29 de outubro de 2018

Capítulo 54

Chaol alimentou Farasha com uma maçã em sua mão, a linda égua negra nervosa após seu voo sem precedentes.
Parecia que até mesmo o cavalo de Hellas podia se assustar, embora Chaol supusesse que qualquer pessoa sábia acharia enervante estar a centenas de metros no ar.
— Alguém poderia fazer isso por você. — Encostada na parede do estábulo da fortaleza, Yrene observou-o trabalhar, monitorando cada passo profundamente difícil. — Você deveria descansar.
Chaol balançou a cabeça.
— Ela não sabe o que está acontecendo. Eu gostaria de tentar acalmá-la antes que ela se deite.
Antes da batalha de amanhã, antes que eles tivessem uma chance de realmente salvar Anielle.
Ele ainda estava trabalhando sobre tudo o que havia acontecido nesses meses em que esteve fora. As batalhas e perdas. Aonde Dorian tinha ido com Manon e as Treze. Chaol só podia rezar para que seu amigo fosse bem sucedido – e que ele não se encarregasse de forjar o cadeado.
Precisando desvendar tudo o que descobrira, ele deixara Aelin e os outros perto do Grande Salão para encontrar qualquer alimento que pudessem, trazendo imediatamente Farasha para cá com ele. Principalmente para a segurança de todos ao redor do cavalo Muniqi, já que Farasha tentara arrancar um pedaço do soldado mais próximo dela no momento em que seu capuz se soltou.
Nem mesmo o capuz tinha escondido dela o que, exatamente, estava acontecendo com o caixote superdimensionado em que eles a tinham afivelado.
Mas Farasha não havia arrancado sua mão antes de mordiscar a maçã, então Chaol rezou para que ela o perdoasse pelo voo violento. Parte dele meio que se perguntava se a égua sabia que suas costas doíam, que ele precisava de sua bengala, mas que ele escolheu estar aqui.
Ele passou a mão pela crina de ébano, depois deu um tapinha no pescoço forte dela.
— Pronta para pisotear alguns valg amanhã, minha amiga?
Farasha bufou, virando um olho escuro para ele como se dissesse: Você está?
Chaol sorriu e Yrene riu suavemente.
— Eu deveria voltar para o salão — disse sua esposa. — Ver quem precisa de ajuda. — Mas ela permaneceu.
Seus olhos se encontraram por cima das poderosas costas de Farasha. Ele deu a volta no cavalo, ainda consciente de sua mordida.
— Eu sei — ele falou baixinho.
Yrene inclinou a cabeça.
— Sabe o quê?
Chaol entrelaçou os dedos com os dela. E então colocou as mãos em cima do abdômen ainda plano.
— Oh — foi tudo o que Yrene disse, sua boca se abrindo. — Eu... como?
O coração de Chaol trovejou.
— É verdade, então.
Seus olhos dourados examinaram os dele.
— Você quer que seja?
Chaol deslizou a mão contra a bochecha dela.
— Mais do que eu havia percebido.
O sorriso de Yrene era largo e adorável o suficiente para fraturar seu coração.
— É verdade — ela sussurrou.
— Quanto tempo?
— Quase dois meses. — Ele estudou a barriga dela, o lugar que logo incharia com a criança crescendo dentro dela. Seu filho. — Você não me contou, assumo, porque não queria que eu me preocupasse.
Yrene mordeu o lábio.
— Algo assim.
Ele bufou.
— E quando você estivesse gingando por aí, a barriga quase explodindo?
Yrene deu um tapa no braço dele.
— Eu não vou gingar.
Chaol riu, e puxou-a em seus braços.
— Você vai gingar lindamente, foi o que eu quis dizer. — O riso de Yrene reverberou nele, e Chaol beijou o topo de sua cabeça, sua têmpora. — Vamos ter um filho — ele murmurou em seu cabelo.
Os braços dela o contornaram.
— Vamos — ela sussurrou. — Mas como você sabia?
