29 de outubro de 2018

Capítulo 5

O comandante do beco alegara que suas últimas ordens haviam sido despachadas de Doranelle.
Nenhum deles sabia se acreditava nele. Sentado ao redor de uma pequena fogueira em um campo empoeirado nos arredores de uma cidade em ruínas, o sangue há muito lavado de suas mãos, Lorcan Salvaterre refletiu sobre a lógica disso.
Eles tinham, de alguma forma, esquecido a opção mais simples? De Maeve ter estado em Doranelle esse tempo todo, escondida de seus súditos?
Mas aquele comandante estava mentindo. Ele cuspiu no rosto de Lorcan antes que terminassem.
O outro comandante que eles haviam encontrado hoje, no entanto, depois de uma semana caçando-o no porto mais próximo, alegou ter recebido ordens de um reino distante que haviam vasculhado há três semanas. Na direção oposta de Doranelle.
Lorcan raspou o pé na terra.
Nenhum deles sentia vontade de falar, porque o comandante desta tarde contradizia a afirmação do primeiro.
— Doranelle é a fortaleza de Maeve — Elide falou por fim, sua voz firme preenchendo o pesado silêncio. — Simples como é, faria sentido ela levar Aelin para lá.
Whitethorn apenas olhou para o fogo. Ele não lavara o sangue de sua jaqueta cinza escura.
— Seria impossível, mesmo para Maeve, mantê-la escondida em Doranelle — retrucou Lorcan. — Nós já teríamos ouvido falar disso a essa hora.
Ele não tinha certeza de quando falara pela última vez com a mulher diante dele. Ela não recuou enquanto ele quebrava os comandantes de Maeve, no entanto. De encolhera durante o pior, sim, mas ouvira cada palavra que Rowan e Lorcan haviam arrancado deles. Lorcan supôs que ela tivesse visto pior em Morath – odiava esse fato. Odiava que o monstro do tio dela ainda respirasse.
Mas essa perseguição viria depois. Depois que eles encontrassem Aelin. Ou o que restasse dela.
Os olhos de Elide ficaram frios, tão frios, quando ela disse:
— Maeve conseguiu esconder Gavriel e Fenrys de Rowan na Baía da Caveira. E de alguma forma se ocultou e se afastou de toda a sua frota.
Lorcan não respondeu. Elide continuou, com o olhar inabalável:
— Maeve sabe que Doranelle seria a escolha óbvia – a escolha que provavelmente rejeitaríamos porque é simples demais. Ela previu que acreditaríamos que Aelin seria levada para os confins mais longínquos de Erilea, em vez de voltar para casa.
— Maeve teria a vantagem de um exército facilmente convocado — acrescentou Gavriel, sua garganta tatuada ondulando. — O que tornaria o resgate difícil.
Lorcan se absteve de dizer a Gavriel para calar a boca. Ele não deixou de notar quantas vezes Gavriel se esforçara para ajudar Elide, para conversar com ela. E, sim, uma pequena parte dele era grata por isso, já que os deuses sabiam que ela não aceitaria qualquer tipo de ajuda dele.
Hellas maldito, ele teve que recorrer a dar sua camisa cortada para Whitethorn e Gavriel entregarem a ela para o seu ciclo. Ele ameaçou esfolá-los vivos se dissessem que era dele, e Elide, com seu olfato humano, não sentia seu cheiro no tecido.
Ele não sabia porque se incomodara. Não esquecera as palavras dela naquele dia na praia.
Espero que você passe o resto de sua vida imortal em sofrimento miserável. Espero que você passe sozinho. Espero que viva com pesar e culpa em seu coração e nunca encontre uma maneira de suportá-lo.
Seu voto, sua maldição, o que quer que tenha sido, se manteve verdadeiro. Cada palavra. Ele quebrara alguma coisa. Algo precioso além da medida. Ele nunca se importara até agora.
Mesmo o juramento de sangue quebrado, uma ferida ainda aberta dentro de sua alma, não chegava perto do buraco em seu peito quando ele olhava para ela.
Ela lhe oferecera um lugar em Perranth sabendo que ele seria um homem desonrado.
Ofereceu-lhe um lar com ela.
Mas não fora a quebra do juramento de Maeve que rescindira a oferta. Fora uma traição tão grande que ele não sabia como consertar.
