29 de outubro de 2018

Capítulo 51

Lorcan permaneceu na beira do acampamento ruk, mal conseguindo captar os magníficos pássaros ou seus cavaleiros de armadura enquanto se acomodavam para a noite. Poucos, ele sabia, ainda não encontrariam seu descanso, ao invés disso os levaria – além de suprimentos – de volta para a fortaleza que se erguia sobre a cidade e a planície.
Ele não se importou, não se maravilhou que logo estaria no ar em uma dessas feras incríveis. Não se importava com o fato de que, no dia seguinte, todos encarariam o exército sombrio reunido além.
Ele lutara em mais batalhas, mais guerras, do que gostaria de lembrar. O dia seguinte seria pouco diferente, excetuando os demônios que eles matariam, ao invés de homens ou feéricos.
Demônios como sua antiga rainha, aparentemente. Ele se oferecera a ela, a desejou – ou acreditava que sim. E ela riu dele. Ele não sabia o que isso queria dizer. Sobre ela, sobre si mesmo.
Ele pensava que sua escuridão, o dom de Hellas, tinha sido atraída para ela, que eles combinavam.
Talvez o deus das trevas não quisesse que ele jurasse fidelidade a Maeve, mas que a matasse. Que chegasse perto o suficiente para isso.
Lorcan não ajustou sua capa contra a rajada de ar gelado do lago distante. Em vez disso, ele se inclinou para o frio, para o gelo e para o vento. Como se isso pudesse apagar a verdade.
— Estamos partindo. — A voz baixa de Elide cortou o rugido silêncio de seus pensamentos. — Os ruks estão prontos — acrescentou.
Não havia medo ou pena em seu rosto, seus cabelos negros iluminados pelas tochas e fogueiras. De todos eles, ela foi quem dominou as notícias com menos dificuldade, aproximando-se da mesa central como se tivesse nascido em um campo de batalha.
— Eu não sabia — ele falou, com voz tensa.
Elide sabia o que ele queria dizer.
— Temos coisas maiores para nos preocupar de qualquer maneira.
Ele deu um passo em direção a ela.
— Eu não sabia — ele falou novamente.
Ela inclinou a cabeça para trás para estudar seu rosto e franziu a boca, um músculo tensionando em sua mandíbula.
— Você quer que eu lhe dê algum tipo de absolvição por isso?
— Eu a servi por quase quinhentos anos. Quinhentos anos, e apenas pensei que ela fosse imortal e fria.
— Isso soa como a definição de um valg para mim.
Ele mostrou os dentes.
— Viva por eras e veja o que isso faz com você, senhora.
— Não vejo por que você está tão chocado. Mesmo ela sendo imortal e fria, você a amava. Deve ter aceitado essas características. Que diferença faz como nós a chamamos, então?
— Eu não a amava.
— Você certamente agiu como se amasse.
— Por que continua voltando a esse ponto, Elide? — Lorcan rosnou. — Por que é a única coisa que você não pode deixar passar?
— Porque estou tentando entender. Como você pode vir a amar um monstro?
— Por quê? — ele adentrou em seu espaço. Ela não recuou nem um passo.
De fato, os olhos dela estavam em chamas enquanto ela sussurrou:
— Porque isso vai me ajudar a entender como pude fazer mesmo.
A voz dela ficou travada nas últimas palavras, e Lorcan parou quando seu sentido foi captado. Ele nunca... ele nunca teve alguém que...
— É uma doença? — ela exigiu. — É algo quebrado dentro de você?
— Elide. — O nome dela era doloroso em seus lábios. Lorcan ousou estender a mão para ela.
Mas ela saiu do alcance.
— Se você acha que ter feito o juramento de sangue a Aelin significa algo para você e para mim, está muito enganado. Você é imortal – eu sou humana. Não esqueçamos desse pequeno fato também.
Lorcan quase recuou ante as palavras, sua horrível verdade. Ele tinha quinhentos anos de idade. Ele deveria ir embora – não deveria estar tão aborrecido por nada disso. E, no entanto, Lorcan rosnou:
— Você está com ciúmes. Isso é o que realmente a incomoda.
Elide soltou uma gargalhada que ele nunca ouvira antes vindo dela, cruel e afiada.
— Com ciúmes? Ciúmes de quem? Daquele demônio que você serviu? — Ela endireitou os ombros, uma onda se elevando antes de se chocar contra a costa. — A única coisa de que tenho ciúmes, Lorcan, é que ela está livre de você.
Lorcan odiou que as palavras o tenham acertado como um golpe. Que ele não tivesse defesas a respeito dela.
— Eu sinto muito. Por tudo isso, Elide.
Ali, ele falou, expôs diante dela.
— Eu sinto muito — ele repetiu.
Mas o rosto de Elide não ficou mais gentil.
— Eu não me importo — disse ela, girando em seus calcanhares. — E não me importarei se você sair do campo de batalha amanhã.