— Meu pai — Chaol resmungou — aparentemente têm melhores habilidades de observação do que eu.
Ele sentiu, mais do que viu, ela se encolher.
— Você não está com raiva por eu não ter te contado?
— Não. Eu teria apreciado ouvir dos seus lábios primeiro, mas entendo porque você não quis dizer nada ainda. Por mais bobo que seja — acrescentou ele, beliscando a orelha dela.
Yrene espetou-o nas costelas e ele riu novamente. Riu, apesar de todos os dias que eles lutaram nesta batalha, todos os adversários que ele enfrentou, ele temesse cometer um erro fatal. Tinha sido incapaz de esquecer que, se ele caísse, estaria levando os dois com ele.
Os braços dela se apertaram ao redor dele, e Yrene aninhou a cabeça contra o seu peito.
— Você será um pai brilhante — ela falou suavemente. — O mais brilhante que já existiu.
— Grande elogio, na verdade, vindo de uma mulher que queria me jogar da janela mais alta da Torre há alguns meses.
— Uma curandeira nunca seria tão pouco profissional.
Chaol sorriu, e respirou seu perfume antes de se afastar e roçar sua boca contra a dela.
— Estou mais feliz do que posso expressar, Yrene, por compartilhar isso com você. Qualquer coisa que você precise, eu sou seu para comandar.
Seus lábios se contraíram.
— Palavras perigosas.
Mas Chaol passou o polegar sobre sua aliança de casamento.
— Terei que vencer essa guerra rapidamente, então, assim teremos nossa casa construída no verão.
Ela revirou os olhos.
— Uma razão nobre para derrotar Erawan.
Chaol roubou outro beijo dela.
— Por mais que eu queira lhe mostrar o quanto estou sob seu comando — ele falou contra a boca dela — tenho outro assunto para tratar antes de dormir.
As sobrancelhas de Yrene se levantaram.
Ele fez uma careta.
— Eu preciso apresentar Aelin ao meu pai. Antes que eles se encontrem.
O homem não estivera no salão quando eles chegaram, e Chaol estava preocupado demais com o bem-estar de Farasha para se incomodar em procurá-lo.
Yrene se encolheu, embora a diversão brilhasse em seus olhos.
— É ruim eu querer me juntar a você? E levar uns petiscos?
Chaol colocou um braço ao redor de seus ombros, dando a Farasha um tapinha de despedida antes de irem embora. Apesar da bengala, cada passo coxeado enviava dor das costas até suas pernas, mas isso era secundário.
Tudo isso, até mesmo a maldita guerra, era secundário à mulher ao seu lado.
Ao futuro eles construiriam juntos.


Depois da conversa de Yrene com Chaol, as coisas sí ficaram feias entre Aelin Galathynius e seu pai.
Yrene não levava petiscos, mas foi só porque, quando chegaram ao Grande Salão, interceptaram o pai. Indo tempestuosamente em direção aos aposentos onde Aelin e seus companheiros tinham ido descansar.
— Pai — disse Chaol, indo para o lado dele.
Yrene não disse nada, monitorando os movimentos de Chaol. A dor nas costas tinha que ser grande, se ele mancava profundamente mesmo enquanto sua magia se enchia novamente. Ela não tinha ideia de onde ele havia deixado a cadeira dele – se havia sido esmagada por pedaços do muro caindo. Ela rezou para que não tivesse.
— Você não pode me acordar quando a Rainha de Terrasen chega ao meu castelo? — Seu pai estalou.
— Não era uma prioridade. — Chaol parou diante da porta que dava para a pequena câmara que tinha sido desocupada para a rainha e bateu.
Um grunhido foi a única confirmação antes que o marido de Yrene abrisse a porta apenas o suficiente para enfiar a cabeça para dentro.
— Meu pai — disse Chaol para quem quer que estivesse lá dentro, presumivelmente a rainha — gostaria de ver você.