Onde está Aelin? Onde está a minha esposa?
A esposa de Whitethorn e sua parceira. Apenas esta missão deles, esta busca sem fim para encontrá-la, impedia Lorcan de mergulhar em um abismo do qual ele sabia que não emergiria.
Talvez, se eles a encontrassem, se ainda restasse o suficiente de Aelin para salvar depois dos castigos de Cairn, ele encontrasse uma maneira de viver consigo mesmo. De suportar esta... pessoa que ele se tornou. Poderia levar outros quinhentos anos para isso. Ele não se permitiu considerar que Elide seria pouco mais do que poeira até lá. Só o pensamento foi suficiente para transformar o jantar insignificante de pão velho e queijo em pedra em seu estômago.
Um idiota – ele era um tolo imortal e estúpido por enveredar por esse caminho com ela, por ter se esquecido que, mesmo que ela o perdoasse, a mortalidade dela continuaria.
— Também faria sentido Maeve ir até os acadianos — Lorcan finalmente falou — como afirmou o comandante hoje. Maeve há muito tempo mantém laços com esse reino. — Ele, Whitethorn e Gavriel tinham ido à guerra e voltado naquele território arrasado de areia. Ele nunca quis colocar os pés lá novamente. — Os exércitos deles a protegeriam.
Pois seria preciso um exército para impedir que Whitethorn alcançasse sua parceira. Ele se virou para o príncipe, que não dava indicação de que escutava. Lorcan não queria considerar se Whitethorn em breve precisaria adicionar uma tatuagem ao outro lado do rosto.
— O comandante hoje foi muito mais acessível — prosseguiu Lorcan para o príncipe ao lado de quem lutara por tantos séculos, que fora um bastardo de coração frio como o próprio Lorcan até a última primavera. — Você mal o ameaçou e ele cantou para nós. Aquele que alegou que Maeve estava em Doranelle ainda estava zombando no final.
— Acho que ela está em Doranelle — interrompeu Elide. — Anneith me disse para ouvir naquele dia. Ela não fez isso nas outras duas vezes.
— É algo a considerar, sim — disse Lorcan, e os olhos de Elide reluziram de irritação. — Não vejo razão para acreditar que os deuses seriam tão claros.
— Diz o homem que sente o toque de um deus falando-lhe quando correr ou lutar — retrucou Elide.
Lorcan a ignorou, essa verdade. Ele não sentia o toque de Hellas desde os Pântanos de Pedra. Como se até mesmo o deus da morte fosse repelido por ele.
— A fronteira de Acádia fica a três dias daqui. Sua capital, três dias além disso. Doranelle está a mais de duas semanas de distância, se viajarmos com pouco descanso.
E o tempo não estava do lado deles. Com as chaves de Wyrd, com Erawan, com a guerra certamente se alastrando no continente de Elide, qualquer atraso teria um custo. Sem mencionar o que, sem dúvida, cada dia trazia à rainha de Terrasen.
Elide abriu a boca, mas Lorcan a interrompeu.
— E então chegar à fortaleza de Maeve, exaustos e famintos... Não teremos chance. Sem mencionar que com o véu que ela pode manejar, poderíamos muito bem passar por Aelin e nunca saber disso.
As narinas de Elide dilataram, mas ela se virou para Rowan.
— A decisão é sua, príncipe.
Não apenas um príncipe, não mais. Consorte da Rainha de Terrasen. Por fim, Whitethorn levantou a cabeça. Quando aqueles olhos verdes se fixaram nele, Lorcan resistiu ao peso em seu olhar, o domínio inato. Ele estava esperando Rowan reivindicar a vingança que ele merecia, esperando por aquele golpe. Ansiando por ele. Golpe que nunca veio.
— Chegamos tão longe ao sul — Rowan disse por fim, com a voz baixa. — É melhor ir à Acádia do que arriscar aventurar-nos até Doranelle para descobrir que estávamos errados.
E foi isso. Elide apenas lançou um olhar atravessado para Lorcan e se levantou, murmurando sobre as necessidades antes de ir dormir. Seu passo se manteve firme enquanto pisoteava a grama – graças ao suporte que Gavriel mantinha em torno de seu tornozelo.