Com ciúmes. A ideia disso, de ter inveja de Maeve por ter comandado a afeição de Lorcan por séculos... Elide mancou em direção aos ruks em preparação, rangendo os dentes com tanta força que sua mandíbula doeu.
Ela estava quase alcançando o primeiro dos pássaros selados quando uma voz disse atrás dela:
— Você deveria tê-lo ignorado.
Elide parou, encontrando Gavriel a seguindo.
— Perdoe-me?
O rosto normalmente simpático do Leão estava sério – desaprovador.
— Você poderia muito bem ter chutado um macho já no chão.
Elide não tinha pronunciado uma palavra atravessada para Gavriel desde que o conheceu, mas ela disse:
— Não vejo como isso é da sua conta.
— Eu nunca ouvi Lorcan se desculpar por nada. Mesmo quando Maeve o chicoteou por um erro, ele não se desculpou com ela.
— E isso significa que ele ganha meu perdão?
— Não. Mas você tem que perceber que ele fez o juramento de sangue para Aelin por você. Por mais ninguém. Assim ele poderia ficar perto de você. Mesmo sabendo muito bem que você terá uma expectativa de vida mortal.
Os pássaros se moveram, balançando as asas em antecipação ao voo. Ela sabia.
Sabia disso no momento em que ele se ajoelhou diante de Aelin. Semanas depois, Elide não sabia o que fazer com isso, o conhecimento de que Lorcan fizera por ela. De desejar falar com ele, trabalhar com ele como fizeram antes. Ela se odiava por isso. Por não tentar manter sua raiva por mais tempo.
Foi por isso que ela foi atrás dele hoje à noite. Não para castigá-lo, mas a si mesma. Para se lembrar de para quem ele vendeu sua rainha, quão profundamente errada ela estivera.
E sua despedida para ele... era uma mentira. Uma mentira repugnante e odiosa.
Elide se virou para Gavriel novamente.
— Eu não...
O Leão se fora.
E no voo frio sobre o exército, então sobre o mar de escuridão que se estendia entre ele e a cidade antiga, até mesmo aquela voz sábia que sussurrara durante toda a sua vida tinha ficado em silêncio.


