29 de outubro de 2018

Capítulo 48

As forças do khagan haviam infligido um golpe suficiente a Morath para que os tambores de osso parassem.
Não era um sinal de derrota certa, mas o suficiente para fazer os passos mais pesados de Chaol parecerem mais leves quando ele entrou na ampla tenda de guerra da princesa Hasar. O sulde dela estava fincado do lado de fora, a crina do ruano voando ao vento do lago. A própria lança de Sartaq estava afundada na lama fria ao lado da de sua irmã. E ao lado da lança do herdeiro...
Apoiando-se em sua bengala, Chaol parou na lança de ébano que também havia sido fincada, sua crina de cavalo ainda brilhando apesar da idade. Não para indicar a realeza ali dentro, um marcador de sua herança Darghan, mas para representar o homem que eles serviam. Crina de Marfim para tempos de paz; o Ébano para tempos de guerra.
Ele não tinha percebido que o khagan dera a seu herdeiro o Ébano para trazer para essas terras.
Ao lado de Chaol, seu vestido salpicado de sangue, mas olhos límpidos, Yrene também parou. Eles tinham viajado por semanas com o exército, ainda vendo o sinal de seu compromisso com esta guerra irradiando os séculos de conquista que supervisionaram... Parecia quase sagrado, aquele suldeEra sagrado.
Chaol pôs a mão nas costas de Yrene, guiando-a pelas abas da tenda e entrando no espaço enfeitado. Para uma mulher que chegara a Anielle nem um pouco tarde demais, só Hasar conseguiria, de alguma forma, erguer sua tenda real durante a batalha.
Apoiando a bengala enlameada na plataforma de madeira elevada, Chaol cerrou os dentes enquanto subia o degrau. Mesmo os grossos tapetes felpudos não aliviavam a dor que lhe atingia a coluna, as pernas.
Ele parou, apoiando-se pesadamente na bengala enquanto respirava, deixando o equilíbrio se reajustar.
O rosto salpicado de sangue de Yrene se apertou.
— Vamos colocá-lo em uma cadeira — ela murmurou, e Chaol assentiu. Sentar-se, mesmo que por alguns minutos, seria um alívio abençoado.
Nesryn entrou atrás deles e aparentemente ouviu a sugestão de Yrene, pois foi imediatamente até a mesa em torno da qual Sartaq e Hasar se encontravam e puxou uma cadeira de madeira esculpida. Com um aceno de gratidão, Chaol entrou.
— Nenhum sofá dourado? — brincou a princesa Hasar, e Yrene corou, apesar do sangue em sua pele marrom dourada, e acenou para a amiga.
O divã que Chaol trouxera consigo do continente do sul – o divã no qual Yrene o curara, no qual ele conquistara o seu coração – ainda estava a salvo a bordo do navio. Esperando, caso sobrevivessem, para ser o primeiro móvel da casa que construiria para a esposa.
Para a criança que ela carregava.
Yrene parou ao lado de sua cadeira e Chaol apertou a sua mão magra na dele, entrelaçando seus dedos. Sujos, os dois, mas ele não se importava. Nem ela, a julgar pelo aperto que ela lhe deu.
— Nós superamos em número a legião de Morath — disse Sartaq, poupando-os das agulhadas de Hasar — mas como escolhemos cortá-los enquanto abrimos caminho para a cidade ainda deve ser cuidadosamente pesado, por isso não gastamos muitas forças aqui.
Quando a batalha real ainda estava à frente. Como se esses terríveis dias de cerco e derramamento de sangue, como se os homens caídos hoje fossem apenas o começo.
— Sábio o bastante — Hasar falou.
Sartaq estremeceu ligeiramente.
— Poderia não ter acabado assim.
Chaol levantou uma sobrancelha, Hasar fazendo o mesmo, e Sartaq disse:
— Se você não tivesse chegado, irmã, eu estava a horas de liberar a represa e inundar a planície.
— Você estava? — Chaol parou.
O príncipe esfregou o pescoço.
— Uma última medida desesperada.
De fato. Uma onda daquele tamanho teria varrido parte da cidade, a planície e as fontes termais, e léguas além delas. Qualquer exército em seu caminho teria se afogado – teria sido arrastado. Poderia até ter alcançado o exército do khganato, que marchava para salvá-los.
