5 de outubro de 2018

Capítulo 5

— O QUE FOI? — Imin apareceu atrás de mim.
— Eu… — Engasguei com as palavras, tentando forçar minha mente a sair do passado. Havia outras mulheres no deserto chamadas Zahia. Era um nome bem comum.
Mas a mulher tinha me olhado como se me conhecesse antes de dizer o nome da minha mãe. E isso não era nem um pouco comum.
Não. Eu não era mais uma garota imprudente e inquieta nos confins do deserto. Era a Bandida de Olhos Azuis, e estava no meio de um resgate. Indiquei com a cabeça o corpo inconsciente no chão.
— Consegue carregar essa mulher? — Minha voz soou mais firme do que eu realmente me sentia.
Ainda usando a forma com a qual havia lutado, Imin ergueu a mulher inconsciente do chão como se fosse uma boneca de pano.
— Isso é ridículo, Amani — Mahdi sussurrou entre os dentes, forçando caminho pela multidão de mulheres libertadas enquanto eu seguia Imin para fora da cela. Elas não pareciam muito bem, mas estavam vivas e conseguiam ficar de pé. — Libertar pessoas é uma coisa, mas como espera que a gente escape carregando alguém?
— Não vamos deixar ninguém para trás. — Eu já havia cometido o erro de abandonar alguém que precisava de ajuda para me salvar: meu amigo Tamid, na noite em que eu fugira com Jin da Vila da Poeira. Estava assustada, desesperada e nervosa. Peguei a mão de Jin sem pensar, enquanto Tamid ficou sangrando na areia. Abandonei-o para morrer. Não podia desfazer aquilo. Mas não era mais uma garota da Vila da Poeira. Podia levar todos comigo agora.
— Quem sabe usar uma arma? — perguntei ao grupo de mulheres. Ninguém se mexeu. — Ah, parem com isso, não é tão difícil. Você aponta e atira. — Samira levantou a mão primeiro. Algumas outras a seguiram, nervosas. — Peguem as armas dos guardas — ordenei, tomando uma para mim. Abri o tambor e, assim que toquei no ferro, meu poder sumiu. Estava com todas as balas. Sacudi a mão para fechá-lo novamente e guardei a arma na cintura, com cuidado para que nenhuma parte dela encostasse na minha pele. Estritamente falando, eu não precisava de uma arma. Tinha o deserto inteiro a meu dispor. Mas era sempre bom ter opções. — Vamos embora.
Já havia escurecido e as ruas de Saramotai estavam vazias. Muito mais do que o normal logo depois do anoitecer.
— Toque de recolher — Mahdi explicou num sussurro enquanto caminhávamos. — É assim que o usurpador camponês mantém a população sob controle. — Ele não precisava dizer “camponês” com tanto desdém, mas eu não pretendia sair em defesa de Malik depois de ele ter tomado Saramotai à força e manchado o nome de Ahmed.
O toque de recolher tornaria as coisas muito mais simples ou muito mais complicadas. Bem em frente à prisão, a rua se bifurcava. Hesitei. Não conseguia lembrar por onde tinha vindo.
— Qual é o caminho até os portões? — perguntei em voz baixa. As mulheres me encararam de olhos arregalados, apavoradas. Por fim, Samira libertou o braço do aperto firme de Ranaa e apontou para a direita. Quase conseguiu esconder o fato de estar tremendo. Mantive o dedo no gatilho e seguimos adiante.
Odiava admitir que Mahdi estava certo, mas não passaríamos exatamente despercebidos nos esgueirando da prisão seguidos de dezenas de mulheres de aparência rica vestindo khalats rasgados. Isso sem falar naquelas que seguravam armas como se fossem cestos de compras. Eu suspeitava que Mahdi podia matar alguém de tédio quando falava, mas fora isso era inútil. E Imin teria dificuldade para lutar se fosse preciso, já que carregava a mulher que me chamou pelo nome da minha mãe.
Pelo visto, eu teria que nos manter longe de problemas. E essa não era exatamente minha especialidade.
Ainda assim, não encontramos nenhuma resistência ao passar tranquilamente pelas ruas desertas de Saramotai, refazendo o caminho trilhado mais cedo.
Estava começando a achar que conseguiríamos fugir quando viramos uma esquina e mais de vinte homens com rifles olharam para nós.
Droga.