Deveria ser a magia dele ajudando-a. Tocando sua pele. Seus passos se tornaram distantes, quase silenciosos. Ela costumava ir mais longe do que o necessário para evitar que eles ouvissem qualquer coisa. Lorcan deu-lhe alguns minutos antes de espreitar no escuro atrás dela.
Ele encontrou Elide já voltando, e ela parou em cima de uma pequena colina, pouco mais do que um monte de terra no campo.
— O que você quer.
Lorcan continuou andando, até que estava na base da colina, e parou.
— Acádia é a escolha mais sábia.
— Rowan também decidiu isso. Você deve estar tão satisfeito.
Ela tentou passar por ele, mas Lorcan entrou em seu caminho. Ela esticou o pescoço para olhar o rosto dele, mas ele nunca se sentira menor. Mais baixo.
— Eu não sugeri Acádia para irritá-la — ele conseguiu dizer.
— Eu não me importo. — Ela tentou contorná-lo, Lorcan facilmente continuou à frente dela. — Eu não... — as palavras o sufocavam. — Eu não queria que isso acontecesse.
Elide soltou uma risada baixa e maliciosa.
— Claro que não queria. Por que você iria querer que sua maravilhosa rainha abrisse mão do juramento de sangue?
— Eu não me importo com isso. — Ele não se importava. Nunca falou palavras mais verdadeiras. — Eu só quero fazer as coisas direito.
O lábio dela franziu.
— Eu estaria inclinada a acreditar nisso, se não tivesse visto você rastejando atrás de Maeve na praia.
Lorcan piscou com as palavras, o ódio nelas, atordoado o suficiente para deixá-la passar dessa vez. Elide não olhou para trás. Não até Lorcan falar:
— Eu não rastejei atrás de Maeve. — Ela parou, o cabelo balançando ao vento. Lentamente, ela olhou por cima do ombro. Imperiosa e fria como as estrelas no céu. — Eu rastejei... — sua garganta tremeu. — Eu rastejei atrás de Aelin. — Ele recordou a areia ensanguentada, os gritos da rainha, seus pedidos finais e imploradores para Elide. Afastou tudo isso e continuou: — Quando Maeve rompeu o juramento, não consegui me mover, mal consegui respirar.
Tal foi a agonia que Lorcan não conseguia imaginar como seria romper o juramento sozinho, sem convite. Não era o tipo de dor da qual se saía andando. O juramento podia ser contornado, esticado. Que Vaughan, o último da equipe, ainda sem dúvida vagueasse pelas florestas do norte em sua “caçada” por Lorcan, era prova suficiente de que as restrições do juramento de sangue podiam ser contornadas. Mas romper completamente com sua própria vontade, encontrar uma maneira de romper a corda, seria abraçar a morte.
Ele se perguntou durante esses meses se deveria ter feito exatamente isso.
Lorcan engoliu em seco.
— Eu tentei chegar até ela. Até Aelin. Eu tentei chegar àquela caixa. — Ele acrescentou tão baixo que só Elide podia ouvir: — eu juro.
Sua palavra era sua ligação, a única moeda que ele se importava em negociar. Ele disse isso a ela que uma vez, durante aquelas semanas na estrada. Nada passou por seus olhos para dizer que ela se lembrava.
Elide apenas voltou para o acampamento. Lorcan permaneceu onde estava. Ele tinha feito isso. Trouxe tudo sobre ela, sobre eles. Elide chegou à fogueira e Lorcan a seguiu por fim, aproximando-se do círculo de luz a tempo de vê-la sentar ao lado de Gavriel, os lábios apertados.
— Ele não estava mentindo, você sabe. — O Leão murmurou para ela.
Lorcan travou a mandíbula, não fazendo nenhuma tentativa de disfarçar seus passos. Se os ouvidos de Gavriel foram afiados o suficiente para ouvir cada palavra da conversa, o Leão certamente sabia que ele estava se aproximando. E certamente sabia melhor do que enfiar o nariz em seus assuntos.
Ainda assim, Lorcan se viu examinando o rosto de Elide, esperando pela resposta dela.
E quando ela ignorou tanto o Leão quanto Lorcan, ele se viu desejando não ter falado nada.