— Então vamos nos alegrar por não termos feito isso — disse Yrene, o rosto empalidecendo enquanto ela também considerava a destruição. Quão perto eles chegaram de um desastre.
O fato de Sartaq ter admitido isso bastava: ele poderia ser o herdeiro, mas desejava que a irmã soubesse que ele também não estava acima de cometer erros. Que eles tiveram que pensar em qualquer plano de ação, por mais fácil que parecesse.
Hasar, ao que parecia, entendeu o ponto e assentiu.
O som de alguém limpando a garganta atravessou a tenda e todos se voltaram para as abas abertas para encontrar um dos capitães do Darghan, seu sulde segurado em sua mão suja de lama. Alguém estava aqui para vê-los, gaguejou o homem. Nenhum dos reis perguntou quem quando acenaram para o homem deixá-los entrar.
Um momento depois, Chaol ficou feliz por estar sentado.
— Santos deuses — Nesryn soltou.
Chaol estava inclinado a concordar quando Aelin Galathynius, Rowan Whitethorn e vários outros entraram na tenda.
Eles estavam salpicados de barro, o cabelo trançado da Rainha de Terrasen muito mais longo do que Chaol vira pela última vez. E os olhos dela... Não o olhar suave, e ainda ardente. Mas algo mais velho. Exausto.
Chaol se levantou de um pulo.
— Pensei que você estivesse em Terrasen — ele desabafou. Todos os relatórios confirmaram isso. No entanto, aqui estava ela, nenhum exército à vista.
Três machos feéricos – guerreiros imponentes tão largos e musculosos quanto Rowan – haviam entrado, junto com uma delicada mulher humana de cabelos negros.
Mas Aelin apenas olhava para ele. Olhava e olhava para ele.
Ninguém falou quando lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela. Não por estar aqui, percebeu Chaol, pegando a bengala e mancando em direção a Aelin.
Mas por ele. De pé. Caminhando.
A jovem rainha soltou uma risada de alegria e atirou os braços ao redor de seu pescoço. A dor percorreu sua espinha pelo impacto, mas Chaol a segurou de volta, cada pergunta desaparecendo de sua língua.
Aelin ainda tremia quando se afastou.
— Eu sabia que você poderia — ela falou, olhando para o corpo dele, para seus pés, depois para cima novamente. — Eu sabia que você conseguiria.
— Não sozinho — ele respondeu com a voz grossa. Chaol engoliu em seco, soltando Aelin para estender um braço para trás dele. Para a mulher que ele sabia que estava lá, uma mão sobre o medalhão em seu pescoço. Talvez Aelin não se lembrasse, talvez seu encontro anos atrás não tivesse significado nada para ela, mas Chaol puxou Yrene para frente. — Aelin, permita-me apresentar...
— Yrene Towers — a rainha completou quando sua esposa parou ao lado dele.
As duas mulheres se encararam. A boca de Yrene estremeceu quando ela abriu o medalhão de prata e tirou um papel dali. Mãos trêmulas, ela estendeu para a rainha.
As próprias mãos de Aelin tremeram quando ela aceitou o recado.
— Obrigada — sussurrou Yrene. Chaol supôs que era tudo o que realmente precisava ser dito.
Aelin desdobrou o papel, lendo a nota que havia escrito, vendo as marcas das centenas de vezes que foi dobrada e relida nos últimos anos.
— Eu fui para a Torre — disse Yrene, com a voz embargada. — Eu peguei o dinheiro que você me deu e fui para a Torre. E me tornei a herdeira da Alta Curandeira. E agora voltei para fazer o que posso. Eu ensinei a todas as curandeiras o que pude das lições que você me mostrou naquela noite, sobre autodefesa. Eu não desperdicei – nem uma moeda que você me deu, ou um momento do tempo, da vida que você me comprou. — Lágrimas rolavam e rolavam pelo rosto de Yrene. — Eu não desperdicei nada.
Aelin fechou os olhos, sorrindo através de suas próprias lágrimas, e quando os abriu, pegou as mãos trêmulas de Yrene.
— Agora é minha vez de agradecer-lhe. — Mas o olhar de Aelin recaiu sobre a aliança no dedo de Yrene, e quando ela olhou para Chaol, ele sorriu.
— Não mais Yrene Towers — disse Chaol suavemente — mas Yrene Westfall.
