5 de outubro de 2018

Capítulo 47

SAQUEI MINHA PISTOLA, apesar de saber que era tarde demais. Dúzias de armas foram empunhadas em resposta, prontas para disparar se preciso. Shazad e Jin já estavam de armas em punho, ansiosos por uma briga.
Eles morreriam. Eu podia enxergar isso agora. Estávamos todos enrascados. Eu, Jin, Shazad, Rahim, Delila, Hala e… olhei em volta procurando Sam. Ele tinha sumido.
Não estava em lugar nenhum. Estávamos cercados. E em menor número. Mas isso não ia nos impedir de lutar.
— Abaixem as armas! — Ahmed ordenou, ajoelhado. — Todos vocês, abaixem as armas.
Dava para ver que Shazad lutava contra cada pedaço de si para obedecer à ordem, enquanto, de canto de olho, via a mão de Jin se abrir e fechar em volta da arma. Eu mantinha a atenção concentrada no sultão. Seus olhos estavam fixos nos meus. Quase podia ouvi-lo. Aquela voz ponderada e razoável que me fazia sentir como se fôssemos todos crianças fazendo pirraça. Sabe como isso vai terminar se lutar, Amani.
— Façam o que ele disse — eu falei. — Baixem as armas. — Joguei a minha no chão. Senti uma onda de alívio quando o ferro deixou minha mão.
Finalmente as espadas de Shazad tilintaram barulhentas no chão. Jin jogou sua arma logo em seguida. Eu estava desarmada. Mas não indefesa. O sultão podia ter planejado cada detalhe, mas havia algo com que não contava.
Em algum ponto no limite da minha consciência, além dos muros da cidade, busquei o deserto.
— Sábia decisão. — O sultão assentiu para Ahmed, preso e amarrado. — Sabe, nunca canso de me espantar com a ironia das coisas. Como o fato de meu filho mais parecido comigo ser justamente aquele que quer me condenar.
— Bem, isso não é exatamente verdade. — Rahim ficou entre mim e seu pai. Aproveitei a barreira de seu corpo para mover ligeiramente as mãos. Tentei evocar meu poder sem mover os braços, sem dançar com eles pelo ar. Busquei bem no meu âmago, na parte de mim que havia me mantido viva contra todas as probabilidades até então. Ele veio com uma dor lancinante no meu antigo ferimento. — Eu o condenaria num piscar de olhos, pai.
Ao longe, o deserto se levantou em resposta.
— É por isso que está desse lado das armas do nosso pai e eu estou do outro. — Leyla finalmente falou. Sua voz tímida e cadenciada, que sempre havia soado doce, assumiu um tom diferente enquanto reverberava nas paredes do jardim. Seus olhos arregalados e marejados haviam sumido. — Fui a única que não traí minha família.
Seu irmão olhou para ela do outro lado do pátio.
— Você era minha família — ele disse calmamente. — Estava tentando te salvar. Depois que descobri que era tão talentosa com máquinas quanto a mamãe, soube que nosso pai ia tentar te usar da mesma forma que havia feito com ela. Foi o que matou a mamãe, Leyla.
— Eu não precisava ser salva. — Ela puxou o casaco para mais perto do corpo, protegendo-se do ar noturno. — Cuidei de mim mesma desde o dia em que me deixou entre aquelas mulheres e suas conspirações. Aprendi a sobreviver. A ser útil. — Ela havia me dito aquilo uma vez no harém, na época em que Mouhna, Uzma e Ayet desapareceram, uma após a outra. Quem não era útil estava sujeita a desaparecer, invisível. E quem era mais invisível do que uma princesa sozinha no harém?
Tão invisível que eu nem havia parado para pensar que Ayet havia desaparecido depois de eu dizer a Leyla que ela tinha me visto com Sam no jardim do Muro das Lágrimas. Que Uzma e Mouhna haviam sumido depois do incidente com a pimenta suicida e minha humilhação na corte. Que não havia passado pela cabeça de ninguém que ela também testemunhara aquelas maldades. Que ela as havia escolhido para entrar na máquina, não o sultão.
— Você foi embora e eu fiquei lá, terminando o que a mamãe tinha começado. — O sorriso de Leyla continuava doce como de costume, e ela o dirigiu a Rahim como se fosse uma arma. — Ela ia querer isso. Odiava os gallans, não o papai.
— Você mentiu para mim — eu disse. Não havia percebido porque ela era uma garota tímida, de olhos arregalados e expressão doce.
— É sempre fácil mentir para os demdjis. Vocês nunca esperam por isso — disse o sultão. — Que boa filha não obedeceria às ordens do pai? — Ele gesticulou como se estivesse puxando a corda de um arco para trás e depois a soltando. Eu estava segurando uma tempestade de areia inteira na mente, arrastando-a por cima dos muros e telhados na borda da cidade. Senti-a vacilar quando algo perfurou meu coração. A memória horrível e humilhante de querer impressionar o sultão, agradá-lo. De duvidar de Ahmed por causa dele.