O príncipe Rowan Whitethorn Galathynius, consorte, marido e parceiro da rainha de Terrasen, sabia que estava sonhando.
Ele sabia disso porque podia vê-la.
Havia apenas escuridão aqui. E vento. E um grande abismo entre eles.
Não existia fundo naquele abismo, aquela rachadura no mundo. Mas ele podia ouvir sussurros vindo dali, bem lá de baixo.
Ela estava de costas para ele, o cabelo soprando como uma folha de ouro. Mais longos do que quando a vira pela última vez.
Ele tentou se transformar para voar sobre o abismo. A magia inata de seu corpo o ignorou. Trancado em seu corpo feérico, distância longa demais para pular, ele só podia olhar para ela, respirar o cheiro dela – jasmim, verbena de limão e brasas crepitantes – enquanto flutuava para ele no vento. Este vento não lhe contava segredos, não cantava para ele.
Era um vento de morte, de frio, de nada.
Aelin.
Ele não tinha voz aqui, mas falou o nome dela. Jogou-o através do abismo entre eles.
Lentamente, ela se virou para ele. Era o rosto dela – ou seria daqui a alguns anos. Quando ela se Estabelecesse. Mas não foram os traços um pouco mais velhos que lhe tiraram o fôlego. Foi a mão na barriga arredondada dela. Ela olhou para ele, o cabelo ainda balançando ao vento. Atrás dela, quatro pequenas figuras surgiram.
Rowan caiu de joelhos. A mais alta: uma garota com cabelos dourados e olhos verde-pinho, solene e orgulhosa como a mãe. O garoto ao lado, quase da altura dela, sorriu para ele, quente e brilhante, os olhos de Ashryver quase reluzentes sob a cobertura de cabelos prateados. O menino depois dele, de cabelos prateados e olhos verdes, poderia muito bem ter sido o irmão gêmeo de Rowan. E a menina menor, agarrada às pernas de sua mãe... Uma criança de cabelos finos cor de prata, pouco mais que um bebê, seus olhos azuis remetendo a uma linhagem que ele não conhecia.
Crianças. Seus filhos. Os filhos deles. Com outra a meras semanas de nascer.
A família dele. A família que ele poderia ter, o futuro que poderia vir. A coisa mais linda que ele já viu.
Aelin.
Seus filhos se aproximaram dela, a menina mais velha olhando para Aelin em advertência.
Rowan sentiu aquilo então. Um vento negro, letal e poderoso passando por eles.
Ele tentou gritar. Tentou encontrar um caminho para chegar até eles. Mas o vento negro rugiu, rasgando e quebrando tudo em seu caminho.
Eles ainda olhavam para ele enquanto eram varridos também.
Até que só pó e sombra permanecessem.


