29 de outubro de 2018

Capítulo 45

Rocha rugiu contra a rocha, e Yrene apoiou a mão nas pedras estremecidas da Fortaleza Westfall enquanto a torre balançava. No final do corredor, pessoas gritavam, algumas lamentavam-se, outras abraçavam os membros da família para cobri-los com seus corpos enquanto detritos choviam.
O dia mal rompera e a batalha já estava em fúria. Yrene pressionou-se nas pedras, coração martelando, contando as respirações até que o tremor parasse. O último ataque durara seis.
Ela chegou a três, felizmente.
Cinco dias disso. Cinco dias desse pesadelo sem fim, com apenas as horas mais negras da noite oferecendo alívio.
Ela mal vira Chaol por mais que um beijo e abraço passageiro. Na primeira vez, ele ostentava uma ferida na têmpora que ela havia curado. Na seguinte, estava se apoiando pesadamente em sua bengala, coberto de terra e sangue, muito que não era dele.
Era o sangue negro que fazia o seu estômago revirar. Valg. Havia valg lá fora. Ocupando hospedeiros humanos. Muitos para ela curar.
Não, essa parte viria depois da batalha. Se eles sobrevivessem.
Logo, cedo demais, os feridos e os moribundos tinham começado a entrar. Eretia havia organizado uma enfermaria no grande salão, e era lá que Yrene passava a maior parte do tempo. Para onde ela estava indo, depois de algumas horas de sono sem sonhos.
A torre firmou-se e Yrene anunciou a ninguém em particular:
— Os ruks ainda estão segurando a maré. Morath só dispara as catapultas porque não conseguem romper as paredes da fortaleza.
Era apenas parcialmente verdade, mas as famílias agachadas no corredor, com suas roupas de cama e poucos pertences preciosos, pareceram se tranquilizar.
Os ruks de fato tinham inutilizado muitas das catapultas que Morath havia transportado para cá, mas restavam algumas – apenas o suficiente para martelar a fortaleza, a cidade. E enquanto os ruks poderiam estar segurando a maré, não seria por muito tempo.
Yrene não queria saber quantos haviam caído. Ela só vira o número de cavaleiros no grande salão e sabia que seria demais. Eretia ordenara que os ruks feridos fossem instalados em um dos pátios interiores, designando cinco curandeiras para supervisioná-los, e o espaço estava tão cheio que mal se podia atravessar.
Yrene se apressou, consciente dos destroços espalhados na escada da torre. Ela quase quebrara o pescoço no dia anterior ao escorregar em um pedaço de madeira caído.
Os gemidos dos feridos a alcançaram muito antes de ela entrar no grande salão, as portas se abrindo para revelar filas e filas de soldados, tanto do khaganato quanto de Anielle. As curandeiras não tinham catre para todos, muitos tinham sido colocados em colchonetes. Quando estes acabaram, mantos e cobertores empilhados sobre pedras frias foram usados.
Não era suficiente – não havia suprimentos suficientes e não havia curandeiras o bastante. Eles deveriam ter trazido mais do resto do exército.
Yrene arregaçou as mangas, seguindo para a estação de lavagem perto das portas. Várias das crianças cujas famílias se abrigavam na fortaleza tinham assumido a tarefa de esvaziar banheiras sujas e enchê-las de água quente a cada poucos minutos. Assim como as bacias dos feridos.
Yrene recusara-se a deixar que as crianças testemunhassem tal derramamento de sangue e dor, mas não havia mais ninguém para fazê-lo. Ninguém mais tão ansioso para ajudar.
O senhor de Anielle poderia ser um grande bastardo, mas seu povo era um grupo corajoso e nobre de coração. Pessoas que marcaram em seu marido mais do que seu odioso pai.
Yrene esfregou as mãos, embora as tivesse lavado antes de descer e as sacudir até secar. Eles não podiam desperdiçar seus preciosos panos para secar mãos.
Seu reservatório de magia mal havia se enchido, apesar do sono que ela conseguira. Ela sabia que, se olhasse pelas ameias, veria Chaol usando sua bengala, talvez até mesmo em cima do cavalo de batalha que tinham equipado com seu suporte. Seu manquejar estivera profundo quando ela o viu pela última vez, na tarde anterior.
