29 de outubro de 2018

Capítulo 57

Uma hora antes do amanhecer, a fortaleza e os dois exércitos além se moviam.
Rowan mal havia dormido e, em vez disso, ficou acordado ao lado de Aelin, escutando sua respiração. O fato de os outros terem dormido profundamente era prova de sua exaustão, embora Lorcan não os tivesse encontrado novamente. Rowan estava disposto a apostar que era por escolha.
Não era o medo ou a antecipação da batalha que manteve Rowan acordado – não, ele dormiu bem o suficiente durante outras guerras. Mas, em vez disso, o fato de que sua mente não parava de saltar de pensamento em pensamento.
Ele tinha visto os números acampados do lado de fora. Valg, homens humanos leais a Erawan, alguns animais feridos, mas nada como os ilken ou os cães de Wyrd, ou mesmo as bruxas.
Aelin poderia expurgá-los antes que o sol se elevasse completamente. Algumas explosões de seu poder e esse exército desapareceria.
No entanto, ela não apresentou como uma opção em seu planejamento na noite passada. Ele tinha visto a esperança brilhando nos olhos das pessoas na fortaleza, a admiração das crianças quando ela passava. A Portadora do Fogo, elas sussurraram. Aelin do Fogo Selvagem.
Em quanto tempo temor e esperança desmoronariam hoje quando nem uma centelha desse fogo fosse desencadeado? Em quanto tempo o medo dos homens se tornaria patente quando a Rainha de Terrasen não destruísse as legiões de Morath?
Ele não tinha sido capaz de perguntar a ela. Tinha dito a si mesmo, tinha rugido a si mesmo para perguntar nas últimas semanas, quando nem mesmo o treinamento chamara uma brasa.
Mas ele não conseguia se obrigar a perguntar por que ela não podia ou não iria usar o seu poder, por que eles viram ou não sentiram nada depois daqueles primeiros dias de liberdade. Não conseguia perguntar o que Maeve e Cairn fizeram para possivelmente fazê-la temer ou odiar sua magia o suficiente para não tocá-la.
Preocupação e pavor o corroendo, Rowan escorregou do quarto, o barulho dos preparativos o cumprimentando no momento em que entrou no corredor. Um segundo depois, a porta se abriu atrás dele, e passos entraram em sincronia com os dele, junto com um cheiro familiar e perverso.
— Eles a queimaram.
Rowan olhou de soslaio para Fenrys.
— O quê?
Mas Fenrys acenou para uma curandeira que passava.
— Cairn – e Maeve, através de suas ordens.
— Por que está me contando isso?
Fenrys, com juramento de sangue ou não, o que ele fizera por Aelin ou não, não estava a par desses assuntos. Não, era entre ele e sua parceira, e mais ninguém.
Fenrys lançou-lhe um sorriso que não encontrou seus olhos.
— Você olhou para ela pela metade da noite. Eu pude ver em seu rosto. Você está pensando nisso – por que ela simplesmente não queima o inimigo até o inferno?
Rowan seguiu para a estação de lavagem na ponta do corredor. Alguns soldados e curandeiras estavam ao lado da calha de metal, esfregando os rostos para espantar o sono ou os nervos.
— Ele a colocou naquelas manoplas de metal — Fenrys falou. — E, uma vez, ele os aqueceu por um braseiro aberto. Eles... — ele tropeçou nas palavras e Rowan mal pôde respirar. — Os curandeiros levaram duas semanas para consertar o que ele fez com as mãos e os pulsos dela. E quando ela acordou, não havia nada além de pele curada. Ela não sabia o que tinha sido feito e o que era pesadelo.
Rowan pegou um dos jarros que algumas das crianças enchiam de novo a cada instante e virou sobre a própria cabeça. Água gelada mordeu sua pele, abafando o rugido em seus ouvidos.
— Cairn fez muitas coisas assim. — Fenrys pegou uma jarra e molhou suas mãos antes de esfregá-las sobre o rosto.
As mãos de Rowan tremiam enquanto ele observava a água correndo em direção à parte mais baixa da estação de lavagem.
— Suas marcas de reivindicação, no entanto — Fenrys esfregou o rosto novamente — não importa o que eles fizessem, elas permaneciam. Mais do que qualquer outra cicatriz, eles permaneceram.