Aelin soltou uma daquelas risadas baixas e alegres, e Rowan se aproximou.
A cabeça de Yrene inclinou-se para trás para absorver a altura total do guerreiro, os olhos arregalados – não apenas ao tamanho de Rowan, mas também às orelhas pontudas, aos caninos ligeiramente alongados e às tatuagens.
— Então permita-me apresentá-la, lady Westfall, ao meu próprio marido, o príncipe Rowan Whitethorn Galathynius — Aelin disse.
Pois havia de fato uma aliança de casamento no dedo da rainha, a esmeralda enlameada mas brilhante. Na própria mão de Rowan, um anel de ouro e rubi brilhava.
— Meu parceiro — acrescentou Aelin, agitando os cílios para o macho feérico.
Rowan revirou os olhos, mas não conseguiu conter o sorriso enquanto inclinava a cabeça para Yrene.
Yrene fez uma reverência, mas Aelin bufou.
— Nada disso, por favor. Isso subirá direto para a cabeça imortal dele. — O sorriso dela se suavizou quando Yrene corou e Aelin ergueu o bilhete. — Posso ficar com isso? — Ela olhou para o medalhão de Yrene. — Ou deve ficar aí?
Yrene dobrou os dedos da rainha em torno do papel.
— É seu, como sempre foi. Uma parte da sua bravura que me ajudou a encontrar a minha.
Aelin balançou a cabeça, como se quisesse negar. Mas Yrene apertou a mão fechada de Aelin.
— Isso me deu coragem, as palavras que você escreveu. Em cada quilômetro que viajei, em cada longa hora que estudei e trabalhei, isso me deu coragem. Eu também lhe agradeço por isso.
Aelin engoliu em seco e Chaol tomou isso como uma desculpa para sentar-se de novo, as costas dando um alívio agradecido. Ele disse à rainha:
— Há outra pessoa responsável por este exército estar aqui. — Ele apontou para Nesryn, a mulher já sorrindo para a rainha. — O rukhin que você vê, o exército reunido, é tanto por causa de Nesryn quanto por minha.
Uma faísca acendeu os olhos de Aelin, e as duas mulheres se encontraram no meio do caminho com um abraço apertado.
— Eu quero ouvir toda a história — falou Aelin. — Cada palavra disto.
O sorriso subjugado de Nesryn se alargou.
— Então você deve. Mas depois.
Aelin deu um tapinha em seu ombro e se virou para os dois membros da realeza ainda à mesa. Altos e majestosos, mas tão sujos de lama quanto a rainha.
— Dorian? — Chaol deixou escapar.
— Não está conosco. — Rowan respondeu. Ele olhou para a realeza.
— Eles sabem tudo — disse Nesryn.
— Ele está com Manon — disse Aelin simplesmente. Chaol não tinha certeza se deveria ficar aliviado. — Caçando algo importante.
As chaves. Santos deuses.
Aelin assentiu. Mais tarde. Ele pensaria em onde Dorian poderia estar mais tarde. Aelin assentiu novamente. A história completa viria então também.
— Devo apresentar a princesa Hasar e o príncipe Sartaq — Nesryn falou.
Aelin fez uma referência – profunda.
— Vocês têm a minha eterna gratidão — disse Aelin, e a voz que saiu dela era de fato de uma rainha.
Qualquer choque que Sartaq e Hasar tivessem mostrado sobre a rainha que se curvava tanto estava oculto quando se curvaram de volta, o retrato da graça da corte.
— Meu pai — disse Sartaq — permaneceu no khaganato para supervisionar nossas terras, junto com nossos irmãos Duva e Arghun. Mas meu irmão Kashin navega com o resto do exército. Ele estava a menos de duas semanas atrás de nós quando partimos.
Aelin olhou para Chaol e assentiu. Algo brilhou em seus olhos com a confirmação, mas a rainha apontou o queixo para Hasar.
— Você recebeu a minha carta?
A carta que Aelin enviara meses atrás, implorando por ajuda e prometendo apenas um mundo melhor em troca.
Hasar examinou suas unhas.
— Possivelmente. Recebo cartas demais de outras princesas hoje em dia para possivelmente lembrar ou responder todas elas.
Aelin sorriu, como se as duas falassem uma língua que ninguém mais pudesse entender, um código especial entre duas mulheres igualmente arrogantes e orgulhosas. Mas ela fez sinal para seus companheiros, que se adiantaram.
