mais para a extensão prateada cintilante. Ele tinha que ter ido para o lago.
O cavalo mergulhou em movimento, seu peito arfando como um fole poderoso.
Mais e mais, armadura preta e dourada, sangue e neve e lama. A represa ainda se mantinha.
Mas ali...
Elide puxou as rédeas, diminuindo a velocidade do cavalo.
Ali, não muito longe da beira da água, havia um punhado de soldados Morath abatidos. Uma área deles. Nem um único conjunto de armadura dourada. Mesmo onde o exército khagan atacou, eles haviam perdido soldados. A distribuição pelo campo de batalha não tinha sido uniforme, mas havia cadáveres em armaduras douradas entre a massa de negros.
No entanto, aqui não havia nenhum. Sem flechas ou lanças, para explicar a morte de tantos.
Uma verdadeira estrada de demônios valg fluía à frente.
Elide a seguiu. Examinou todos os cadáveres, todas as faces com capacete, a boca seca. Mais e mais, o rastro de sua destruição seguia.
Tantos. Ele matou tantos.
Sua respiração raspou em sua garganta quando se aproximaram do fim daquele rastro de morte, onde corpos dourados novamente começaram a aparecer.
Nada. Elide parou Farasha. Gavriel disse que ele o viu pela última vez aqui. Ele havia mergulhado atrás das linhas de seus aliados e saído de lá?
Ele poderia ter saído desse campo, ela percebeu. Poderia estar de volta à fortaleza, ou em Carvalhal, e ela teria cavalgado aqui por nada...
—Lorcan! — Ela gritou, tão alto que era uma maravilha sua garganta não sangrar. — Lorcan!
A represa permaneceu intacta. Quais de suas respirações seriam as últimas?
— LORCAN!
Um gemido de dor respondeu atrás dela.
Elide se torceu na sela e examinou o caminho de valgs mortos atrás dela.
Uma mão larga e bronzeada ergueu-se debaixo de uma pilha grossa deles e lutou por apoio no peitoral de um soldado. A cerca de seis metros de distância.
Um soluço saiu e Farasha trotou em direção àquela mão esticada e ensanguentada. O cavalo derrapou até parar, sangue voando de seus cascos. Elide se jogou da sela antes de se aproximar dele.
Armaduras e lâminas a cortavam, carne morta batendo contra sua pele enquanto ela empurrava cadáveres demoníacos, grunhindo com o peso deles. Lorcan a encontrou no meio do caminho, aquela mão se tornando um braço, depois dois – empurrando os corpos empilhados de cima dele.
Elide o alcançou assim que ele conseguiu desalojar um soldado esparramado sobre ele.
Elide deu uma olhada na lesão no meio de Lorcan e tentou não cair de joelhos.
Seu sangue escorria por toda parte, a ferida não estava fechada – não do jeito que os feéricos deveriam ser capazes de se curar. A lesão que o derrubara deveria sido catastrófica, se havia tomado todo o seu poder curá-lo este pouco.
Mas ela não disse isso. Não disse nada além de:
— A represa está prestes a quebrar.
Havia sangue negro espirrado no rosto pálido de Lorcan, seus olhos escuros embaçados pela dor.
Elide apoiou os pés, engoliu o grito de dor e segurou-o por baixo dos ombros.
— Precisamos tirar você daqui.
Sua respiração foi um grito úmido quando ela tentou levantá-lo. Ele poderia muito bem ser um pedregulho, poderia muito bem ter sido tão imóvel quanto a fortaleza em si.
— Lorcan — ela implorou, voz quebrando. — Nós temos que tirá-lo daqui.
Suas pernas se moveram, causando um gemido agonizante. Ela nunca o ouvira nem choramingar. Nunca o tinha visto incapaz de se levantar.
— Levante-se — disse ela. — Levante-se.
As mãos de Lorcan seguraram-lhe a cintura e Elide não pôde impedir-lhe o grito de dor pelo peso que ele depositou nela, os ossos do pé e do tornozelo rangendo juntos. Suas pernas mal se ajoelhando abaixo dele, ele fez uma pausa.
— Vamos — ela implorou. — Levante-se.
Mas seus olhos escuros se deslocaram para o cavalo.
Farasha se aproximou, seus passos vacilando sobre os cadáveres. Ela nem sequer se encolheu quando Lorcan agarrou as alças inferiores da sela, a outra mão no ombro de Elide, e moveu as pernas para baixo dele novamente.
Sua respiração ficou irregular. Sangue fresco escorria de seu abdômen, fluindo sobre os restos incrustados em sua jaqueta e calça.
Quando ele começou a se levantar, Elide viu a ferida cortando o lado esquerdo de suas costas.
A carne estava aberta – osso espiando ali dentro.
Oh, deuses. Oh, deuses.
Elide se abaixou ainda mais sob ele, até que o braço dele estava pendurado nos ombros dela. Com as coxas ardendo, o tornozelo gritando, Elide se levantou.
