29 de outubro de 2018

Capítulo 4

— Este acampamento está abandonado faz meses.
Manon se virou do penhasco coberto de neve de onde monitorava a borda oeste das Montanhas Canino Branco. Em direção aos desertos.
Asterin permanecia agachada sobre os restos semi-enterrados de uma fogueira, a pele de cabra desgrenhada pendurada nos ombros, agitando-se no vento gelado.
A tenente continuou:
— Ninguém vem para cá desde o começo do outono.
Manon suspeitara disso. As Sombras haviam avistado o local uma hora antes em sua patrulha do terreno à frente, percebendo de alguma forma as irregularidades escondidas de forma inteligente no lado sotavento do pico rochoso. A mãe sabia que a própria Manon poderia ter voado reto ser ver.
Asterin ficou de pé, tirando a neve dos joelhos de seus couros. Mesmo o material grosso não era suficiente para evitar o frio brutal. Daí as peles de cabra da montanha a que recorreram.
Boa para se misturar à neve, Edda alegara, a Sombra até mesmo deixando de lado a tintura escura de cabelo que ela favorecia por essas semanas para revelar o branco enluarado de sua cor natural. O tom de Manon. Briar manteve o corante.
Uma delas era necessária para explorar a noite, a outra Sombra alegara.
Manon examinou as duas Sombras passando cuidadosamente pelo acampamento. Talvez não mais sombras, mas sim as duas faces da lua. Uma escura, outra clara.
Uma das muitas mudanças para as Treze.
Manon soltou um suspiro, o vento arrancando o sopro quente.
— Elas estão lá fora — Asterin murmurou de modo que as outras não pudessem ouvir de onde haviam se juntado na pedra saliente que as protegia do vento.
— Três acampamentos — Manon disse no mesmo tom. — Todos há muito abandonados. Estamos caçando fantasmas.
O cabelo dourado de Asterin se soltou da trança, soprando para o oeste. Em direção à terra natal que elas poderiam muito bem nunca mais ver.
— Os acampamentos são a prova de que são de carne e sangue. Ghislaine acha que podem ser das caçadas do final do verão.
Elas também poderiam ser dos homens selvagens dessas montanhas. Embora Manon soubesse que não eram. Ela havia caçado Crochans suficientes durante os últimos cem anos para identificar seu estilo de fazer fogueiras, seus pequenos acampamentos. Todas as Treze sabiam. E todas elas rastrearam e mataram muitos dos homens selvagens dos Caninos Brancos no começo do ano, em nome de Erawan, para também conhecer seus hábitos.
Os olhos negros salpicados de ouro de Asterin pousaram naquele horizonte borrado.
— Nós vamos encontrá-las.
Em breve. Elas tinham que encontrar pelo menos algumas das Crochans em breve. Manon sabia que elas tinham métodos de comunicação, espalhadas como estavam. Formas de pedir ajuda. Um pedido de socorro.
O tempo não estava do lado delas. Fazia quase dois meses desde aquele dia na praia de Eyllwe. Desde que ela descobriu o terrível preço que a rainha de Terrasen deveria pagar para acabar com essa loucura. O preço que outro com a linhagem de Mala também poderia pagar, se fosse necessário.
Manon resistiu ao desejo de olhar por cima do ombro para onde o rei de Adarlan estava entre as outras Treze, entretendo Vesta ao chamar fogo, água e gelo para a palma da mão. Uma pequena exibição de uma terrível e maravilhosa magia. Ele colocou três espirais dos elementos para dançar preguiçosamente ao redor uma da outra, e Vesta arqueou uma sobrancelha impressionada. Manon tinha visto o modo como a sentinela ruiva olhava para ele, notara que Vesta sabiamente se abstinha de agir de acordo com esse desejo.
Manon não lhe dera tais ordens, no entanto. Não dissera nada às Treze sobre o que, exatamente, o rei humano era para ela.
Nada, ela queria dizer. Alguém tão se lar quanto ela. Tão silenciosamente zangado. E tão pressionado pelo tempo. Encontrar a terceiro e última chave de Wyrd provou-se fútil. As duas que o rei carregava no bolso não ofereciam orientação, apenas sua aura sobrenatural. Onde Erawan a mantinha, eles não tinham a menor ideia. Procurar em Morath ou qualquer outro posto avançado seria suicídio.