No entanto, o pescoço dela estava liso quando ele a encontrou. Lendo esse pensamento, Fenrys disse:
— Da última vez que eles a curaram, logo antes de ela escapar. Foi quando desapareceram. Quando Maeve disse a ela que você tinha ido para Terrasen.
As palavras soaram como um golpe. Quando ela perdeu a esperança de que ele estava indo por ela. Mesmo os maiores curandeiros do mundo não conseguiram tirar isso dela até então.
Rowan secou o rosto no braço do casaco.
— Por que você está me dizendo isso? — ele repetiu.
Fenrys levantou-se do cocho, secando o rosto com a mesma falta de cerimônia.
— Assim você pode parar de se perguntar o que aconteceu. Concentrar-se em outra coisa hoje. — O guerreiro manteve o ritmo ao lado dele enquanto se dirigiam para onde haviam dito que um magro café da manhã seria servido. — E deixar que ela venha até você quando estiver pronta.
— Ela é minha parceira — Rowan rosnou. — Você acha que eu não sei disso?
Fenrys poderia enfiar o focinho nos assuntos de outra pessoa.
Fenrys levantou as mãos.
— Você pode ser brutal quando você quer alguma coisa.
— Eu nunca a forçaria a me contar qualquer coisa que ela não estivesse pronta para falar. — Tinha sido a barganha desde o início. Parte do porquê ele se apaixonara por ela.
Ele deveria saber então, durante aqueles dias em Defesa Nebulosa, quando se viu compartilhando partes de si mesmo, sua história, que ele nunca contara a ninguém. Quando se viu precisando dizer a ela, em fragmentos e pedaços, sim, mas que queria que ela soubesse. E Aelin queria ouvir. Tudo.
Eles descobriram Aelin e Elide já na mesa do bufê, o rosto sombrio enquanto pegavam pedaços de pão, queijo e frutas secas. Nenhum sinal de Gavriel ou Lorcan.
Rowan veio por trás de sua parceira e deu um beijo no pescoço dela. Exatamente onde suas novas marcas de reivindicação estavam.
Ela fez um som satisfeito e ofereceu-lhe uma mordida do pão que ela já havia começado a comer enquanto reunia o resto de sua comida. Ele obedeceu, o pão grosso e sólido, então disse:
— Você estava dormindo quando eu saí alguns minutos atrás, mas de alguma chegou na mesa do café da manhã antes de mim. — Outro beijo em seu pescoço. — Por que não estou surpreso?
Elide riu ao lado de Aelin, empilhando comida em seu próprio prato. Aelin apenas lhe deu uma cotovelada quando ele entrou na fila ao lado dela.
Os quatro comeram depressa, encheram de novo os odres de água na fonte de um pátio interior e começaram a procurar armaduras. Havia poucas nos níveis superiores adequadas para o uso, então eles desceram para a fortaleza, cada vez mais fundo, até encontrarem uma sala trancada.
— Devemos, ou é rude? — ponderou Aelin, olhando para a porta de madeira.
Rowan enviou uma lança de seu vento apontada para a fechadura e a estilhaçou.
— Parece que já estava aberto quando chegamos aqui — disse ele suavemente.
Aelin deu-lhe um sorriso perverso, e Fenrys tirou uma lanterna do suporte no estreito corredor de pedra para iluminar o aposento.
— Bem, agora sabemos por que o resto da fortaleza é um poço de merda — disse Aelin, examinando o tesouro. — Ele guardou todo o ouro e as coisas divertidas aqui embaixo.
De fato, a ideia de diversão de sua parceira era a mesma de Rowan: armaduras e espadas, lanças e maças antigas.
— Ele não poderia ter distribuído isso? — Elide franziu a testa para as prateleiras recheadas de espadas e punhais.
— É tudo herança — disse Fenrys, aproximando-se de uma dessas estantes e estudando o cabo de uma espada. — Antiga, mas ainda boa. Muito boa — acrescentou ele, puxando uma lâmina da bainha. Ele olhou para Rowan. — Isso foi forjado por um ferreiro Asterion.
— De uma época diferente — Rowan refletiu, maravilhado com a lâmina perfeita, sua condição impecável. — Quando feéricos não eram tão temidos.
— Nós vamos apenas pegar? Sem a permissão do Chaol? — Elide mordeu o lábio.
Aelin deu uma risadinha.