Lorcan puxou ao mesmo tempo, Farasha segurando firme. Ele gemeu novamente, seu corpo oscilando...
— Não pare — silvou Elide. — Não se atreva a parar.
Sua respiração veio em suspiros rasos, mas Lorcan esticou seus pés sob ele, centímetro por centímetro.
Deslizando o braço do ombro de Elide, ele cambaleou para segurar a sela. Para se agarrar a ela.
Ele ofegou e arquejou, sangue fresco escorrendo de suas costas também.
Essa cavalgada seria agonia. Mas eles não tinham escolha. Nenhuma mesmo.
— Agora para cima. — Ela não o deixou ouvir seu terror e desespero. — Suba nessa sela.
Ele apoiou a testa contra a lateral escura de Farasha. Balançando o suficiente para que Elide passasse um braço cuidadoso ao redor de sua cintura.
— Você não morreu — ela retrucou. — E não está morto ainda. Nós não estamos mortos ainda. Então suba nessa sela.
Quando Lorcan não fez mais do que respirar, respirar e respirar, Elide falou de novo.
— Eu prometi sempre encontrá-lo. Eu prometi a você e você me prometeu. Eu vim por você por causa disso; eu estou aqui por causa disso. Eu estou aqui por você, entendeu? E se não subirmos nesse cavalo agora, não teremos chance contra essa represa. Nós vamos morrer.
Lorcan ofegou por outro batimento cardíaco. Então outro. E então, rangendo os dentes, as mãos brancas na sela, ele levantou a perna o suficiente para deslizar um pé no estribo.
Agora seria o verdadeiro teste: aquele poderoso empurrão para cima, o balanço de sua perna sobre o corpo de Farasha, para o outro lado da sela.
Elide se posicionou em suas costas, tão cuidadosa com o golpe terrível em seu corpo. Seus pés afundaram até o tornozelo na lama congelante. Ela não se atreveu a olhar para a represa. Ainda não.
— Suba. — Seu comando superou os gritos de pânico dos soldados em fuga. — Suba nessa sela agora.
Lorcan não se moveu, seu corpo tremendo.
Elide gritou:
— Suba agora! — E empurrou-o para cima.
Lorcan soltou um berro que soou em seus ouvidos. A sela gemeu com o peso dele, e o sangue jorrou de suas feridas, mas então ele estava subindo no ar, em direção às costas do cavalo.
Elide jogou seu peso nele, e algo estalou em seu tornozelo, tão violentamente que a dor explodiu através dela, cegando e sem fôlego. Ela tropeçou, perdendo o controle. Mas Lorcan estava de pé, com a perna do outro lado do cavalo. Ele se debruçou sobre ela, um braço embalando seu abdômen, cabelos escuros baixos o suficiente para roçar as costas de Farasha.
Apertando a mandíbula contra a dor no tornozelo, Elide se endireitou e olhou a distância.
Um longo braço ensanguentado desceu em sua linha de visão. Uma oferta. Ela o ignorou. Ela o colocou na sela. Não estava prestes a derrubá-lo novamente.
Elide recuou um passo, mancando. Não se permitindo registrar a dor, Elide correu alguns passos até Farasha e saltou.
A mão de Lorcan segurou a parte de trás de sua jaqueta, a respiração saindo dela quando seu estômago atingiu o canto duro da sela, e Elide se agarrou para conseguir.
A força no braço de Lorcan não vacilou quando ele a puxou quase até seu colo. Quando grunhiu de dor enquanto ela se endireitava.
Mas conseguiu. Colocou as pernas uma de cada lado do cavalo e pegou as rédeas. Lorcan passou o braço em volta de sua cintura, o corpo brutalizado uma massa sólida nas costas dela.
Elide finalmente se atreveu a olhar para a represa. Um ruk subiu, agitando freneticamente uma faixa dourada.
Em breve. Ela quebraria em breve.
Elide reuniu as rédeas de Farasha.
— Para a fortaleza, amiga — disse ela, fincando os calcanhares nas laterais do cavalo. — Mais rápido que o vento.
Farasha obedeceu. Elide bateu contra Lorcan quando a égua disparou a galope, ganhando outro gemido de dor. Mas ele permaneceu na sela, apesar dos passos rápidos que traziam respirações agonizantes.
— Mais rápido, Farasha! — Elide incitou o cavalo enquanto a conduzia para a fortaleza, a montanha em que havia sido construída.
Nada havia parecido tão distante.
Longe o suficiente para que ela não conseguisse ver se o portão inferior da torre ainda estava aberto. Se alguém o segurava, esperava por eles.
Segure o portão.
Segure o portão.
Cada batida estrondosa dos cascos de Farasha, sobre os cadáveres dos mortos, ecoava a oração silenciosa de Elide enquanto corriam pela planície sem fim.
Segure o portão.

Um comentário:

  1. E foi bem aqui que eu infartei de orgulho AAAAA manooo QUE SHIPPER
    QUE CASAL

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Boa leitura, E SEM SPOILER!