Silêncio, depois o farfalhar de roupas e passos. Yrene recuou quando Aelin Galathynius apareceu, com o rosto e as mãos limpas, mas as roupas ainda sujas. Ao seu lado, estava o imponente guerreiro feérico de cabelos prateados – Rowan Whitethorn. De quem a realeza tinha falado com tanto medo e respeito meses atrás.
Na sala, Lady Elide estava sentada na parede oposta, com uma bandeja de comida ao lado, e o gigante lobo branco jazia esparramado no chão, monitorando com os olhos semicerrados.
Um choque ver a mudança, perceber que esses feéricos podiam ser poderosos e antigos, mas ainda tinham um pé na floresta. A rainha, ao que parecia, preferia a forma também, suas orelhas delicadamente pontudas meio escondidas pelos cabelos soltos. Atrás dela, não havia sinal do guerreiro melancólico de cabelos dourados, Gavriel, ou do totalmente aterrorizante Lorcan. Graças a Silba, pelo menos.
Aelin deixou a porta se abrir, embora os dois membros da corte permanecessem sentados. Entediados, quase.
— Bem, que seja — foi tudo o que a rainha disse quando deu um passo para o lado.
O pai de Chaol olhou para o príncipe guerreiro ao lado dela. Depois virou a cabeça para Chaol e disse:
— Suponho que eles se conheceram em Wendlyn. Depois que você a mandou para lá.
Yrene ficou tensa com a provocação na voz do homem. Desgraçado. Bastardo horrível.
Aelin estalou a língua.
— Sim, sim, vamos tirar tudo isso do caminho. Embora eu não ache que seu filho realmente se arrependa, não é? — os olhos de Aelin se voltaram para Yrene, e Yrene tentou não vacilar sob aquele olhar turquesa e dourado. Diferente do fogo que ela viu naquela noite em Innish, mas ainda cheia daquela consciência afiada. Diferente – ambas estavam diferentes das garotas que tinham sido. Um sorriso curvou a boca da rainha. — Acho que ele fez muito bem para si mesmo. — Ela franziu a testa para seu consorte. — Yrene, pelo menos, não parece ser do tipo que rouba os cobertores e ronca no seus ouvidos a noite toda.
Yrene tossiu quando o príncipe Rowan apenas sorriu para a rainha.
— Eu não me importo com o seu ronco — ele falou suavemente.
A boca de Aelin se contraiu quando ela se virou para o pai de Chaol. O riso de Yrene morreu com a falta de leveza no rosto do homem. Chaol estava tenso como uma corda de arco quando a rainha disse ao seu pai:
— Não perca o seu fôlego com insultos. Estou cansada e faminta, e não vai acabar bem para você.
— Esta é a minha fortaleza.
Aelin fez uma boa demonstração de olhar espantada para o teto, as paredes, o chão.
— É mesmo?
Yrene teve que abaixar a cabeça para esconder seu sorriso. Assim como Chaol.
Mas Aelin disse ao Lorde de Anielle:
— Confio que você não entrará em nosso caminho.
Uma linha traçada na areia. A respiração de Yrene ficou presa na garganta.
— Da última vez que olhei, você não era a rainha de Adarlan — o pai de Chaol falou.
— Não, mas seu filho é a Mão do Rei, o que significa que ele o supera. — Aelin sorriu com uma doçura terrível para Chaol. — Você não contou a ele?
Yrene e Aelin não eram mais as garotas que tinham sido em Innish, sim, mas aquele fogo ainda permanecia no espírito da rainha. Fogo com um toque de insanidade.
Chaol deu de ombros.
— Imaginei que eu contaria a ele quando chegasse a hora.
Seu pai franziu o cenho.
O príncipe Rowan, no entanto, disse ao homem:
— Você defendeu e preparou seu povo admiravelmente. Não temos planos de tomar isso de você.
— Eu não preciso da aprovação de brutamontes feéricos — o lorde escarneceu.
Aelin deu um tapinha no ombro de Rowan.
— Brutamontes. Eu gosto disso. Melhor que “urubu”, certo?