Ele não reclamou, porém – não pediu que ela parasse de gastar seu poder. Ele lutaria estande de pé, usando a bengala, a cadeira ou um cavalo.
Eretia encontrou Yrene no meio do corredor, sua pele escura brilhando de suor.
— Estão trazendo uma montadora. A garganta foi cortada por garras, mas ela ainda está respirando.
Yrene suprimiu seu estremecimento.
— Veneno nas garras? — Muitas das feras valg possuíam.
— O batedor que voou para nos avisar da chegada dela não tinha certeza.
Yrene tirou o kit de ferramentas da bolsinha no quadril, examinando o salão em busca de um lugar para trabalhar na montadora que agora chegava. Não havia muito espaço – mas ali, nos lavatórios onde ela acabara de limpar as mãos. Espaço suficiente.
— Eu vou encontrá-los nas portas. — Yrene girou apressar-se para a entrada escancarada.
Mas Eretia segurou o braço de Yrene, seus dedos finos apertando suavemente sua pele.
— Você descansou o suficiente?
— E você? — Yrene atirou de volta. Eretia ainda estava aqui quando Yrene se arrastara até a cama horas atrás, e parecia ter chegado bem antes de Yrene esta manhã, ou não saíra.
Os olhos castanhos de Eretia se estreitaram.
— Eu não sou aquela que precisa ter cuidado com o quanto se esforça.
Yrene sabia que Eretia não falava de Chaol e da ligação entre seus corpos.
— Eu conheço meus limites — Yrene falou rigidamente.
Eretia lançou um olhar para o abdômen arredondado de Yrene.
— Muitos não arriscariam nada.
Yrene fez uma pausa.
— Existe uma ameaça?
— Não, mas qualquer gravidez, especialmente nos primeiros meses, é cansativa. Isso sem os horrores da guerra, ou sem usar sua magia até o fim todos os dias.
Por um instante, Yrene deixou as palavras se estabelecerem.
— Há quanto tempo você sabe?
— Algumas semanas. Minha magia sentiu.
Yrene engoliu em seco.
— Eu não contei a Chaol.
— Acho que se existe uma hora para isso — falou a curandeira, apontando para o estremecimento ao redor — seria agora.
Yrene sabia disso. Ela estava tentando encontrar uma maneira de contar a ele já fazia um tempo. Mas colocar esse fardo sobre ele, aquela preocupação por sua segurança e a segurança da vida crescendo dentro dela... Ela não queria distraí-lo. Aumentar o medo dele, que ela já sabia que ele lutava contra, apenas por tê-la aqui, lutando ao lado dele.
E para Chaol saber que, se ele caísse, não seria a vida dela apenas que agora terminaria... Ela não conseguia contar a ele. Ainda não.
Talvez isso a tornasse egoísta, talvez estúpida, mas não podia. Mesmo que no momento em que percebeu na câmara de banho do navio, quando seu ciclo ainda não chegara e ela começou a contar os dias, ela tivesse chorado de alegria. E então percebido o que, exatamente, carregar uma criança durante a guerra implicaria. Que esta guerra poderia muito bem estar ainda em seu auge, ou em seus últimos dias horríveis, quando ela desse à luz.
Yrene decidira que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para garantir que não terminasse com o filho nascendo em um mundo de trevas.
— Eu vou dizer a ele quando for a hora certa — Yrene falou com um tom brusco.
Das portas do salão aberto, gritos de “Abram caminho! Abram caminho para os feridos!” cresceram.
Eretia franziu a testa, mas correu com Yrene para encontrar os habitantes da cidade carregando uma maca já ensanguentada e a cavaleira quase morta em cima dela.


O cavalo embaixo de Chaol se mexeu, mas permaneceu firme onde estavam ao longo das ameias inferiores das muralhas. Não era um cavalo tão bom quanto Farasha, mas suficientemente sólido. Um animal corajoso que tinha encarado bem a sua sela equipada com braçadeiras, o que era tudo o que ele pedia.
Andar, Chaol sabia, não seria uma opção quando ele desmontasse. A tensão em sua espinha lhe disse o suficiente sobre o quão duro Yrene já trabalhava, o sol mal tendo nascido. Mas ele poderia lutar igualmente bem a cavalo – poderia liderar esses soldados do mesmo jeito.
