29 de outubro de 2018

Capítulo 46

Perranth apareceu no horizonte, a cidade de pedras escuras aninhada entre um lago cor de cobalto e uma pequena cordilheira que também levava esse nome.
O castelo fora construído ao longo de uma imponente montanha na fronteira com a cidade, com suas torres estreitas altas o suficiente para rivalizar com as de Orynth. As grandes muralhas da cidade tinham sido demolidas pelo exército de Adarlan e nunca restauradas, as construções ao seu redor agora transbordando para os campos além do gelado rio Lanis que corria entre o lago e o mar distante.
Foi nesses campos que Aedion considerou que eles fariam sua defesa. O gelo se manteve enquanto eles cruzavam o rio e organizavam suas fileiras reduzidas mais uma vez.
A realeza Whitethorn e seus guerreiros estavam quase esvaziados, sua magia uma mera brisa. Mas eles mantinham Morath um dia atrás com seus escudos.
Um dia que o exército usou para descansar, cortar lenha a partir de qualquer árvore, celeiro ou fazenda abandonada que pudessem encontrar para alimentar seus fogos. Um dia em que Aedion pedira a Nox Owen que fosse seu emissário para Perranth, a cidade natal do ladrão, e ver que homens e mulheres da cidade poderiam vir para preencher suas fileiras esgotadas.
Não muitos. Nox retornou com algumas centenas de guerreiros ainda menos treinados. Nenhum possuidor de magia.
Mas eles tinham algumas armas, a maioria velha e enferrujada. Flechas recém-afiadas, pelo menos. Vernon Lochan havia providenciado para que seu povo permanecesse desarmado, temendo que a insurreição deles pudesse revelar que a verdadeiro herdeira de Perranth havia sido mantido em cativeiro na torre mais alta do castelo.
Mas o povo de Perranth já tivera o suficiente de seu lorde fantoche, parecia.
E pelo menos eles tinham cobertores e comida de sobra. Carroças chegavam de hora em hora, junto com curandeiros – nenhum deles magicamente dotado – para curar os feridos. Aqueles que estavam machucados demais para lutar foram enviados nas carroças de suprimentos para a cidade, alguns empilhados uns sobre os outros.
Mas um cobertor e uma refeição quente não aumentariam seus números. Ou manteria Morath à distância.
Então Aedion planejou, mantendo seus comandantes da Devastação próximos. Eles fariam isso. Cada centímetro de terreno, cada arma e soldado.
Ele não viu Lysandra. Aelin também não fez aparições.
A rainha os abandonara, os soldados murmuravam.
Aedion fez questão de encerrar o falatório. Rosnou que a rainha tinha sua própria missão para salvar seus traseiros, e se quisesse que Erawan soubesse disso, ela teria anunciado a todos, já que eles estavam propensos a fofocar.
Isso aliviou o descontentamento – mas pouco. Aelin não os defendera com o fogo, deixara que fossem massacrados. Alguma parte dele concordava. Perguntava-se se teria sido melhor ignorar as chaves, usar as duas que possuíam e acabar com esses exércitos, em vez de destruir sua maior arma para forjar o cadeado.
Inferno, ele teria chorado para ver Dorian Havilliard e seu considerável poder naquele momento. O rei tinha explodido ilken do céu, quebrara seus pescoços sem tocá-los. Ele se curvaria diante do homem se isso os salvasse.
Era meio-dia quando o exército de Morath os alcançou mais uma vez, sua massa se espalhando pelo horizonte. Uma tempestade varrendo os campos.
Ele havia alertado o povo de Perranth a fugir para Carvalhal, se pudessem. Trancar-se no castelo seria de pouca utilidade. Não havia suprimentos para sobreviver a um cerco. Ele tinha debatido usá-lo para essa batalha, mas sua vantagem estava no rio congelado, não em deixar-se encurralar para suportar uma morte lenta.
Ninguém estava vindo para salvá-los. Não havia notícias de Rolfe, as forças de Galan estavam esgotadas, seus navios espalhados pela costa e nenhum sussurro do restante dos soldados de Ansel de Penhasco dos Arbustos.
Aedion manteve esse conhecimento oculto de seu rosto enquanto montava seu garanhão pelas linhas de frente, inspecionando os soldados.
O cheiro do medo deles embaçava o ar gelado, um peso de seu terror era um poço sem fundo que se abria em seus olhos enquanto estes o seguiam.