Yrene não tinha ideia do que a rainha falava, mas ela prendeu o riso de qualquer maneira.
Aelin esboçou uma mesura zombeteira ao Senhor de Anielle.
— Com esta linda nota de despedida, vamos terminar nosso jantar. Aproveite sua noite, o veremos nas ameias amanhã e, por favor, apodreça no inferno.
Então Aelin estava se afastando, uma mão guiando seu marido para dentro.
Mas não antes de a rainha lançar um sorriso por cima do ombro para Yrene e Chaol e dizer, com os olhos brilhando – com alegria e calor desta vez:
— Parabéns.
Como ela sabia, Yrene não fazia ideia. Mas os feéricos possuíam um olfato sobrenatural.
Yrene sorria do mesmo jeito quando abaixou a cabeça – pouco antes de Aelin bater a porta na cara do Senhor de Anielle.
Chaol se virou para o pai, qualquer indício de diversão habilmente escondido.
— Bem, você a viu.
O pai de Chaol tremeu com o que Yrene supôs ser uma combinação de raiva e humilhação, e se afastou. Foi uma das melhores visões que Yrene já teve.
Pelo sorriso de Chaol, ela sabia que seu marido sentia o mesmo.


— Que homem horrível. — Elide terminou sua coxa de galinha antes de entregar a outra a Fenrys, que tinha se transformado de volta para a sua forma feérica. Ele mastigou com um grunhido de apreciação. — Pobre lorde Chaol.
Aelin, com as pernas doloridas esticadas diante dela, encostou-se à parede, terminou a própria porção de frango e mordeu um pedaço de pão escuro.
— Pobre Chaol, pobre da mãe dele, pobre do irmão. Pobre de todo mundo que tem que lidar com ele.
Na janela estreita e solitária da sala, monitorando o exército escuro centenas de metros abaixo, Rowan bufou.
— Você estava em forma rara esta noite.
Aelin saudou-o com seu encorpado pão de aveia.
— Qualquer um que interrompa o meu jantar corre o risco de pagar o preço.
Rowan revirou os olhos, mas sorriu. Assim como Aelin o vira sorrir quando ambos sentiram o cheiro de Yrene. A criança dentro dela.
Ela estava feliz por Yrene – pelos dois. Chaol merecia essa alegria, talvez mais do que qualquer um. Tanto quanto seu próprio parceiro.
Aelin não deixou os pensamentos viajarem mais longe. Não quando ela terminou o pão e foi até a janela, encostada ao lado de Rowan. Ele deslizou um braço ao redor de seus ombros, casual e fácil. Nenhum deles mencionou Maeve.
Elide e Fenrys continuaram a comer em silêncio, dando-lhes a privacidade que podiam no pequeno quarto vazio que compartilhavam, dormindo em colchonetes. O Senhor de Anielle, ao que parecia, não compartilhava do seu apreço pelo luxo. Ou confortos básicos para seus convidados. Como banhos quentes. Ou camas.
— Os homens estão apavorados — disse Rowan, olhando para os andares da fortaleza abaixo. — Você pode sentir o cheiro.
— Eles mantiveram esta fortaleza por dias agora. Sabem o que lhes espera ao amanhecer.
— O medo deles — disse Rowan, apertando a mandíbula — é a prova de que eles não confiam em nossos aliados. Prova de que não confiam no exército do khagan para realmente salvá-los. Isso fará deles lutadores desleixados. Poderia criar uma fraqueza onde não deveria haver uma.
— Talvez você devesse ter dito a Chaol — disse Aelin. — Ele poderia fazer algum discurso motivacional.
— Eu tenho um sentimento de que Chaol lhes deu bastante disso. Esse tipo de medo apodrece a alma.
— Então, o que deve ser feito?
Rowan balançou a cabeça.
— Eu não sei.
Mas ela sentiu que ele sabia. Sentiu que ele queria dizer outra coisa, e ou a companhia atual ou algum tipo de hesitação o barraram.