À frente, estendendo-se muito longe para ele contar, o exército de Erawan se lançou na cidade para outro dia de assalto às muralhas.
Os ruks subiram, desviando-se flechas e lanças, arrebatando soldados do chão e ransgando-os. Montados em seus pássaros, o rukhin desencadeava a sua própria torrente de fúria em passagens cuidadosas e inteligentes organizadas por Sartaq e Nesryn.
Mas depois de cinco dias, até mesmo os poderosos ruks estavam ficando cansados.
E as torres de cerco de Morath, que eles haviam quebrado facilmente em pedaços de metal e madeira antes, agora alcançavam as muralhas.
— Prepare os homens para o impacto — Chaol ordenou ao capitão de rosto desanimado que estava por perto. O capitão gritou o comando pelas fileiras que Chaol havia reunido pouco antes do amanhecer.
Algumas das esquadras Morath conseguiram atirar ganchos nas muralhas nos últimos dois dias, erguendo escadas de cerco e tropas de soldados com eles. Chaol os abatera, e embora os guerreiros de Anielle não tivessem certeza do que fazer com os homens tomados por demônios que vieram para matá-los, eles obedeceram aos seus comandos rosnados. Rapidamente conseguiram estancar o fluxo de soldados sobre as muralhas cortando as cordas que prendiam suas escadas
Mas as torres de cerco que se aproximavam... aquelas não seriam tão facilmente desalojadas. E nem os soldados que atravessariam a ponte de metal que ligaria a torre atacante às muralhas da fortaleza.
Atrás dele, andares acima, ele sabia que seu pai assistia. Já havia sinalizado através do sistema de lanternas que Sartaq demonstrara como usar que precisavam que os ruks retornassem – para derrubar as torres.
Mas os ruks faziam uma incursão na retaguarda do exército de Morath, onde os comandantes mantinham as fileiras valg em ordem. Tinha sido ideia de Nesryn na noite passada: parar de atacar pelas infindáveis linhas de frente e, em vez disso, eliminar aqueles que as ordenavam. Tentar semear o caos e desordem.
A primeira torre de cerco se aproximava, o metal rangendo quando as serpentes aladas – acorrentadas ao chão e as asas presas – puxavam-na para mais perto.
Soldados já se alinhavam atrás dela em colunas gêmeas, prontas para atacar para cima.
Hoje haveria muitos feridos.
O cavalo de Chaol pateou debaixo dele novamente, e ele deu um tapinha com a mão coberta por luva no pescoço blindado do garanhão. O baque de metal no metal foi engolido pelo ruído.
— Paciência, amigo.
Longe, além do alcance dos arqueiros, a catapulta era recarregada. Eles haviam lançado uma pedra apenas trinta minutos antes, e Chaol havia se abaixado sob um arco, rezando para que a base da muralha acertada não desmoronasse.
Agradecendo que Yrene não estivesse perto disso.
Ele mal a vira durante esses dias de derramamento de sangue e exaustão. Não teve a chance de dizer a ela o que ele sabia. De dizer o que estava em seu coração. Ele apenas lhe deu um beijo profundo, mas breve, e então correra para qualquer parte das ameias onde era necessário.
Chaol sacou a espada, o metal recém-polido silvando quando se soltou da bainha. Os dedos de sua outra mão se apertaram ao redor das alças de seu escudo. O escudo de um cavaleiro ruk, leve e destinado a combate rápido. As correias que o prendiam à sela permaneceram firme, as fivelas presas.
Os soldados que revestiam as muralhas se mexeram com a torre de cerco que se aproximava. Os horrores aguardando para ser liberados lá dentro.
— Eles já foram homens — Chaol falou, sua voz sendo carrega além do clamor da batalha que vinha lá de fora — ainda podem morrer como um.
Algumas espadas pararam de tremer.
— Vocês são o povo de Anielle — continuou Chaol, erguendo o escudo e apontando com a espada.  Vamos mostrar a eles o que isso significa.
A torre de cerco bateu na lateral da torre de observação da muralha e a ponte de metal no nível mais alto se abaixou, esmagando o parapeito do muro abaixo.
