5 de outubro de 2018

Capítulo 6

EU ESTAVA TÃO PERTO DE MALIK que vi o desespero em seu rosto um momento antes de se transformar em ação. Mas eu era mais rápida do que seu cérebro estúpido podia acompanhar. Caí de joelhos um segundo antes da arma disparar. A bala atingiu o muro atrás de mim sem causar dano a ninguém. Malik caiu no chão em seguida, com um novo colar vermelho desenhado pela espada de Shazad.
Mas ainda não havia terminado.
— Finalmente, hein? — eu disse a Shazad, ficando de pé enquanto levantava as mãos. Do outro lado das muralhas de Saramotai, o deserto levantou em resposta.
Após usar apenas um punhado de areia dentro da prisão, ter tudo aquilo ao meu alcance era quase intoxicante.
— Que bom que conseguiu não tomar um tiro dessa vez. — Shazad girou comigo para encarar o restante dos soldados. — Mas ainda me deve os vinte fouzas.
— O dobro ou nada? — ofereci por cima do ombro enquanto nos posicionávamos de costas uma para a outra.
O capitão já estava dando ordens aos soldados confusos, recuperando-se bem rápido, considerando que um novo inimigo tinha acabado de aparecer do nada.
— Delila! — Shazad gritou, dando suas próprias ordens. — Pode parar agora.
A ilusão foi suspensa como uma cortina se abrindo antes de um show. De repente, metade dos homens do sultão que estavam ali de pé apareceram caídos no chão, com nossos rebeldes ocupando seus lugares, de armas em punho. Atrás deles estava Delila, o rosto todo inocente, o cabelo roxo cobrindo os olhos arregalados e assustados. Ela baixou as mãos, tremendo com o esforço. Estava assustada, mas o medo não a impedia de agir.
— Navid! — Atrás de mim, Imin o identificou imediatamente na multidão de rebeldes.
Alto e moldado pelo deserto, Navid era um dos nossos novatos de Fahali. Não tínhamos planejado recrutar pessoas lá, mas após a batalha muitos quiseram se juntar a nós. Ele era um dos melhores, forte e resistente o bastante para sobreviver à guerra que estávamos travando. E parecia convicto de que tínhamos uma chance. Era difícil não gostar dele. Mas ainda me surpreendia que Imin tivesse se apaixonado.
Navid suspirou de alívio quando a identificou, reconhecendo-a independente da aparência. Ele baixou a guarda ao ver que Imin estava viva. Eu notei isso, e o soldado à sua direita também.
O deserto se derramou por cima dos muros de Saramotai, cascateando ao redor da escultura da princesa Hawa e derrubando os soldados no chão. Lancei um golpe de areia na direção do soldado que teria matado Navid, derrubando-o, e trazendo a atenção de Navid de volta para o combate.
— Cuidado, Navid!
Eu já virava para o outro lado. A areia se transformou num furacão ao meu redor. Desci o braço, jogando areia no rosto de um soldado que atacava Delila. Ouvi um grito atrás de mim. Girei a tempo de ver um soldado vindo na minha direção com a espada em punho. Comecei a reunir areia para formar uma lâmina, mas ia demorar muito, e não era preciso. Aço zuniu contra aço. A espada de Shazad passou a um centímetro de distância da minha garganta, bloqueando a arma do soldado. O sangue que estaria na espada inimiga pulsou alto nos meus ouvidos. Com um movimento, rápido demais para que eu pudesse acompanhar, o guarda estava no chão.
— Você deveria seguir seu próprio conselho — Shazad disse, e me passou uma arma.
— Por que eu precisaria tomar cuidado se tenho você? — Peguei a pistola, mas era tarde demais para atirar. Em vez disso, acertei o rosto do soldado mais próximo com o cabo, a pancada reverberando pelo meu braço, o sangue do nariz dele espirrando na minha mão.
A luta seria curta e sangrenta. Já havia mais soldados no chão do que de pé.
Atirei.
Mais um caído. Virei para procurar o próximo alvo.
Não vi direito o que aconteceu em seguida. Apenas fragmentos.
Notei outra arma no canto do meu campo de visão e ergui a minha. A exaustão me deixava lenta. Minha mente não entendia o que via.
A arma não estava apontada para mim.
O alvo era Samira. E o soldado já estava com o dedo no gatilho.
Tudo aconteceu numa fração de segundo.
Ranaa se moveu.
Ele atirou.
A bala impiedosa atravessou seu khalat verde e sua pele.
Uma fração de segundo e pronto. A luta havia terminado tão rápido quanto começara.
No silêncio, eu só ouvia Samira gritando por Ranaa enquanto o sangue da pequena demdji escorria, o pequeno sol em sua mão morrendo com ela.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!