29 de outubro de 2018

Capítulo 50

As mãos de Rowan apertaram os ombros de Aelin quando as palavras começaram a fazer sentido, vazias e frias.
— Maeve é uma rainha valg? — ele soltou.
Aelin não disse nada.
Não era possível encontrar as palavras.
Seu poder se agitou. Ela não sentira.
Nesryn assentiu solenemente.
— Sim. A kharankui nos contou toda a história. — E Nesryn também o fez. De como Maeve de alguma forma encontrou um caminho para este mundo, fugindo ou entediada com o marido, Orcus. Irmão mais velho de Erawan. De como Erawan, Orcus e Mantyx haviam destruído mundos para encontrá-la, a esposa desaparecida de Orcus, e só foram parados aqui porque os feéricos se ergueram para desafiá-los. Feéricos liderados por Maeve, a quem os reis valg não encontraram ou reconheceram, na forma que ela havia tomado.
A vida que ela criou para si mesma. As mentes de todos os feéricos que existiram e que ela havia invadido, convencendo-os de que havia três rainhas, não duas. Incluindo as mentes de Mab e Mora, as duas rainhas-irmãs que haviam governado Doranelle. Incluindo o próprio Brannon.
— As aranhas afirmaram — continuou Nesryn — que nem mesmo Brannon sabia. Mesmo agora, no além-mundo, ele não sabe. Foi assim que os poderes de Maeve penetraram em sua mente, em todas as suas mentes. Ela se fez sua verdadeira rainha.
As palavras, a verdade, atacaram Aelin, uma após a outra.
O rosto de Elide estava branco como a morte.
— Mas ela teme os curandeiros. — Um aceno para Yrene. — Ela mantém aquela coruja, você disse – um curandeiro feérico escravizado – se os valg alguma vez a descobrissem.
Pois essa era outra peça do quebra-cabeça. Outra coisa que Nesryn revelou, Chaol e Yrene acrescentando informações.
Os valg eram parasitas. E Yrene podia curar seus hospedeiros humanos. Fizera isso com a princesa Duva. E poderia ser capaz de fazer com tantos outros escravizados com anéis ou colares.
Mas o que possuíra Duva... Uma princesa valg.
Aelin recostou-se na cadeira, a cabeça apoiada na parede sólida do corpo de Rowan. As mãos dele tremiam contra seus ombros. Tremiam enquanto ele parecia perceber o que, exatamente, tinha manipulado a sua mente. De onde vinha o poder de Maeve, o que permitiu que ela o fizesse. Por que ela permaneceu imortal e sem marcas de idade, e sobreviveu a qualquer outro. Por que o poder de Maeve era a escuridão.
— É também por isso que ela teme o fogo — disse Sartaq, apontando com o queixo para Aelin. — Por que ela teme tanto você.
E por que ela queria quebrá-la. Que ela fosse como aquele curandeiro escravo preso em forma de coruja ao seu lado.
— Pensei que eu tivesse conseguido cortá-la uma vez — Aelin falou, finalmente. Aquela escuridão antiga e silenciosa entrou, arrastando-a para baixo, para baixo, para baixo... — Eu vi o sangue dela escorrer, preto. Então mudou para vermelho. — Ela soltou um suspiro, saindo da escuridão, o silêncio que queria devorá-la por inteiro. Forçou-se a se endireitar. Ela olhou para Fenrys. — Você disse que o sangue dela era comum quando você fez o juramento.
O lobo branco voltou para seu corpo feérico. Sua pele de bronze estava pálida, seus olhos escuros nadando com horror.
— E era.
— Não tinha gosto diferente para mim, também — Rowan rosnou.
— Um encantamento – assim como a forma que ela mantém — Gavriel meditou.
Nesryn assentiu.
— Pelo o que as aranhas disseram, parece perfeitamente possível que ela seja capaz de convencê-los de que seu sangue parecia e tinha gosto de sangue feérico.
Fenrys fez um som como se estivesse doente. Aelin estava inclinada a fazer o mesmo.
E de longe – uma memória que não era uma memória se agitou. Das noites de verão passadas em um vale, Maeve instruindo-a. Contando-lhe uma história sobre uma rainha que caminhava entre mundos.
Que não era feliz no reino em que nascera e descobrira uma maneira de abandoná-lo, usando o conhecimento perdido dos antigos viajantes. Aqueles que caminhavam através de mundos.
Maeve havia dito a ela. Talvez um conto arbritrário e tendencioso, mas ela contou.
Por quê? Por que tudo isso? Alguma maneira de conquistá-la – ou fazê-la hesitar, se alguma vez chegasse a esse ponto?
— Mas Maeve odeia os reis valg — disse Elide, e mesmo do lugar silencioso à deriva para o qual Aelin se fora, ela pôde ver a mente afiada revolvendo-se atrás dos olhos de Elide. — Ela está escondida por tanto tempo. Certamente não se aliaria a eles.
— Ela correu à chance de conseguir um colar de valg — disse Fenrys sombriamente. — Parecia convencida de que poderia controlar o príncipe dentro dele.
Não só pelo poder de Maeve, mas porque ela era uma rainha demoníaca.
Aelin se forçou a respirar novamente. Mais uma vez.
Seus dedos se curvaram, segurando uma arma invisível.
Lorcan não pronunciara uma palavra. Não tinha feito nada além de ficar ali, pálido e silencioso. Como se tivesse saído de seu corpo também.
— Nós não sabemos seus planos — disse Nesryn. — As kharankui não a veem há milênios e só ouvem sussurros transmitidos por aranhas menores. Mas ainda a adoram e esperam pelo retorno dela.
Chaol encontrou o olhar de Aelin, seu olhar questionador.
— Eu fui prisioneira de Maeve por dois meses — Aelin revelou em voz baixa.
Silêncio absoluto na tenda.
Então ela explicou – tudo. Por que ela não estava em Terrasen, quem agora lutava lá, onde Dorian e Manon tinham ido.
Aelin engoliu quando terminou, apoiando-se no toque de Rowan.
— Maeve queria que eu revelasse a localização das duas chaves de Wyrd. Queria que eu as entregasse, mas consegui deixá-las antes que ela me levasse. Para Doranelle. Ela queria me quebrar à vontade dela. Para me usar para conquistar o mundo, pensei. Mas agora parece que talvez ela quisesse me usar como escudo contra os valg, para guardá-la sempre. — As palavras saíram pesadas e afiadas. — Eu fui cativa dela até quase um mês atrás. — Ela acenou com a cabeça em direção a sua corte. — Quando me libertei, eles me encontraram novamente. — O silêncio caiu mais uma vez, seus novos companheiros sem palavras.
Ela não os culpava.
— Vamos fazer a cadela pagar por isso também, não é? — Hasar sibilou então.
Aelin encontrou o olhar sombrio da princesa.
— Sim, nós vamos.


