29 de outubro de 2018

Capítulo 52

As Crochans haviam retornado ao acampamento nos Caninos e aguardado.
Manon e as Treze desmontaram das serpente aladas. Algo se agitava em seu estômago a cada passo em direção ao fogo de Glennis. A tira vermelha de tecido na ponta de sua trança se tornara uma pedra, puxando sua cabeça para baixo.
Estavam quase na lareira de Glennis quando Bronwen acertou o passo ao lado de Manon.
Asterin e Sorrel, atrás dela, ficaram tensas, mas não interferiram.
Especialmente não quando Bronwen perguntou:
— O que aconteceu?
Manon olhou de soslaio para sua prima.
— Pedi-lhes que considerassem sua posição nesta guerra.
Bronwen franziu a testa para o céu, como se esperasse ver as Dentes de Ferro as seguindo.
— E?
— E veremos, suponho.
— Pensei que você tivesse ido lá para persuadi-las.
— Eu fui — disse Manon, mostrando os dentes — para fazê-las contemplar quem elas querem ser.
— Eu não achei que Dentes de Ferro fossem capazes disso.
— Cuidado, bruxa — Asterin rosnou.
Bronwen lançou-lhe um sorriso zombeteiro por cima do ombro e disse a Manon:
— Elas a deixaram sair viva?
— Deixaram, de fato.
— Elas vão lutar – elas se voltarão contra Morath e as outras Dentes de Ferro?
— Eu não sei. — Ela não sabia. Ela realmente não sabia.
Bronwen ficou em silêncio por alguns passos. Manon tinha acabado de entrar no círculo de luz da fogueira de Glennis quando a bruxa falou:
— Nós não deveríamos nos dar ao trabalho de esperar, então.
Manon não tinha resposta, então se afastou, as Treze não dando a Bronwen um olhar de passagem.
Manon encontrou Glennis mexendo nas brasas de sua lareira, o fogo sagrado em seu centro uma brilhante chama que não precisava de madeira para queimar. Um presente de Brannon – um pedaço da rainha de Terrasen aqui.
— Devemos partir amanhã de manhã — Glennis falou. — Foi decidido: voltaremos para as nossas lareiras em casa.
Manon apenas se sentou na pedra mais próxima da velha, deixando as Treze pegarem qualquer alimento que pudessem encontrar. Dorian havia permanecido com os serpente aladas. Da última vez que o vira minutos atrás, algumas Crochans se aproximavam dele. Por prazer ou por informação, Manon não sabia. Ela duvidava que ele compartilharia sua cama em breve. Especialmente se permanecesse determinado a ir a Morath.
O pensamento não era totalmente bom.
— Você acha que as Dentes de Ferro são capazes de mudar? — Manon perguntou a Glennis.
— Você saberia essa resposta melhor.
Ela sabia, e não estava totalmente certa de que gostava da conclusão a que chegou.
— Rhiannon achava que poderíamos mudar? — Ela achava que eu poderia mudar?
Os olhos de Glennis se suavizaram, uma sugestão de tristeza os tomando quando ela acrescentou outro galho à chama.
— Sua meia-irmã era o seu oposto, de muitas maneiras. E como o seu pai em muitos aspectos. Ela era aberta e honesta e falava o que sentia, independentemente das consequências. Imprudente, alguns a chamavam. Não daria para saber pelo modo como agem agora — disse a anciã, sorrindo um pouco — mas havia mais do que algumas em torno dessas várias lareiras que não gostavam dela. Que não queriam ouvir seus discursos sobre nosso povo em queda, sobre como uma solução melhor existia. Como nossos povos poderiam encontrar a paz. Todos os dias, ela falava em voz alta e para qualquer um que quisesse ouvir sobre a possibilidade de um Reino das Bruxas unificado. A possibilidade de um futuro onde não precisássemos nos esconder, ou estarmos tão espalhadas. Muitos a chamavam de idiota. Pensavam que ela fosse uma tola, especialmente quando foi procurar por você. Para ver se concordava com ela, apesar do que sua história sangrenta sugeria.
Ela morreu por aquele sonho, pela possibilidade de um futuro. Manon a matou por isso.
— Então se Rhiannon achava que as Dentes de Ferro são capazes de mudar? — Glennis repetiu. — Ela poderia ser a única bruxa das Crochans que pensava assim, mas ela acreditava nisso com cada parte de seu ser. — Sua garganta flácida tremeu. — Ela acreditava que vocês duas poderiam governar juntas – o Reino das Bruxas. Você lideraria as Dentes de Ferro e ela, as Crochans, e juntas vocês reconstruiriam o que foi quebrado há muito tempo.
— E agora há apenas eu. — Para fazer malabarismos com ambos os lados.
— Agora há apenas você. — O olhar de Glennis se tornou direto, implacável. — Uma ponte entre nós.
Manon aceitou o prato de comida que Asterin lhe entregou antes de sua segunda em comando sentar ao seu lado.
— As Dentes de Ferro se rebelarão. Você vai ver. — Asterin falou.
Sorrel grunhiu da rocha mais próxima, desacordo estampado no rosto. Asterin fez à terceira em comando de Manon um gesto vulgar.
— Elas vão se rebelar. Eu juro.
Glennis ofereceu um pequeno sorriso, mas Manon não disse nada enquanto atacava sua comida.
Esperança, ela dissera a Elide todos aqueles meses atrás.
Mas talvez não houvesse nada para elas depois de tudo.


Dorian permaneceu perto das serpentes aladas para responder às perguntas das Crochans que não queriam ou talvez fossem nervosas demais para perguntar às Treze o que ocorrera no Desfiladeiro Ferian.
Não, um exército não se reuniria a eles. Não, ninguém os havia seguido. Sim, Manon havia falado com as Dentes de Ferro e pedido que elas se juntassem. Sim, eles entraram e saíram vivos. Sim, ela falara tanto como Dentes de Ferro quanto como Crochan.
Pelo menos era o que Asterin lhe contara no longo voo de volta para cá. Falar com Manon, discutir seus próximos passos... Ele não se incomodou. Ainda não.
E quando a própria Asterin ficou em silêncio, ele mergulhou em seus pensamentos. Revirou tudo o que tinha visto no Desfiladeiro Ferian, cada salão e câmara e cova que cheirava a dor e medo.
O que seu pai e Erawan haviam construído. O tipo de reino que ele herdou.
As chaves de Wyrd se mexeram, sussurrando. Dorian ignorou-as e colocou a mão sobre o punho de Damaris. O ouro permaneceu quente apesar do frio intenso.
Uma espada da verdade, sim, mas também uma lembrança do que Adarlan tinha sido um dia. Do que poderia se tornar novamente.
Se ele não vacilasse. Não duvidasse de si mesmo. Por qualquer tempo que ele tivesse.
Ele podia fazer dar certo. Tudo isso. Ele podia fazer dar certo.
Damaris se aqueceu em silencioso conforto e confirmação.
Dorian deixou a pequena multidão de Crochans e caminhou a passos largos para uma fatia de terra que dava para uma falésia mortal em um abismo coberto de neve e pedras.
Montanhas brutais cresciam em todas as direções, mas ele lançou seu olhar para o sudeste. Para Morath, que estava muito além da vista.
Ele fora capaz de se transformar em um corvo naquela noite na floresta de Eyllwe. Agora supôs que só precisava aprender a voar.
Ele alcançou dentro de si, aquele turbilhão de poder bruto. O calor floresceu nele, ossos gemendo, o mundo se alargando.
Ele abriu o bico e um crocitar gutural saiu dele.
Esticando suas asas cor de fuligem, Dorian começou a praticar.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!