29 de outubro de 2018

Capítulo 58

Elide nem mesmo estivera nas ameias, e ela já desejava nunca mais suportar outra guerra.
Os soldados que foram trazidos para dentro, seus ferimentos... Ela não sabia como as curandeiras estavam tão calmas. Como Yrene Westfall trabalhava com tanta firmeza enquanto um homem gritava, gritava, gritava enquanto seus órgãos internos escorregavam pelo corte em sua barriga.
A fortaleza tremia de vez em quando, e Elide se odiava por estar feliz por não saber o que significava. Mesmo quando a corroía não saber como seus companheiros se saíram. Se o exército do khagan estava perto o suficiente para que esse pesadelo pudesse terminar em breve.
Ainda faltavam horas, a curandeira de pele escura e olhos afiados chamada Eretia alegara quando Elide vomitou ao ver um homem cuja tíbia espetava da perna. Horas ainda até que terminasse, a tenaz curandeira havia repreendido, então seria melhor terminar de vomitar e voltar ao trabalho.
Não que houvesse muita coisa que Elide pudesse fazer. Apesar do dom generoso de poder que corria pela linhagem de sangue de Lochan, ela não possuía magia, nenhum dom além de ler as pessoas e mentir. Mas ela ajudou as curandeiras a segurar homens que se debatiam. Correu para buscar ataduras, água quente e qualquer outro bálsamo ou ervas que as curandeiras calmamente pedissem.
Nenhuma delas gritava. Elas apenas erguiam suas vozes, magia brilhando ao redor delas, se um soldado berrava alto demais para que suas palavras fossem ouvidas.
O sol mal chegava ao horizonte, a julgar pela luz das janelas no alto do Grande Salão, e tantos já estavam feridos. Tantos.
Ainda assim eles continuaram chegando, e Elide continuou se movendo, seu coxear se tornando uma dor surda, depois uma dor aguda. Uma dor menor, comparada com a que os soldados suportavam. Comparada com o que eles enfrentavam nas ameias.
Ela não se deixou pensar em seus amigos. Não se permitiu pensar em Lorcan, que não havia fora aos aposentos deles na noite anterior e nem naquela manhã. Como se não quisesse ficar perto dela. Como se tivesse tomado todas as palavras odiosas que ela falou como verdade.
Então Elide ajudou as curandeiras de olhos atentos, segurando os homens que se esgoelavam e imploravam, e não parou.


Farasha não recuou dos soldados Morath que subiram nas ameias. Dos que emergiram da segunda torre de cerco que atracou na muralha, ou daqueles que subiram as escadas.
Não, aquele magnífico cavalo os atropelou, destemido e perverso, exatamente como Chaol previra. Um cavalo cujo nome significava borboleta – pisoteando todos os soldados valg.
Se o fôlego não fosse uma brasa no peito, Chaol poderia ter sorrido. Se os homens não tivessem sido abatidos ao redor dele, ele poderia ter rido um pouco também.
Mas Morath estava se lançando nos muros e portões com um furor que ainda não haviam testemunhado. Talvez soubessem quem tinha vindo a Anielle e agora os derrubava. Aelin e Rowan lutavam de costas um para o outro, e Fenrys abria caminho pelas ameias para se juntar a Chaol na segunda torre de cerco.
O braço da espada de Chaol não vacilou, apesar do cansaço que começou a se alojar enquanto uma hora, depois duas se passaram. Do outro lado do mar de soldados inimigos, os exércitos rukhin e Darghan se reuniram e esmagaram Morath entre suas forças, conduzindo-os para as muralhas da fortaleza.
Morath, ao que parecia, não pensava em se render. Apenas em infligir destruição, em invadir a fortaleza e abater tantos quantos pudessem antes de encontrarem seu fim.
Seu escudo ensanguentado e amassado, seu cavalo um demônio enfurecido debaixo dele, Chaol continuou golpeando com sua espada. Sua esposa estava dentro da fortaleza atrás dele. Ele não falharia com ela.