Assim, Aelin não forçou e examinou as ameias com seus soldados em patrulha, o exército sombrio alastrando-se além. Gritos e uivos cortavam a noite, sons sobrenaturais o bastante para arrastar um arrepio por sua espinha.
— Uma batalha terrestre é mais fácil ou pior que uma no mar? — Aelin perguntou ao marido, seu parceiro, olhando para o rosto tatuado.
Ela só havia enfrentado os navios em Baía da Caveira, e mesmo isso tinha acabado de forma relativamente rápida. E o enxame de ilken nos pântanos de pedra, mas este fora mais um extermínio do que qualquer outra coisa.
Não o que os esperava amanhã. Não o que seus amigos haviam lutado no Mar Estreito, enquanto ela e Manon estavam no espelho, depois com Maeve na praia.
Rowan considerou.
— Eles são tão confusos, mas de maneiras diferentes.
— Prefiro lutar em terra — resmungou Fenrys.
— Porque ninguém gosta do cheiro de cachorro molhado? — Aelin perguntou por sobre o ombro.
Fenrys riu.
— Exatamente por causa disso.
Pelo menos ele estava sorrindo novamente. A boca de Rowan se torceu, mas seus olhos estavam duros enquanto ele examinava o exército inimigo.
— A batalha de amanhã será tão brutal quanto — disse ele. — Mas o plano é bom.
Eles estariam nas ameias com Chaol, preparando-se para qualquer manobra desesperada que Morath pudesse tentar quando se encontrassem sendo conduzidos e esmagados pelo exército do khagan. Elide estaria com Yrene e as outras curandeiras no Grande Salão, ajudando os feridos.
Onde Lorcan e Gavriel estariam, Aelin só podia supor. Os dois haviam se separado do grupo ao chegar, o último vigiando em algum lugar, e o primeiro provavelmente pensativo. Mas eles provavelmente estariam lutando ao lado deles.
Como se seus pensamentos o tivessem convocado, Gavriel entrou no quarto.
— O exército parece quieto o bastante — disse ele como cumprimento, depois, sem cerimônia, caiu no chão ao lado de Fenrys e puxou o prato de frango para ele. — Os homens estão cheios de medo, no entanto. Os dias defendendo essas muralhas os corroeram.
Rowan concordou, sem se incomodar em dizer ao Leão que eles tinham acabado de discutir isso enquanto Gavriel rasgava a comida.
— Nós teremos que nos assegurar de que eles não recuem amanhã, então.
De fato.
— Eu estava pensando — Elide falou para nenhum deles em particular depois de um momento. — Já que Maeve é uma impostora, quem governaria Doranelle se ela fosse banida com todos os outros valg?
— Ou fosse queimada até sobrar só a casca — Fenrys murmurou.
Aelin poderia ter sorrido sombriamente, mas a pergunta de Elide se instalou nela.
Gavriel pousou o frango devagar.
O braço de Rowan caiu dos ombros de Aelin. Seus olhos verdes como pinheiros estavam arregalados.
— Você.
Aelin piscou.
— Há outros da linha de Mab. Galan, ou Aedion...
— O trono passa através da linha materna – para uma fêmea, apenas. Ou assim deveria ser — disse Rowan. ―Você é a única fêmea com uma reivindicação direta e não diluída da linhagem de Mab.
― E sua Casa, Rowan — Gavriel disse. — Alguém de sua Casa teria uma reivindicação sobre a metade do trono de Mora.
— Sellene. Iria para ela. — Mesmo como um príncipe, a herança de Rowan, conectando-o à linhagem de sangue de Mora, tinha diminuído ao ponto de estar apenas no nome. Aelin tinha mais relação com Elide, provavelmente com Chaol, do que com Rowan, apesar de sua ascendência distante.
— Bem, Sellene pode tê-lo — disse Aelin, limpando as mãos da poeira que não estava lá. — Doranelle é dela.
