5 de outubro de 2018

Capítulo 46

ANDAR PELAS RUAS DE IZMAN APÓS ANOITECER não era exatamente fácil. Não com os abdals e com minha pele se rebelando a cada passo. Sem Hala na minha mente, os cortes no meu corpo gritavam de dor.
Mas velocidade era fundamental.
Avançamos por Izman tão rápido quanto possível, correndo para becos a qualquer som que indicasse movimento. Viramos numa esquina, e a luz da lua refletiu em metal e barro. Hala agarrou meu braço, me enfiando nas sombras entre duas casas. Não ousamos nos mover. O abdal passou pela entrada da ruela, tão perto que poderíamos tocá-lo. Em seguida, ouvimos novamente o som de passos, dessa vez mais próximos, vindos da outra ponta da rua, seguindo na nossa direção. Para nos encurralar. Sam não hesitou, agarrando minha mão e a de Hala.
— Prendam a respiração ou vão morrer rapidinho.
Só tive tempo de encher o pulmão de ar antes de ele nos arrastar pela parede.
Caímos em uma pequena cozinha. Podia ouvir o som dos meus próprios batimentos cardíacos no ritmo dos passos lá fora, que desacelerou quando eles passaram.
Esperamos alguns minutos até Sam nos arrastar de volta para fora.
Conseguimos chegar ao cruzamento onde deveríamos nos encontrar segundos antes da hora combinada.
Uma escada de corda balançava do topo do telhado conforme prometido.
Comecei a subir enquanto Hala e Sam se esconderam em uma ruela lateral. Jin estendeu a mão e segurou meu braço para me puxar para cima cobrindo os últimos degraus que faltavam para alcançar o topo do telhado. Um assovio de dor escapou entre meus dentes quando seu polegar apertou uma das minhas feridas.
— Existe algum motivo para você sempre voltar toda machucada quando me afasto por cinco segundos ou é… — Sua voz estava muito alta, e eu o calei cobrindo sua boca com a mão.
— Não se iluda — eu disse baixinho. — Eu me machuco quando você está por perto também. — Estava me sentindo em carne viva, por dentro e por fora. Não queria explicar o encontro com minha tia naquele momento. Pressionei um dedo nos meus lábios. Quando Jin assentiu, afastei a mão lentamente.
Nos abaixamos na beira do telhado. Ele me passou o rifle um segundo antes de o abdal virar a esquina.
Seus passos ecoaram pelas ruas vazias, acompanhados pelos estalos das rodas da carroça-prisão que vinha atrás dele e de mais uma dúzia de botas em pés humanos.
Uma palavra talhada no metal, fornecendo energia ao abdal como um coração, no calcanhar direito. Um lugar onde ninguém teria o instinto de atirar. Mas não precisávamos de instinto; tínhamos a dica de uma informante.
Outro passo.
Mais dois.
Respirei fundo.
Cerrei os olhos para ver melhor no escuro, tentando identificar o brilho metálico à luz da lua. Em algum lugar bem no alto, uma cortina foi sacudida e depois fechada, deixando a rua em sombras quase tão rápido quanto a havia iluminado.
Mas foi o suficiente para mim.
Puxei o gatilho.
Um tiro perfeito. Pegou na ponta do protetor de calcanhar, dobrando-o. Quase ri.
Obrigada, Deus, pelo metal macio.
Os homens cercando o transporte já estavam sacando as armas, procurando a ameaça. Mas eles não eram problema meu.
Jin disparou a pistola perto de mim enquanto Shazad saía do véu de ilusão de Delila, aparecendo como um espírito vingativo lá embaixo, espadas em punho.
Dei um segundo tiro. Ele passou pelo barro macio. E um terceiro. E então enxerguei meu alvo. O brilho de metal sob a pele de barro. Em algum lugar ali dentro havia uma palavra. Dando vida àquela coisa. Um soldado apontou a arma na minha direção e caiu.
E por um momento foi como nos velhos tempos. Como nos dias antes de Iliaz. Nós três contra o mundo. A simplicidade da rebelião, onde cada vitória poderia vencer a guerra.
Meu tiro seguinte acertou em cheio.
Quando mortais morrem, eles caem. Como os soldados desabando nas ruas sob nossos tiros. Mas o abdal não caiu. Ele parou. Tão abruptamente quanto eu havia parado quando o sultão me dera uma ordem.
E as ruas ficaram calmas de novo.
Desci atrás de Jin.
O abdal permanecia perturbadoramente congelado no lugar. Já havia visto muitas das pequenas invenções de Leyla de perto para saber que aquela era diferente. Era a criação de um djinni, tanto quanto eu.