Nesryn apoiava-se em Salkhi, uma mão na lateral emplumada de sua montaria, e observou os ruks voarem para o céu. Os vinte ruks não carregavam apenas Aelin Galathynius e seus companheiros, Chaol e Yrene incluídos, mas também mais curandeiras, suprimentos e alguns cavalos, encapuzados e presos em gaiolas de madeira que os pássaros podiam levar. Incluindo o próprio cavalo de Chaol, Farasha.
— Eu gostaria de poder ir com eles — Borte suspirou de onde esfregava Arcas. — Para lutar ao lado dos feéricos.
Nesryn deu-lhe um divertido olhar de soslaio.
— Você vai terá essa oportunidade em breve, se nós marcharmos para Terrasen depois disso.
Perto, um riso distintamente masculino de escárnio soou.
— Vai bisbilhotar outra conversa, Yeran — disparou Borte para seu prometido.
Mas o capitão do Berlad respondeu apenas:
— Bela comandante você é, contemplando os feéricos como uma garota de olhos sonhadores.
Borte revirou os olhos.
— Quando eles me ensinarem suas técnicas de matança e eu usá-las para varrê-lo do mapa no nosso próximo Encontro, você pode me contar tudo sobre o meu olhar sonhador.
O belo capitão desceu de seu próprio ruk, e Nesryn abaixou a cabeça para se esconder seu sorriso, encontrando-se imensamente interessada em escovar as penas marrons de Salkhi.
— Você será minha esposa então, de acordo com sua barganha com a minha mãe — ele disse, cruzando os braços. — Seria impróprio matar o seu próprio marido no Encontro.
Borte sorriu com doçura cheia de veneno para seu prometido.
— Eu só terei que matá-lo em outro momento, então.
Yeran sorriu de volta, o retrato da diversão perversa.
— Outra hora, então — ele prometeu.
Nesryn não deixou de notar a luz que brilhou nos olhos do capitão. Ou na maneira como Borte mordeu o lábio, quase sem fôlego.
Yeran inclinou-se para sussurrar algo no ouvido de Borte que fez os olhos da garota se arregalarem. E, aparentemente, atordoou-a o suficiente para que, quando Yeran voltasse para o seu ruk, o retrato da arrogância orgulhosa, Borte corou furiosamente e voltou a limpar o próprio ruk.
— Não pergunte — ela murmurou.
Nesryn ergueu as mãos.
— Eu não sonharia em fazer isso.
O rubor de Borte permaneceu por alguns minutos depois, suas escovadas quase frenéticas.
Passos leves e graciosos soaram na neve, e Nesryn sabia quem se aproximava antes que o rukhin se endireitasse ante a atenção. Não pelo fato de que Sartaq era príncipe e herdeiro, mas porque era o capitão deles. De todos os rukhin nessa guerra, não apenas do Eridun.
Ele os dispensou, examinando o céu noturno e os ruks ainda planando, protegidos por Rowan Whitethorn de qualquer flecha inimiga que pudesse encontrar seu alvo. Sartaq mal havia chegado ao lado de Nesryn quando Borte deu um tapinha em Arcas, atirou a escova no balde de suprimentos e saiu na noite.
Não para lhes dar privacidade, Nesryn percebeu. Não quando Yeran deu a volta em seu próprio ruk uma batida do coração depois, seguindo Borte em um passo preguiçoso. A garota olhou por cima do ombro uma vez, e não havia nada além de aborrecimento em seu rosto quando notou Yeran em seus calcanhares.
Sartaq riu.
— Pelo menos eles são um pouco mais claros sobre isso agora.
Nesryn bufou, escova deslizando sobre as penas de Salkhi.
— Estou tão confusa como sempre.
— Os cavaleiros cujas tendas ficam ao lado da de Borte não estão.
As sobrancelhas de Nesryn se levantaram, mas ela sorriu.
— Bom. Não sobre os cavaleiros, mas sobre eles.
— A guerra faz coisas estranhas com as pessoas. Torna tudo mais urgente. — Ele passou a mão pela nuca dela, os dedos entrelaçando-se em seu cabelo antes de murmurar em seu ouvido: — Venha para a cama.
O calor se espalhou por seu corpo.
— Nós temos uma batalha amanhã. De novo.
— E um dia de mortes me fez querer abraçá-la — o príncipe falou, dando a ela aquele sorriso desarmado a qual ela não tinha defesas. Especialmente quando ele acrescentou: — E fazer outras coisas com você.
Os dedos de Nesryn se enrolaram dentro de suas botas.
— Então me ajude a terminar de limpar Salkhi.
O príncipe se adiantou tão rápido para a escova descartada de Borte que Nesryn riu.

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