A Devastação começou a bater suas espadas contra seus escudos. Um batimento constante para anular as vibrações dos soldados de Morath marchando em direção a eles.
Aedion não procurou por uma metamorfa nas fileiras. Ilken voava baixo sobre a massa abundante de Morath. Ela indubitavelmente iria para eles primeiro.
Aedion parou seu cavalo no centro de seu exército, o Lanis congelado quase enterrado sob a neve que caíra na noite anterior.
Morath sabia que o rio existia, no entanto. Aqueles príncipes valg provavelmente estudaram o terreno completamente. Provavelmente já o conheciam minuciosamente, sua técnica e habilidade. Ele sabia que enfrentaria um deles antes que estivesse terminado, talvez todos eles. Não terminaria bem.
No entanto, enquanto eles arriscassem a travessia, ele não se importou.
Endymion e Sellene, os únicos feéricos que ainda possuíam um pouco de poder, estavam posicionados logo atrás da primeira fileira da Devastação.
Os olhos de seus próprios soldados eram um toque fantasma entre suas omoplatas, na parte de trás de seu capacete. Ele não havia preparado um discurso para animá-los.
Um discurso não impediria que esses homens morressem hoje.
Então Aedion sacou a Espada de Orynth, ergueu o escudo e juntou-se à batida constante da Devastação. Transmitindo todo o desafio e raiva em seu coração, ele bateu a espada antiga contra o metal redondo amassado.
O escudo de Rhoe. Aedion nunca disse a Aelin. Queria esperar até que voltassem a Orynth para revelar que o escudo que ele carregara, que nunca perdera, pertencia ao pai dela. E a muitos outros antes dele.
Não tinha um nome. Nem mesmo Rhoe sabia sua idade. E quando Aedion o tirou do quarto de Rhoe, a única coisa que pegou quando chegou a notícia de que sua família havia sido morta, deixara os outros esquecerem disso também.
Nem mesmo Darrow o reconheceu. Desgastado e simples, o escudo passou despercebido ao lado de Aedion, uma lembrança do que ele havia perdido. O que ele defenderia até o último suspiro.
Os soldados dos exércitos de seus aliados começaram a bater também quando Morath chegou à beira do rio. Um comando latente dos dois príncipes valg a cavalo fez com que os primeiros soldados de infantaria cruzassem o gelo, os ilken mantendo-se perto do centro. Para atacar quando eles estivessem desgastados.
Ren Allsbrook e seus arqueiros restantes estavam escondidos atrás das linhas, escolhendo alvos entre os terrores alados.
Mais e mais rápido, Aedion e seu exército bateram as espadas contra os escudos.
Mais e mais perto, o exército de Morath se derramou sobre o rio congelado. Aedion manteve a batida, seu inimigo não percebendo que o som servia a outro propósito.
Para mascarar o som do gelo rachando no fundo. Morath avançou até quase atravessar o rio. Enda e Sellene não precisaram de uma ordem verbalizada. Um vento varreu o gelo, depois o penetrou, entre as rachaduras que eles estavam criando.
Então eles afastaram o gelo. Quebrou em pedaços.
Em um momento, Morath marchava em direção a eles. No seguinte, eles mergulharam, espirrando água, gritos e berros enchendo o ar. Os ilken dispararam para frente para salvar os soldados que se afogavam sob o peso da armadura.
Mas Ren Allsbrook esperava, e à sua ordem, os arqueiros dispararam sobre os ilken expostos. Golpes nas asas os enviaram caindo no gelo, na água. Afundando nela, alguns ilken arrastados pelos próprios soldados que salvavam.
Os príncipes valg levantaram a mão, como se fossem uma só mente. O exército parou na margem. Observando enquanto seus irmãos se afogavam.
Observando enquanto Endymion e Sellene continuavam rasgando o gelo, impedindo-o de congelar novamente.
Aedion ousou sorrir ao ver os soldados que se afogavam. Ele encontrou os dois príncipes valg sorrindo de volta para ele do outro lado do rio. Um passou a mão sobre o colar preto em sua garganta. Uma promessa e um lembrete do que precisamente eles fariam a ele.
Aedion inclinou a cabeça em um convite zombeteiro. Eles certamente poderiam tentar.
O poder dos príncipes feéricos finalmente se rompeu, anunciado pelo gelo que se formava sobre os soldados que se afogavam, selando-os sob a água escura.
Uma rajada de vento negro dos príncipes valg e seus soldados nem sequer olharam para baixo quando começaram a marchar sobre o gelo, ignorando os punhos batendo sob seus pés.