Nesryn ficou sem flechas cedo demais.
Morath não fugiu, mesmo com o poder dos cavaleiros Darghan e a infantaria sobre eles. Então eles avançaram lentamente, deixando corpos vestidos de negro e também de armaduras douradas em seu rastro. Mais soldados Morath do que os seus, mas era difícil – quase insuportável – ver tantos caírem. Ver os belos cavalos dos Darghan sem cavaleiro. Ou os mesmos caídos.
Os rukhin sofreram perdas, mas não tantas. Não agora que um exército lutava abaixo deles.
Sartaq liderava do centro e, de onde Nesryn comandava o flanco esquerdo, ela manteve um olho nele e em Kadara. Um olho em Borte e Yeran, liderando o flanco direito do lado oeste da batalha, Falkan Ennar em forma de ruk com eles. Talvez fosse imaginação sua, mas Nesryn poderia jurar que o metamorfo lutava com vigor renovado. Como se os anos devolvidos a ele aumentassem sua força.
Nesryn cutucou Salkhi e eles mergulharam novamente, os cavaleiros atrás dela seguindo o exemplo. Flechas e lanças subiram para encontrá-los, alguns soldados de Morath fugindo. Nesryn e Salkhi voltaram para o ar cobertos de mais sangue negro.
Bem acima de suas cabeças, duas patrulhas rukhin monitoravam a batalha. Enquanto Nesryn limpava o sangue negro do rosto, um cavaleiro mergulhou – direto para Sartaq.
Sartaq voava para longe uma batida do coração depois.
Nesryn sabia que ele chutaria sua bunda por isso, mas ela gritou para o capitão rukhin atrás dela para manter a formação, e incitou Salkhi até o príncipe.
— Volte para as fileiras — ordenou Sartaq ao vento, sua pele excepcionalmente pálida.
— O que há de errado? — ela perguntou.
Salkhi bateu as asas mais forte, alinhando-se com o ruk do príncipe.
Sartaq apontou para frente. Para a parede de montanhas além do lago e da cidade. Para a represa que ele mencionara tão casualmente destruir para limpar o exército de Morath.
A cada batida das asas de Salkhi, ficou mais claro. O que o enviou em uma corrida insana.
Um grupo de soldados de Morath tinha tomado a noite não para descansar, mas para se esgueirar através da cidade abandonada. Para escalar os contrafortes, depois a parede da montanha. Até a barragem em si.
Onde eles agora, com aríetes e esperteza perversa, procuravam rompê-la.
Salkhi se aproximou. Nesryn pegou uma flecha. Seus dedos se curvaram ao redor do ar.
Sartaq, no entanto, tinha duas flechas e disparou contra os trinta e tantos soldados de Morath que batiam com um enorme aríete no centro da represa. Madeira e pedra e ferro, antigos e agourentos. Algumas rachaduras, e desabaria.
E então o lago e o rio contidos atrás dela irromperiam através da planície.
Morath não se importava se suas próprias forças fossem levadas. Eles perderiam hoje de qualquer maneira.
Eles não permitiriam que o exército dos khagan saísse da planície, também.
Ambas as flechas de Sartaq encontraram seus alvos, porém os dois soldados que caíram não fizeram os outros soltarem o aríete. Mais uma vez, eles puxaram o aríete para trás – e o atiraram para frente.
bum de madeira contra madeira ecoou até eles. Eles subiram o suficiente para que os reforços de ferro na ponta do aríete se tornassem claros. Envolvido em ferro grosso, com espinhos destinados a triturar e furar. Se Salkhi e Kadara pudessem alcançá-lo, eles poderiam arrancar o ariéte de suas mãos...
Metal gemeu e retiniu, e o grito de aviso de Sartaq estilhaçou no ar.
Salkhi mergulhou instintivamente, avistando o enorme dardo de ferro antes de Nesryn. Um dardo disparado de um dispositivo de aparência pesada que eles devem ter arrastado até aqui. Para manter os ruks longe.
O dardo passou longe, acertando a rocha da montanha.
Teria perfurado o peito de Salkhi, diretamente em seu coração.
Com o estômago revirando, Nesryn subiu novamente, avaliando os soldados abaixo. Sartaq sinalizou de perto, Voamos em duas direções diferentes. Nos encontramos no centro.
Os ventos rugiam em seus ouvidos, mas Nesryn puxou as rédeas e Salkhi deu a volta em um amplo arco. Sartaq virou Kadara, a imagem espelhada da manobra de Nesryn.
— Tão rápido como puder, Salkhi! — Nesryn gritou para seu ruk.
Chegando à represa, aos soldados, Salkhi e Kadara planaram em direção um do outro, cruzaram caminhos, e subiram novamente. Ziguezagueando rápido como o próprio vento. Negando aos arqueiros um alvo fácil.
Um dardo disparou na direção de Sartaq e atravessou o ar acima dele, quase roçando sua cabeça.
O aríete bateu na madeira novamente.
Um som de rachadura soou desta vez. Um gemido profundo, como uma terrível fera despertando de um longo sono.
Outro dardo disparou para eles e errou. Nesryn e Sartaq passaram um pelo outro, voando tão rápido que seus olhos lacrimejaram. O vento cantou, cheio das vozes dos moribundos e feridos.
E então eles estavam lá, as garras de Salkhi esticadas quando ele acertou a máquina de ferro que tinha lançado aqueles dardos, quebrando-a. Soldados gritaram quando o ruk caiu sobre eles também.
Aqueles no aríete provocaram outra explosão trovejante contra a represa antes que Sartaq e Kadara os atacasse. Os homens voaram, alguns atingindo a represa. Alguns caindo em pedaços.
Kadara arremessou o aríete na face da montanha próxima, a madeira estilhaçando com o impacto. Rolou nas rochas e desapareceu.
Com o coração trovejando, a batalha na planície abaixo ainda furiosa, Nesryn virou Salkhi e avaliou a parede da represa, Sartaq fazendo o mesmo ao lado dela.
O que eles viram os fez voar de volta para a fortaleza tão rapidamente quanto os ventos conseguiram carregá-los.