A verdade atingiu Rowan como um golpe físico.
Maeve era valg. Uma rainha valg cujo marido afastado invadiu este mundo e, se Chaol estava certo, desejava entrar de novo, se Erawan conseguisse abrir os portões de Wyrd.
Ele sabia que sua equipe, ou como quer que fossem chamados agora, estava em choque. Sabia que ele próprio caíra em algum tipo de estupor.
A fêmea a quem serviram, a quem se curvaram... valg. Eles tinham sido tão completamente enganados que nem sequer perceberam o gosto em seu sangue.
Fenrys parecia prestes a esvaziar o conteúdo do estômago no chão da tenda. Para ele, a verdade seria a mais horrenda.
O rosto de Lorcan permanecia frio e vazio.
Gavriel continuava esfregando a mandíbula, seus olhos nadando com desânimo.
Rowan soltou um longo suspiro.
Uma rainha valg.
Foi quem manteve o seu Coração de Fogo. O tipo de poder que tentou quebrar a mente dela.
O tipo de poder havia invadido a mente de Rowan. As mentes de todos eles, se ela podia encantar o próprio sangue para parecer e ter gosto comum.
Ele sentiu a tensão aumentando em Aelin, uma tempestade furiosa que quase zumbiu em suas mãos quando ele segurou os ombros dela.
No entanto, suas chamas não fizeram nenhuma aparição. Ela não tinha mostrado nem uma brasa nessas semanas, apesar do quanto tinham treinado.
Ocasionalmente, ele via o rubi de Goldryn brilhando enquanto ela o segurava, como se o fogo brilhasse no coração da pedra. Mas nada mais.
Nem mesmo quando eles se emaranharam em sua cama no navio, quando seus dentes encontraram aquela marca no pescoço dela.
Elide olhou para todos eles, para seu silêncio e disse aos novos companheiros:
— Talvez devêssemos determinar um plano de ação com relação à batalha de amanhã. — E dar-lhes tempo, mais esta noite, para resolver essa bagunça colossal.
Chaol assentiu.
— Trouxemos um baú de livros conosco — disse ele a Aelin. — Da Torre. Estão todos cheios de marcas Wyrd. — Aelin nem sequer piscou, mas Chaol terminou: — Se passarmos por essa batalha, eles são seus para pesquisar.
No caso de haver algo que possa ajudar. Contra Erawan, contra Maeve, contra o terrível destino de sua parceira.
Aelin apenas assentiu vagamente. Então Rowan se forçou a afastar o choque, desgosto e medo, e se concentrar no plano à frente. Apenas Gavriel parecia capaz de fazer o mesmo, Fenrys permanecendo onde estava, e Lorcan apenas olhando e encarando o nada.
Aelin permaneceu em sua cadeira, fervendo. Incomodada.
Eles planejaram de forma rápida e eficiente: eles retornariam com Chaol e Yrene para a fortaleza, para ajudar na luta do dia seguinte. A realeza do khaganato forçaria a partir daqui, Nesryn e o príncipe Sartaq liderando os ruks, e a princesa Hasar comandando os soldados de infantaria e a cavalaria Darghan.
Um grupo letal e brilhantemente treinado. Rowan já havia estudado os soldados Darghan, com seus belos cavalos e armaduras, suas lanças e capacetes com penacho, em seu caminho para esta tenda, e soltou um suspiro de alívio pela habilidade deles. Talvez o último suspiro de alívio que teria nesta guerra. Certamente seria, se as forças do khagan ainda não tivessem decidido para onde levariam este exército depois.
Ele supôs que fosse justo – tantos territórios estavam agora no caminho de Morath – mas quando esta batalha terminasse, ele se certificaria de que marchassem para o norte. Para Terrasen.
Mas amanhã – amanhã eles martelariam a legião de Morath contra as muralhas da fortaleza, Chaol e Rowan liderando os homens de dentro, matando soldados inimigos.
Aelin não se ofereceu para fazer nada. Não indicou que ela os ouvira.
E quando todos consideraram o plano finalizado, juntamente com um plano de contingência caso algo desse errado.
— Encontraremos ruks para transportá-los de volta para a fortaleza — Nesryn falou, e Aelin saiu para a noite fria, Rowan apressando-se para acompanhá-la.
Nenhuma brasa a seguiu. A lama não silvou sob suas botas. Não houve fogo algum. Nem uma faísca. Como se Maeve tivesse apagado aquela chama. A tivesse feito teme-la. Odiá-la.
Aelin atravessou as tendas ordenadamente organizadas, passando por cavalos e seus cavaleiros blindados, por soldados ao redor de fogueiras, cavaleiros ruk e seus poderosos pássaros, que o encheram de tanta admiração que ele não teve palavras para isso. Todo o caminho até a borda leste do acampamento e as planícies que se estendiam, o espaço amplo e vazio após a proximidade do exército.