Ela não voltaria a pisar naquela cidade, com Maeve ou não. Ela não tinha certeza se isso a tornava covarde. Ela não se atreveu a alcançar o ronco reconfortante de sua magia.
— O Povo Pequeno realmente sabia — Fenrys refletiu, esfregando o queixo. — O que você era.
Eles sempre souberam, o Povo Pequeno. Tinham salvado sua vida dez anos atrás e salvado a vida deles poucas semanas atrás. Eles a encontravam e deixavam presentes para ela. Tributo, ela pensava, para herdeira de Brannon. Não para...
— A Rainha das Fadas do Ocidente — Gavriel murmurou.
Silêncio.
— Esse é um título de verdade? — Aelin deixou escapar.
— É agora — murmurou Fenrys.
Aelin lançou-lhe um olhar.
— Com Sellene sendo a Rainha Feérica do Oriente — ponderou Rowan.
Ninguém falou por um bom minuto.
Aelin suspirou para o teto.
— O que é outro título chique, suponho?
Eles não responderam, e Aelin tentou não deixar o peso daquele título assentar demais. Tudo o que ele implicava. Que ela seria responsável não apenas pelo Povo Pequeno neste continente, mas também pela equipe, que começava uma nova pátria para qualquer feérico que quisesse se juntar a eles. Para qualquer feérico que tivesse sobrevivido ao massacre em Terrasen dez anos atrás e que talvez desejasse retornar.
O sonho de um tolo. Um que ela provavelmente não veria. Não criaria.
— A Rainha das Fadas do Ocidente — repetiu Aelin, provando as palavras em sua língua.
Imaginando quanto tempo ela se chamaria assim.
Pelo silêncio pesado, ela sabia que seus companheiros contemplavam o mesmo. E pela dor nos olhos de Rowan, a raiva e determinação, ela sabia que ele já calculava se de alguma forma poderia poupá-la do altar do sacrifício.
Mas isso viria depois. Depois do dia seguinte. Se eles sobrevivessem.


Havia um portão, e a eternidade estava além de seu arco preto.
Mas não para ela. Não, não haveria além-mundo para ela. Os deuses tinham construído outro caixão, dessa vez à partir aa pedra escura e cintilante.
Pedra que seu fogo nunca poderia derreter. Nunca furar. A única maneira de escapar seria se tornar como ele – dissolver-se nele como espuma do mar numa praia.
Cada respiração era mais rasa que a anterior. Eles não haviam feito buracos nesse caixão.
Além de seus confins, ela sabia que um segundo caixão estava ao lado do dela.
Sabia, porque os gritos abafados ainda a alcançavam aqui.
Duas princesas, uma de ouro e uma de prata. Uma jovem e uma velha. Ambas o custo de selar esse portão para a eternidade.
O ar acabaria em breve. Ela já havia perdido muito dele em seu ataque frenético à pedra. As pontas dos dedos pulsavam onde ela quebrou as unhas e rompeu a pele.
Aqueles gritos femininos ficaram mais baixos.
Ela deveria aceitá-la, abraçá-la. Só quando ela fechasse a tampa.
O ar era tão quente, tão precioso. Ela não conseguia sair, não conseguia sair...


Aelin se obrigou a acordar. O ambiente permanecia escuro, a respiração profunda de seus companheiros se manteve firme.
Ar fresco e aberto. As estrelas apenas visíveis através da janela estreita.
Nenhum caixão de pedra de Wyrd. Nenhum portão preparado para devorar seu todo.
Mas ela sabia que eles estavam assistindo, de alguma forma. Aqueles deuses miseráveis. Mesmo aqui, eles estavam assistindo. Esperando.
Um sacrifício. Isso é tudo o que ela era para eles.
A náusea se agitou em seu estômago, mas Aelin a ignorou, ignorou os tremores que a percorriam. O calor sob sua pele.
Aelin se virou de lado, aninhando-se no calor sólido de Rowan, os gritos abafados de Elena ainda ecoando em seus ouvidos.
Não, ela não ficaria desamparada novamente.

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