29 de outubro de 2018

Capítulo 55

Estar em uma forma feminina não era inteiramente o que Dorian esperava.
O jeito como andava, o jeito como movia seus quadris e pernas – estranho. Tão desconcertantemente estranho. Se alguma das Crochans notou uma jovem bruxa entre elas andando em círculos, agachando-se e esticando as pernas, não interromperam seu trabalho enquanto preparavam o acampamento para partir.
Então havia a questão de seus seios, que ele nunca imaginou serem tão... pesados. Não desagradável, mas o choque de bater os braços neles, a necessidade de ajustar sua postura para acomodar seu peso, ainda estava fresca depois de algumas horas.
Ele manteve a transformação o mais simples que podia: escolhera uma jovem Crochan na noite anterior, uma das jovens que poderia não ser necessária a toda hora ou notada com muita frequência, e estudou-a até que ela provavelmente o considerasse um idiota.
Esta manhã, com a imagem de seu rosto e formas ainda gravadas em sua mente, ele chegou à beira do acampamento, e simplesmente desejou.
Bem, talvez não simplesmente. A mudança não permaneceu uma sensação inteiramente agradável enquanto os ossos se ajustavam, seu couro cabeludo formigando com o longo cabelo castanho que cresceu em ondas brilhantes, o nariz fazendo cócegas enquanto era transformado em uma curva delicada.
Por longos minutos, ele apenas olhou para si mesmo. Às mãos delicadas, os pulsos mais finos. Incrível, quanta força os minúsculos ossos continham. Alguns tapinhas sutis entre suas pernas lhe disseram o suficiente sobre as mudanças ali.
E então ele esteve aqui nas últimas duas horas, aprendendo como o corpo feminino se movia e operava. Totalmente diferente de aprender como um corvo voava – como se manter ao vento agitado.
Ele pensava que sabia tudo sobre o corpo feminino. Como fazer uma mulher ronronar de prazer. Estava meio tentado a encontrar uma barraca e aprender em primeira mão o que certas coisas eram.
Não era um uso efetivo de seu tempo. Não com o acampamento se preparando para viajar. As Treze estavam no limite. Elas ainda não haviam decidido para onde ir. E não tinham sido convidadas a viajar com as Crochans para qualquer um dos seus lares. Nem mesmo ao de Glennis.
Nenhuma delas, no entanto, olhara para o lado dele quando passaram.
Nenhums o reconhecera.
Dorian tinha acabado de completar outro circuito de caminhada em sua pequena área de treinamento quando Manon se aproximou, cabelos prateados balançando. Ele parou, não mais do que uma Crochan cautelosa, e observou-a atravessar a neve e a lama como se ela fosse uma lâmina no mundo.
Manon quase passou pela sua área de treinamento quando ficou rígida.
Lentamente, ela se virou, as narinas dilatadas. Aqueles olhos dourados passaram por ele, rápidos e cortantes. Suas sobrancelhas se contraíram. Dorian apenas deu a ela um sorriso preguiçoso em troca.
Então ela foi na direção dele.
— Estou surpreso que você não esteja tateando por aí.
— Quem disse que não tenho feito isso?
Outro olhar avaliador.
— Eu teria pensado que você escolheria uma forma mais bonita.
Ele franziu a testa para si mesmo.
— Eu acho que ela é bonita o suficiente.
A boca de Manon se apertou.
— Suponho que isso signifique que você está prestes a ir para Morath.
— Eu falei alguma coisa do tipo?
Ele não se incomodou em parecer agradável.
Manon deu um passo em direção a ele, seus dentes reluzindo. Neste corpo, ele era mais baixo que ela. Ele odiou a emoção que disparou através de seu sangue quando ela se inclinou para rosnar para ele.
— Temos o suficiente para lidar hoje, principezinho.
— Eu pareço estar no seu caminho?
Ela abriu a boca, em seguida, fechou-a.
Dorian soltou uma risada baixa e se virou. Uma mão com unhas de ferro segurou o seu braço.
Estranho, aquela mão parecer grande em seu corpo. Grande, e não a coisa esbelta e mortal a que ele se acostumara.
Seus olhos dourados brilhavam.
— Se quer uma mulher de bom coração que vai chorar sobre escolhas difíceis e gritar para elas, então você está na cama errada.
— Eu não estou na cama de ninguém agora. — Ele não tinha ido para a tenda dela em nenhuma dessas noites. Não desde aquela conversa em Eyllwe.
Ela aceitou a réplica sem sequer hesitar.
— Sua opinião não importa para mim.
— Então por que você está aqui?
Novamente, ela abriu e fechou a boca. Então rosnou:
— Transforme-se.
Dorian sorriu novamente.
— Você não tem coisas melhores para fazer agora, Sua Majestade?
Ele honestamente pensou que ela poderia libertar seus dentes de ferro e arrancar sua garganta. Metade dele queria que ela tentasse. Ele chegou a ponto de passar uma daquelas mãos fantasmas ao longo da mandíbula dela.
— Acha que eu não sei por que não quer que eu vá a Morath?
Ele poderia jurar que ela tremeu. Poderia ter jurado que ela arqueou o pescoço, só um pouquinho, apoiando-se naquele toque fantasma.
Dorian correu os dedos invisíveis pelo pescoço dela, arrastando-os ao longo de sua clavícula.
— Peça-me para ficar — ele falou, e as palavras não tinham calor, nem bondade. — Peça-me para ficar com você, se é isso o que quer. — Seus dedos invisíveis cresceram em garras e rasparam a pele dela. A garganta de Manon temeu. — Mas você não vai pedir, vai, Manon?
A respiração dela se tornou irregular. Ele continuou a acariciar seu pescoço, sua mandíbula, sua garganta, acariciando a pele que ele tinha provado várias vezes.
— Você sabe por quê?
Quando ela não respondeu, Dorian deixou uma daquelas garras fantasmas cravar um pouco.
Ela engoliu em seco e não foi por medo. Dorian se inclinou para perto, inclinando a cabeça para trás para olhar em seus olhos enquanto ele ronronava:
— Porque enquanto você pode ser mais velha, e mortal em milhares de maneiras diferentes, no fundo você tem medo. Não sabe como me pedir para ficar, porque tem medo de admitir para si mesma o que quer. Você está com medo. De si mesma mais do que qualquer outra pessoa no mundo. Você está com medo.
Por várias batidas do coração, ela apenas olhou para ele. Então rosnou:
— Você não sabe do que está falando — e se afastou.
Sua risada baixa ecoou atrás dela. A espinha dela se enrijeceu.
Mas Manon não voltou atrás.