Ela não parou até chegar a um riacho que cruzaram apenas algumas horas atrás. Estava quase congelado, mas uma batida de sua bota fez o gelo rachar. Rompendo para revelar a água escura beijada pela luz das estrelas prateadas.
Então ela caiu de joelhos e bebeu. Bebeu e bebeu, levando as mãos em concha cheias de água até a boca.
Devia estar fria o bastante para queimar, mas ela continuou até apoiar as mãos nos joelhos e dizer:
— Eu não posso fazer isso.
Rowan se abaixou em um joelho, o escudo que ele manteve em torno dela enquanto ela caminhava até aqui selando o vento frio da planície aberta.
— E-u não posso — ela falou estremecendo e cobriu o rosto com as mãos molhadas.
Suavemente, Rowan segurou seus pulsos e os baixou.
— Você não enfrentará sozinha.
Angústia e terror encheram aqueles belos olhos, e seu peito se apertou ao ponto da dor quando ela disse:
— Era uma chance tola contra Erawan. Mas contra ele e Maeve? Ela reuniu um exército. Provavelmente está trazendo o exército para Terrasen agora. E se Erawan convocar seus dois irmãos, se os outros reis retornarem...
— Ele precisa das outras duas chaves para fazer isso. Ele não as tem.
Os dedos dela se fecharam, cravando em suas palmas com força suficiente para que o cheiro de seu sangue enchesse o ar.
— Eu deveria ter ido atrás das chaves. Imediatamente. Não para cá. Não ter feito isso.
— Agora é tarefa de Dorian, não sua. Ele não vai falhar nisso.
— É minha tarefa, e sempre foi...
— Fizemos a escolha de vir aqui, e vamos nos ater a essa decisão — ele rosnou, sem se preocupar em acalmar seu tom. — Se Maeve de fato está trazendo seu exército para Terrasen, isso apenas confirma que estávamos certos em vir para cá. Que devemos convencer as forças do khagan a seguir para o norte depois disso. É a única chance que temos de conseguir.
Aelin passou as mãos pelos cabelos. Traços de sangue mancharam o dourado.
— Eu não posso ganhar deles. Um rei e uma rainha valg. — Sua voz ficou grossa. — Eles já venceram.
— Não venceram. — E apesar de Rowan odiar cada palavra, ele rosnou: — E você sobreviveu dois meses contra Maeve sem magia para protegê-la. Dois meses de uma rainha valg tentando invadir sua cabeça, Aelin. Tentando quebrá-la.
Aelin tremeu.
— Ela conseguiu, no entanto. — Rowan esperou. Aelin sussurrou: — Eu queria morrer no final, antes que ela me ameaçasse com o colar. E mesmo agora, sinto que alguém me arrancou de mim mesma. Como se eu estivesse no fundo do mar, e quem eu sou, quem eu era, está muito acima da superfície, e eu nunca mais voltarei lá.
Ele não sabia o que dizer, o que fazer além de afastar delicadamente os dedos dela das palmas das mãos.
— Você acreditou na arrogância, na bravata? — ela exigiu, voz quebrando. — E os outros? Porque eu estou tentando. Estou tentando como o inferno me convencer de que é real, lembrando-me que só preciso fingir ser como eu era apenas o suficiente.
Apenas o suficiente para forjar o cadeado e morrer.
— Eu sei, Aelin. — Ele falou suavemente: Ele não tinha acreditado nas piscadelas e nos sorrisos nem por um instante.
Aelin soltou um soluço que rachou algo nele.
— Eu não consigo mais sentir como eu mesma. É como se ela tivesse me apagado. Me arrancado daqui. Ela e Cairn, e tudo o que fizeram comigo.
Ela engoliu ar, e Rowan a envolveu em seus braços e a puxou para seu colo.
— Estou tão cansada — ela chorou. — Estou tão cansada, Rowan.
— Eu sei. — Ele acariciou o cabelo dela. — Eu sei. — Era tudo o que realmente havia para dizer.
Rowan a segurou até que seu choro diminuísse e ela ficou imóvel, aninhada contra o peito dele.
— Eu não sei o que fazer — ela sussurrou.
— Você luta — ele disse simplesmente. — Nós lutamos. Até não podermos mais. Nós lutamos.
Ela se sentou, mas permaneceu no colo dele, encarando o rosto dele com uma crueza que o destruiu.
Rowan repousou a mão no peito dela, bem em cima daquele coração ardente.
— Coração de Fogo. — Um desafio e uma convocação.
Ela colocou a mão sobre a dele, quente apesar da noite gelada. Como se aquele fogo ainda não tivesse acabado completamente.
Mas ela apenas olhou para as estrelas. Para o Senhor do Norte, que vigiava.
— Nós lutamos — ela sussurrou.