Aedion guiou seu cavalo para trás da linha de frente, para onde Kyllian e Elgan estavam montados em seus próprios cavalos. Dois mil inimigos entraram no rio, no máximo. Nenhum emergiria.
Uma parcela ínfima da força que agora avançava. Aedion não tinha palavras para seus comandantes, que o conheceram durante a maior parte de sua vida, talvez melhor do que ninguém. Eles não o que dizer para ele também.
Quando Morath finalmente chegou na margem deles, espadas brilhantes no dia cinzento, Aedion soltou um rugido e atacou.


Os ilken tinha aprendido que um metamorfo estava entre eles, e usava a pele de uma serpente alada. Lysandra percebeu isso depois de tê-los atacado, pulando das fileiras do exército para se juntar a um grupo de três.
Três outros esperavam, escondidos na horda abaixo. Uma emboscada.
Ela mal derrubara dois, arrancando suas cabeças com sua cauda cheia de cravos, antes que suas garras envenenadas a obrigassem a fugir. Então ela atraiu os ilken de volta para suas próprias linhas, bem ao alcance dos arqueiros de Ren. Eles conseguiram acertar os ilken – por pouco. Tiros nas asas que permitiram a Lysandra arrancar as cabeças de seus corpos.
Quando eles caíram, ela mergulhou para o chão, transformando-se. Ela aterrissou como um leopardo fantasma e soltou-se sobre os soldados de infantaria que já empurravam os escudos juntos de Terrasen.
A unidade qualificada da Devastação não era nada contra os números absolutos, forçando-os para trás. Os guerreiros feéricos, os Assassinos Silenciosos – os poucos soldados restantes de Ansel e Galan espalhados entre eles – nenhuma dessas forças letais poderia detê-los também.
Então ela arranhou e rasgou e mordeu, a bile negra queimando sua garganta. A neve se transformou em lama sob suas patas. Cadáveres empilharam-se, humanos e valg gritavam.
A voz de Aedion ecoou pelas fileiras:
— Segurem o flanco direito!
Ela se atreveu a olhar para ele. Os ilken concentraram suas forças lá, caindo sobre os homens em uma falange de morte e veneno.
Em seguida, outra ordem do príncipe:
— Segurem a esquerda! — Ele reposicionou a Devastação entre os flancos direito e esquerdo para compensar a oscilação nas planícies do sul, mas não foi o suficiente.
Ilken caíram sobre a cavalaria, cavalos berrando enquanto garras envenenadas arrancavam suas entranhas, cavaleiros esmagados por corpos caindo.
Aedion galopou em direção ao flanco esquerdo, seguindo alguns dos seus homens da Devastação.
Lysandra cortou soldado após soldado, flechas voando de ambos os exércitos.
Ainda assim Morath avançou. Avante e mais forte, conduzindo a Devastação para trás como se fossem pouco mais que um galho bloqueando o caminho.
Sua respiração queimava em seus pulmões, suas pernas doíam, mas ela continuava lutando. Não sobraria nada deles ao entardecer, se eles continuassem assim. Os outros homens também perceberam isso. Olharam para além dos demônios com que lutavam para as dezenas de milhares que ainda estavam em fileiras ordenadas, esperando para matar, matar e matar.
Alguns de seus soldados começaram a se virar. A fugir das linhas de frente. Alguns imediatamente largaram seus escudos e correram para fora do caminho de Morath.
Morath aproveitou. Uma onda quebrando na praia, eles forçaram sua linha de frente. Bem no meio, que nunca quebrou, mesmo quando os outros balançaram.
Eles perfuraram um buraco através dela.
Caos reinou.
Aedion rugiu de algum lugar, do coração do inferno:
— Formem as fileiras novamente!
A ordem foi ignorada. A Devastação tentou e não conseguiu segurar a fileira. Ansel de Penhasco dos Arbustos gritou para seus homens em fuga que voltassem para a frente, Galan Ashryver ecoando seus comandos para seus próprios soldados. Ren gritou para seus arqueiros permanecerem, mas eles também abandonaram seus postos.
Lysandra cortou as canelas de um soldado de Morath, depois arrancou a garganta de outro. Nenhum dos guerreiros de Terrasen permaneceu um passo atrás dela para decapitar os corpos caídos.
Ninguém.
Acabado. Isso estava terminado.
Inútil, Aedion a chamara.
Lysandra olhou para os ilken banqueteando-se no flanco direito e soube o que tinha que fazer.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!