— A Bandida de Olhos Azuis, sempre sedenta por confiar em alguém. — Estremeci ao ouvir o apelido. — Sim, Amani, eu soube no momento que vi seus olhinhos azuis.
Todas aquelas tentativas desesperadas de esconder minha identidade do sultão, de evitar que Ahmed fosse mencionado para que a verdade não escapasse da minha língua traidora. Ele havia me deixado escapar ilesa, evitando o assunto. Porque já sabia que eu era aliada do príncipe rebelde.
O sultão se aproximou e tocou gentilmente meu queixo.
— Poderia ter feito você me dizer o que eu queria saber, mas isso não teria me levado a Ahmed. Valia mais a pena usá-la para levar informações falsas ao príncipe. Depois que Leyla me contou que Rahim era um traidor, passei a usar meu filho para levar informações a você.
Notei um relance de movimento atrás do sultão. Uma silhueta nas sombras. Olhei de volta para o governante tão rápido quanto possível. Tentando não entregar que tinha visto algo. Cerrei o punho, mantendo o deserto sob meu comando.
Ele desviou o olhar de mim.
— Devo dizer que gostei bastante de vê-la para lá e para cá apagando incêndios, sem nunca notar o que eu queria ocultar de você. Enquanto prestava atenção em Saramotai, eu recuperava Fahali. Enquanto tentava salvar traidores da forca, meus homens prendiam dissidentes em suas próprias casas. E enquanto estava correndo para tentar salvar meu filho traidor, eu estava esvaziando seu acampamento e prendendo meu outro filho traidor. — O sultão pousou a mão no ombro de Leyla. — Ela fez um trabalho excelente. Como acha que encontrei você e seu pequeno refúgio no vale? — O sultão ergueu alguma coisa. Era uma bússola. Igual àquelas que Jin e Ahmed possuíam, só que menor. Ele havia me dito que elas eram fabricadas pelos gamanix. E a mãe de Leyla era uma engenheira gamanix. — Escondemos uma dessas na sua espiã antes de a soltarmos para ser… resgatada. — Sayyida. Ela também era uma armadilha.
— E quando descobri que Rahim estava planejando escapar… — Leyla se animou, contando vantagem. — Você quer ver? — Era o mesmo brilho que aparecia em seu rosto quando ela mostrava algum brinquedo novo para as crianças no harém.
Ela virou, chamando os soldados. Dois deles trouxeram Tamid arrastado da parede. Ele se esforçou para conseguir acompanhá-los com a perna falsa.
Dei um passo adiante e, dessa vez, foi Jin quem me segurou, me puxando para trás.
Eles forçaram Tamid a sentar no chão, com a perna de bronze esticada à frente. Leyla a soltou com a facilidade trazida pela prática. Ela a havia confeccionado, afinal. Virou a perna agora solta na minha direção, cheia de orgulho. Havia uma bússola encaixada com perfeição no vazio de bronze da panturrilha de Tamid.
— Eu a encaixei ali depois de te convencer que Tamid deveria vir conosco, e ele não foi esperto o bastante para perceber que eu o estava usando para trazer meu pai ao seu acampamento.
A culpa era minha. Eu os havia levado até nós. Eu havia resgatado Tamid. Não o deixara para trás e continuava sendo castigada.
Minha raiva geralmente subia quente. Mas não dessa vez. Veio fria e sombria. Eu ia destruí-los.
Puxei o deserto para mais perto, um último puxão violento em meus poderes de demdji.
E então o céu escureceu. A tempestade de areia estava sobre nós.
O sultão virou a cabeça para cima enquanto a sombra nos cobria. A nuvem furiosa de areia desceu com tudo para cobrir o jardim. Ergui as mãos, assumindo o controle total dela — não havia mais razão para fingir.
Entreguei tudo o que tinha à areia. Toda a minha raiva. Toda a minha rebeldia. Todo o meu desespero. Instiguei a tempestade em um frenesi antes de baixar os braços com tudo, despejando toda a força do deserto sobre nós.
Olhei para o sultão. Ele me observava. A última coisa que vi foi um sorriso em seu rosto, igual àquele que me dera na primeira vez que estive na sala de guerra, quando viu o pato morto. Um sorriso orgulhoso.
E então a tempestade de areia nos engoliu.
— Amani! — A ordem que Shazad deu em seguida foi coberta pelo caos. Virei para minha amiga bem a tempo de ver um abdal se posicionando atrás dela, a mão erguida brilhando vermelha. Ergui o braço. Senti algo se abrir na lateral do corpo onde minha ferida estivera enquanto a areia se transformava numa espada e atravessava a perna do abdal, cortando fora a carne de barro e os ossos de metal, derrubando aquela coisa no chão.
— Cuidado com a retaguarda! — gritei para ela. Dessa vez, eu não precisava de ordens. Sabia pelo que estava lutando. Sabia por quem estava lutando. Sabia o que precisava ser feito.
Precisávamos do resto dos demdjis livres. Não podia deixar nenhum nas mãos do sultão. Não podia deixar que fizesse com eles o mesmo que havia feito comigo.