Então eles deixaram de lado a caçada, depois de semanas de busca infrutífera, em favor de encontrar os Crochans. O rei protestara inicialmente, mas cedera. Seus aliados e amigos no norte precisavam de tantos guerreiros quantos pudessem reunir. Encontrar as Crochans... Manon não quebraria sua promessa.
Ela podia ser a herdeira deserdada do clã Bico Negro, podia agora comandar apenas uma dúzia de bruxas, mas ela ainda podia se manter fiel à sua palavra.
Então ela encontraria as Crochans. As convenceria a voar para a batalha com as Treze. Com ela. Sua última Rainha Crochan viva.
Mesmo que isso as levasse direto para o abraço da Escuridão.
O sol se arqueava mais alto, a luz refletindo na neve e quase cegando. Andar por aí era imprudente. Eles sobreviveram a esses meses com força e inteligência. Por que enquanto procuravam as Crochans, eles mesmos eram caçados. Pernas Amarelas e Sangue-Azul, principalmente. Todas as patrulhas de reconhecimento.
Manon dera a ordem para não se envolverem, não para matar. Uma patrulha faltando de Dentes de Ferro só indicaria sua localização. Embora Dorian pudesse ter quebrado seus pescoços sem levantar um dedo.
Era uma pena que ele não tivesse nascido uma bruxa. Mas ela aceitaria de bom grado um aliado tão letal. Assim como as Treze.
— O que você vai dizer — refletiu Asterin — quando encontrarmos as Crochans?
Manon havia pensado várias vezes. Se as Crochans soubessem quem foi Lothian Bico Negro, que amara o pai de Manon – um raro príncipe Crochan. Que seus pais haviam sonhado, acreditavam ter criado uma criança para quebrar a maldição das Dentes de Ferro e unir seus povos.
Uma criança não da guerra, mas da paz. Mas essas eram palavras estranhas em sua língua. Amor. Paz.
Manon passou um dedo enluvado na tira de tecido vermelho que prendia a ponta de sua trança. Um fragmento do manto da meia-irmã dela. Rhiannon. Nomeada pela última Rainha Bruxa. Quem Manon de alguma forma encarou.
— Vou pedir para as Crochans não atirarem, suponho — Manon respondeu.
A boca de Asterin se contraiu em direção a um sorriso.
— Eu quis dizer sobre quem você é.
Ela raramente se esquivava de qualquer coisa. Raramente temia qualquer coisa. Mas dizer as palavras, aquelas palavras...
— Eu não sei — admitiu Manon. — Vamos ver se chegarmos tão longe.
O Demônio Branco. Era assim que as Crochans a chamavam. Ela estava no topo da lista de inimigos. Uma bruxa que qualquer Crochan deveria matar ao vê-la.
Só esse fato dizia que elas não sabiam o que ela era deles.
No entanto, sua meia-irmã havia descoberto. E depois Manon cortara sua garganta. Manon Matadora de Parentes, sua avó zombara. A Matriarca provavelmente apreciara cada coração Crochan que Manon trouxera para ela na Fortaleza Bico Negro nos últimos cem anos.
Manon fechou os olhos, ouvindo o canto oco do vento. Atrás deles, Abraxos soltou um gemido impaciente e faminto. Sim, eles estavam com fome esses dias.
— Vamos segui-la, Manon — disse Asterin suavemente.
Manon se virou para sua prima.
— Eu mereço essa honra?
A boca de Asterin pressionou-se em uma linha apertada. A forma ligeiramente torta do nariz dela – Manon lhe dera isso. Ela o quebrou no refeitório da Ômega por bater-boca com Pernas Amarelas.
Asterin nunca se queixara disso. Parecia usar a lembrança do espancamento que Manon lhe deu como um distintivo de orgulho.
— Só você pode decidir se merece, Manon.
Manon deixou as palavras aprofundarem quando desviou o olhar para o horizonte oeste. Talvez ela merecesse essa honra se conseguisse trazê-las de volta para uma casa em que nunca puseram os olhos.
Se eles sobreviveram a esta guerra e todas as coisas terríveis que deveriam fazer antes que acabasse.