Rowan despertou com um tremor, seu coração batendo freneticamente enquanto seu corpo gritava para se mover, para lutar.
Mas não havia nada e nem ninguém para lutar aqui, neste campo empoeirado sob as estrelas.
Um sonho. Aquele mesmo sonho.
Ele esfregou o rosto, sentando-se no seu saco de dormir. Os cavalos dormiam, sem sinal de aflição. Gavriel vigiava na forma de leão da montanha logo fora da luz da fogueira, os olhos brilhando no escuro. Elide e Lorcan não se moviam em seu sono pesado.
Rowan examinou a posição das estrelas. Apenas algumas horas até o amanhecer. E depois para Acádia – para aquela terra de arbustos e areia.
Enquanto Elide e Lorcan debatiam para onde ir, ele mesmo pesara. Sobre voar para Doranelle sozinho e arriscar perder dias preciosos no que poderia ser uma busca idiota.
Se Vaughan estivesse com eles, se Vaughan tivesse sido libertado, ele poderia ter despachado o guerreiro em sua forma de águia-pescadora para Doranelle enquanto eles seguiam para a Acádia.
Rowan voltou a considerar a ideia. Se ele forçasse sua magia, dobrando os ventos a seu favor, as duas semanas que levaria para chegar a Doranelle poderiam se tornar dias. Mas se de alguma forma ele encontrasse Aelin... ele travara batalhas suficientes para saber que precisaria da força de Lorcan e Gavriel antes que as coisas terminassem. Que ele poderia comprometer Aelin ao tentar libertá-la sem a ajuda deles. O que significaria voar de volta para eles, em seguida, fazer a viagem agonizantemente lenta para o norte.
E com a Acádia tão perto, a escolha mais sábia era procurar ali primeiro. Caso o comandante do dia ter falado a verdade. E se o que descobrissem em Acádia os levasse a Doranelle, então a Doranelle iriam. Juntos.
Mesmo que fosse contra todos os instintos como parceiro. Marido dela. Mesmo que todos os dias, todas as horas que Aelin passasse nas garras de Maeve provavelmente lhe causaria mais sofrimento do que ele poderia considerar.
Então eles viajariam para a Acádia. Dentro de alguns dias, entrariam nas planícies e depois nas distantes colinas secas além. Assim que as chuvas de inverno começassem, a planície estaria verde, viçosa – mas, depois do verão escaldante, as terras ainda eram marrons, cor de trigo, e a água, escassa.
Ele garantiria que estocassem no próximo rio. O suficiente para os cavalos também. A comida poderia faltar, mas havia chances de ser encontrada nas planícies. Coelhos magros e pequenos animais peludos que se entocavam na terra rachada. Precisamente o tipo de comida que Aelin torceria o nariz para comer.
Gavriel notou o movimento no acampamento e se aproximou, as patas maciças silenciosas, mesmo na grama seca como osso. Olhos amarelos inquisitivos piscaram para ele.
Rowan balançou a cabeça para a pergunta não formulada.
— Durma um pouco. Eu vou assumir.
Gavriel inclinou a cabeça em um gesto que Rowan sabia que significava Você está bem?
Estranho – ainda era estranho trabalhar com o Leão, com Lorcan, sem os laços do juramento de Maeve obrigando-os a fazê-lo. Saber que eles estavam aqui por escolha.
O que isso os tornava agora, Rowan não estava inteiramente certo.
Rowan ignorou a pergunta silenciosa de Gavriel e olhou para a fogueira cada vez menor.
— Descanse um pouco enquanto pode.
Gavriel não objetou enquanto andava até o seu saco de dormir, e se sentou sobre ele com um suspiro felino.
Rowan reprimiu a pontada de culpa. Ele estava empurrando-os com força. Eles não se queixaram, não pediram que diminuísse o ritmo cansativo que ele estabeleceu. Ele não sentiu nada no vínculo desde aquele dia na praia. Nada. Ela não estava morta, porque o vínculo ainda existia, mas ainda... estava em silêncio. Ele ficava refletindo durante as longas horas que viajavam, durante suas horas de vigia. Mesmo nas horas em que deveria estar dormindo.
Ele não sentiu dor através do vínculo naquele dia em Eyllwe. Sentiu-a quando Dorian Havilliard a apunhalou no castelo de vidro, sentiu o vínculo – o que ele tão estupidamente pensou ser o laço carranam entre eles – estendendo-se ao ponto de ruptura quando ela chegou tão perto da morte.
No entanto, naquele dia na praia, quando Maeve a emboscara, Cairn a chicoteara...
Rowan apertou a mandíbula com força suficiente para machucar, mesmo quando seu estômago revirou. Ele olhou para Goldryn, deitada ao lado dele no saco de dormir.
Gentilmente, ele colocou a lâmina diante dele, encarando o rubi no centro de seu cabo, a pedra ardendo à luz do fogo.
Aelin sentiu a flecha que ele tomou durante a luta com Manon no templo de Temis. Ou o suficiente de uma sacudida para saber, naquele momento, que eles eram parceiros.
No entanto, ele não sentira nada naquele dia na praia. Ele tinha a sensação de que sabia a resposta. Sabia que Maeve era provavelmente a causa disso, o amortecedor entre o que havia entre eles. Ela entrou em sua cabeça para enganá-lo e fazer pensar que Lyria era sua parceira, tinha enganado os próprios instintos que faziam dele um macho feérico. Não estaria além de seus poderes encontrar uma maneira de sufocar o que existia entre ele e Aelin, de impedi-lo de saber que ela estivera em tal perigo, e agora para impedi-lo de encontrá-la.