O foco de Chaol era frio e calculista. Sua esposa estava na fortaleza atrás dele. Grávida de seu filho. Ele não falharia com ela.


Uma torre de cerco alcançara as muralhas da fortaleza e agora descarregava soldado após soldado diretamente no antigo castelo.
Apesar da distância, Nesryn podia ver o caos nas ameias. Mal conseguiu encontrar Chaol em cima de seu cavalo cinza, lutando no meio dela.
Sobrevoando o exército que lançava flechas e lanças contra eles, Nesryn inclinou-se para a esquerda, os ruks atrás dela seguindo sua deixa.
Do outro lado do campo de batalha, Borte e Yeran, liderando outra facção de rukhin, viraram para a direita, os dois grupos de rukhin formavam uma imagem espelhada que convergia para um mesmo ponto, para trás das linhas inimigas.
Assim como Sartaq, liderando um terceiro grupo, fazia do outro lado. Eles derrubaram dois comandantes, mas outros três permaneciam. Não os príncipes, graças aos deuses daqui e aos trinta e seis do khaganato, mas valg da mesma forma.
Sangue negro cobria as penas blindadas de Salkhi, cobria cada ruk nos céus. Ela passara horas limpando Salkhi na noite anterior. Nenhum dos rukhin estava disposto a arriscar o sangue velho interferindo em como suas penas capturavam o vento.
Nesryn pegou uma flecha e mirou em seu alvo. Mais uma vez. O comandante valg evitara o tiro dela pela última vez. Mas ele não evitaria agora.
Salkhi desceu, flechas e lanças atingindo seu peitoral, suas penas e pele espessas. Nesryn quase vomitou na primeira vez em que uma flecha encontrou seu alvo dias atrás. Uma vida inteira atrás. Ela agora também passava horas tirando-as do corpo dele a cada noite – como se fossem espinhos de uma planta espinhosa.
Sartaq passou esse tempo indo de fogueira em fogueira, confortando aqueles cujas montarias não eram tão afortunadas. Ou acalmando os ruks cujos cavaleiros não duraram o dia. Uma carroça já havia estava alta com seus sulde empilhados – esperando a última viagem para casa, para ser fincados nas encostas áridas de Arundin.
Quando Salkhi chegou perto o suficiente para arrancar vários valg de seus cavalos e destruí-los em suas garras, Nesryn atirou no comandante.
Ela não viu se a flecha acertou.
Não quando uma corneta de chifre ecoou.
Um grito se ergueu do rukhin, todos olhando para o leste. Para o mar. Para onde a cavalaria e os soldados de infantaria Darghan atacavam pelo flanco oriental desprotegido do exército de Morath, Hasar no topo de seu cavalo Muniqi, conduzindo ela mesma o exército dos khagan.


Dois exércitos se enfrentavam na planície do lado de fora de uma cidade antiga, um escuro e outro dourado.
Eles lutaram, brutal e sanguinariamente, pelas longas horas do dia cinzento. Os exércitos de Morath não quebraram, no entanto. E não importava como Nesryn e o rukhin, liderados pelas ordens de Sartaq e Hasar, atacassem a retaguarda de suas tropas aliviadas, os valg continuavam lutando.
E ainda a hoste de Morath permanecia entre o exército do khagan e a cidade sitiada, um oceano de trevas.
Quando a noite caiu, negra demais para até mesmo valg lutarem, o exército do khagan recuou para avaliar. Para se preparar para o ataque ao amanhecer.
Nesryn voou com Yrene e Chaol, ensanguentado e exausto, muralhas abaixo, para que eles pudessem participar do conselho de guerra entre os filhos reais dos khagan. Ao redor, os soldados gemiam e gritavam em agonia, curandeiras lideradas por Hafiza se apressando para cuidar deles antes que a noite desse lugar a mais enfrentamentos.
Mas quando chegaram à tenda de batalha da princesa Hasar, quando todos se reuniram em torno de um mapa de Anielle, tiveram apenas alguns minutos de discussão antes de serem interrompidos.
Pela pessoa que Chaol menos esperava que atravessasse as abas da tenda.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!