Não era fácil escapar de treze bruxas adormecidas e suas serpentes aladas.
Mas Dorian Havilliard as estava estudando – seus horários, quais dormiam mais profundamente, que poderiam relatar tê-lo visto se afastar de sua pequena fogueira e que manteriam as bocas fechadas. Semanas e semanas, desde que ele bolara essa ideia. Este plano.
Eles acamparam no pequeno afloramento onde haviam encontrado vestígios frios das Crochans, abrigando-se sob a rocha suspensa, as serpentes aladas uma parede de calor coriácea ao redor deles.
Ele tinha minutos para fazer isso. Estava praticando há semanas – sem criar confusão por levantar no meio da noite, não mais do que um homem sonolento descontente por ter que enfrentar os elementos frígidos para atender às suas necessidades. Deixando as bruxas se acostumarem com seus movimentos noturnos.
Deixando Manon se acostumar com isso também.
Embora nada tivesse sido declarado entre eles, os seus sacos de dormir ainda ficavam ao lado um do outro todas as noites. Não que um acampamento cheio de bruxas oferecesse qualquer tipo de oportunidade para se envolver com ela. Não, para isso, eles tinham recorrido a florestas nuas de inverno e a montes de neve, suas mãos buscando qualquer pedaço de pele nua que ousassem expor ao ar frio. Suas cópulas eram breves e selvagens. Dentes e unhas e rosnados. E não apenas de Manon.
Mas depois de um dia de busca infrutífera, pouco mais que uma sentinela estava de pé contra os inimigos que os caçavam enquanto seus amigos sangravam para salvar suas terras. Ele precisava da libertação tanto quanto ela. Eles nunca discutiram isso – o que os perseguia. O que estava bom para ele.
Dorian não tinha ideia do tipo de homem que se tornou.
Na maioria dos dias, se era sendo honesto, ele sentia pouco. Sentia-se pouco há meses, salvo aqueles momentos selvagens e roubados com Manon. E salvo nos momentos em que treinava com as Treze, e uma espécie de raiva o levava a continuar manejando a espada, continuar a levantar quando elas o derrubavam.
Espada, arco e flecha, faca, rastreamento – elas ensinavam tudo o que ele pedia. Junto com o peso sólido de Damaris, uma faca de bruxa agora estava pendurada no cinto da espada. Ela havia sido presente de Sorrel quando ele conseguira prender a segunda tenente de rosto sério. Duas semanas atrás.
Mas quando as lições eram dadas, quando eles se sentavam ao redor da pequena fogueira que ousavam arriscar a cada noite, ele se perguntava se as bruxas podiam farejar a inquietação que mordiscava seus calcanhares. Se podiam agora farejar que ele não tinha intenção de se aliviar na noite gelada enquanto caminhava entre seus mantos de dormir, então através do pequeno espaço entre Narene, a montaria azul-celeste de Asterin, e Abraxos. Ele acenou para onde Vesta estava de vigia, e a bruxa ruiva, apesar do frio brutal, lançou um sorriso perverso antes de dobrar a esquina da saliência rochosa e desaparecer além da vista.
Ele pegou o turno dela por um motivo. Havia algumas entre as Treze que nunca sorriam. Lin, que ainda parecia se debater sobre abrir suas entranhas; e Imogen, que se mantinha afastada e não sorria para ninguém. Thea e Kaya geralmente reservavam seus sorrisos uma para a outra, e quando Faline e Fallon – as gêmeas demônias de olhos verdes, como as outras as chamavam – sorriam, significava que o inferno estava prestes a ser libertado.
Todas elas poderiam ter suspeitado se ele desaparecesse por muito tempo. Mas Vesta, que flertava descaradamente com ele – ela deixaria que ele ficasse fora do acampamento. Provavelmente por medo do que Manon poderia fazer com ela se fosse flagrada atrás dele na escuridão.
Um bastardo, ele era um bastardo por usá-las assim. Por avaliá-las e monitorá-las quando elas arriscavam tudo para encontrar as Crochans.
Mas não fazia diferença se ele se importasse. Com elas. Consigo, ele supôs. Se importar não lhe fizera nenhum favor. Não havia feito nenhum favor a Sorscha.