— Vamos nos considerar espadas de aluguel. E, como tal, temos taxas que precisam ser pagas. — Ela levantou um escudo dourado e redondo, com as bordas lindamente gravadas com um motivo de ondas. Também feito por Asterion, a julgar pelo artesanato. Provavelmente para o Senhor de Anielle – o Senhor do Lago Prateado. — Então, vamos pegar o que nos é devido para a batalha de hoje, e poupar a Sua Senhoria da tarefa de ter que vir aqui ele mesmo.
Deuses, ele a amava.
Fenrys piscou para Elide.
— Eu não vou contar se você não contar, senhora.
Elide corou, então acenou para frente.
— Colete seus ganhos, então.
Rowan o fez. Ele e Fenrys encontraram armaduras que poderiam ser usadas em certas áreas. Tiveram que abrir mão do traje inteiro, mas pegaram peças para reforçar seus ombros, antebraços e canelas. Rowan tinha acabado de amarrar grevas nas pernas quando Fenrys falou:
— Devemos levar um pouco disso para Lorcan e Gavriel.
De fato, deveriam. Rowan olhou para outras peças e começou a recolher adagas e lâminas extras, depois partes de outra armadura que caberiam em Lorcan, Fenrys fazendo o mesmo para Gavriel.
— Vocês devem cobrar bastante pelos seus serviços — Elide murmurou. Mesmo enquanto a Senhora de Perranth prendia algumas adagas em seu próprio cinto.
— Eu preciso de alguma maneira de pagar pelos meus gostos caros, não é? — Aelin refletiu, pesando uma adaga em suas mãos. Mas ela ainda não tinha vestido nenhuma armadura e, quando Rowan lançou-lhe um olhar indagador, Aelin apontou o queixo para ele. — Suba as escadas, procure Lorcan e Gavriel. Eu vou encontrá-los em breve.
Seu rosto estava ilegível pela primeira vez. Talvez ela quisesse um momento sozinha antes da batalha. E quando Rowan tentou encontrar alguma palavra em seus olhos, Aelin se virou para o escudo que ela reivindicara. Como se contemplasse.
Então Rowan e Fenrys se dirigiram para o andar de cima, Elide ajudando a transportar seus equipamentos roubados. Ninguém os parou. Não com o céu ficando cinza, e os soldados correndo para suas posições nas ameias.
Rowan e Fenrys não tiveram que ir muito longe. Eles estavam posicionados nos portões do nível mais baixo, onde os aríetes poderiam voar se Morath se desesperasse o suficiente.
No andar acima deles, Chaol estava montado em seu magnífico cavalo preto, a respiração da égua formando nuvens em suas narinas. Rowan levantou a mão em saudação, e Chaol saudou de volta antes de olhar em direção ao exército inimigo.
O khaganato faria a primeira manobra, o impulso inicial para fazer Morath se mover.
— Eu sempre esqueço o quanto odeio essa parte — murmurou Fenrys. — A espera antes de começar.
Rowan grunhiu seu acordo. Gavriel foi até eles, Lorcan uma tempestade escura atrás dele. Rowan entregou sem palavras na mão do último a armadura que reuniu.
— Cortesia do Senhor de Anielle.
Lorcan lançou a ele um olhar que dizia que ele sabia que Rowan estava cheio de merda, mas começou a vestir a armadura com eficiência, Gavriel fazendo o mesmo. Se os soldados ao redor deles perceberam de onde vinha aquela armadura, se Chaol a reconheceu, ninguém disse uma palavra.
Ao longe, sob o céu acinzentado relampeando mais adiante, Morath despertou para descobrir que o exército dourado do khaganato já estava posicionado.
E quando um ruk solitário guinchou seu desafio, o khaganato avançou. Soldados de infantaria em linhas perfeitas marchavam, lanças erguidas, escudos posicionados borda contra borda.
A cavalaria Darghan ladeava os dois lados, uma força da natureza pronta para conduzir Morath até onde eles queriam. E acima, voando nos céus, o rukhin preparou seus arcos e marcou seus alvos.
— Prontos agora — Chaol gritou para os homens de sua fortaleza.
O clangor de armaduras quando os homens se moveram, o cheiro do medo tomando o nariz de Rowan. Seria hoje. Seria hoje que essa esperança permaneceria ou fraturaria.