Com medo. De admitir que ela sentia algum tipo de apego.
Era um absurdo.
E talvez fosse verdade.
Mas não era problema dela. Não agora.
Manon atravessou o acampamento, onde tendas estavam sendo desmontadas e dobradas, as malas sendo embaladas. As Treze estavam com as serpentes aladas, suprimentos guardados em alforjes.
Algumas das Crochans franziam a testa. Não com raiva, mas algo como desapontamento. Descontentamento. Como se achassem que a despedida era má ideia.
Manon se absteve de dizer que ela concordava. Mesmo que as Treze as seguissem, as Crochans encontrariam uma maneira de despistá-las. Usar seu poder para cegar as serpentes aladas por tempo suficiente para desaparecer.
E ela não se rebaixaria, rebaixaria as Treze, a se tornarem cães perseguindo seus mestres. Podiam estar desesperados por ajuda, podiam ter prometido a seus aliados, mas ela não se rebaixaria ainda mais.
Manon parou no acampamento de Glennis, a única lareira com fogo ainda aceso. Um fogo que sempre permaneceria aceso.
Um lembrete da promessa que ela fizeram em honra à Rainha de Terrasen.
Uma única e solitária chama contra o frio.
Manon esfregou o rosto enquanto se sentava sobre uma das pedras que contornavam a lareira.
Uma mão descansou em seu ombro, quente e leve. Ela não se incomodou em dar um tapa.
— Estamos partindo em poucos minutos — Glennis falou. — Pensei em dizer adeus.
Manon olhou para a velha bruxa.
— Voe bem. — Era tudo o que restava para dizer.
O fracasso de Manon não era devido a Glennis, não era devido a ninguém além dela, ela supôs.
Você está com medo.
Era verdade. Ela tentou, mas não tentou de verdade ganhar as Crochans. Deixá-las ver qualquer parte dela que significava alguma coisa. Deixá-las ver o que isso fez com ela, descobrir que tinha uma irmã e que a havia matado. Ela não sabia como, e nunca se preocupou em descobrir.
Você está com medo.
Sim ela estava. De tudo.
Glennis baixou a mão do ombro de Manon.
— Que seu caminho a carregue com segurança através da guerra e finalmente volte para casa.
Ela não teve vontade de dizer à anciã que não havia uma casa para ela nem para as Treze.
Glennis virou o rosto para o céu, suspirando uma vez. Então suas sobrancelhas brancas se estreitaram. Suas narinas se alargaram.
Manon ficou de pé.
— Corra — Glennis respirou. — Corra agora.
Manon desembainhou Ceifadora do Vento e não fez tal coisa.
— O que é?
— Elas estão aqui.
Como Glennis sentira o cheiro delas no vento, Manon não se importava.
Não quando três serpentes aladas se separaram das nuvens, esporeando na direção de seu acampamento. Ela conhecia as serpentes aladas, quase tão bem quanto conhecia as três cavaleiras que fizeram as Crochans entrarem em um frenesi de movimento.
As Matriarcas do clã de bruxas Dentes de Ferro as haviam encontrado.
E vieram terminar o que Manon tinha começado naquele dia em Morath.

2 comentários:

  1. Manon e Dorian eu shippo tanto vcs, por favor colaborem...

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  2. Dorian em pele de mulher😂😂😂. Só espero que essas matriarcas sejam exterminadas. Será que petrah traiu Manon?
    Anna!!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!