Estavam aglomerados ao redor dos portões da cidade em uniformes brancos e dourados, não os trajes improvisados dos guardas que tinham cometido o erro de entrar na prisão para morrer. Aqueles eram uniformes mirajins de verdade. O que significava que se tratava de homens do sultão. Pela primeira vez do nosso lado do deserto desde Fahali.
Deixei escapar o melhor xingamento em xichan que Jin havia me ensinado e saquei a arma por instinto, mesmo sabendo que era tarde demais. Havíamos sido pegos.
Uma das mulheres atrás de mim entrou em pânico e disparou pelo labirinto de ruas da cidade antes que eu pudesse impedi-la, como um coelho assustado procurando abrigo.
Eu já havia visto aves de rapina caçando. Os coelhos nunca escapavam.
Alguém disparou. Um coro de pânico soou atrás de mim. E um grito de dor, encerrado por uma segunda bala.
A mulher estava esparramada na rua, o sangue se misturando ao pó. A bala atingira o coração. Ninguém mais se mexeu.
Mantive o dedo firme no gatilho. Havia mais de vinte armas apontadas para nós. Eu só tinha uma. Não importava o que as pessoas ouvissem a respeito da Bandida de Olhos Azuis, não era realmente possível derrubar duas dúzias de homens com uma única bala. Ou mesmo com meu dom de demdji. Não sem mais alguém tomar um tiro.
— Então você é a lendária Bandida de Olhos Azuis. — O homem que falou não vestia uniforme, mas um khalat azul espalhafatoso e um sheema roxo que não combinavam. Ele era o único que não estava apontando um rifle para a minha cabeça.
Então Malik, o usurpador, havia retornado.
Eu estava vagamente ciente da posição de Ikar, empoleirado em seu posto de guarda acima do portão, as pernas balançando enquanto se esticava para acompanhar a cena.
— Acabaram de me informar que a senhorita havia agraciado nossa cidade com sua ilustre presença.
Malik não pareceu nem um pouco confortável ao dizer aquelas palavras empoladas. Seu rosto parecia esquelético no brilho untuoso da lamparina. Eu havia crescido em meio ao desespero, e conhecia o olhar de alguém que havia sido maltratado pela vida.
Só que, em vez de se resignar e aceitar seu destino, Malik decidira roubar o de outra pessoa. O khalat nas suas costas devia ser do emir. Ele tinha a silhueta de alguém que havia trabalhado, lutado, desejado e sofrido, mas vestia roupas de quem nunca havia passado por necessidades. Meu dedo tremeu no gatilho. Estava me coçando para atirar em alguma coisa, mas isso não nos tiraria vivos de lá.
O pequeno contingente de homens do sultão se movia irrequieto, olhando para mim como se tentassem decidir se eu realmente era a Bandida de Olhos Azuis. Acho que as histórias a meu respeito haviam chegado a Izman.
— E você é Malik — eu disse. — Sabe, ouvi dizer que enforcou aquele monte de gente em nome do meu príncipe. Mas está claro que sua lealdade pertence a outra pessoa. — Cumprimentei os soldados de maneira debochada com a mão livre. — Ao que tudo indica, você é mais um oportunista que um revolucionário.
— Ah, não diga isso. Acredito do fundo do coração na causa do seu príncipe rebelde. — Parecia que Malik estava arreganhando os dentes quando sorriu à luz das lamparinas sustentadas pelos soldados mais próximos. — Seu príncipe luta pela liberdade e pela igualdade em nosso deserto. Passei a vida inteira me curvando diante de homens que pensavam ser superiores a mim. Igualdade significa que eu jamais terei que me curvar novamente. Nem diante do sultão, nem do príncipe — ele virou e apontou para Samira, fazendo-a tremer com a súbita atenção — e nem do seu pai. — O movimento salpicou de luz e sombras as ruas de Saramotai. Duas figuras enormes talhadas em pedra flanqueavam os portões: Hawa e Attallah, de mãos dadas sobre a curva do arco.
Eu não havia percebido aquilo ao entrar, porque passara de costas para eles. Me perguntei o que pensariam se soubessem que a cidade que por tanto tempo haviam tentado salvar das ameaças externas apodrecera por dentro.
A tinta sumira da pedra havia muito, mas dava para notar o vermelho do sheema de Attallah. E eu podia jurar que os olhos de Hawa continuavam azuis.
— Estou criando minha própria igualdade — disse Malik, retomando minha atenção. — Não importa se estou levantando os que estão por baixo ou derrubando os que estão por cima, contanto que todos terminem de pé sobre a mesma areia. E ela — ele apontou para Ranaa — comprará nossa liberdade.