A tranca no fundo da carroça-prisão se rompeu sob outro disparo, atraindo minha atenção. Juntei-me a Shazad e a Jin quando a porta foi aberta. Rahim se encontrava amarrado e amordaçado, com um saco enfiado na cabeça. Ergui a mão, parando Jin e Shazad. O príncipe havia me resgatado uma vez, eu devia isso a ele.
A carroça balançou de leve com meu peso quando entrei.
Tirei o saco de sua cabeça. Ele estremeceu, como se estivesse pronto para lutar de braços atados e tudo. Parou quando me viu, ficando quieto por tempo suficiente para me deixar tirar a mordaça de sua boca.
— O que está acontecendo? — perguntou com a voz rouca.
— Você está sendo resgatado — Shazad disse atrás de mim, parada na porta, com um braço apoiado no teto da carroça. — Óbvio.
— Você arranjou um exército para a gente — Jin acrescentou enquanto eu cortava as cordas para libertar os braços de Rahim. — Agora o que acha de liderá-lo?
Rahim lançou um olhar duvidoso para nós por cima do ombro. A general incrivelmente bonita, um príncipe parte xichan que ele ainda não sabia ser seu irmão, um Bandido de Olhos Azuis impostor, uma demdji de cabelo roxo pintado de preto brincando nervosa com a ilusão de uma flor e outra exibindo sem pudor sua pele dourada. Eu não precisava imaginar o que estava pensando. Estivera no lugar dele oito meses antes. Rahim finalmente voltou a olhar para mim.
— Bem-vindo à rebelião — eu falei. — Você vai acabar se acostumando.
Andamos o mais rápido possível pelos caminhos escuros e desertos de Izman. Os abdals patrulhando as ruas em seu ritmo constante e percurso padronizado talvez não fossem atraídos pela confusão, mas isso não significava que agiríamos feito alvos fáceis. Deixamos Rahim a par da situação aos sussurros enquanto voltávamos para a casa de Shazad.
Contamos a ele que Leyla estava em segurança.
Que tiraríamos o exército de lorde Balir à força.
E que ele nos ajudaria a fazer isso.
Rahim nem sequer piscou. Talvez a rebelião corresse no sangue dos filhos do sultão.
Talvez o nome certo fosse traição. O que quer que fosse, íamos usar para assumir o trono.
A casa de Shazad estava quieta quando entramos. Afinal, estava tarde. Ainda assim, algo naquele silêncio me incomodou. Faltava a tensão existente a cada retorno de uma missão.
Ahmed esperando para garantir que todos voltaram vivos.
Imin aguardando Hala.
Meu instinto gritava enquanto subíamos a escada no fim do túnel que levava ao jardim. Eu estava no último degrau quando minha bota acertou algo que rolou com um tilintar familiar. Uma bala. Ela deslizou para o jardim silencioso e depois desapareceu.
O sentimento de que havia algo errado veio tarde demais. Ouvi o clique de duas engrenagens de máquina se acionando juntas. O ruído de peças de metal trabalhando, rodando cada vez mais rápidas, e então tilintando ao se encaixar. Foi o único aviso que tive antes da ilusão desaparecer.
O caos surgiu diante de nós e vimos o que realmente nos aguardava. Corpos caídos no chão, rebeldes em sua maioria, somente um ou dois homens de uniforme, as armas ainda nas mãos. Os cadáveres estavam espalhados em meio às tendas rasgadas, manchando o solo de vermelho. Os sobreviventes haviam sido empurrados contra os muros, amarrados pelos punhos. Estavam de joelhos com soldados armados ao seu redor. Ahmed. Imin. Izz e Maz. Navid. Tamid. Ainda estavam vivos, pelo menos.
E diante de nós havia um exército de abdals.
Eles haviam criado a ilusão, percebi. Não tinham apenas o poder destrutivo de Noorsham. Eram mais poderosos ainda. E à frente deles…
— Sim, Amani. — O sultão lançou para mim o mesmo sorriso de Jin. Aquele que significava encrenca. Como se pudesse ler minha mente. Uma figura emergiu do caos ao redor dele, formado por nossos rebeldes amarrados e mortos. Leyla desamarrada. Sem demonstrar medo nenhum. Ela tinha um casaco que parecia pertencer ao sultão sobre as mesmas roupas que vestia desde o Auranzeb. O olhar de animal enjaulado havia desaparecido. Agora, ostentava um sorriso satisfeito enquanto seu pai falava. — Era uma armadilha.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!