Lorcan havia lutado para descer o interior sombrio e apertado da primeira torre de cerco, abatendo os soldados em seu caminho. Gavriel seguiu atrás dele, logo se aproximando enquanto Lorcan se encontrava segurando a entrada da torre contra os incontáveis soldados que tentavam entrar.
Os dois contiveram a maré, mesmo quando alguns dos brutamontes de Morath passaram por suas espadas. Whitethorn e a rainha estariam esperando para pegá-los.
Lorcan perdeu a noção de quanto tempo ele e Gavriel seguraram a entrada da torre de cerco – quanto tempo levaria até que suas forças conseguissem desalojá-la.
Sua magia seria inútil. A coisa toda era construída de ferro. As escadas também. Como se Morath tivesse antecipado a presença deles.
Apenas o gemido do metal em colapso os avisou que a torre estava caindo e os enviou correndo para o campo de batalha.
Onde eles se encontrariam do lado de fora dos portões. Fenrys e Lorde Chaol haviam aparecido nas ameias da muralha com arqueiros e atiraram nos soldados que correram para Lorcan e Gavriel.
Mas ele e o Leão já tinham marcado o próximo alvo: o aríete ainda batendo nos portões cada vez mais enfraquecidos. E com os arqueiros cobrindo-os de cima, eles começaram a abrir caminho até ele. E, em seguida, abatendo seu caminho ao longo do próprio aríete, até que ele caiu no chão, então foi esquecido na onda de soldados de Morath que vieram para eles.
A respiração de Lorcan tinha sido uma batida constante, uma força enquanto os corpos se empilhavam ao redor deles.
Eles precisavam apenas segurar o portão por tempo suficiente para o exército khagan superar a tropa de Morath.
Do alto, um vento rápido e brutal se somava à dança da morte, arrancando o ar dos pulmões de soldados que os atacavam, mesmo sabendo que Whitethorn continuava lutando nas ameias.
Lorcan perdeu novamente a noção do tempo. Apenas sabia vagamente que o sol formava um arco no céu.
Mas o exército khagan estava ganhando o campo, centímetro por centímetro.
O suficiente para que os ruks arrancassem as escadas de cerco das paredes da fortaleza. O suficiente para que Lorde Chaol gritasse para que ele e Gavriel escalassem uma escada de cerco e voltem aqui, inferno.
Gavriel obedeceu, avistando a escada de ferro livre de soldados de Morath sendo mantida no lugar apenas por tempo suficiente para que eles subissem de volta para as ameias.
Mas as forças do khagan estavam próximas. E uma cutucada no ombro de Lorcan disse-lhe para não correr, para lutar.
Então Lorcan ouviu. Ele não se incomodou em gritar para Gavriel, agora a meio caminho escada acima, antes de mergulhar na luta.
Ele foi criado para a batalha. Independentemente de qual rainha servia, se ela era feérica ou valg ou humana, isso era o que ele havia sido treinado para fazer.
O que alguma parte dele cantou para fazer.
