5 de outubro de 2018

Capítulo 45

OS APOSENTOS QUE MINHA TIA MANTINHA acima da joalheria estavam bagunçados, repletos de baús desarrumados, alguns deles com mais coisas do que cabia.
Quando Sam atravessou a parede conosco, bati a canela em um deles e mal consegui conter a série de palavrões que me vieram à ponta da língua.
Passamos com cuidado pelo meio da bagunça. Como dedos pegajosos, senti as sedas e musselinas que se derramavam de uma arca roçarem minha perna. Um cordão de pérolas estava enrolado de maneira descuidada em cima de outro baú.
Então era aquilo que se conseguia comprar ao vender alguém para o sultão.
Em meio à bagunça, esparramada numa cama, minha tia dormia.
— Pronta? — Hala sussurrou. Assenti, porque não sabia se seria capaz de dizer que sim. Hala não se dignou a mover as mãos sobre o corpo de minha tia como os artistas de rua faziam. Exceto por uma leve ruga de concentração em sua testa, não havia qualquer sinal do que estava fazendo.
A mulher acordou com um engasgo violento enquanto Hala obtinha o controle de sua mente.
Por um segundo, ela olhou em volta, desorientada. Então me viu e se concentrou em me reconhecer.
— Zahia — ela falou. Observei-a lutar por um momento, entre a realidade e o sonho. Entre o conhecimento de que sua irmã estava morta e o que via diante de si.
Levou apenas algumas piscadas para a ilusão vencer.
— Safiyah. — Sentei na beirada da cama. — Preciso da sua ajuda. — Pousei a mão perto das mãos dela na coberta. Não consegui me forçar a apertá-las em súplica.
Mas Safiyah fez isso por mim. Entrelaçou os dedos nos meus e levou minha mão até os lábios.
— É claro. — Agora havia lágrimas em seus olhos. — Por você eu inundaria o deserto. — Ela parou, olhando para mim com expectativa. Percebi que aquela frase pressupunha uma continuação. Era algo que Safiyah e minha mãe faziam. Uma prova da conexão secreta entre as irmãs.
Só que eu sabia como terminar a frase. Já ouvira minha mãe dizer aquilo. Só que não queria repetir as palavras para Safiyah.
Pensei em Shazad. Minha irmã de batalha. Nós nos identificamos uma com a outra logo que nos conhecemos, formando um laço mais forte que o de sangue. Eu provavelmente ia querer destruir qualquer um que tirasse a vida dela. Como houve com a minha mãe.
— Pela minha irmã — eu me forcei a dizer —, botaria fogo no mar.
O resto foi como conduzir minha tia por um passeio no mundo dos sonhos. Ela me levou de imediato à cozinha, um local pequeno cheio de temperos pendurados, assim como potes e mais potes de coisas de boticário. Safiyah limpou a mesa da cozinha, falando o tempo todo, trechos de conversa que eu mal conseguia entender. Dezoito anos de todo tipo de coisa reprimida que ela queria ter conversado com sua irmã enquanto havia um deserto entre elas. Todas as piadas internas vindas de uma vida pregressa. O modo de falar de duas mulheres que eu nunca conhecera de fato.
— Você precisa tirar a roupa — ela me disse. Hala e eu olhamos juntas para Sam.
Ele ergueu as mãos como se houvesse uma arma apontada em sua direção.
— Vou, hum, ficar de guarda — disse, já atravessando a parede.
Tirei a roupa e deitei na mesa da minha tia. Ela pegou uma pequena faca da pilha e começou a limpá-la. Durante a vida, eu já tinha tomado tiro, facada, surra e várias outras coisas. Mesmo assim não gostava nada da aparência daquela faca.
Revirando os olhos, Hala deslizou a mão sobre a minha quando minha tia se aproximou e passou um pano molhado com algo que fez minha pele arder bem em cima do local onde haviam inserido um dos fragmentos de metal.
Safiyah pressionou a faca no meu braço. Senti a pontada de dor me percorrer. Me contraí por instinto, apertando os olhos. Mas a sensação da minha pele se abrindo nunca veio. E então a mesa dura embaixo de mim desapareceu. Mexi os dedos e encontrei areia macia sob minha pele.
Abri os olhos. Estava olhando para as estrelas. Estrelas do deserto, pois brilhavam na escuridão que só havia no meio do nada, como a última luz queimando na imensidão das areias.
Aquilo era uma ilusão. Eu sabia porque conhecia Hala. E tinha noção de que estava deitada na mesa da cozinha com uma faca me cortando para tirar o metal do meu braço, sendo suturada em seguida pela minha tia.
A ilusão que Hala havia tecido na minha mente se estilhaçou. O deserto e as estrelas partiram e a cozinha voltou. O mal-estar em todo o meu corpo me despertou. Grunhi de dor, e logo Hala agarrou minha mente outra vez, tirando o sofrimento dali.
Como esperado, havia doze pedacinhos de ferro em um prato de vidro perto da mesa. Cada um deles tinha um pequeno símbolo impresso. O selo do sultão. Senti raiva novamente. Era a cara dele fazer aquilo. Ele não podia simplesmente pegar o ferro numa pilha de sucata e enfiá-lo sob minha pele: os pedaços deveriam ser feitos especialmente para a ocasião.
— O último… — Senti os dedos da minha tia explorando minha pele. Pressionou de leve logo acima do quadril, a um fiapo de distância do umbigo. Sua expressão sonhadora pareceu preocupada. — Ele estava tão próximo da barriga, Zahia — ela me disse. — Havia cicatrizes ali, como uma antiga ferida que se curara. — Ela franziu a testa, como se lutasse para lembrar o que havia machucado a irmã. Mas eu sabia o que era. O tiro de Rahim. O ponto onde a ferida havia cicatrizado depois de um mês longo e doloroso. — Era quase impossível remover sem deixar a cicatriz ainda pior — Safiyah dizia agora. — E receio que eu tenha piorado.
Fiquei de pé, ignorando a volta da dor de doze pequenas feridas na pele. Podíamos estar numa cidade, mas ela ainda ficava no deserto. Havia areia por toda parte. Eu a convoquei. Uma dor aguda atravessou a lateral da barriga, exatamente onde a antiga cicatriz ficava, me cegando por um momento. Mas logo senti o solo mudar, milhares de pequenos grãos de areia correndo na direção dos meus dedos.
Em meio à dor, senti a adrenalina de usar meu poder. Teria que ser suficiente.
Liberei a areia e a dor baixou.
— Precisamos ir.
— Espere. — Hala me parou enquanto eu começava a me vestir. — O que pretende fazer com ela? — Referia-se à minha tia. — Quer que eu destrua sua mente? — Hala havia feito aquilo com a mãe que a vendera. Que a usara de modo tão egoísta.
Eu queria machucar Safiyah.
Ahmed me diria que seguir a política do olho por olho deixaria o mundo inteiro cego. Shazad me diria que por isso mesmo era melhor enfiar uma faca nos dois olhos do adversário logo no primeiro golpe.
— Isso fez você se sentir melhor? — perguntei. Não era uma acusação. Era uma pergunta real. Eu queria saber. Precisava entender se machucar minha tia como ela havia me machucado tiraria a raiva que apodrecia no meu peito. — Quando aconteceu com sua mãe?
Hala se afastou da minha tia.
— Temos que ir.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!