O céu que despertava já revelava duas torres de cerco sendo puxadas em direção a eles. Direito para a muralha.
Muito mais perto do que Rowan notara pela última vez quando voou sobre o exército na noite anterior. Morath, ao que parecia, também não estivera dormindo.
Os ruks permaneceriam de volta com seu próprio exército, levando Morath à fortaleza. Para serem esmagados aqui, um por um.
— Temos minutos até que a primeira torre faça contato com os muros — observou Gavriel.
Uma varredura das ameias, os soldados em cima deles, não revelou nenhum sinal de Aelin.
— É melhor que alguém diga a ela para parar de se preparar e vir até aqui — Lorcan de fato murmurou.
Rowan rosnou em sinal de advertência. O som de pés protegidos e escudos era tão familiar quanto qualquer música. Os soldados de Morath rumavam para as muralhas, as lanças prontas. No outro extremo do exército, soldados se enfrentaram, lanças e piques inclinados para interceptar o exército do khagan.
Uma corneta soou das profundezas das fileiras do khaganato e flechas voaram.
A massa de soldados Morath nem sequer recuou ou olhou para trás para ver o que acontecia em suas linhas traseiras.
— Escadas — Fenrys murmurou, apontando com o queixo em direção à ondulação através das linhas. Escadas de cerco maciças de ferro separaram a multidão.
— Eles estão fazendo o seu ataque total, então — disse Lorcan com igual tranquilidade. Todos eles cuidadosos para não deixar os homens próximos ouvirem. — Tentarão invadir a fortaleza antes que o khaganato possa quebrá-los.
— Arqueiros! — rugiu Chaol lá de cima. Atrás deles, nas ameias, os arcos gemiam.
Fenrys soltou o arco das costas e colocou uma flecha no lugar. Rowan manteve seu próprio arco preso nas costas, a aljava intocada, Gavriel e Lorcan fazendo o mesmo. Não havia necessidade de desperdiçá-los em alguns soldados quando poderiam ser necessários com alvos muito piores no final do dia.
Mas um deles tinha que ser notado agindo como soldado. Por tudo o que faria para acalmar seus espíritos. E Fenrys, um arqueiro tão bom quanto Rowan, ele admitia, ficaria bem.
Rowan seguiu a linha da ponta da flecha de Fenrys até onde ele marcara como alvo um dos carregadores de uma escada de cerco.
— Torne impressionante — ele murmurou.
— Cuide da sua vida — Fenrys murmurou de volta, rastreando seu alvo com a ponta de sua flecha enquanto aguardava a ordem de Chaol.
Se Aelin não chegasse em mais um momento, ele teria que deixar as ameias para procurá-la. O que diabos a segurava?
Lorcan desembainhou sua antiga lâmina, que Rowan testemunhara derrubando soldados em reinos distantes daqui, em guerras muito mais longas que essa.
— Eles irão para os portões quando a torre de cerco atracar — disse Lorcan, olhando das ameias para o portão um andar abaixo, o pequeno bastião de homens à sua frente. Árvores haviam sido derrubadas para escorar as portas de metal, mas se um grupo sólido de soldados inimigos o alvejasse, eles poderiam derrubar aqueles suportes e as pesadas trancas em poucos minutos. E abrir os portões para as hordas além.
— Nós não os deixaremos chegarem tão longe — disse Rowan, olhando para a enorme torre se aproximando. Soldados seguiam atrás, esperando para escalar seu interior. — Chaol derrubou a torre no outro dia sem nossa ajuda. Isso pode acontecer novamente.
Saraivada! — O rugido de Chaol ecoou nas pedras, e as flechas cantaram.
Como um enxame de gafanhotos, eles acertaram os soldados que marchavam abaixo. A flecha de Fenrys encontrou seu alvo com precisão letal. Dentro de um piscar de olhos, outro estava em seu lugar. Um segundo soldado na escada do cerco caiu.
Onde diabos estava Aelin...
Morath não parou. Marchando por cima dos soldados que caíram em suas linhas de frente.
O pulsar do medo humano pelas ameias ondulou contra sua pele. A equipe teria que atacar rápido e atacar bem, para afastá-lo.
A torre de cerco se aproximou mais. Um olhar de Rowan fez com que ele e seus amigos se movessem em direção ao local que agora inegavelmente atingiria as ameias. Perto o suficiente das escadas até o portão. Morath havia escolhido bem o local.