Mas ele deveria saber. Sobre Aelin. Não deveria ter esperado pelas serpentes aladas e os outros. Deveria ter voado direto para a praia, e não desperdiçado aqueles preciosos minutos.
Parceiro. Sua parceira. Ele deveria saber disso também. Mesmo que a raiva e o pesar o transformassem em um bastardo miserável, ele deveria saber quem ela era, o que ela era, desde o momento em que a mordera em Defesa Nebulosa, incapaz de impedir a vontade de reivindicá-la. No momento em que o sangue dela tocou sua língua e cantou para ele, e se recusou a deixá-lo em paz, seu gosto permanecendo por meses.
Em vez disso, eles brigaram. Ele se permitira brigar, tão perdido em sua raiva e gelo. Ela tinha sido tão furiosa quanto ele, e cuspira coisas tão odiosas e indizíveis que ele a tratou como qualquer um dos machos e fêmeas que estiveram sob seu comando e depois partiram, mas aqueles primeiros dias ainda o assombravam. Embora Rowan soubesse que se ele mencionasse a briga que tiveram com um pingo de vergonha, Aelin o xingaria como um tolo.
Ele não sabia o que fazer com a tatuagem em seu rosto, pescoço e braço. A mentira contada sobre sua perda, e a verdade que revelava sobre sua cegueira.
Ele passara a amar Lyria – isso era verdade. E a culpa o consumia vivo sempre que pensava nisso, mas ele podia entender agora. Por que Lyria estivera tão assustada com ele naqueles meses iniciais, por que foi tão difícil cortejá-la, mesmo com o vínculo da parceria, sua verdade também desconhecida para Lyria. Ela tinha sido gentil, calma e boa. Um tipo diferente de força, sim, mas não o que ele teria escolhido para si mesmo.
Ele se odiava por pensar isso. Mesmo quando a raiva o consumia ao pensamento, ao que havia sido roubado dele. De Lyria também. Aelin fora dele e ele fora dela desde o início. Mais do que isso. E Maeve pensou em quebrá-los, quebrá-la para conseguir o que queria.
Ele não deixaria isso ficar impune. Assim como não podia esquecer que Lyria, independentemente do que realmente existisse entre eles, carregava seu filho quando Maeve enviou aquelas forças inimigas para sua casa na montanha. Ele nunca iria perdoar.
Eu vou matar você, Aelin falou quando ouviu o que Maeve fizera. O quanto Maeve o manipulara, despedaçara e destruíra Lyria. Elide contara todas as palavras do encontro, repetidas vezes. Vou matá-la.
Rowan olhou para o coração ardente do rubi de Goldryn. Ele rezou para que o fogo, essa raiva, não tivesse quebrado. Ele sabia quantos dias se foram, sabia quem Maeve prometera para supervisionar a tortura. Sabia que as probabilidades estavam contra ela. Ele passou duas semanas amarrado na mesa de um inimigo. Ainda tinha a cicatriz no braço de um de seus dispositivos mais criativos.
Pressa. Eles tinham que se apressar.
Rowan se inclinou para frente, apoiando a testa no punho de Goldryn. O metal estava quente, como se ainda mantivesse um sussurro da chama de sua portadora.
Ele não havia posto os pés em Acádia desde a última e horrível guerra. Embora tivesse levado feéricos e soldados mortais para a vitória, nunca teve qualquer desejo de vê-la novamente.
Mas para a Acádia eles iriam. E se ele a encontrasse, se a libertasse... Rowan não se permitiu pensar além disso.
Para a outra verdade que eles enfrentariam, o outro fardo. Diga a Rowan que eu sinto muito por ter mentido. Mas que todo o tempo foi emprestado de qualquer maneira. Mesmo antes de hoje, eu sabia que tudo era apenas tempo emprestado, mas eu ainda gostaria que tivéssemos mais do que isso.
Ele se recusava a aceitar isso. Nunca aceitaria que ela seria o preço final para acabar com a guerra, para salvar seu mundo.
Rowan examinou o teto de estrelas no alto. Enquanto todas as outras constelações passavam, o Senhor do Norte permanecia, a estrela imortal entre os chifres apontando para casa. Para Terrasen.
Diga a ele que ele tem que lutar. Ele deve salvar Terrasen e lembrar os votos que fez para mim.
O tempo não estava do lado deles, não com Maeve, não com a guerra lá atrás em seu próprio continente. Mas ele não tinha intenção de voltar sem ela, pedido de despedida ou não, independentemente dos juramentos que fizera ao casar-se com ela para guardar e governar Terrasen.
E diga-lhe obrigado por percorrer aquele caminho sombrio comigo de volta à luz.
Foi honra dele. Desde o começo, foi honra dele, a maior de sua vida imortal.
Uma vida imortal que eles compartilhariam – de alguma forma. Ele não permitiria outra alternativa.
Rowan jurou em silêncio para as estrelas.
Ele poderia ter jurado que o Senhor do Norte piscou em resposta.

4 comentários:

  1. Tantas crianças (mesmo sendo um sonho poderia muito bem ser um futuro), tanto amor :'( e Aelin tão longe e com dor T_T

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  2. Eu realmente gosto do Lorcan.

    To me sentindo despedaçada pelo Rowan

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  3. Não estou aguentando, nunca antes um livro havia sido tão difícil de se enfrentar. É cada capítulo mais doloroso q o outro.

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  4. Eu gosto é assim, botando neguin pra chorar desde o começo! Hahahaha

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Boa leitura, E SEM SPOILER!