Aelin encontrou Fenrys em uma fogueira silenciosa, contemplando as chamas crepitantes.
Ela se sentou no tronco ao lado dele, em carne viva, aberta e trêmula, mas... o sal de suas lágrimas tinha lavado um pouco disso. Estabilizado-a. Rowan a estabilizara e continuava apoiando-a, enquanto a observava das sombras além do fogo.
Fenrys levantou a cabeça, os olhos tão vazios quanto ela sabia que os dela estiveram.
— Sempre que você precisar falar sobre isso — ela falou, com a voz ainda rouca, — eu estou aqui.
Fenrys assentiu, sua boca uma linha apertada.
— Obrigado.
O acampamento estava se preparando para a partida, mas Aelin se aproximou mais e sentou-se ao lado dele em silêncio por longos minutos.
Duas curandeiras, marcadas apenas pelas faixas brancas ao redor de seus bíceps, passaram apressadas, com os braços cheios de ataduras.
Aelin ficou tensa. Focada em sua respiração.
Fenrys notou a sua linha de visão.
— Eles ficaram horrorizados, você sabe — ele disse baixinho. — Toda vez que ela os trouxe para... curá-la.
As duas curandeiras desapareceram em torno de uma tenda.
Aelin flexionou os dedos, sacudindo a dormência deles.
— Isso não os impediu de curar.
— Eles não tiveram escolha. — Ela encontrou seu olhar sombrio. A boca de Fenrys se apertou. — Ninguém teria deixado você naquele estado. Ninguém.
Quebrada e sangrando e queimada...
Ela agarrou o punho de Goldryn. Desamparada.
— Eles a desafiaram à sua maneira — continuou Fenrys. — Às vezes, ela ordenava que eles o trouxessem de volta à consciência. Muitas vezes, eles alegaram que não podiam, que você afundou muito no esquecimento. Mas eu sabia – e acho que Maeve também – que eles te colocaram lá. Pelo maior tempo possível. Para lhe comprar tempo.
Ela engoliu em seco.
— Ela os puniu?
— Eu não sei. Nunca eram os mesmos curandeiros.
Maeve provavelmente puniu. Provavelmente destruiu suas mentes por seu desafio.
O aperto de Aelin na espada ao seu lado aumentou. Desamparada. Ela estava desamparada. Como muitos nesta cidade, em Terrasen, neste continente, estavam desamparados.
O punho de Goldryn aqueceu na mão dela.
Ela não ficaria assim novamente. Por qualquer tempo que lhe restasse.