Alguns dos soldados por que passaram rezavam, um estremecimento de palavras no ar gelado da manhã.
— Guarde o fôlego para a batalha, não para os deuses — Lorcan disse a um deles.
Rowan lançou-lhe um olhar, mas o homem, boquiaberto com Lorcan, acalmou-se.
Chaol ordenou outra saraivada e flechas voaram, Fenrys atirando enquanto andava. Como se mal se incomodasse.
Ainda assim, as orações sussurradas continuaram pela linha, as espadas tremendo junto com elas.
Ao redor de Chaol, os soldados se mantinham firmes, rostos sólidos. Mas aqui, neste nível das ameias... aqueles rostos estavam pálidos. De olhos arregalados.
— É melhor alguém dizer algo inspirador — Fenrys falou através dos dentes cerrados, disparando outra flecha. — Ou esses homens vão se virar em um minuto.
Um minuto era tudo o que eles tinham, dado que a primeira torre de cerco se aproximou.
— Você tem o rostinho bonito — retrucou Lorcan — você faria um trabalho melhor disto.
— É tarde demais para discursos — Rowan cortou antes que Fenrys pudesse responder. — É melhor mostrar a eles o que podemos fazer.
Eles se posicionaram na muralha. Bem no caminho da ponte que se abateria sobre a ameia.
Ele sacou a espada, depois libertou o machado ao seu lado. Gavriel desembainhou duas lâminas de suas costas, caindo na posição de flanco à direita de Rowan. Lorcan se plantou à sua esquerda. Fenrys assumiu a retaguarda, para pegar qualquer um que conseguisse passar pela rede.
Os homens mortais se agruparam atrás deles. Os portões estremeceram sob o impacto de Morath.
Rowan estabilizou sua respiração, preparando sua magia para rasgar os pulmões de valg. Ele cairia primeiro sobre alguns com suas lâminas. Para mostrar com que facilidade poderia ser feito, que Morath estava desesperado e que a vitória estava próxima. A magia viria depois.
A torre de cerco gemeu quando diminuiu a velocidade até parar. Assim que a parede abaixo deles estremeceu ao seu impacto, Fenrys sussurrou:
— Deuses sagrados.
Não para a ponte que desceu, soldados fervendo nas profundezas escuras lá dentro.
Mas para quem saiu do arco da torre atrás deles. O que surgiu.
Rowan não sabia para onde olhar. Para os soldados que saíam da torre de cerco, pulando nas ameias, ou para Aelin.
Para a Rainha de Terrasen.
Ela encontrara uma armadura debaixo da fortaleza. Armadura dourada, linda e pálida que brilhava como um alvorecer de verão. Prendendo o cabelo trançado, um diadema jazia contra sua cabeça. Não um diadema, mas parte da armadura. Parte de um conjunto antigo para uma lady há muito tempo enterrada.
Uma coroa para guerra, uma coroa para usar na batalha. Uma coroa para liderar exércitos.
Não havia medo em seu rosto, nem dúvida, quando Aelin ergueu o escudo, girando Goldryn em sua mão uma vez antes que o primeiro dos soldados de Morath estivesse sobre ela.
Um rápido golpe ascendente partiu o verme de Morath do umbigo ao queixo. Seu sangue negro jorrou, mas ela já estava se movendo, fluindo como um riacho ao redor de uma rocha.
Rowan se lançou em movimento, suas lâminas encontrando seus alvos, mas ainda assim ele a observou.
Aelin bateu o escudo contra um guerreiro que se aproximava, Goldryn cortando outro antes de mergulhar a lâmina no soldado que ela desviou.
Ela fez isso de novo e de novo.
Tudo enquanto se dirigia para a torre de cerco. Desimpedido. Libertada.
Um chamado ecoou fileira abaixo. A rainha chegou.
Soldados esperando a vez deles se viraram para eles.
Aelin enfrentou três soldados valg e os deixou morrendo nas pedras.
Ela riscou sua linha diante da boca aberta daquela torre de cerco, bem no caminho da horda que saía. Cada momento do treinamento no navio até aqui, na estrada, cada nova bolha e calo – tudo para se reconstruir para isto.
A rainha chegou.