— Seus pés não estão tocando a areia. — Samira empurrou Ranaa para trás, protegendo-a. Ela estava escondendo o medo muito bem. Não parecia haver nada além de ódio quando ficou entre o homem que havia matado a maior parte de sua família e o pouco que havia restado. — Você pisa nas costas dos homens que matou.
— O príncipe rebelde vai perder essa guerra — disse um dos soldados do sultão, dando um passo à frente. — Malik é um homem sábio por perceber isso. — As palavras soaram forçadas e falsas, como se fosse doloroso bajular Malik. — O sultão concordou em ceder Saramotai a lorde Malik quando retomar esta parte do deserto, em troca da garota demdji. — O sultão até podia querer outro demdji para substituir Noorsham, mas eu não apostaria um único louzi na ideia de que estava disposto a ceder parte do deserto por isso. Malik, no entanto, era tolo o suficiente para acreditar que o sultão cumpriria sua promessa.
— Vocês estão em desvantagem. — Eu nunca havia me importado com isso antes. — Solte a arma, Bandida — Malik disse, com uma expressão de escárnio e desdém no rosto.
— Só existe um homem que pode me chamar assim — eu disse. — E você está bem longe de ter a beleza dele.
Malik se descontrolou mais rápido do que eu esperava. A arma que vinha mantendo de maneira tão arrogante na cintura foi sacada num instante, e logo pressionava minha testa. Senti Imin avançar atrás de mim, como se estivesse pensando em fazer alguma coisa. Ergui a mão na esperança de que entendesse a dica e não acabasse nos matando.
De canto de olho, eu a vi congelar. As mulheres da prisão observavam assustadas o desenrolar dos eventos. Uma delas havia começado a chorar. Seria ótimo se a sensação de um cano de ferro encostado na minha pele não fosse tão familiar. Mas estava longe de ser a primeira vez que me ameaçavam daquele jeito.
— Você é muito metida a engraçadinha, alguém já disse isso? — Era óbvio que sim, mas confirmar não me parecia muito inteligente.
— Malik. — O soldado que havia falado antes deu um passo à frente, como se sua paciência estivesse se esgotando. — O sultão a quer viva.
— O sultão não manda em mim — disse Malik, furioso. Ele pressionou a arma com mais força entre meus olhos. Meu coração acelerou por instinto, mas lutei para controlar o medo. Não ia morrer naquele dia.
— Você acabou de me custar vinte fouzas — suspirei. — Apostei que conseguiríamos sair da cidade sem ninguém ameaçar me matar, mas graças a você acabei de perder.
Malik não era esperto o bastante para se preocupar que alguém com uma pistola na cabeça fizesse piada em vez de chorar e se acovardar. Ele puxou o cão da pistola.
— Bem, sorte sua que não estará viva para pagar a aposta.
— Malik! — O soldado avançou de novo, a irritação evidente agora. Parecia que os mirajins não haviam se dado conta de que estavam lidando com um homem instável.
Seguindo algum sinal imperceptível do capitão, as armas mudaram de direção, indo das mulheres atrás de mim para Malik.
— Últimas palavras, Bandida? Quer implorar por sua vida?
— Bem… — uma voz pareceu flutuar até o ouvido de Malik. — Talvez você devesse implorar.
Ele ficou visivelmente tenso ao se ver em perigo. Eu havia me familiarizado com aquela reação nos últimos seis meses. Um filete fino de sangue escorria pelo pescoço de Malik, embora parecesse não haver nada ao seu redor além de ar.
A tensão em meus ombros finalmente passou. O problema de ter um reforço invisível é que você nunca sabe onde ele está.
O ar tremeluziu enquanto a ilusão lançada por Delila se desfazia, revelando Shazad onde não havia ninguém um instante antes. Seu cabelo escuro estava trançado firme em volta da cabeça como uma coroa, um sheema branco pendia frouxo ao redor do pescoço e suas roupas do deserto pareciam caras. Ela era tudo o que Malik odiava e o havia deixado indefeso. Parecia perigosa, não só porque uma de suas lâminas estava pressionada contra a garganta dele, mas porque seu maior desejo era usá-la.
Por fim, um tanto tarde demais, o medo surgiu lentamente em seu rosto.
— Agora é uma boa hora para largar essa arma e erguer os braços — eu disse.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!