E isso não importaria, uma vez que ele desistisse de tudo para selar o Portão de Wyrd.
Damaris era um peso ao seu lado, mas nada comparado aos dois objetos enfiados no bolso de sua jaqueta grossa. Misericordiosamente, ele rapidamente aprendeu a abafar seus sussurros, seu aceno de outro mundo. Na maior parte do tempo.
Nenhuma das bruxas havia questionado por que ele fora tão facilmente persuadido a desistir da caça pela terceira chave de Wyrd. Ele sabia melhor do que desperdiçar seu tempo discutindo. Então ele planejou, e deixou que elas, que Manon, acreditassem que ele estava contente em seu papel de guardá-las com sua magia.
Alcançando a clareira envolta em pedregulhos que ele havia explorado antes, sob o disfarce de vagar sem destino pelo local, Dorian fez um rápido trabalho com seus preparativos.
Ele não havia esquecido um único movimento das mãos de Aelin em Baía da Caveira quando ela espalhou seu sangue no chão do quarto na Rosa do Oceano.
Mas não era Elena quem ele planejava convocar com seu sangue.
Quando a neve estava vermelha, quando ele se assegurou de que o vento ainda soprava seu cheiro para longe do acampamento das bruxas, Dorian desembainhou Damaris e mergulhou-a no círculo das marcas de Wyrd.
E então esperou.
Sua magia era um impulso constante através dele, a pequena chama que ele ousou conjurar o suficiente para aquecer seu corpo. Para evitar que ele tremesse até a morte enquanto os minutos passavam.
O gelo foi a primeira manifestação de sua magia. Ele supôs que deveria dar a ele algum tipo de preferência por isso. Ou pelo menos alguma imunidade. Ele não tinha. E decidira que, se sobrevivesse tempo suficiente para aguentar o calor escaldante do verão, nunca mais se queixaria.
Ele aperfeiçoou sua magia da melhor maneira possível durante essas semanas de caça implacável e inútil. Nenhuma das bruxas possuía poder, não além do Rendimento, que elas diziam só poder ser usado uma vez – para um efeito terrível e devastador. Mas as Treze assistiam com algum grau de interesse quando Dorian continuava as lições que Rowan tinha começado. Gelo. Fogo. Água. Cura. Vento. Com as neves, tentar fazer a terra congelada ganhar vida se mostrou impossível, mas ele ainda tentava.
A única magia que sempre saltava à sua convocação permanecia sendo aquela força invisível, capaz de quebrar ossos. Essa era a que as bruxas gostavam mais.
Especialmente desde que era a sua maior linha de defesa contra seus inimigos.
Morte – este era o seu dom. Tudo o que ele parecia ser capaz de oferecer aos que o rodeavam. Ele era pouco melhor que o pai a esse respeito.
Chama fluiu sobre ele, invisível e estável.
Eles não ouviram um sussurro sobre Aelin. Ou de Rowan e seus companheiros. Nem um sussurro se a rainha ainda era prisioneira de Maeve.
Ela estava disposta a ceder tudo para salvar Terrasen, para salvar todos eles.
Ele não podia fazer menos que isso. Aelin certamente tinha mais a perder. Um parceiro e marido que a amava. Um corte que a seguiria até o inferno. Um reino que aguardava imensamente o seu retorno.
Tudo o que ele tinha era um túmulo sem identificação para uma curandeira de que ninguém se lembraria, um império quebrado e um castelo destruído.
Dorian fechou os olhos por um momento, bloqueando a visão do castelo de vidro implodindo, a visão de seu pai procurando seus olhos, implorando por perdão.
Um monstro – o homem tinha sido um monstro em todos os sentidos possíveis. Concebera Dorian enquanto possuído por um demônio valg.
O que isso fazia dele? Seu sangue corria vermelho, e o príncipe valg que infestara o próprio Dorian se deleitara em banquetear-se com ele, em fazê-lo desfrutar de todas as suas ações quando usava aquele colar. Mas isso ainda o tornava completamente humano?
Soltando um longo suspiro, Dorian abriu os olhos.
Um homem estava parado do outro lado da clareira nevada.
Dorian fez uma reverência.
— Gavin.