Baixei os braços num golpe, cortando o ferro em volta de Izz e libertando Mas em seguida. Os gêmeos entraram imediatamente em ação, carne se transformando em penas, dedos em garras, enquanto levantavam voo e mergulhavam em seguida. Delila correu para Ahmed enquanto eu o libertava. E depois Imin, que cambaleou para junto de Navid.
Uma bala acertou Hala na perna. Ela gritou, tropeçando. Teria caído no chão se Sam não estivesse lá. Ele a segurou, passou os braços sob suas pernas, e os dois desapareceram pela parede. Voltei minha atenção a outro lugar. Havia perdido Ahmed no caos.
Não estávamos vencendo, mas não era necessário. Só tínhamos de tirar dali o maior número de pessoas possível. Reuni um punhado de areia e o girei com força.
Uma pontada violenta de dor respondeu na minha barriga. A areia vacilou, depois caiu. De uma hora para outra, nossa cobertura tinha desaparecido.
A dor na lateral da barriga aumentou quando tentei controlar a areia de novo. De repente, era tão forte que me cegou. Meu corpo era feito de pura dor em vez de carne e osso. Caí de joelhos, sem conseguir respirar.
— Amani. — Quando conseguir enxergar de novo, vi Shazad ajoelhando na minha frente. O modo como chamou meu nome me fez pensar que aquela não era a primeira vez. Ela parecia assustada. Dois outros rebeldes cobriam sua retaguarda enquanto ela me dava cobertura. — O que está acontecendo?
Eu não sabia. A agonia não me deixava nem falar. O que minha tia havia cortado com tanto cuidado dentro de mim parecia rasgar na minha barriga.
— Está decidido, vou te tirar daqui.
— Não!
Mas Shazad já estava me ajudando a levantar. Tentei me afastar, ficar de pé sozinha.
Mas ela segurou firme.
— Não discuta. Da última vez que foi deixada para trás, foi isso que aconteceu. — Ela se referia aos djinnis, aos abdals e todo o resto. — Demdjis saem primeiro, e isso é uma ordem da sua general e da sua amiga. Jin! — Shazad chamou sua atenção no meio da confusão. Ele se juntou a nós num segundo. — Tire Amani daqui.
Ela não precisou falar duas vezes, e eu não estava em condições de contestar uma ordem. Ele passou os braços pelos meus joelhos e ombros, me erguendo. Lembrei da noite do Auranzeb.
Está dizendo que veio aqui para me resgatar?
Era assim que se resgatava uma garota. Eu teria rido se meu corpo não doesse tanto.
Shazad nos deu cobertura enquanto Jin me levava até Izz, que em sua forma de roc gigante carregava as pessoas para um lugar seguro tão rápido quanto possível.
Jin e eu subimos em suas costas e deixamos o chão com uma batida poderosa de suas asas, carregando-nos sobre os telhados de Izman. Tiros pontilharam a noite atrás de nós. Eles tinham um alvo claro sem a cobertura da tempestade de areia. Mas Izz desviou habilmente, movendo-se rápido. Enquanto subíamos, vi Izman se estendendo sob nós como um mapa, as casas iluminadas por pequenos pontos de luz nas janelas entre as ruas escuras. E logo depois das paredes e telhados desordenados estava o mar, sua cor rósea com o amanhecer. Estávamos quase fora de alcance. Dava para saber mesmo com a dor desnorteante. Quase. Só um pouco mais alto, um pouco mais longe, e teríamos partido, e então Izz poderia nos soltar em algum lugar seguro e voltar para os outros.
Não ouvi o tiro que nos acertou. Mas pude sentir. O estremecimento repentino do corpo de Izz quando o ferro perfurou sua pele. O grito que irrompeu dele. Mesmo confusa pela dor, percebi que haviam acertado sua asa. Jin apertou os braços à minha volta.
Por um momento, eu estava de volta ao harém, diante do lago, com o sultão ao meu lado, puxando o arco enquanto mirava os patos. E mais tarde, quando minha flecha atravessou o alvo e o observei cair no chão, como caíamos agora.
Izz lutava para não cair no acampamento. Para nos levar para mais longe. Para nos tirar dali. O sultão não podia capturar outro demdji. Podia sentir o ferro entrando nele e a dor fazendo sua asa machucada fraquejar.
As últimas batidas agitadas nos levaram mais para a frente, o vento nos açoitando. E então estávamos livres da cidade, dos telhados e ruas e paredes que nos esmagariam quando colidíssemos. Entre a cidade e a água havia um penhasco íngreme, e agora sobrevoávamos o mar.
Estávamos caindo. O corpo de Izz virou, despejando-nos enquanto ele gritava em agonia, batendo as asas freneticamente. Jin deixou meu punho escapar de sua mão.
Só tive um vislumbre da água lá embaixo enquanto caía e mergulhava em sua direção.
Nem cheguei a sentir quando ela me engoliu por inteiro.

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