Lorcan abriu seu próprio caminho em direção às linhas avançadas do khagan, alguns soldados de Morath fugindo em seu rastro. Alguns caindo antes de alcançá-los, sua magia tirando suas vidas.
Faltava pouco agora. Eles conquistariam o campo em breve, e a música em seu sangue se aquietaria.
Parte dele não queria que acabasse, mesmo quando seu corpo começou a gritar por descanso. No entanto, quando a batalha estivesse terminada, o que restaria?
Nada. Elide deixara isso claro o suficiente. Ela o amava, mas ela se odiava por isso.
Ele não a merecia de qualquer maneira.
Ela merecia uma vida de paz, de felicidade. Ele desconhecia tais coisas. Tinha pensado que as vislumbrara durante os meses em que viajaram juntos, antes que tudo fosse para o inferno, mas agora ele sabia que não era destinado a nada parecido.
Mas este campo de batalha, esta canção da morte ao redor dele... Isso ele podia fazer. Isso, ele poderia saborear.
Os capacetes dourados do exército khagan tornaram-se claros, seus impetuosos cavalos inabalados. Melhor do que qualquer tropa de um reino mortal que ele já lutara ao lado. E muitos reinos imortais também.
Obedecendo ao canto da morte em seu sangue, Lorcan deixou seus escudos caírem. Ele não desejava que fosse fácil. Ele queria sentir cada golpe, ver a vida do inimigo escoar sob sua espada.
Ele não se importava com o que viesse disso. Ninguém se importaria se ele voltasse para a fortaleza de qualquer maneira. Ele não recuou quando se engajou com os dez soldados que o atacaram.
Talvez ele merecesse o que aconteceu em seguida. Mereceu por seus pensamentos patéticos, ou sua arrogância em abaixar seus escudos.
Num momento, ele estava enviando os vermes de Morath de volta ao seu criador das trevas. Num momento, ele estava sorrindo, mesmo quando sentiu o gosto de seu sangue vil pulverizando o ar.
Um reluzir de metal em suas costas. Lorcan girou, a espada subindo, mas tarde demais.
A lâmina do soldado valg subiu. Lorcan arqueou, berrando enquanto a carne rasgava ao longo de sua espinha. Nenhuma armadura – não havia armadura que encaixasse em seu tronco.
O soldado de Morath se moveu de novo, mais hábil que os outros. Talvez o homem que ele tinha infestado tivesse alguma habilidade no campo de batalha, algo que o demônio usava em sua vantagem.
Lorcan mal conseguiu levantar a espada antes de o soldado mergulhar a sua no intestino de Lorcan.
Lorcan caiu, a espada fazendo barulho. A lama gelada atingiu seu rosto, como se o engolisse inteiro. O puxasse para baixo nas profundezas escuras do reino de Hellas, onde ele merecia estar.
A terra tremeu sob cascos trovejantes e flechas zuniram do alto.
Então houve um rugido. E então escuridão.

3 comentários:

  1. Não morre ainda não Lorcan, primeiro vc faz as pazes com a Elide

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  2. Bem quando eu realmente me apaixono pelo Lorcan essa merda acontece, aff¬¬

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Boa leitura, E SEM SPOILER!