O primeiro rei de Adarlan tinha os mesmos olhos que ele.
Ou melhor, Dorian tinha os olhos de Gavin, passados através dos mil anos entre eles.
O restante do rosto do antigo rei era estranho: o longo cabelo castanho escuro, as feições ásperas, o tom grave da boca.
— Você aprendeu as marcas.
Dorian voltou a esticar o corpo.
— Eu sou um estudioso rápido.
Gavin não sorriu.
— A convocação não é um dom para ser usado levianamente. Você arrisca demais, jovem rei, ao me chamar aqui. Considerando o que carrega.
Dorian deu um tapinha no bolso da jaqueta onde as duas chaves de Wyrd estavam, ignorando o poder estranho e terrível que pulsou contra sua mão em resposta.
— Tudo é um risco nos dias de hoje. — Ele se endireitou. — Preciso da sua ajuda.
Gavin não respondeu. Seu olhar deslizou para Damaris, ainda mergulhada na neve em meio às marcas. Uma propriedade pessoal do rei, pois Aelin usara o Olho de Elena para convocar a antiga rainha.
— Pelo menos você cuidou bem da minha espada. — Seus olhos se ergueram para Dorian, afiados como a própria lâmina. — Embora eu não possa dizer o mesmo do meu reino.
Dorian trincou a mandíbula.
— Temo ter herdado uma bagunça de meu pai.
— Você era príncipe de Adarlan muito antes de se tornar rei.
A magia de Dorian se transformou em gelo, mais fria que a noite ao redor dele.
— Então considere-me na tentativa de expiar anos de mau comportamento.
Gavin sustentou seu olhar por um momento que se estendeu na eternidade.
Um verdadeiro rei, era o que o homem diante dele era. Um rei não só no título, mas no espírito. Como poucos eram desde que Gavin foi deixado para descansar sob as fundações do castelo que ele construiu nas margens do Avery.
Dorian suportou o peso do olhar de Gavin. Deixe o rei ver o que restou dele, perceber a faixa pálida em torno de sua garganta.
Então Gavin piscou uma vez, o único sinal de sua permissão para continuar.
Dorian engoliu em seco.
— Onde está a terceira chave?
Gavin ficou rígido.
— Estou proibido de dizer.
— Proibido, ou sem vontade? — Ele supôs que deveria estar ajoelhado, deveria manter seu tom respeitoso. Quantas lendas sobre Gavin ele lera quando criança? Quantas vezes correra pelo castelo fingindo ser o rei diante dele?
Dorian tirou o Amuleto de Orynth de sua jaqueta, deixando-o pender ao vento amargo. Um canto baixo e fantasmagórico ecoava do medalhão dourado e azul – falando em idiomas que não existiam.
— Brannon Galathynius desafiou os deuses colocando a chave aqui com um aviso para Aelin. O mínimo que você poderia fazer é me dar uma direção.
As bordas de Gavin tremeluziram, mas se mantiveram. Não restava muito tempo.
Para qualquer um deles.
— Brannon Galathynius era um bastardo arrogante. Eu vi o que interferir com os planos dos deuses causa. Não vai acabar bem.
— Sua esposa, não os deuses, causou isso. — Gavin mostrou os dentes. E embora o homem estivesse morto há muito tempo, a magia de Dorian explodiu novamente, preparando-se para atacar.
— Minha parceira — Gavin rosnou — é o custo disso. Minha parceira, se as chaves forem recuperadas, desaparecerá para sempre. Sabe o que é isso, jovem rei? Ter a eternidade – e depois ser arrancado dela?
Dorian não se deu ao trabalho de responder.
— Você não quer que eu encontre a terceira chave porque isso significará o fim de Elena.
Gavin não disse nada. Dorian soltou um grunhido.
— Inúmeras pessoas morrerão se as chaves não forem devolvidas ao portão. — Ele empurrou o Amuleto de Orynth de volta para sua jaqueta, e mais uma vez ignorou o zumbido do outro mundo pulsando contra seus ossos. — Não pode ser tão egoísta.
Gavin permaneceu em silêncio, o vento balançando seu cabelo escuro. Mas seus olhos piscaram – apenas levemente.
— Diga-me onde — Dorian expirou. Ele tinha apenas alguns minutos antes que Vesta viesse procurá-lo. — Diga-me onde está a terceira chave.
— Sua vida também será perdida. Se recuperar as chaves e forjar o cadeado. Sua alma será reivindicada também. Nem um pedaço seu viverá no além-mundo.
— Não há ninguém que vá realmente se importar com isso de qualquer maneira. — Ele certamente não se importava. E certamente merecia esse fim, quando falhou tantas vezes. Com tudo o que fez.
Gavin o estudou por um longo momento. Dorian ficou imóvel sob aquele olhar feroz. Um guerreiro que sobreviveu à segunda das guerras de Erawan.
— Elena ajudou Aelin — Dorian pressionou, sua respiração se curvando no espaço entre eles. — Ela não se recusou, mesmo sabendo o que significava para o seu destino. E nem Aelin, que não terá uma vida longa com o seu próprio companheiro, nem a eternidade com ele. — Como eu também não terei. Seu coração começou a trovejar, sua magia acompanhando. — E ainda assim você faria isso. Fugiria.