Goldryn inabalável, o escudo uma extensão do braço dela, Aelin brilhava como o sol que agora iluminava o exército do khagan enquanto ela se ocupava de cada soldado que entrava no caminho dela.
Cinco, dez – ela se moveu e se moveu e se moveu, abaixando-se e passando, empurrando e girando, sangue negro pulverizando, seu rosto o retrato da vontade severa e inquebrável.
— A rainha! — gritavam os homens. — Para a rainha!
E enquanto Rowan lutava para chegar mais perto, quando esse grito desceu pelas ameias e os homens de Anielle correram para ajudá-la, ele percebeu que Aelin não precisava de um grama de fogo para inspirar os homens a seguirem. Que ela estivera esperando, forçando aos poucos, para mostrar a eles o que ela, sem magia, sem qualquer poder divino, podia fazer.
Ele nunca tivera uma visão tão gloriosa. Em todas as terras, em todas as batalhas, ele nunca tinha visto nada tão glorioso quanto Aelin diante da garganta da torre de sítio, segurando a linha.
O amanhecer chegou, Rowan soltou um grito de guerra e atacou Morath.


Esta primeira batalha daria o tom.
Daria o tom e enviaria uma mensagem. Não para Morath.
Certifique-se de nos impressionar, dissera Hasar.
Então ela o faria. Então ela escolheu a armadura dourada e sua coroa de batalha. E esperou até o amanhecer, até que a torre de cerco atingisse as ameias, antes de se libertar.
Para impedir que os homens aqui quebrassem, para afastar o medo que tomava seus olhos.
Para convencer a realeza do khaganato do que ela poderia fazer, o que faria. Não uma ameaça, mas um lembrete.
Ela não era uma princesa desamparada. Nunca foi.
Goldryn cantou com cada golpe, sua mente tão fria e afiada quanto a lâmina enquanto avaliava cada soldado inimigo, suas armas, e os derrubava de acordo. Ela mal tinha conhecimento de que Rowan lutava ao seu lado, Gavriel e Fenrys lutando perto de seu flanco esquerdo.
Mas ela estava profundamente consciente dos homens mortais que saltaram para a batalha com gritos de desafio. Eles tinham chegado tão longe. Eles iriam sobreviver a hoje também. E a realeza do khaganato saberia disso.
Os cascos galopantes abafaram a batalha, e então Chaol estava lá, a espada reluzindo, dirigindo-se à interminável maré que se precipitava da entrada da torre.
— Para o lorde Chaol! Para a rainha!
Quão distantes ambos estavam de Forte da Fenda. Da assassino e do capitão.
Flechas se ergueram do exército além da muralha, mas uma onda de vento gelado as quebrou em lascas antes que pudessem encontrar algum alvo.
Um borrão escuro passou, e então Lorcan estava na boca da torre de cerco, sua espada girando tão rápido que Aelin mal podia segui-la com os olhos. Ele abriu seu caminho através da ponte de metal da torre, para a escada além. Como se fosse lutar pelas rampas e entrar no campo de batalha.
Abaixo, uma batida reverberou. Morath trouxera o aríete.
Aelin sorriu sombriamente. Ela derrubaria todos eles. Então Erawan. E então ela se soltaria em cima de Maeve.
No extremo oposto do campo, o exército dos khagan avançou, conquistando o campo passo a passo.
Não desamparada. Não contida. Nunca mais.
A morte tornou-se uma melodia em seu sangue, cada movimento uma dança quando a maré de soldados que vinham da torre diminuía. Como se Lorcan estivesse de fato forçando seu caminho pelo interior. Aqueles que passaram por ele encontraram sua espada, ou a Rowan. Um reluzir de dourado, e Gavriel caiu na torre de cerco também, lâminas gêmeas num redemoinho.
O que Lorcan e o Leão fariam ao chegar ao fundo, como desalojariam a torre, ela não sabia. Não pensou nisso.
Não neste lugar de morte e movimento, de respiração e sangue. De liberdade.
A morte tinha sido sua maldição e seu dom e sua amiga por esses longos, longos anos. Ela estava feliz em cumprimentá-la novamente sob o sol da manhã dourada.

Um comentário:

  1. E a assassina está de volta!!! É issoaí! Aelin é a rainha Portadora do Fogo, mas também é uma estrategista esperta e uma assassina habilidosa. Ameeei

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Boa leitura, E SEM SPOILER!