Gavriel aproximou-se ao lado de Rowan, lançou um olhar à rainha e a Fenrys e murmurou:
— Não as notícias que precisávamos ouvir.
Rowan fechou os olhos por um segundo.
— Não, não foram.
Gavriel colocou a mão no ombro de Rowan.
— Não muda nada, de certa forma.
— Como.
— Nós a servimos. Ela era... não o que Aelin é. A rainha que deveria ser. Nós sabíamos disso muito antes de sabermos a verdade. Se Maeve quiser usar o que ela é contra nós, aliar-se a Morath, isso muda as coisas. Mas o passado já foi. Já passou, Rowan. Saber que Maeve é valg ou apenas uma pessoa miserável não muda o que aconteceu.
— Saber que uma rainha valg quer escravizar minha parceira, e quase o conseguiu, muda muito.
— Mas nós sabemos o que Maeve teme, por que ela teme — Gavriel respondeu, seus olhos castanhos brilhantes. — Fogo e curandeiros. Se Maeve vier com aquele exército dela, não estaremos indefesos.
Era verdade. Rowan poderia ter se amaldiçoado por não ter pensado nisso.
Outra questão se formou, no entanto.
— O exército dela — disse Rowan. — É feito de feéricos.
— Assim como foi a armada — Gavriel disse cautelosamente.
Rowan passou a mão pelos cabelos.
— Você será capaz de viver com isso – lutar contra o nosso próprio povo? — Matá-los.
— Você será? — Gavriel devolveu.
Rowan não respondeu.
— Por que Aelin não me ofereceu o juramento de sangue? — Gavriel perguntou depois de um momento.
O macho não perguntou por semanas. E Rowan não tinha certeza de por que Gavriel perguntou agora, mas ele lhe deu a verdade.
— Porque ela não fará isso até que Aedion tenha feito o juramento primeiro. Oferecer a você antes dele... ela quer que Aedion o tenha primeiro.
— Caso ele não me queira perto de seu reino.
— Assim Aedion saberá que ela coloca as necessidades dele antes das dela.
Gavriel abaixou a cabeça.
— Eu diria sim, se ela oferecesse.
— Eu sei. — Rowan bateu nas costas do seu amigo mais antigo. — Ela sabe também.
O Leão olhou para o norte.
— Você acha que... não ouvimos nenhuma notícia de Terrasen.
— Se tivesse caído, se Aedion tivesse caído, saberíamos. As pessoas aqui saberiam.
Gavriel esfregou o peito.
— Nós fomos à guerra. Ele esteve em guerra. Lutou em campos de batalha quando criança, os deuses sejam condenados — raiva cintilou no rosto de Gavriel. Não pelo o que Aedion fizera, mas pelo o que foi feito com ele por destino e infortúnio. O que Gavriel não estava lá para impedir. — Mas ainda tenho pavor a cada dia que passa e não ouvimos nada. Temo a todos os mensageiros que vemos.
Um terror que Rowan nunca conhecera, diferente de seu medo por sua parceira, sua rainha. O medo de um pai por seu filho.
Ele não se permitiu olhar para Aelin. De lembrar seus sonhos enquanto caçava por ela. A família que ele tinha visto. A família que eles fariam juntos.
— Temos que convencer a realeza do khaganato a marchar para o norte quando esta batalha acabar — Gavriel falou baixinho.
Rowan assentiu.
— Se conseguirmos esmagar esse exército amanhã e convencer a realeza de que Terrasen é o único curso de ação, então poderíamos ir para o norte em breve. O Yulemas você pode estar lutando ao lado de Aedion.
As mãos de Gavriel se apertaram ao lado do corpo, tatuagens se espalhando sobre os nós dos dedos.
— Se ele me permitir essa honra.
Rowan faria Aedion permitir. Mas ele apenas disse:
— Reúna Elide e Lorcan. Os ruks estão quase prontos para partir.

Um comentário:

  1. Muita dó de Gavriel. Sempre triste e melancólico,tão gentil como é,ele merece mais.

    Luzi

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Boa leitura, E SEM SPOILER!