Os dentes de Gavin reluziram.
— Erawan poderia ser derrotado sem selar o portão.
— Diga-me como, e encontrarei uma maneira de fazê-lo. — No entanto, Gavin ficou em silêncio novamente, com as mãos cerradas ao lado. Dorian bufou suavemente. — Se soubesse, teria sido feito há muito tempo. — Gavin balançou a cabeça, mas Dorian seguiu adiante. — Seus amigos morreram lutando contra as hordas de Erawan. Me ajude a evitar que os meus tenham o mesmo destino. Já pode ser tarde demais para alguns deles. — Seu estômago se revirou.
Seria tarde demais para Chaol no continente do sul? Talvez fosse melhor que o amigo nunca voltasse, se ficasse seguro em Antica. Mesmo que Chaol nunca fosse fazer uma coisa dessas.
Dorian olhou para as rochas que ele havia contornado. Não faltava muito tempo.
— E o que será de Adarlan? — Gavin exigiu. — Você os deixaria sem rei? — A pergunta dizia o suficiente da opinião de Gavin sobre Hollin. — É assim que você expia seus anos desperdiçados como príncipe herdeiro?
Dorian aceitou o golpe verbal. Não era nada além da verdade, dita por um homem que servira a seu deus sem nome.
— Isso realmente importa?
— Adarlan era o meu orgulho.
— Não é mais digno disso — Dorian retrucou. — Não faz muito tempo. Talvez mereça cair em ruínas.
Gavin inclinou a cabeça.
— Palavras de um garoto imprudente e arrogante. Você acha que é o único que encarou a perda?
— E, no entanto, o seu próprio medo da perda faz com que escolha uma mulher acima do destino do mundo.
— Se você tivesse a escolha – sua mulher ou Erilea – teria escolhido de forma diferente?
Sorscha ou o mundo. A pergunta soava vazia. Algum do fogo dentro dele se acumulou. No entanto, Dorian ousou dizer:
— Você se ilude com o caminho à frente, mas serviu ao deus da verdade. — Chaol lhe contara sobre a descoberta nas catacumbas sob os esgotos de Forte da Fenda, na primavera passada. O templo de osso esquecido onde a confissão do leito de morte de Gavin havia sido escrita. — O que ele tem a dizer sobre o papel de Elena nisto?
— Aquele Que Tudo Vê não reivindica parentesco com essas criaturas covardes — Gavin rosnou.
Dorian poderia jurar que um vento empoeirado e seco passou pelo desfiladeiro.
— Então o que ele é?
— Não pode haver muitos deuses, de muitos lugares? Alguns nascidos neste mundo, alguns nascidos em outro lugar?
— Esta é uma questão para debater em outro momento — Dorian disse. — Quando não estivermos em guerra. — Ele respirou fundo. De novo. — Por favor. Por favor, me ajude a salvar meus amigos. Ajude-me a consertar isso.
Era tudo o que restava a ele – essa tarefa. Gavin novamente o observou, pesou-o. Dorian se manteve. Deixe-o enxergar qualquer verdade que tenha sido escrita em sua alma.
Dor obscureceu o rosto do rei. Dor e arrependimento, quando Gavin finalmente disse:
— A chave está em Morath.
A boca de Dorian ficou seca.
— Onde em Morath?
— Eu não sei. — Dorian acreditou nele. O medo nos olhos de Gavin confirmava isso. O antigo rei acenou para Damaris. — Essa espada não é ornamental. Deixe-a guiá-lo, se não puder confiar em si mesmo.
— Ela realmente diz a verdade?
— Foi abençoada por Aquele Que Tudo Vê, depois que fiz meu juramento a ele. — Gavin deu de ombros, um gesto quase simples. Como se o homem nunca tivesse realmente saído dos desertos de Adarlan, onde se elevara de líder de guerra para Grande Rei. — Você ainda terá que aprender por si mesmo o que é verdade e o que é mentira.
— Mas Damaris me ajudará a encontrar a chave em Morath? — invadir a fortaleza de Erawan, onde todos aqueles colares eram feitos...
A boca de Gavin apertou .
— Eu não posso dizer. Mas vou lhe dizer isto: não se aventure em Morath ainda. Não até que esteja pronto.
— Estou pronto agora. — Uma mentira de tolo. Gavin também sabia disso. Foi um esforço não tocar o próprio pescoço, a faixa pálida para sempre marcando sua pele.
— Morath não é uma mera fortaleza — Gavin falou. — É um inferno, e não é gentil com jovens imprudentes. — Dorian ficou rídigo, mas Gavin continuou: — Você saberá quando estiver realmente pronto. Permaneça neste acampamento, se puder convencer suas companheiras. O caminho irá encontrá-lo aqui.
As bordas de Gavin esmaeceram ainda mais, seu rosto desbotando. Dorian ousou dar um passo à frente.
— Eu sou humano?
Os olhos de safira de Gavin suavizaram – apenas um pouco.
— Eu não sou a pessoa que pode responder esta pergunta.
E então o rei se foi.