— Permitam-me apresentar meus amigos. Lorde Gavriel, de Doranelle. — Um aceno de cabeça para o guerreiro de olhos dourados e cabelos dourados que se curvou. Tatuagens cobriam seu pescoço, suas mãos, mas cada movimento dele era gracioso. — Meu tio, ou algo assim — Aelin acrescentou com um sorriso para Gavriel. Às sobrancelhas franzidas de Chaol, ela explicou: — Ele é o pai de Aedion.
— Bem, isso explica algumas coisas — Nesryn murmurou.
O cabelo, o rosto de testa larga... sim, era o mesmo. Mas onde Aedion era fogo, Gavriel parecia ser pedra. De fato, seus olhos eram solenes quando falou:
— Aedion é o meu orgulho.
Emoção ondulou sobre o rosto de Aelin, mas ela gesticulou para o macho de cabelos escuros.
Não alguém com quem Chaol quisesse se misturar, ele decidiu, enquanto examinava as feições de granito, os olhos negros e a boca sem sorriso.
— Lorcan Salvaterre, antes de Doranelle, e agora um membro juramentado de sangue da minha corte. — Como se isso não fosse choque suficiente, Aelin piscou para o imponente macho. Lorcan franziu o cenho. — Nós ainda estamos no período de adaptação — ela sussurrou em voz alta, e Yrene riu.
Lorcan Salvaterre.
Chaol não encontrara o macho nesta primavera em Forte da Fenda, mas ouvira tudo sobre ele. Que ele tinha sido o comandante mais confiável de Maeve, seu guerreiro mais leal e feroz. Que ele queria matar Aelin, odiava Aelin. Como isso aconteceu, por que ela não estava em Terrasen com seu exército...
— Você também tem uma história para contar — disse Chaol.
— De fato eu tenho. — Os olhos de Aelin ficaram opacos, e Rowan colocou uma mão na parte inferior das suas costas.
Ruim – algo terrível ocorrera. Chaol examinou Aelin por algum indício disso.
Ele parou quando notou a suavidade da pele em seu pescoço. A falta de cicatrizes. As cicatrizes que faltavam nas mãos dela, nas palmas das mãos.
— Mais tarde — disse Aelin suavemente. Ela endireitou os ombros e outro macho de cabelos dourados avançou. Lindo. Esta era a única maneira de descrevê-lo. — Fenrys... Sabe, eu realmente não sei o nome da sua família.
Fenrys deu uma piscadela maliciosa para a rainha.
— Raio de Luar.
— Não é — Aelin assobiou, engasgando com uma risada.
Fenrys colocou a mão em seu coração.
— Sou seu juramentado pelo sangue. Por que eu mentiria?
Outro macho feérico juramentado pelo sangue em sua corte.
Do outro lado da tenda, Sartaq amaldiçoou em sua própria língua. Como se tivesse ouvido falar de Lorcan, Gavriel e Fenrys.
Aelin deu a Fenrys um gesto vulgar que fez Hasar rir e encarar a realeza.
— Eles mal foram domesticados. Dificilmente se encaixariam em sua agradável companhia.
Até Sartaq sorriu com isso. Mas era para a mulher pequena e delicada que Aelin agora gesticulava.
— E o único membro civilizado da minha corte, Lady Elide Lochan de Perranth.
Perranth. Chaol vasculhara as árvores genealógicas de Terrasen naquele inverno, vira as listas de tantas famílias reais riscadas, vítimas da conquista há dez anos.
O nome de Elide estava entre eles. Outro nobre de Terrasen que conseguiu fugir dos açougueiros de Adarlan.
A bela jovem deu um passo mancado e fez uma reverência para a realeza. Suas botas escondiam qualquer sinal da fonte do ferimento, mas a atenção de Yrene disparou diretamente para a perna dela. O seu tornozelo.
— É uma honra conhecer todos vocês — falou Elide, com voz baixa e firme. Seus olhos escuros os examinaram, astutos e límpidos. Como se ela pudesse ver sob suas peles e ossos, ver as almas abaixo.
Aelin esfregou as mãos.
— Bem, as apresentações foram realizadas — anunciou ela, e caminhou até a mesa e o mapa. — Podemos discutir para onde vocês planejam marchar assim que vencermos este exército?

7 comentários:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!