5 de outubro de 2018

Capítulo 48

NUNCA TINHA ENTENDIDO O QUE ERA SE AFOGAR.
Eu era uma garota do deserto. De onde vinha, o mar era feito de areia. E a areia me obedecia. Isso. Isso era um ataque.
A água invadiu cada parte de mim. Avançando faminta para engolir meu corpo. Correndo por dentro do meu nariz e da minha boca. Eu estava sufocando e o mundo escurecia. Para uma garota do deserto, até que eu era boa em me afogar.
E então emergi das profundezas, o ar tocando meu rosto. Algo pressionou meus pulmões. A luz brilhou na minha visão, me cegando. Tudo clareou e voltou a escurecer.
E de novo e de novo. Dor e luz me percorriam. Batalhando pelo meu corpo. Depois as estrelas. Acima de mim. E uma boca tocando a minha.
Eu não estava morrendo. Aquela era uma das ilusões de Hala. Só que não era. Jin se debruçou sobre mim. Vi os contornos do seu rosto, gravados na luz do amanhecer conforme a dor atingia meus pulmões novamente. Queimando. Queimando.
Eu era a filha de um djinni. Queimar era o que eu fazia.
E então as estrelas desapareceram e eu estava olhando para o chão, e para a bile e a água respingando na areia. Expelidas dos meus pulmões enquanto botava metade do mar para fora. Mesmo depois de tudo ter saído, permaneci de quatro vomitando violentamente.
Senti uma mão gentil nas minhas costas.
— Me lembre de te ensinar a nadar uma hora dessas. — A piada soou meio forçada.
Mas ri mesmo assim. Aquilo me fez tossir um pouco mais enquanto eu me dobrava, ajoelhada, tremendo, tentando me recompor.
A sombra de Izman no alto do penhasco se avultava sobre nós. Havia sido uma queda terrivelmente alta. Vi a dor estampada no rosto dele, seu cabelo grudado nas sobrancelhas. Afastei uma mecha. Meu coração estava desacelerando. O caos da luta. Da sobrevivência. Parte da dor na lateral da barriga havia diminuído.
Estava calmo e tranquilo na costa quando o sol nasceu. Só por um momento.
Porque as estrelas olhavam para mim acusadoras. E eu tinha que lidar com a situação no fim das contas.
— Cadê o Izz? — perguntei. Não via um roc azul gigante em lugar nenhum. Ele havia levado um tiro. Não conseguiria se transformar de novo com a bala nele.
— Não tenho certeza. — Jin sacudiu a cabeça. — Tivemos sorte de cair na água. Ele não caiu conosco. Quando voltei com você para a superfície, não o encontrei mais. — A água batia delicadamente nos nossos corpos, mas lá longe era uma massa agitada capaz de engolir uma pessoa inteira.
— E os outros?
Jin sacudiu a cabeça.
— Não tenho ideia. Sam conseguiu tirar alguns de lá. Vi outros caindo. Perdi Ahmed e minha irmã de vista na luta, e então você caiu. — Ele sentou. Estava tremendo. — Então era isso que não queria que eu soubesse.
Busquei a areia na minha mente, mas acabei sentindo a pontada onde minha velha ferida se encontrava e parei. Apesar de o ferro já não estar na pele, não era tão fácil consertar o estrago. Enfiei os dedos na areia ensopada sob meu corpo e forcei meu coração a desacelerar.
— Ahmed está vivo — falei com facilidade. A verdade. — Shazad está viva. — Os nomes saltaram da minha boca um depois do outro. Delila, Imin, Hala, Izz, Maz, Sam, Rahim. Nosso pessoal ainda estava vivo.
— Todos os que escaparam vão para a Casa Oculta. — Jin puxou o cabelo ensopado para trás enquanto levantava, estendendo a mão para mim. — Precisamos voltar para lá, é mais seguro…
— Talvez não por muito tempo. — Peguei a mão dele, deixando que me ajudasse. Ainda estava trêmula por ter parado de respirar por um instante. — Basta uma pessoa abrir o bico.
Foi dolorosamente lento voltar penhasco acima até a cidade. Conforme o sol cruzava o céu, avançamos por onde a água era rasa o suficiente. Jin nadou uma parte comigo agarrada aos seus ombros até finalmente encontrarmos um lugar onde o caminho era menos inclinado para podermos subir. O sol estava bem acima de nós a essa altura e continuávamos devagar. Jin me segurou quando vacilei, mas algumas vezes tivemos que parar para descansar. Para eu recuperar o fôlego quando a dor latejava na lateral da barriga. Finalmente encontramos uma superfície plana do lado de fora dos muros da cidade. Estávamos longe de estar sozinhos. Um grupo de pessoas lutava para passar pelos portões.
Alguém me deu um encontrão, me jogando para cima de Jin, que me segurou.
— Ei. — Ele segurou um homem pelo ombro. O sujeito virou, claramente ansioso por uma briga, mas recuou quando viu Jin, que parecia saber como matar um homem e tinha uma aparência meio desesperada. — O que está acontecendo?
— O príncipe rebelde — o sujeito disse. Meu coração pulou com a menção a Ahmed. — Ele foi capturado. Vai ser executado na escadaria do palácio.
— Quando? — Dei um passo à frente, sem poder me conter mais. Os olhos do homem se voltaram para mim com desdém devido ao meu cabelo desgrenhado e às roupas que haviam secado e estavam duras com a água do mar. Ele podia não querer discutir com Jin, mas eu não tinha metade do poder de persuasão do príncipe estrangeiro.
— Responda — Jin pressionou.
— Ao pôr do sol — disse o homem, soltando-se de Jin e já tentando se enfiar na multidão. — O toque de recolher vai ser suspenso hoje por isso. Se não me deixar ir, vou perder.
Jin e eu nos entreolhamos antes de virar para o horizonte, acima do mar. Já estava escurecendo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!