7 comentários:

  1. Dorian realmente se tornou um grande personagem, depois de tanto sofrimento. Na verdade, todo mundo tá sofrendo muito.
    Mas agora ele parece tão sombrio e determinado. Não sei dizer se é bom ou ruim... :/

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    1. Eu sinceramente acho que ele se lamenta demais. Não faz nada e só reclama de si mesmo. Mimado demais.

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  2. "— Pelo menos você cuidou bem da minha espada. — Seus olhos se ergueram para Dorian, afiados como a própria lâmina. — Embora eu não possa dizer o mesmo do meu reino.
    Dorian trincou a mandíbula.
    — Temo ter herdado uma bagunça de meu pai.
    — Você era príncipe de Adarlan muito antes de se tornar rei."

    caramba que tapa na cara, doeu ate em mim. só fico lembrando pelo que Dorian ja teve que passar, acho que ele tem muita bagagem pra simplesmente dizer não tem mais nada no mundo,e a Manon? espero que eles abra os olhos

    -josi

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  3. e eu achando q ele tinha superado a Sorscha pq tava de loves com a Manon

    mesmo nessa meda toda, Dorian evoluiu muito

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  4. Socorro, como continuar? Esse livro parte meu coração a cada capítulo, eu até agora só fiz sofrer e chorar. Quero entrar aí só pra poder dar uma abraço em todos eles, menos no Lorcan q eu tô com ódio dele, por mim a Elide fica com Gavriel e rejeita o Imbecil.

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  5. Finalmente o Dorian sendo útil!!!

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  6. Espero q o MEU DORIAN cresça mais ainda nesse livro. Tão empenhado em aprender as coisas *.*

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Boa leitura, E SEM SPOILER!